O Pórtico do Mal
3 Capítulo 3
Notas iniciais
–Vamos parar por aqui e esperar!
Amandor desceu do cavalo e os quinze cavaleiros imitaram-no. O Sol estava quente, mas o céu mostrava sinais de que uma chuva não ia demorar a cair. O vento forte trazia as nuvens pesadas do Norte cada vez mais rápido.
Amandor olhou em volta. Já tinham deixado as últimas casas há muito tempo. O Conde tinha sido claro quanto a isso. A missão era secreta, e eles tinham que fazer com que todos pensassem que estavam indo para Mitrar. Mesmo fora de Kuldran, ainda havia casas de fazendeiros espalhadas pela estrada. O grupo tinha passado por várias durante as últimas horas.
Agora Amandor achou que já tinham se afastado o bastante das casas, e que não corriam o risco de serem vistos por nenhum morador.
–Peguem as bagagens que estiverem carregando nos cavalos. Iremos deixá-los a qualquer momento – Disse para o os homens.
O caminho que iriam fazer seria por dentro da floresta Oeste, conhecida como Mata da Coruja. A Mata da Coruja era uma floresta de difícil acesso, extremamente fechada. Se a pé a viagem já seria lenta, com cavalo seria muito pior. Seria praticamente impossível conduzir um cavalo por aquele emaranhado de raízes e pedras. Ia fazer com que perdessem um tempo enorme, tempo esse que não tinham pra perder.
–Lá está ele – Apontou um cavaleiro.
O homem forte vinha se aproximando na estrada ao Norte, cavalgando rápido. Era o vigia do posto que ficava algumas milhas ao Norte, na estrada. Aquele posto indicava a fronteira do território de Kuldran, invenção criada pelo Marquês alguns anos antes para melhorar a segurança da região.
O homem se aproximou, desceu do cavalo e fez uma reverência à Amandor.
–Vai levar dezesseis cavalos sozinho? – Perguntou Amandor, estranhado.
–Não, senhor – Respondeu o homem – Meus amigos virão logo, vamos esconder todos os cavalos. Assim como pediu, senhor.
Não fazia sentido fingir que estavam indo para Mitrar e depois o vigia voltar com dezesseis cavalos na estrada. Então Amandor pediu que o homem os colocassem fora de vista, e só mandasse-os de volta depois de alguns dias. Assim não chamaria muito a atenção.
–Tudo bem, obrigado vigia – Agradeceu Amandor.
–Não tem de que, senhor – Respondeu o vigia.
–Vamos homens, agora nossa viagem será a pé – Chamou Amandor.
Depois de todos pegarem as bagagens e largarem os cavalos, começaram a procurar um lugar que fosse mais aberto para poder penetrar na floresta. Um cavaleiro logo encontrou um bom lugar e chamou os companheiros, que começaram a viagem por ali.
A viagem provavelmente seria de dois dias ou mais, por causa da condição do terreno. É claro que Amandor poderia ir pela estrada secreta de Listrabon, que levaria muito menos tempo, mas a ordem do Conde era não chamar a atenção. Ele não queria assustar o povo com as novas notícias, então queria que todos pensassem que se tratava apenas de mais uma viagem para Mitrar, para acertar negócios.
Uma interrogação surgiria, caso o povo visse cavaleiros do Rei tomando uma trilha no meio da floresta. Isso acabaria em perguntas para o Conde, e ele ia ter que falar. Portanto, o melhor era forjar uma falsa viagem para Mitrar. É claro que teriam que fazer um retorno bem maior, por uma floresta bem pior, além de que a viagem seria mais longa, mas não havia escolha.
Era cedo, e a comitiva tinha muito que caminhar. Amandor ia à frente, escolhendo os melhores caminhos, e todos os outros o seguiam atrás, em fila indiana. Era a melhor forma de andar naquela floresta apertada.
Sempre alguém escorregava ou tropeçava. As raízes eram grossas e abundantes, e muitas vezes estavam cobertas de folhas, o que as escondia e fazia os homens tropeçarem. Além disso, havia galhos por todos os lados e pedras também. Mesmo assim a comitiva avançava bem, na medida do possível.
Depois de caminharem durante algumas horas, Amandor concedeu uma pausa para que fizessem a refeição do meio-dia. Não havia chão limpo nem clareira ali, então os homens se ajeitaram cada um em uma árvore e começaram a comer. As copas das árvores formavam um telhado, fazendo com que a floresta ficasse muito abafada. Pra piorar, havia moscas por todo lado, enchendo o ar de um zumbido terrível.
Embora não tivessem caminhado uma distância muito longa, ficar desviando de raízes e galhos o tempo todo esgotava os homens. Então descansaram durante duas horas, até Amandor achar que era tempo de mais.
