O Querido Amigo Gay
3 E garotas grandes não choram
Notas iniciais
Quando abriu os olhos, Hinata estranho está no quarto de Naruto, principalmente todo escuro. Sim, ela já havia estado lá e, sim, ela já havia dormido ali, contudo, não se lembrava de ter ido para lá. Ouviu a porta de o banheiro ser aberta e fechou os olhos rapidamente, ouvindo passos leves e um suspiro ao seu lado da cama. Sentiu os lábios de alguém sobre sua testa e, na hora, soube que era Naruto, por isso abriu os olhos. Viu-o sorrir sem mostrar os dentes e foi para o outro lado da cama, deitando-se e apoiando-se contra a cabeceira desta.
Foi durante os minutos de silêncio que eles tiveram que se lembrou dos últimos momentos antes do desmaio: a chegada de sete estranhos em sua casa, um desses estranhos chamou-a de prostituta e, para protegê-la, seu amigo gay falou que ela era sua namorada. Ah, e também que esse mesmo amigo, que deveria gostar de homens, deu-lhe um selinho.
— Naruto-kun — chamou e recebeu o olhar dele sobre si. —, estou confusa...
— Nani, minha princesa?
— Acho que tive um sonho muito estranho — começou e virou-se para o lado do amigo, apoiando-se ao cotovelo para vê-lo melhor. —; nesse sonho, umas pessoas vinham te procurar e ficavam ora te abraçando ora te xingando. Aí, eu apareci e alguém me chamou de prostituta... Então, você mandou essa pessoa calar a boca e falou que eu era uma menina direita, além de ser sua namorada. E me beijou na boca... — franziu o cenho e riu, querendo acreditar que era um sonho fora de cogitação.
— E por que você ficou confusa? — sem fitá-la, ele indagou e, para a surpresa da moça, não riu como ela.
— Porque, sei lá, pareceu tão real...
O Uzumaki suspirou e encarou-a, deixando-a perdida dentro daqueles olhos azuis. Mesmo com apenas o abajur ligado à suas costas, ela conseguia ver aqueles olhos em um azul turbulento, totalmente desconhecido do que Hinata estava acostumada e completamente arrebatador para seu pobre coração. Naquele instante, aqueles olhos, que viviam felizes, estavam sem brilho e nada brincalhões, o que a fez encolher-se. Ela não conhecia aquele Naruto.
— Não foi um sonho, Hinata — confirmou e escorregou até conseguir fazer que sua cabeça caísse sobre o travesseiro enquanto fechava os olhos e bagunçava o cabelo, suspirando. — Não foi um sonho...
— Quem são essas pessoas, Naruto-kun? — perguntou e ajeitou-se para ficar fitando o teto assim como o amigo.
— Pessoas que fazem parte do meu passado que venho escondendo de você, Hina.
— E elas te acharam...
— Hai — ela não havia feito uma pergunta, mas o rapaz respondeu do mesmo jeito.
Então, ficaram em silêncio outra vez.
A morena tinha milhares de perguntas rondando sua mente, entretanto, preferiu ficar em silêncio para que o amigo e ela mesma pensassem. Como próprio rapaz disse, ele escondeu dela três coisas: quem eram seus familiares, de onde havia vindo e a razão de ter virado gay. Hinata era muito curiosa, porém respeitava a decisão do amigo; afinal, ela também não havia falando que seus pais eram ricos ou o motivo de querer morar sozinha. Ou até mesmo o fato de ser apaixonada por ele, era um segredo que não iria querer compartilhar.
Minutos depois, conseguiu arranjar duas perguntas que não ultrapassassem nenhum limite e sussurrou-as:
— Por que me beijou, Naruto-kun? Por que tenho que ser sua namorada?
Pelo canto do olho e ainda que a iluminação do abajur fosse pouca, jurou ter visto o louro corar e abrir e fechar a boca diversas vezes. Virou o rosto para vê-lo melhor e percebeu que a mão direita, a mais distante dela, estava sendo fechada em um punho com força, como se ele estive com vontade de bater em alguém. Quando suspirou, soltou a mão e pegou a mão de Hinata, puxando-a. Confusa, deixou ser levada e ficou corada quando se viu deitada sobre Naruto, sentindo as mãos dele envolvendo sua cintura.
