Lendo o capítulo anterior, é provável que você tenha uma ideia errada da Vila Listrabon e de Herman. Como me aprofundei pouco na história da vila e de seus habitantes, você provavelmente está achando que Herman é um menino solitário, pois não existem outros da idade dele na Vila. Isso é mentira.

Embora a maioria dos habitantes de Listrabon fossem velhos e homens adultos, existiam crianças e adolescentes vivendo ali. Na verdade, a maioria deles ficava em Kuldran a maior parte do tempo, pelo menos os meninos, pois era lá que eles treinavam na Escola de Guerra — virar guerreiro era melhor que virar plantador de abóboras. Eu não entrarei em detalhes sobre eles porque a maioria exerce influência muito pequena nessa história, mas você poderá encontrar no final desse livro uma descrição de todos os habitantes de Listrabon e suas ocupações. O único que tem papel realmente importante nessa história é Andhrimír, o filho do padeiro.

Andhrimír era amigo de Herman (o melhor amigo na verdade). Eles eram totalmente diferentes na forma física. Enquanto Herman era magro, tinha os ombros curvados e cabelo curto, Andhrimír era forte, com o físico digno de um guerreiro, e tinha os cabelos morenos longos. Mesmo assim não era guerreiro coisa nenhuma: era ajudante de padeiro. Seu pai era o padeiro Stennio, que exigia sempre a ajuda do filho, mas nunca o privava de liberdade.

Andhrimír também tinha 16 anos, e era com ele que Herman tinha vivido suas melhores aventuras. Foi com ele que Herman foi visitar um grupo de ciganos que estava de passagem pela região e acabaram derrubando uma vela, que incendiou a barraca deles. Foi com ele que Herman quase foi morto por um javali selvagem, enquanto passeavam fora da estrada. Foi com ele que Herman encontrou seu primeiro (e único) Duende, caído na floresta, aparentemente bêbado. Entre tantas outras aventuras que tinham vivido juntos...

Mas numa coisa eles eram diferentes: Andhrimír não conseguia entender o porquê de Herman querer tanto sair daquela vila. Andhrimír era acomodado, e tinha encontrado a felicidade ali, em Listrabon, cozinhando e vendendo pães. Ele simplesmente não conseguia entender essa obsessão de Herman por aventuras. “Essas coisas são perigosas Herman. Me diga: quantos aventureiros você viu sair e voltar pra casa? Eles não voltam Herman, não voltam”, costumava dizer ele.

Mas era genético, e Andhrimír não entendia isso. O sangue aventureiro de Thorn, o pai de Herman, corria nas veias do menino. A história dele servia de inspiração para Herman. Ele tinha ouvido muitas vezes da boca de Amandor e não cansava de ouvir. E ele sentia que ia acabar imitando os passos de seu pai muito mais cedo do que imaginava.

Thorn sempre tinha tido a vontade de virar um guerreiro valoroso e fazer seu nome, mas seus pais não aprovavam a ideia. Seu pai era o melhor carpinteiro da região, e queria que o filho seguisse seus passos, para honrar o nome da família. Ele sabia que ser um guerreiro era honroso, mas já tinha perdido muitos amigos em guerras, e não queria perder seu filho também. Por isso não aprovava a escolha de Thorn. Mas é claro que isso não foi o suficiente para conter o desejo do filho.

Ao completar 16 anos Thorn fugiu de Rivlat, e se engajou na estrada à procura de seu sonho. Depois de vários dias vagando em vão, Thorn chegou a Kuldran. Embora não tivesse sido recomendado por alguém, e nem tivesse prestígio na família, foi aceito como aluno na Escola de Guerra. Rapidamente mostrou talento, e foi observado de perto pelos professores. Seis anos depois terminou seu aprendizado e se tornou um Guerreiro de Kuldran. Não bastou muito para que se tornasse Cavaleiro e que fosse cotado para a guarda particular do Rei.

Muitos anos depois o destino o levou de volta para Rivlat. Durante uma comitiva, onde escoltava o Rei até a cidade do Porto Claro, uma tempestade forte os atingiu na estrada, obrigando-os a se refugiarem na cidade. A ruína de Thorn foi ali, pois Rivlat foi atacada por Orcs assim que colocaram o pé nela. Thorn acabou morrendo enquanto defendia o rei, por uma flecha envenenada. E ali entregou a Amandor a responsabilidade de cuidar de Herman e de Bela.

