O Que Eles Veem Em Você? 2
49 House Party - Part 2
Notas iniciais
House Party – Part 2
Megan não gostava de onde estava.
A cinco braços de distância um casal se beijava intensamente, as mãos passando por dentro da camisa um do outro. Porta afora, na calçada da rua, uma caloura chorava por ver seu namorado (ou quem sabe agora ex) traí-la a cinco braços de distância de Megan. Do outro lado na cozinha ela conseguia ver Percy e Annabeth se beijando.
Ela não estava em posição de brigar, nem sequer de conseguir retrucar. Não se sentia com raiva nem mesmo ódio, talvez um pouco de inveja. Percy e Annabeth se separaram, mas estavam absortos demais em seu próprio mundo apaixonado para ver Megan olhar ao longe, vagamente, para a cena que ela sabia que iria acontecer cedo ou tarde.
Depois olhou para a própria cerveja, ao fim, e percebeu que para ter o mínimo de satisfação naquela festa teria que cruzar o caminho de Annabeth. Suspirou. Queria estar em qualquer lugar menos ali, onde se sentia vazia e deslocada, com saudades de casa.
Desencostou-se da parede, um rock insuportável martelando na sua mente, e andou até o outro lado para a cozinha. Não ligava se Annabeth a visse, não era ela que estava escondendo alguma coisa por ali.
Passou lentamente entre grupos que a cumprimentavam e casais sem o mínimo de noção do espaço. Quando atravessou a sala inteira, viu Percy e Annabeth subindo as escadas. Arqueou uma sobrancelha, e lentamente um sorriso cresceu no seu rosto.
Estava feliz por ela.
Passou as mãos pelos cabelos em busca de uma nova garrafa de cerveja, estava tão vazia, dentro do seu próprio mundo, que não percebeu nada ao seu redor. Nem ao menos o garoto que estava sentado no balcão, à garrafa titubeando na sua boca, com um sorriso descrente em direção a Megan.
–Deve estar num dia péssimo para beber cerveja – disse ele, Megan subiu o olhar que estava atordoado na geladeira à procura da garrafa premiada. Ela suspirou mais uma vez.
–Isso não é da sua conta – respondeu.
–Sua língua está afiada, coisa que nunca aprendeu em Nova York, mas no sul parece ter feito um curso intensivo.
Megan finalmente achou a cerveja, fechou a porta da geladeira e deu um sorriso de lado.
–Não vou entrar no seu joguinho hoje.
Ele riu, como se lhe tivessem contado uma ótima piada. Raramente fazia aquilo, então Megan somente observou: os dentes perfeitamente alinhados. A boca fina contrastando com sua pele pálida.
–Não estou jogando – bebeu mais um gole de cerveja – Não hoje.
Megan cruzou os braços, a cerveja em sua mão esquerda. A luz alaranjada da cozinha a fazia parecer quase, quase intimidante.
–Percebeu que estava pagando de bobo, mesmo para os seus padrões de idiotice aguda? – Nico arqueou as sobrancelhas, deu um sorriso de lado.
Ela ainda era a Megan, “pagando de bobo” era o seu maior vocabulário ofensivo. Ele olhou para a cerveja, observando as estrelas marcadas no vidro amarronzado.
–Acho que sim, estou fazendo papel de bobo há algum tempo.
Foi a vez dela arquear uma sobrancelha, totalmente descrente. Nico era um tanto teimoso, mesmo estando errado continuava a dizer que estava certo. Ela abriu a garrafa, bebendo um longo gole do gosto amargo e viciante da cerveja alemã.
Uma nova música de rock começou a tocar, martelando mais na cabeça de Megan quanto a anterior.
–Foi você que fez a playist de hoje? – Nico olhou ao redor.
–Como descobriu?
–É como se tivessem pegado um martelo e batido na minha cabeça com tanta força que ela vai explodir – ele deu um sorriso de lado. Megan mordeu o lábio inferior, ali com Nico esqueceu momentaneamente do seu problema de inclusão social na festa.
Olhou rapidamente na direção dele e em volta. Depois deu um pulo, sentando-se ao lado de Nico no balcão.