“Ai... Aguenta coração, aguenta!”
— Eles não sabem que sou... Gay, Hinata — a voz dele era baixa e parecia hesitante. — Antes de vir para cá, eu gostava de mulher, mas... Aconteceram umas coisas... Que me fizeram desistir das mulheres e ir para os homens.
— Ainda não entendo onde entro nessa história — confessou e apoiou o queixo no peitoral dele, forçando-se a não olhar para os lábios dele e sim para os olhos.
— Você será a amiga que vai fingir ser a minha namorada até eu contar, oras!
— Então, por isso, você precisa fingir que estamos namorando? Para falar que, na verdade, você gosta de homem? — ela observou-o assentir e começou a tentar se afastar dele.
— Nani? O que foi? — indagou o Uzumaki, espantado com a atitude repentina e abraçou-a com mais força.
— Não quero ser a garota que te transformou em gay; eles vão pensar que sou brochante!
Aquilo era sério, porém Naruto começou a rir... Hinata sentiu o rosto corar e bateu no peitoral dele, fechando a expressão logo em seguida. Como ele ousava rir dela? Ela não estava brincando!
— Naruto-kun, pare de rir! Onegai, estou falando sério! Imagine só: você chega para a sua okaa-san e diz: “Ah, okaa-san, sou gay”. Caramba, ela vai ter um infarto e vai culpar-me o resto da vida por ter feito o filho dela gostar de “receber”, não de “dar”. Se é que você me entende!
O rapaz, que tinha parado para prestar atenção na fala da amiga, começou a gargalhar e aquilo a deixou mais nervosa. Passaram-se alguns minutos até ele diminuir a risada gradualmente e secar as lágrimas, estranhamente mais alegre. Ela fez um bico e cruzou os braços sobre o peitoral dele, desviando o olhar para o abajur e recebendo um beijo estalado na bochecha.
— Só você para fazer-me rir numa situação dessas... — afirmou e sorriu abertamente para a morena que ainda estava brava. — Primeiro: quando eu contar que sou gay, irei dizer que não tem nada haver com você, que você é uma amiga que queria me ajudar. E segundo: você é gostosa demais para fazer alguém virar gay. Já viu o tamanho da sua bunda?
Okay, por essa ela não esperava. Fitou-o de olhos arregalados e extremamente corada, sentindo o coração bater mais rápido, assim, de repente. Sem conter o sorriso, Hinata bateu em seu peitoral e viu-o rir baixinho de si, mas não se importou. Mesmo sendo um elogio bem indecente, era um elogio.
— Certo, então, deixe-me ver se entendi: — começou e apoiou-se com os cotovelos sobre o amigo, pouco ligando se fazia peso ou não. — Nós somos namorados até você contar para todos que você é gay.
— Ou até que todos vão embora... — opinou Naruto e recebeu outro tapa. — Nani?
— Lie, lie, você tem que contar para eles que você é gay. Vai ficar com isso dentro de você até quando?
— Até eles forem? Onegai, Hinata, não me sinto preparado para isso!
— Lie, não adianta! Ou você conta ou não serei sua namorada! — sorriu vitoriosa ao vê-lo estreitar os olhos e bufar. — Touché!
— Terei a minha vingança... — garantiu e riram juntos. — Certo, agora, vamos ao resumo da minha família que você tem que saber.
(...)
Mesmo depois de Naruto ter falado parcialmente sobre as sete pessoas que os aguardavam, Hinata não sentiu-se plenamente preparada para vê-los.
Assim que apareceram na sala, a mãe de Naruto, Kushina, colocou-se de pé e foi abraçá-la como se fosse filha dela.
— Minha querida, está tudo bem? — perguntou, afastando-se e fazendo Hinata se encolher. Ela não havia esperado por aquela recepção.
— Hai, Kushina-san — sorriu envergonhada e apertou a mão de Naruto, só para confirmar que ele estava ali.
