O Preço do Poder
16 União
Notas iniciais
Merida tinha dificuldades em se segurar-se no dragão com precisão, ele era muito diferente de Angus, que Merida desejava com a alma que estivesse bem em Dunbroch, não tinha aquela camada de pelos macios e o fato dos cascos do clydesdale estarem em contato com o chão tornava a gravidade uma aliada nas cavalgadas, diferentemente do voo de um dragão o qual Merida sabia bem que não tinha escorregado até então por suas costas serem enormes e as escamas desconfortáveis faziam parte da possível explicação.
Ela sua visão no Furia da Noite que além de carregar Soluço levava consigo sua mãe, o alivio parecia instantâneo e pode sentir sua culpa em tudo aquilo se esvaindo parceladamente, apesar de não ter certeza de qual seria a reação de Elinor em saber que a filha não tinha fugido da guerra para se casar. Mas naquele momento Merida tinha uma coisa em mente, ela sabia que seu coração iria parar de bater em pouco tempo se continuasse sentindo a geada cair forte contra sua pele.
Soluço sabia onde estava, embora fosse difícil enxergar as montanhas e o mar abaixo de si, graças aos deuses a lua podia ser vista mesmo com aquela quantidade de nuvens espalhadas no céu destinadas a deixarem o seu percurso um pouco mais dificultoso do que seria se o clima em Berk fosse menos congelante. A guerra deveria estar bem próxima de se concretizar em Duncroch, mas ele acreditava que poderia impedir. Agradeceria devidamente aos deuses após aquele episodio, por Merida estar ali, e pela verdadeira rainha estar segura.
Só não conseguia entender aquela dor no coração por Tempestade. Ela estava morta, só que ele não poderia fazer nada a respeito, nem quanto a Astrid. Em sua percepção não haveriam vencedores ou perdedores, a amizade que queria com o povo escocês ainda queimava em sua mente, principalmente depois de ver o dragão majestoso das terras do sul, mas tinha que se conter até o momento certo, não queria parecer inconveniente.
Será que com essa decisão muitos de Berk não decidiriam partir de Berk por achar que soluço manchara a honra dos vikings? Astrid partiria? Ele não sabia, mas também não podia mentir que a duvida e talvez um sentimento de culpa em pensar no líder que seu pai já fora um dia o assombrasse.
Banguela diminuiu o ritmo de seu voo sendo acompanhado pelo dragão de Merida. Ele encarou a entrada da caverna por longos segundos, quando viu a figura feminina aparecer na entrada. Valka estava surpresa, faziam meses que não via Soluço, e quando o filho decidira aparecer lhe trazia visitas. Ela acenou para o jovem líder que respondeu da mesma forma e depois ela saiu do campo de visão de todos, entrando novamente na caverna.
Soluço virou-se em direção de Merida com um sorriso calmo, quase podia lhe dizer que estava tudo bem e que agora estavam em paz, mesmo aflita com toda a situação era como se pudesse acreditar no que ele transmitia, mesmo sem dizer nenhuma palavra. Ela tentou lhe sorrir de volta, mais sem graça do que realmente planejou, ela abaixou o olhar ao ver que ele se virou e que sua mãe fixou os olhos castanhos desconfiados na filha. Mas logo o dragão se preparou para descer e Banguela levou Elinor para dentro da caverna.
Merida levantou a cabeça e olhou em direção da caverna, ela teve vontade de rir da própria reação, mas quando Soluço apareceu na entrada e a chamou com a mão, ela voltou a se concentrar no real motivo de estarem ali, o qual realmente ela não sabia, com toda a correria mal tinha lhe dado tempo de conversar sobre o plano do viking.
–sinn coisich , a charaid.* – Ela disse ao dragão desconfiado, que olhou de canto para a ruiva, mesmo hesitante ele decidiu dar confiança a humana de cabelos de fogo que em sua percepção parecia ter bons motivos para acordar um dragão adormecido.
Assim que o dragão, o qual Merida não tinha nomeado, pousou ela desceu e se espreguiçou antes de ver o olhar de sua mãe nela, ela respirou fundo e sorriu fraco, mas Elinor correu até ela e lhe abraçou forte.