Os dois beberam mais cerveja.
–Você não gosta de cevada – afirmou Nico – O que aconteceu?
–Fui traída – respondeu Megan, e depois estranhou o quão rápido as palavras saíram. Olhou curiosa para a garrafa de cerveja, amedrontada com os efeitos do álcool. Nico olhava na sua direção, sério. Obviamente queria uma explicação – Um garoto que eu estava agora está com outra.
–Seu namorado? – perguntou Nico, depois percebeu o quão esquisito era perguntar aquilo para Megan. Há alguns dias vinha pensando realmente sobre esse fato esquisito que era outro cara ser metade do casal com Megan senão ele, mas quando falou aquilo em voz alta ficou ainda mais horrível. Ele pigarreou.
–Ele não é meu namorado – respondeu Megan, bebeu mais um gole de cerveja – Quer dizer, não sei. Não importa porque agora não somos mais nada.
Nico assentiu, pensando se foi assim com ele. De uma hora para outra, bem rapidamente, Megan decidiu que ele não era mais nada. Sabia que tinha feito coisas praticamente imperdoáveis, mas a ideia real de perder Megan nunca lhe abateu. Até ver ela com outro garoto, foi como um tapa de luva.
Beberam mais cerveja, apenas observando as pessoas que se divertiam na festa. Era realmente um dos melhores eventos do ano. Começou a tocar eletrônico, e Nico suspirou.
–Acho que a sua playist foi pro saco – disse Megan, rindo. Deu uma olhada em Nico atentamente pela primeira vez naquela noite, a jaqueta de couro e uma regata preta por baixo, cheia de caveiras num desenho rabiscado e branco. A calça era preta assim como seu tênis da Nike que tinha detalhes vermelhos, o cabelo estava com seu novo corte do ano, baixo dos lados, mas com fios caindo na testa.
Ele podia estar ficando com qualquer garota naquele exato momento, mas estava sentado ao lado de Megan em silêncio por minutos. Ela bebeu mais cerveja.
Nico se levantou num pulo e saiu do balcão.
–Vou lá pra fora, você vem? – Megan deu uma boa olhada para a festa, e percebeu que não tinha realmente nada de interessante para fazer naquelas pessoas que estavam numa vibe que ela definitivamente não estava.
Ela também se levantou, os dois passaram desviando das pessoas até a porta do fundo, Nico a abriu e Megan passou. Os dois respiraram o ar fresco longe de todo o fumo e bebida que tinha na casa.
–Isso não pode estar acontecendo – sussurrou Megan. Nico olhou na sua direção.
–O que?
Megan pegou no seu braço e o fez girar para a direita. Ao longe, na esquina da rua que pegava os fundos da casa, estavam Thalia e Luke. Se beijando.
Nico era muito bom em disfarçar suas expressões, mas Megan conseguiu ler perfeitamente bem em seus olhos levemente arregalados e a boca semiaberta que ele estava “chocado”. Ele se virou e abriu a porta dos fundos, entrando mais uma vez na festa.
Megan ainda ficou olhando mais um tempo aquela cena interessante, encostados no poste, à luz da lua. Era bem romântico. Pena que os seus amigos não os achavam importantes o suficiente para compartilhar as boas novas.
Ela se virou, dando uma última olhada na sua “melhor amiga” beijando o cara que ela tinha certeza que ela nunca mais ia beijar, então abriu a porta da festa e voltou ao ar com cheiro de fumo e álcool.
Nico estava sentado no balcão, olhando em volta como se nada ainda estivesse acontecido. Megan suspirou e foi para a sua direção. Sem antes pegar mais uma garrafa de cerveja e dar um longo gole, seus sentidos começando a se embaralhar pela quantidade de álcool.
Sentou-se com dificuldade ao lado de Nico.
–Se sente traído? –perguntou Megan. Ele bufou em resposta, e ela pensou como ele estaria caso tivesse visto a cena de Percy e Annabeth no começo da festa. E depois Megan pensou de novo, todos eles estavam resolvidos, bem e resolvidos.
Parecia que só ela e Nico não tinham solução.