— Gomen nasai, nós chegamos, assim, tão de repente. Pensávamos que Naruto morava sozinho, “invadimos” a casa. Gomen nasai...
— Kaa-san, já pode parar de se desculpar — o louro deu-lhe um sorriso calmo e afastou a morena da mãe para poder abraçá-la. — Eu também senti sua falta.
A Hyuuga viu o quanto a mulher ficou surpresa e viu-a piscar diversas vezes, impedindo-se de chorar. Sentia-se penetra ali, todavia, não conseguia soltar a mão de Naruto, especialmente quando deu uma olhada para o resto do grupo e percebeu que tanto Shion quanto Sakura e Ino a encaravam com um olhar nada amigável. Conteve sua vontade de apertar a mão do “namorado” de nervosismo e apenas abaixou o olhar, fitando seu pé e pensando que precisava de uma pedicure. Urgente!
Após alguns minutos abraçados, os Uzumaki se afastaram e foram falar com os outros. Hinata apenas acompanhava enquanto o amigo falava com as pessoas e apresentava-as formalmente para a morena que sorria e curvava-se em um comprimento. Quando chegou a Shion, a moça que ele comentou ser uma ex-namorada, ele cumprimentou-a sem sorrir e não fez nem questão de apresentá-la para si. O rapaz não viu, mas a morena ficou arrepiada ao receber o olhar fulminante da outra.
Aquilo não ia prestar...
Ao sentarem, Naruto puxou Hinata para seu colo e ela quis cavar um buraco no chão para fazer sua cova ali, já que sentia três pares de olhos quase fazendo isso mesmo. Enquanto conversavam, eles descobriram que eles iriam ficar por longas três semanas.
— Só isso? — perguntou educadamente, sendo completamente o oposto do que pensava.
— Sim, os jovens têm faculdades para ir e nós temos que trabalhar — respondeu Minato, um dos únicos que a tratou bem de verdade. — Estão fazendo faculdade de que?
— Direito? — o louro mais novo arqueou uma sobrancelha, como se sua resposta fosse óbvia.
— Letras e Economia. É um pouco puxado, mas valerá a pena no final — sorriu e viu os olhares surpresos dos visitantes.
— Duas faculdades na Universidade de Kyoto? Uau! — exclamou Sakura que, até então, só a encarava com nojo. Nos seus olhos, havia uma pontada de admiração. — Parabéns!
— Arigatou!
Mais um tempo conversando, todos ouviram um barulho assustador vindo de algum lugar e a Hyuuga estremeceu, reconhecendo de primeira. Deu um leve tapa na nuca de Naruto e revirou os olhos.
— Itai, Hinata! Não é minha culpa se estou com fome. — resmungou o rapaz e passou a mão no local atingindo.
— Como sou mal educada... — levantou-se do colo do “namorado” enquanto os presentes riam da cena, menos Shion, é claro. — Querem jantar conosco? Não ia fazer nada, mas já que estão de visita...
— Que isso, Hinata-san — Gaara mandou-lhe um sorriso. —, não precisa se preocupar conosco.
— Onegai, Hina! — Naruto levantou-se e olhou-a com carinho. — Faz lámen, onegai!
— Por que não saímos? — indagou Kushina e sua resposta foi o ronco que veio da barriga do marido. — Minato!
— Gomen ne, Kushina-chan, mas a viagem foi longa e nós não paramos para comer!
— Tudo bem, faço comida para todos — Hinata ia se distanciando quando a fala da ruiva a fez congelar no lugar.
— Espere, Hinata, eu e as meninas vamos te ajudar!
Sentiu algo serpentear por suas costas, como se alguém estivesse passando a ponta de uma faca lentamente por sua coluna vertebral e engoliu seco, virando-se. Os olhos de Shion tinham um brilho diferente quando a mesma se levantou com um sorriso largo e Naruto notou isso, porque se colocou entre a loura e a namorada, fitando a mãe.
— Kaa-san, deixa que eu ajudo a Hina-chan.
— Sentadinho ai, filho, porque quem irá cozinhar são as mulheres! — exclamou a ruiva e começou a empurrar Ino pelos ombros, vendo Sakura segui-las, rindo.