Amandor costumava dizer que a flecha envenenada foi o presente que Thorn ganhou por honrar mais o Rei do que seu próprio pai, e dizia isso como incentivo, para Herman honrar sua mãe. O problema é que o desejo de sua mãe era bem parecido com o de seu avô. Ela não queria que Herman virasse um aventureiro nem um guerreiro, pois já tinha perdido seu marido, e não queria perder seu filho também. Mas Herman não sabia se conseguiria honrar sua vontade. O desejo de aventuras era mais forte.

Herman tomou um susto quando sua mãe deixou o garfo cair no chão. Estivera tão imerso em pensamentos que tinha até esquecido de comer. A sopa de galinha estava praticamente intocada no seu prato.

–Tá tudo bem? – Perguntou sua mãe.

–Tá sim, só tava distraído – Respondeu o menino.

–Olha, ele não veio te visitar, tudo bem. Ele não costuma faltar às visitas, mas...

–Ele nunca faltou às visitas – Cortou Herman, seco.

Sua mãe suspirou. Ela sabia o quanto o menino gostava de Amandor. Ele era como um pai para ele.

–Eu sei que você está irritado, está preocupado – Disse ela, carinhosa – Mas tem que entender que um dia isso ia acontecer. Já me admira o fato dele, sendo um cavaleiro do Rei, ter conseguido vir aqui te visitar durante 16 anos sem ter faltado um dia sequer! Ele deve estar numa missão pro Rei filho.

–Ele está numa missão – Respondeu ele.

–E como você sabe? – Disse ela.

–Um guarda me falou hoje em Kuldran. Eu perguntei pra ele se Amandor estava na cidade e ele disse que ele tinha ido pra Mitrar, a cidade dos Elfos. Disse que ele foi levar uma mensagem pro Rei.

–Ora, está vendo! – Exclamou ela – Ele está mesmo trabalhando, não é culpa dele faltar à visita.

–O que me irrita – Disse Herman — Não é ele ter partido numa missão, e sim, ele ter partido sem se despedir.

–Bom, talvez tenha sido uma missão urgente. Talvez ele não tenha tido tempo de se despedir.

–Acho difícil uma missão ser tão urgente a ponto dele não poder perder 20 minutos a cavalo para vir aqui – Disse Herman.

Bela suspirou novamente. O menino estava mesmo irritado, e nada do que ela falasse ia o fazer mudar de ideia.

–Olha, vamos esquecer isso por ora – Disse ela – Nós não podemos julgá-lo. Não sabemos o que aconteceu realmente, então não vamos discutir isso até ele chegar aqui, tudo bem?

–Tudo bem.

Herman levantou da mesa. Não tinha comido praticamente nada, mas não estava com fome. Ele foi lá pra fora e sentou no banquinho que tinha em frente a sua casa, e ficou observando a estrada, pensativo.

A história de seu pai agora não saía da sua cabeça. Eles eram muito parecidos, mas Herman não pretendia seguir exatamente os passos de seu pai. Thorn virou guerreiro porque queria glória, queria honra, queria reconhecimento. Queria ser um bravo guerreiro que seria lembrado por gerações. Já Herman não. O menino não se importava com honra, glória, nem nada disso. Ele só queria pôr o pé na estrada e sumir. Queria ver novos lugares, correr perigos, viver aventuras... Isso era mais importante pra ele do que a fama.

E quanto mais pensava nisso, mais se lembrava do que Amandor tinha dito: “A flecha envenenada foi o presente que Thorn ganhou por honrar mais o Rei do que seu próprio pai”. Thorn tinha desobedecido a seus pais, tinha fugido de casa, e o resultado tinha sido esse. E ele? Será que se desobedecesse a sua mãe e saísse em busca de seu sonho, teria o mesmo fim de seu pai?

–Sim! – Gritou uma voz atrás dele.

Herman se virou assustado.

–Sim! Ele está aqui dona Bela!

Era Andhrimír. Estava todo sujo de farinha e parecia bem animado.

–Como vai amigão? – Disse ele – Fiquei sabendo que o Amandor não apareceu. Será que o grifo do Maknor comeu ele na estrada cara?

–Muito engraçado Sr. Brincalhão – Respondeu Herman – Senta aí, mas longe. Não estou a fim de me sujar de farinha.