–Eu sempre achei um absurdo vocês não confiarem na gente – a voz de Nico já estava um pouco embargada e bêbada – Sempre achei que nós éramos os certos e que se vocês nos achavam uns merdas criminosos então o problema estava completamente em vocês, que não valia a pena se não confiassem em nós.
Ele riu, olhando para baixo e bebendo mais cerveja.
–Parece que o problema não é nem com vocês nem com os criminosos, só comigo.
Megan olhou para o teto, fazendo toda a força possível para continuar na sua pose de ouvinte, mas deu uma pequena risada.
–Agora é hora de pôr as cartas na mesa? – Nico olhou na sua direção. Seus olhos negros a fitavam como se pudessem enxergar sua alma: frios e misteriosos.
–Se não for agora vai ser quando?
Os dois se fitaram mais uma vez, algo que Megan não fazia há meses, e ela percebeu que era como um boomerang, parecia que todos os sentimentos estavam longe quando os dois estavam distantes, mas de repente o boomerang voltava na direção dela, atingindo-a em cheio.
–Eu ferrei tudo, tá legal? – Nico bebeu a garrafa inteira de cerveja e a jogou para o lado. Pegou mais uma fechada numa fila de garrafas que ele deixou ao seu lado – Eu complico tudo porque eu sou eu, não devia ter entrado naquela merda de campanha, não devia ter gritado do jeito que gritei naquela festa idiota, e o mais importante, não devia ter colocado a culpa em você por não darmos certo. A culpa foi minha. Mas você sabe por que eu fiz tudo isso, e porque é tão... Complicado.
Megan não conseguia desviar sua atenção do rosto dele, ela sabia que ele não pediria desculpas. Aquelas eram as suas desculpas, mas existia algo de realmente redimível em ouvi-lo falar tudo aquilo, tão redimível que era até errado.
–Eu também sou complicada- murmurou ela, estava com vontade de chorar e não queria transparecer isso na sua voz – Fiz de tudo para chamar sua atenção, preferencialmente de forma ruim.
Nico ficou um tempo em silêncio, ele nunca teve a necessidade de falar e falar, às vezes o silêncio era pior do que as piores frases ditas.
–Você gosta dele? – perguntou, por fim. Bebeu mais um gole de cerveja – Esse cara que te traiu, você gosta dele de verdade? Porque se gostar, eu posso dar uma surra nele se você quiser.
Megan acabou rindo, agora estava chorando de verdade. As lágrimas caindo na sua bochecha, se odiava porque parecia de novo a fraca com que Nico terminou no ano anterior. Apenas negou com a cabeça, porque sabia que Nico estava olhando na sua direção, prestando atenção nas suas lágrimas e demonstração de fraqueza.
–Nós somos muito diferentes – sussurrou Nico enquanto tamborilava os dedos pálidos e longos na garrafa de cerveja – E não é uma diferença saudável, como Percy e Annabeth. É uma oposição total, branco e preto.
Megan sabia o que ele iria fazer e estava se sentindo ainda mais estúpida por estar chorando. A verdade é que eles se machucavam muito, eram como kriptonita um para o outro, se enfraqueciam.
Nico saiu do balcão, a garrafa de cerveja aberta na mão esquerda e mais duas na mão direita. Seus olhos negros continuavam a estuda-la, e Megan queria comentar o quão intimidante eles eram, mas estava muito ocupada enxugando as lágrimas e tentando não chorar mais.
–Eu não sou muito bom em falar o que eu sinto, nem em descobrir o que eu sinto – ele sussurrava e era complicado porque a música estava extremamente alta, mas por algum motivo parecia que Megan conseguia ler os seus lábios- Mas eu não preciso ser bom nisso pra descobrir o que eu sinto por você, é chamativo como um farol... E eu sei que nada me dói tanto, me machuca tanto, quanto isso que eu sinto por você.
Megan abriu a boca, não acreditava que ele estava fazendo mesmo aquilo. Nico se virou com as suas cervejas, atravessando lentamente a festa e abrindo a porta da frente dessa vez.
Ele foi embora.
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