A cozinha tinha o tamanho suficiente para todas as cinco. Com o auxilio da Hyuuga, elas acharam tudo o que precisavam e começaram a fazer. As quatro conversavam bastante e brincavam entre si, deixando a dona da casa de lado. Não que isso fosse um problema, já que isso fazia a morena sentir-se mais segura sem ser o centro das atenções. Sakura e Kushina estavam mostrando-se gentis e sorriam o tempo todo, sempre arranjando um jeito de fazer que ela entrasse na conversa, porém as duas louras faziam questão de, quando ela falava, mudar para outro assunto.
Já estavam terminando quando chamaram Kushina da sala.
— Meninas, não deixem a comida queimar! — e saiu para a sala, deixando o avental sobre uma bancada vazia.
— Sakura, vamos arrumar a mesa? — Ino perguntou e Hinata mordeu o lábio inferior, sentindo que não iria prestar.
— Ino, eu...
— O que foi, Testuda? Só vamos adiantar as coisas!
A rosada pareceu hesitar e olhou para a nova amiga que mandou-lhe um sorriso de coragem. Algo que ela não estava sentindo. Quando as duas saíram, um silêncio intimidador reinou. A morena se aproximou do fogão e mexeu na panela que estava o lámen, sentindo o cheiro de o tempero invadir suas narinas. Suspirou e ficou rígida ao ver uma sombra atrás de si...
Oh, merda!
— Escuta aqui! — Shion virou-a e os olhos lilás brilhavam de ódio. — Não sei o que você fez, não sei como você fez, mas o Naruto é meu, você está entendendo, meu!
— Shion, eu não sei...
— Sabe sim! — sussurrou ameaçadora e aproximou-se, fazendo que outra se afastasse. — Sei que você é uma daquelas putas que só querem o dinheiro da família dele... Todas são assim! Como ele foi tão burro para namorar outra vadia? Parece que ele esquece que os pais dele são bilionários!
Os pais do Naruto eram ricos? Nossa, eles pareciam tão simples.
— Qualquer seja esse feitiço que você colocou nele, vou fazê-lo acordar, está me entendendo? — o dedo da maluca estava bem no seu nariz e as próximas palavras fizeram a recuar novamente. — Ele é meu!
Hinata, assustada e sem reação, deu um passo para trás e bingo! Encostou a mão esquerda na panela que fervia e só mordeu o lábio inferior porque não queria mais confusão. Tirou-a dali apressadamente e sentiu os olhos encherem de água. Com era desatenta! A outra pouco se importou e saiu da cozinha, chamando pelas duas amigas. Foi até a pia e suspirou ao sentiu a água descer por sua mão, sabendo que as lágrimas desciam silenciosas por suas bochechas.
No que ela foi se meter? No que ela foi se meter? Naruto era gay, gay! Não havia motivo para aquela desconhecida ameaçá-la verbalmente, visto que ele não tinha nada a escolher; ele gostava de pênis, assim como elas. Ainda assim, as palavras da loura rondaram sua cabeça. Os pais dele eram bilionários? Caramba, aquela pegou-a desprevenida. Mesmo com aquela informação, ela continuava a ver o louro pelo coração gigante que ele tinha, não pelo dinheiro; nunca pelo dinheiro.
“Se fosse pelo dinheiro, estava frita, já que nós, sem nossos pais, somos dois pobretões”, riu internamente e sentiu um gosto de sangue na boca, acordando para a vida e notando que estava mordendo os lábios com muita força. Soltou-o com um gemido e, com a mão direita, levou um pouco de água para a boca. Secou as lágrimas e secou a boca e as mãos com um pano de prato.
— Sem drama, você é uma Hyuuga — sussurrou para si e olhou para a mão queimada. — Depois cuido de você, prometo.
Quando Kushina retornou, Hinata estava “nova em folha” e já até sorria, como se nada tivesse acontecido. Pegaram a comida e levaram para a mesa, vendo todos sentados e reunidos como uma grande família feliz. Shion mandou-lhe um sorriso e a morena desviou o olhar para encontrar aqueles olhos azuis que a deixavam tão contente. Sentou-se ao lado de seu namorado e rezaram para, finalmente, atacarem a comida.