–Quando você vai aprender a fazer o que lhe ordenam?
Elinor limpou qualquer vestígio de lagrima que pudesse aparecer nos olhos da filha e lhe deu um beijo carinhoso na testa, depois se virou para Soluço que estava com uma expressão distante no rosto.
–Obrigada. – Agradeceu Elinor. Ele sorriu automaticamente, enquanto passava a mão em Banguela. Ele esperou sua mãe se aproximar do tumulto que se formou na caverna e falou.
–Não tem nada à que agradecer rainha, sua filha lhe salvou.
Valka estava confusa, olhou o filho e o novo dragão, era a primeira vez que via um daquela espécie, era grande e tinha os olhos amarelos, chifres e garras da cor preta, e estava desconfortável ao perceber que estava sendo observado, era um grande e poderoso dragão macho. Ao desviar o olhar da fera para o filho, ela percebeu o olhar curioso que horas ele lançava a fera, mas esperava pacientemente a jovem ruiva terminar de falar que sem a ajuda dele a mãe podia estar morta.
A mulher parou de andar ao perceber que os olhares se se direcionaram a ela. Mas a confusão se fez obvia em direção a Soluço.
–Estamos em guerra, houve um motim, sequestraram a rainha – Ele apontou para Elinor – Berk tem dragões, a terra ao Sul, cujo nome é Dunbroch, será exterminada. Eu não concordei com isso...
Soluço foi parando gradativamente de falar, não tinha muito bem como explicar toda a situação a cada segundo que se passava podia ser que mais pessoas morreriam, e ele temia que com a vitória de Berk seus habitantes se convertessem por fim as ideologias de Minaz.
Ele percebeu a aproximação de Valka que depositou uma das mãos carinhosamente no ombro de Soluço tentando acalmá-lo, ela tinha ouvido o suficiente. Sabia que Soluço era como ela, muitas vezes incompreendido, mas era um rapaz de bom coração.
–Vamos dar um jeito.
Ela caminhou até as duas mulheres alheias a situação até então, Merida não tirou os olhos de Valka por um segundo, a semelhança que ela tinha com sua mãe era assustadora, tirando pelos olhos igualmente verdes como de Soluço, e pela postura menos formal.
–Eu sou Valka mãe de Soluço. Não se preocupem a ajuda chegará ao seu povo muito brevemente.
O discurso era tão certeiro, era como se Valka já tivesse a certeza que a guerra estava terminada, ela sorriu, e olhou o dragão pouco atrás a Merida. Merida percebeu e deu espaço para que ela caminhasse até ele. Mas antes de tocá-lo ela voltou a Merida.
–Como você...?
–Achei em uma caverna e é habituado ao gaélico, a linguagem antiga do meu povo.
Merida percebeu que o dragão estava tenso, mas antes que ela continuasse a dizer, Valka fez um simples sinal com a mão e o dragão se tornou menos feroz, Merida se impressionou com a aptidão apresentada diante de seus olhos e encarou Soluço que se aproximou dela.
–É incrível né?! – Ele comentou. Merida fez que sim com a cabeça.
Valka se levantou e foi até Elinor, fazendo perguntas sobre como era o clima e o terreno de Dunbroch para saber se era possível ter outros daquele dragão lá, seus olhos brilhavam de entusiasmo, enquanto guiava para mais dentro da caverna. Hora ou outra pode ouvir Valka fazendo perguntas sobre o tal gaélico.
Foi então que Merida percebeu que não estava mais com frio, ela olhou a caverna escura, sem nenhum sinal de fogueira.
–Soluço, aqui é quente. – Afirmou confusa, e percebeu que sua pergunta indireta surtiu efeito no viking, que riu antes de responder.
–É... Esse lugar é sagrado. Não tem como explicar você precisa ver.
Ele agarrou a mão de Merida e correu rápido na medida em que sua perna metálica lhe permitiu, percebeu que os dragões ainda os perseguiam, mas em pouco tempo de caminhada ele chegou a algumas folhagens e sem cautela as tirou do caminho revelando a imensidão do recanto dos dragões, era noite, mas alguns voavam tranquilamente. Merida estava boquiaberta e não sabia exatamente para onde olhar, era muita informação. Aos poucos seu vocabulário começou a aparecer em seu cérebro.