–Vamos andando – Disse Amandor — Se fizermos uma pausa de duas horas sempre que cansarmos, não chegaremos nunca ao lugar.
Continuaram caminhando por mais seis horas, até escurecer. Não tinha acontecido nada de mais, com exceção de que um homem tinha matado um javali. Assim que avistou o animal, ele tirou o arco que carregava nas costas e acertou uma flecha nele, matando-o. Mas no final não puderam aproveitar o javali. Não tinham como carregar aquele animal, a não ser que fossem comê-lo agora, mas Amandor não quis parar. O bicho acabou ficando pra trás.
Assim que começou a escurecer, ficou evidente que não seria possível continuar caminhando. Por ser fechada, a floresta já era escura, imagine quando a noite caísse realmente. Amandor e os outros começaram a procurar um lugar para acampar antes que não enxergassem um palmo na frente do nariz.
Finalmente acharam um lugar um pouco menos acidentado do que os outros. Com muito custo, conseguiram montar as barracas, ainda que tivessem ficado meio longe umas das outras. O pior de tudo foi acender a fogueira. Aquele lugar era todo úmido, e foi realmente um desafio, mas depois de bastante tempo conseguiram acender. Ali resolveram passar a noite, para continuar a caminhada no outro dia.
Amandor sabia que estavam se aproximando do local, e seria muito descuido dormir sem vigília. Portanto estabeleceu turnos, e acabou ficando com o primeiro. O lugar era extremamente escuro, mas a fogueira ajudava bem a ter uma visão da área. Pelo menos ali perto.
Todo tipo de som podia-se ouvir ali. Galhos batendo, bichos uivando, folhas caindo, até uns rosnados estranhos. Amandor não se assustava com nada daquilo. Era experiente, e sabia que esses tipos de sons eram normais numa floresta como aquela. Mesmo assim não se deixava ficar relaxado. Ele sabia que se aceitasse os sons e movimentos como coisas normais e relaxasse, poderia ser pego de surpresa. Nunca se sabia de verdade quando um rosnado era de um animal ou de um monstro.
Terminou o seu turno sem preocupações e foi acordar o próximo homem. Depois deitou na sua barraca e dormiu.
No dia seguinte acordaram cedo. Não dava pra ver muito o céu dali, mas parecia estar nublado. Provavelmente choveria naquele dia, e pelas nuvens que tinham visto antes de entrar na floresta, no dia anterior, seria chuva forte.
Tomaram um desjejum rápido, e se prepararam para partir. Amandor chamou um cavaleiro de lado:
–Gohnder, é melhor ficar atento a partir de agora. Eu não sei exatamente onde estamos. Essa região não é mapeada, e estou seguindo minhas habilidades. É possível que nos percamos, ou que estejamos mais próximos do que imaginamos. Se tudo der certo e estivermos no caminho correto, chegaremos ainda hoje. De qualquer forma fique atento, e passe o recado aos homens.
O grupo tinha andado floresta adentro, sempre em direção Oeste. Agora, se o cálculo de Amandor estava correto, era hora de se desviar para direção Sul. Se tivessem sorte poderiam chegar ao local ao anoitecer.
A comitiva seguiu viagem. Continuaram caminhando em marcha forçada. Seguiram durante 7 horas, até parar para refeição do meio-dia. Assim que pararam, Amandor lembrou que dia era: Quinta feira, dia da visita a Herman.
Amandor podia imaginar como o menino estaria aborrecido. Ele não queria ter faltado à visita, não tivera tempo nem de se despedir. Partira um dia antes, porque o Conde exigira urgência. Mas era por uma causa maior. Era pela segurança dele, e de todos os moradores de Kuldran e Listrabon.
Mas ele veria o menino em breve, se tudo desse certo, mas agora tinham que prosseguir. Continuaram a viagem, e logo a chuva alcançou o grupo. De certa forma, o aspecto fechado da floresta os ajudava a se molharem menos, mas não inibia a chuva completamente. Eles se molhavam de qualquer forma, e era desagradável caminhar assim.
Mas por sorte não durou muito. Algum vento mais bondoso carregara as nuvens para outro lugar, e cerca de uma hora depois a chuva cessou, fazendo com que a viagem seguisse menos desagradável. Os homens e Amandor ficaram agradecidos com o fato de não terem que caminhar ensopados. Já bastava o terreno horrível em que tinham que caminhar.
Depois de mais algumas horas caminhadas, o terreno começou a ficar menos acidentado e mais plano. Havia bem menos raízes e mais espaço para se pisar. Além disso, as árvores tinham começado a ficar mais espaçadas. Isso significava que tinham tomado a direção certa. Amandor chamou a atenção desse fato para os homens.