Após uma janta divertida, todos foram para a sala e ficaram conversando. Só por volta da meia-noite que os visitantes foram embora, com a promessa de uma saída para o dia seguinte.
— Eles querem matar saudade — comentou Naruto com um sorriso enquanto lavavam a louça. — Senti falta de passar um tempo com meus amigos.
Era o momento perfeito para falar o que Shion havia feito, porém, ao vê-lo tão sorridente, ficou com um pé atrás. A Hyuuga amava ver o sorriso dele e aquele que estava em seu rosto era tão lindo. Ela imaginou o que aconteceria se falasse e a cena dele gritando com a loura apareceu em sua mente, assim como os olhares assustados de seus familiares...
Não, ela podia engolir essa. A loura não iria fazer aquilo outra vez.
— Está tão quieta, Hinata-chan — ouviu-o e balançou a cabeça, fitando em seguida. — O que está pensando?
— Nada, estou pensando no que faremos amanhã...
— O amanhã a Kami-sama pertence. — sorriu e beijou-a na bochecha, guardando o último prato. — Venha, vamos dormir.
(...)
As três semanas passaram de forma lenta para Hinata. Muito lenta... Para resumi-la, ela pensavam em três tópicos: Shion, Naruto e a conversa que teve com seu pai.
Se a morena pensava que as ameaças de Shion haviam parado, concluiu que estava redondamente errada. Durante todos os dias que se encontravam, a loura conseguia, de alguma maneira, ficar a sós com ela e encher sua cabeça com minhocas. “Naruto é meu” para cá, “Naruto ia me pedir em casamento” para lá, “Naruto me ama demais para me deixar” para acolá... Por mais que ela soubesse que o rapaz não gostava mais de mulher, as palavras da outra machucavam profundamente seu coração e faziam-na querer sair de perto do Uzumaki sempre que podia.
O que a faz pensar: não era apenas ela que se afastava de louro, ele também estava fazendo isso. Naruto havia começado a agir diferente com ela e parecia nem notar. Não que ela estivesse reclamando que ele, como “namorado”, deveria lhe dar atenção, porém sentia falta dos dias que ficavam conversando ou reclamando da vida, algo que melhores amigos faziam... Ainda que não visse nenhuma daquelas pessoas há três anos, Hinata também merecia atenção, não?
Ela sentia-se angustiada, exatamente por não ter o tempo dele para contar o que havia acontecido entre ela e o pai. Mesmo que fosse uma conversa por telefone, esta deixou-a tão abalada que não comeu por dois dias.
Alguns dias atrás
No último domingo antes de voltar para as faculdades, Hinata sentiu-se totalmente indisposta para sair com os amigos de Naruto. Na noite passada, eles foram para uma balada noturna e, quando Sakura e Sasuke saíram para dançar e Naruto e Gaara foram comprar as bebidas, Ino e Shion ficaram conversando e falando mal dela de forma maldosa, como se ela não estivesse por ali. Ouviu que seu corpo era feio, sua carinha de santa era falsa, seu vestido era de mau gosto. Após a volta do “namorado”, ela encolheu-se nele e ficou à noite toda em silêncio. Mais legal foi, quando voltaram para casa, Naruto nem perguntou se havia algo errado; só beijou sua testa e foi dormir.
Por isso, quando ele chamou-a para ir a um restaurante, recusou educada e falou a desculpa que mais funcionava com as mulheres: cólica menstrual.
Encolhida no sofá, comia um Yakisoba que Kushina a ensinara a fazer. Pensava em como a ruiva havia sido amorosa por todas essas semanas e fora a única que conversou abertamente sobre Shion com ela.
— Não posso negar que Shion foi uma namorada fantástica para Naruto, Hinata-chan — confessara a Uzumaki enquanto terminava de cortar os legumes. — Na época que começaram a namorar, eu e Minato demos indício de uma separação e foi ela que não fez nosso filho entrar em depressão.