Andhrimír riu e sentou. Suspirando de satisfação.

–Minhas pernas tão doendo cara. Ninguém merece ficar em pé o dia todo fazendo pão – Disse ele.

–Até parece que você não gosta – Riu Herman.

Eles ficaram ali sentados, sorrindo, sem falar nada durante um tempo. O vento estava fresco, e estava soprando forte.

–Mas e aí? Porque o Amandor não veio cara? – Perguntou Andhrimír.

–Sei lá. Um guarda de Kuldran falou que ele foi pra terra dos Elfos entregar uma mensagem pro Rei – Respondeu Herman.

–Terra dos Elfos... Mitrar né?

–Isso – Respondeu Herman.

–Será que ele não teve tempo de dar uma passadinha aqui na Vila? – Disse Andhrimír.

–Pois é, foi o que eu disse pra minha mãe. Será que a missão era tão urgente assim? –Disse Herman.

–Não sei – Respondeu Andhrimír – O que eu sei, é que os pães não se fazem sozinhos. Tenho que voltar pra padaria, passei aqui só pra te ver mesmo. A gente pode se encontrar mais tarde?

–Claro – Respondeu Herman – Eu te encontro de noite.

–Até mais.

Herman ainda ficou mais um tempo ali. O vento balançava as folhas das árvores, que faziam um “shhhh” incessante. Era relaxante ouvir aquele barulho. Herman sentiu que poderia ficar naquele banco o resto do dia.

Mas não ia ficar, tinha outras coisas pra fazer. Quando já pensava em levantar viu outro Anão na estrada, vindo em direção à Vila, igual ao que tinha encontrado mais cedo. Isso era muito estranho. Não costumava passar tantos viajantes por aqueles lados assim. Anões ainda era um pouco mais comum, pois eles tinham minas para aqueles lados, mas Herman lembrou que tinha visto um viajante Humano também, mais cedo.

Mais estranho ainda era o fato do Anão não ter um broche azul. Todos os Anões que viviam no Sul vestiam um broche azul na capa. O broche desse Anão era amarelo, e todos sabiam que Anões de diferentes famílias não costumavam se reunir.

Ele passou e acenou para Herman, que respondeu o cumprimento. Parecia cansado, como se tivesse vindo de muito longe. Suas roupas estavam amassadas e empoeiradas. Carregava um grande machado preso na cintura. O menino o seguiu de longe, para ver se ele iria entrar na hospedaria, mas ele cruzou a Vila e continuou do outro lado, pegando a estrada do Sul, conhecida como Trilha da Montanha.

Três viajantes num dia só, isso era muito estranho. E não era só coincidência. Tanto os viajantes quanto a missão de Amandor significavam que algo estava acontecendo, mas Herman não podia saber.

O menino voltou para dentro de casa. A mãe não estava lá, provavelmente estava ajudando nas plantações ou conversando com alguém. Ele sentou na cadeira e esfregou o rosto; o estresse mental estava esgotando-o.

Ele começou a pensar em tudo que tinha acontecido. A história de seu pai que não saía da sua cabeça, a missão de Amandor a Mitrar e a mensagem que ele levava, os viajantes que passaram pela vila, seu desejo de sair dali. Tudo passava na cabeça de Herman, até que de repente ele teve um estalo. Foi como se uma luz tivesse surgido na cabeça dele.

Era agora a hora de cair na estrada, estava tudo a seu favor! Recentemente ele tinha ficado com mais vontade do que nunca de fugir da vila. Esse sempre tinha sido o sonho dele, mas ultimamente Herman não parava de pensar nisso. Talvez porque agora realmente fosse a hora. Era só pensar: em tempos normais, Herman nunca conseguiria fugir da Vila. Assim que fugisse, a notícia não levaria mais de um dia pra chegar até os ouvidos de Amandor, que sairia a procura do menino. Amandor conhecia todas as estradas e trilhas, e seria praticamente impossível fugir sem que ele encontrasse Herman.

Mas agora ele não estava por perto! Amandor nunca deixara de visitar a vila em 16 anos, e agora, justamente quando Herman estava mais louco do que nunca pra fugir, Amandor estava longe! Não podia ser coincidência. Era o destino, com toda certeza.

–Preciso falar isso com Andhrimír!

E saiu correndo de casa.

Notas finais
Espero que estejam gostando da história !