A noite começava a cair e eles não tinham achado o local. Pelos cálculos de Amandor, eles provavelmente já deveriam ter chegado. Não havia trilhas para seguir, portanto não seria fácil encontrar. Pelo que ele podia saber, eles poderiam estar ao lado do local e não perceber.
De qualquer forma eles não poderiam continuar procurando durante a noite, então resolveram acampar. Eles tinham caminhado direto desde o meio dia, fazendo apenas duas pequenas pausas, e os homens estavam cansados.
Amandor ordenou que montassem acampamento. Dessa vez não foi difícil, pois já tinham deixado as raízes e as pedras bem para trás. Ali o chão era plano, e muito mais seco. Os homens limparam uma área e montaram as barracas. Gohnder começou a procurar galhos para acender a fogueira e Amandor reprovou:
–Sem fogueira.
Os homens sabiam que ele estava certo, mas isso não os impediu de ficarem desanimados e tristes. Comida quente e calor seriam muito bem-vindos.
–Estamos perto do local. Na verdade, não sabemos o quão perto estamos. O local pode estar logo à frente. Se as criaturas estiverem lá, o fogo vai atraí-las. É melhor sermos cautelosos daqui pra frente.
Comeram uma refeição fria e em silêncio. A noite estava gelada, e os homens sentiam falta do fogo. O vento soprava e gelava a pele, provocando arrepios. Na Mata da Coruja pelo menos era abafado, e a noite os homens não sentiam frio. Mas também não conseguiam dormir, então…
Depois da refeição, os homens foram deitar. Amandor tinha ficado com o primeiro turno de novo. Dessa vez não pode deixar de ficar nervoso. Essa floresta era menos barulhenta do que a Mata da Coruja, e isso talvez não fosse bom. Fazia Amandor se preocupar com qualquer barulho.
Em certa hora Amandor achou ter visto um vulto se movimentando atrás de uma árvore. Era um vulto grande, e causou sobressalto. Mesmo assim ficou parado e esperou. Ele não sabia o que estava se aproximando, então o melhor a fazer seria esperar para tentar identificar o desconhecido e fingir que não o tinha visto.
Amandor desviou o olhar do vulto, mas deixou a visão aberta, fazendo com que o intruso não soubesse que estava sendo observado, mas Amandor conseguisse acompanhar seus movimentos. Era um truque antigo.
Logo ficou claro que o vulto na verdade era um veado. Amandor sorriu pela preocupação. O animal se aproximava do acampamento, então ele levantou para assustá-lo e o veado correu rápido pra longe.
Nada mais aconteceu depois. Amandor terminou sua guarda e acordou o próximo homem.
Já na manhã seguinte, depois de desmontarem o acampamento, Amandor alertou os homens:
–Estamos perto. Afrouxem suas espadas e fiquem atentos. Qualquer movimento que virem devem me alertar. Vamos fazer o seguinte: dividiremos quatro grupos de três homens. Cada grupo seguirá numa direção. Os quatro restantes ficarão aqui, esperando os outros. Cada grupo deve andar cinco milhas pra sua direção. Se não acharem nada, voltem pra cá, se acharem voltem também. Acho que assim será mais fácil de encontrar o local.
–Boa ideia – Respondeu Gohnder.
–O grupo que seguirá pro Norte será: Gwen, Arthur e Gohnder. O grupo do Sul será: Brok, Faenir e Eddras. O do Leste: Eu, George e Agarth. O do Oeste: Moroveu, Celest e Horece. Os demais deverão esperar a volta dos outros aqui. Entendido?
–Entendido, senhor – Responderam os homens.
–Vamos lá.
Durante 2 horas, os homens do acampamento ficaram sem notícias. Até que pouco a pouco, os grupos foram voltando. Primeiro o do Oeste, depois o do Sul, depois o do Leste, todos sem novidades. Finalmente o grupo do Norte voltou, tinham encontrado.
–E como está? Viu movimento, algo de estranho? – Perguntou Amandor.
–Não, senhor – Respondeu Gwen – Parecia tranquilo.
–Então vamos, nos mostre o caminho.
Caminharam a passos cautelosos até o local. Os homens estavam nervosos, e alguns já tinham até sacado a espada da bainha.
–Não precisam ficar tão nervosos – Tranquilizou Amandor – Afinal, nosso objetivo não é exatamente lá, são algumas milhas ao Oeste. Mas fiquem preparados, é claro. Não sabemos se encontraremos algo lá.
Isso não tranquilizou muito os homens. Na verdade, nem Amandor estava tranquilo. Sua espada já estava frouxa, e seus olhos não perdiam nada.
–Está lá! – Exclamou um cavaleiro.
Dessa vez todos sacaram as espadas e observaram o lugar encantados. A clareira era perfeitamente redonda, com flores por todos os lados, e no meio do círculo…
–Os Três Túmulos!
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