— Mas vocês parece ser um casal tão saudável... — sussurrara a morena e corara ao notar ter falado alto. — Hã... Qu-quer dizer...
— Não tem problema, Hinata — o sorriso da mulher lhe acalmou, mas não fez que suas bochechas voltassem a coloração normal. — Antes de Naruto ir embora, ele havia comentado que queria pedir Shion em casamento... E, de um dia para o outro, ele desapareceu. Ela não esperava, nenhum de nós! Quando conseguimos achá-lo, ele está morando com outra. Nada contra você, Hinata, mas foi um choque muito grande para todos, principalmente quando ele chamou-a de... De vadia.
Voltando para seu momento solidão, Hinata queria entender Shion. De verdade! Queria ver que a loura era apenas mais uma apaixonada que não poderia ter seu amado de volta porque ele havia se tornado gay. No entanto, seu consciente fazia questão de relembrá-la de todas as falas cruéis da outra e, exatamente por isso, não sentia nem um pouquinho de pena dela.
Faltando pouco para terminar, a Hyuuga é arrancada de seus pensamentos pelo telefone. Lembrou a si mesma que era domingo, ou seja, sua mãe e sua irmã estavam com saudade. Elas queriam ligar todos os domingos, porém queriam dar um espaço para a morena e o amigo; então, preferiam ligar um ou dois domingos por mês.
— Moshi moshi! — falou com a boca cheia.
— Hinata, nós temos que conversar — a voz do outro lado a fez engasgar com a comida... — Respire, filha.
O que Hiashi estava fazendo? Engolindo o orgulho Hyuuga e falando com ela? Como assim? Afastou-se do telefone e começou a bater no peito para parar de tossir. Quando conseguiu respirar novamente, olhou para o aparelho e, hesitante, colocou-o no ouvido.
— Otoo-san... Eu não esperava sua ligação — comentou e limpou a boca com as costas da mão. A mão que ainda tinha algumas marcas, mas estava bem melhor com a queimadura.
— Nem eu esperava ligar, mas a situação está séria, filha.
Hiashi não parecia, contudo, era um ótimo pai. Por ser sempre muito sério e exigente, as pessoas o viam com maus olhos... Enganavam-se amargamente, pois o moreno era um pai maravilhoso.
— O que houve? Aconteceu algo?
— Er... — Hyuuga Hiashi sem palavra? Lá vinha merda. — Hinata, sua irmã sofreu um acidente.
A tigela de vidro caiu de seu colo e quebrou em pedaços ao atingir o chão, espalhando cacos de vidro e sopa para todos os lados. No entanto, a morena estava importando-se mais em apertar o telefone contra a orelha com força e segurar suas lágrimas. Caramba, de umas semanas para cá, as lágrimas pareciam surgir sem qualquer autorização dela!
— Ha-Hanbi? E-Ela está bem? Foi muito grave? Qu-quer que eu volte para casa? — ficou perguntando e mordeu o lábio inferior que não parava de tremer.
— Lie, Hinata, quero que me ouça. Ah, odeio falar essas coisas por telefone! — ouviu-o resmungar e respirar fundo. — O acidente foi grave... Hanabi foi para o hospital e está tendo que fazer uns tratamentos caros para sobreviver.
— M-mas dinheiro não é o problema para nós, né? — uma pontinha de esperança brotou no coração dela e logo morreu com as palavras de seu pai.
— Hai... O problema é o dinheiro, Hinata-chan. A empresa está falindo e estamos ficando sem dinheiro. — Hiashi ficou mudo para que a filha assimilasse as coisas e voltou a falar de uma vez só, como se estivesse ficando sem fôlego para isso. — Você vai ter que se casar, minha filha... Perdoe-me.
Atualmente
— Ei, Hinata, está no mundo da lua? — perguntou alguém e balançou a cabeça, acordando da lembrança. Na sua frente, estava Tenten, sua melhor amiga. Elas haviam ido juntas para um café próximo à Universidade e, enquanto a outra ia comprar os cafés, a Hyuuga viajou!
— Gomen né, Tenten-chan — sorriu e pegou o seu cappuccino, dando um pequeno gole. Ah, do jeito que ela gostava. — Muita coisa na cabeça.
— Quer conversar sobre isso ou prefere falar com Naruto? — a dona dos cabelos castanhos chocolate arqueou uma sobrancelha e Hinata riu do ciúme da amiga. Algo extremamente desnecessário.
— Estamos passando por uma crise, eu acho — comentou e deu de ombros, ainda pensando na notícia que recebeu do pai. — Nós não estamos nos falando direito e acho que é por causa dos amigos dele que vieram vê-lo.
— Aqueles que você comentou na segunda?
— Hai! Comentei que estamos namorando até ele ter coragem de contar para os pais que é gay?
— Não brinca! Mas eles não vão embora nesta segunda?
— Hai e ele ainda não contou, aquele viado — riram e continuaram a conversar.
Hinata contou que Shion tinha uma implicância especial com ela, já que a mesma era uma ex-namorada. Não comentou que ela vinha ameaçando-a ou nada parecido... Ela havia aturado por três semanas inteiras sem contar para ninguém, a loura não passaria de seu limite.
Mas passou...
Quando estavam saindo do café, Naruto estava esperando-a do lado de fora e encostado em seu carro. Aquela cena era linda, no seu ponto de vista, porque, quando ele ficava de braços cruzados, resaltava todos os músculos. Sem falar no sorriso... Ah, por que ele tinha que ser gay? Se ele fosse um dos rapazes que ela tivesse que se casar para salvar a empresa, ela não se importaria!
— Quer ir ao cinema com o pessoal hoje? — perguntou o louro assim que se aproximaram. — Como vai, Tenten?
— Tenho estágio para ir — começou e suspirou. Em letras, nem precisava do estágio, mas em economia...
— E trabalho de literatura para fazer comigo! — gritou Tenten, indignada, porque a amiga havia esquecido.
— E trabalho de literatura para fazer com a Tenten — sorriu envergonhada. Havia esquecido mesmo.
— Já liguei para o seu chefe e ele deixou você faltar — Naruto deu de ombros e a morena bufou.
— Naruto, assim, vou perder meu estágio!
— E ela pode chegar depois das cinco para o trabalho, Tenten? — ele abraçou a outra morena com carinho e fez uma cara de cão que caiu da mudança. — Onegai... Prometo que a deixo dormir na sua casa!
— Hai, hai! — afastou-se do abraço. — Mas sem atrasos!
— Naruto, como você consegue? — perguntou, já dentro do carro, vendo a amiga cada vez mais distante.
— Ninguém resiste a minha carinha!
Encontrando o grupo, Hinata sentiu falta de Minato e Kushina e o rapaz respondeu que era um programa para jovens. Almoçaram e ficaram passando um tempo andando pelo shopping, pois o filme que queriam começava mais tarde. Quando chegou a hora, compraram as entradas, as pipocas e os refrigerantes e entraram na sala escurecida. No meio do filme, ela arrependeu-se de ter comprado o refrigerante maior e sussurrou para o “namorado” que iria ao banheiro. Ele estava tão ligado ao filme que apenas assentiu enquanto a morena passava na sua frente e ia para o banheiro que ficava do lado de fora da sala.
A cabine era pequena e suja, mas dava para o gasto. Ao terminar, lavou suas mãos e pensou em retocar a maquiagem. Só pensou mesmo.
— Você ainda está fazendo o que namorando o Naruto, sua puta? — perguntou Shion, surgindo das sombras e assustando Hinata. — Não percebe que ele não te quer mais?
— Olha, Shion, segunda-feira vocês vão embora — respondeu e virou-se, encontrando-a apoiada em uma cabine. — Fico triste por Naruto, mas acabou! Pare de tentar colocar minhocas na minha cabeça!
— Não estou colocando minhocas, estou fazendo você abrir os olhos — ela começou a se aproximar. — Você não percebeu que ele está te evitando? Não notou que quase não liga para você?
A moça ficou alerta. Hinata vinha percebendo isso, sim, porém ficou na dela.
— Não viu que Naruto faltou duas aulas na faculdade na quarta? Ele estava comigo neste dia! — Shion sorriu ao ver a boca da Hyuuga se abrir de surpresa, contudo, não parou. — Ele continua maravilhoso na cama, não é mesmo? Aquele corpinho todo desenhado com aquele olhar malicioso... Ai, como me deixa excitada!
— É... É mentira — sua postura era rígida e sua voz fraca, lembrando-se perfeitamente bem que o Uzumaki não havia ido para as aulas naquela manhã.
— Quando terminamos de fazer amor, sabe o que ele me disse? — a morena nem precisou respirar para ter uma resposta. — Que você era apenas um divertimento. Que estava pensando em pedir transferência para a Universidade de Tóquio e terminar os estudos por lá, perto da casa dele, perto da família dele... Perto de mim!
Aquela atingiu-a como um soco no estômago. Transferência? Não, não! Ele prometeu que nunca sairia de sua vida, nunca! Ainda que estivesse distante, a promessa valia, certo? Só que, desta vez, as cenas que viveu esses dias passaram como um filme em sua cabeça. Naruto realmente ficara mais próximo de Shion e será iria voltar para ela? Mesmo estando três anos sendo gay?
Foi, então, que outra verdade a acertou: será que ela era tão feia para não fazê-lo gostar de mulher? Shion ficou apenas três semanas com ele, três semanas, e ele parecia mais homem do que nunca. E eles moravam três anos juntos, três anos, e ele nunca se mostrou atraído por ela.
Como ele era um mentiroso, falando que ela era a garota mais linda que ele conhecera. Como ela era uma idiota por acreditar e se apaixonar por ele!
Quando deu por si, as lágrimas desciam por suas bochechas e a loura encarava-a com um sorriso vitorioso. Era isso que ela queria? Acabar com o seu coração? Pois conseguira! Pegou sua bolsa e saiu do banheiro, secando as lágrimas. Bem a tempo, porque Sakura quase vira.
— Hinata, tudo bem? Você parece pálida! — a rosada era outra que foi um amor com ela pelas últimas semanas. Ou talvez estivesse encenando também? Quando ela iria colocar a mão em sua testa, desviou e sorriu fraca. Não queria mais veneno, já estava de saco cheio.
— Hai... Avisa para o Naruto que fui fazer o trabalho com a Tenten para mim? — “Não estou a fim de olhar para a cara daquele viado!”, completou mentalmente.
— Não vai ver o filme? Está quase acabando!
— Lie, lie. Tenho que fazer esse trabalho da faculdade ou, então, essa minha amiga me mata! Ja ne, Sakura.
Pouco se importava se ele iria gostar ou não, pouco se importava! Só queria ir embora de uma vez!
Assim que entrou no táxi, os olhos arderam e colocou as mãos no rosto para que o motorista não precisasse ver a sua dor descer em lágrimas. Pensou nesses três anos que passou com Naruto e não conseguia acreditar na amizade deles, não queria mais acreditar. Por dois anos, ela o amou e, mesmo sabendo que era um amor impossível, não deixou de acreditar que, um dia, ele viraria para ela e diria “Aishiteru”, o eu te amo de um namorado; diferente do “Daisuki”, o eu te amo de melhor amigo.
“Acorda, Hinata, você perdeu!”, gritou para si mesma e soluçou, tomada por uma tristeza horrível. Foi quando o seu celular tocou.
— Moshi moshi...
— Hinata? Meu Kami, que voz é essa? — merda, era Tenten! — Aconteceu algo?
— Lie... Só tive um pequeno acidente — mentiu e claro que a outra perceberia.
— Hina-chan, o que houve?
— Nada, nada! — sorriu entre as lágrimas. — E-escuta, amiga, não irei poder fazer o trabalho... Gomen nasai...
— Hinata, aonde você vai? Onegai, não faça nenhuma merda!
— Tenten, já estou grande — lembrou-se de uma música e citou-a: — “E garotas grandes não choram”.
— Hinata...
No entanto, a Hyuuga já havia desligado.
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