–Isso é absolutamente lindo.
Soluço caminhou para frente respirando fundo.
–Há muito, lutamos com alguém que usava os dragões para guerrear com vantagem. E ele tinha conseguido uma maneira de manipular todos eles, até mesmo Banguela.
Merida não deixou de reparar que Soluço tinha a voz um pouco mais triste enquanto andava para se distrair enquanto contava a história.
–Então, no meio de batalha, Stoico o imenso, o meu pai, morreu.
Banguela picou duas vezes e se aproximou de Soluço o empurrando com a cabeça tetando consolá-lo. Ele sorriu descontraído encarando a ruiva parada perto a dragão escocês. Soluço continuou quando o Fúria da Noite se distraiu com alguns dragões voando próximo a eles.
–Nós não nos dávamos muito bem assim, mas naquele dia eu finalmente percebi que tudo o que meu pai me ensinou foi para o meu bem. Eu sou o que sou, por ele. Berk precisa entender isso.
Merida não entendia os motivos de Soluço estar lhe contando sobre aquilo, era tão diferente das histórias heroicas sobre dragões que ele tinha mencionado até então, aquela era... Triste. Merida normalmente odiava escutar tais acontecimentos, principalmente por ter em mente a recente morte de Fergus e a ruiva lembrou-se de imediato da rigidez da mãe como urso e de quando todo o curso de sua vida tinha sido mudado para aquela situação inesperada onde estava usando um kilt de seu clã, com um dragão próprio após ter salvo a sua mãe de vikings, para simplesmente, não conseguir parar de ouvir um deles.
Soluço era inteligente, tinha explicações para tudo que Merida ousasse em questionar, pensava ela. Ele era forte, e o jeito constrangido que ele se encontrava enquanto contava as histórias sobre dragões evidenciava que não estava mentindo e sim fazendo um bom uso do eufemismo, o que tornava os feitos do viking, bem maiores, ao ver de Merida.
–Essa guerra pode ter nos tirado coisas importantes, mas eu acredito que vamos conseguir parar. Não precisa se preocupar você é a pessoa menos entediante que eu já pude conhecer na vida. Seu povo se lembrará de suas histórias e você será o líder de novo.
Ela se balançava constantemente e olhava para a passagem ao seu redor como se estivesse colhendo as palavras que iria contar, Soluço gostou de saber que pelo menos alguém no mundo pensava daquela forma, embora sua estima dissesse que as palavras dela eram apenas para consolo. Mas era difícil não acreditar na simplicidade dela e no jeito espontâneo de falar. Ela não tinha lá a pose de nobre, como a mãe, mas Soluço se sentia mais confortável por ser assim.
–Tomara... – Ele disse em um tom baixo, mas Merida pode ouvir nitidamente.
Soluço respirou fundo e quando percebeu que o silencio insistiria ele se aproximou e foi em direção ao dragão, Banguela acompanhou os passos de Soluço com o olhar e Merida fez o mesmo até ele estar próximo o suficiente a ponto de impedir que a luz da lua continuasse a tocá-la. Ela analisou de perto por segundos as feições de Soluço, a pele manchada por sardas, o cabelo castanho bagunçado com mínimas tranças no canto inferior de sua cabeça. Mas rapidamente se virou na direção do dragão escocês.
O dragão estava desconfiado e olhava para Merida como se esperasse ela dizer alguma coisa a respeito do rapaz que se aproximava. Soluço percebeu que ele estava arisco de mais para continuar com a aproximação e abaixou a mão. Merida se adiantou a se aproximar um pouco mais e percebeu que Soluço observou seus movimentos bruscos, mas que não afetaram o olhar da fera em si.
–A the' an a charaid.* – Ela disse vendo que Soluço ficou confuso ao ouvir as palavras desconhecidas, mas magicamente os olhos do dragão mudaram em relação a ele, e o jovem se sentiu mais a vontade para toca-lo. Embora se perguntasse se deveria aprender aquele idioma para poder ter algum contato com os dragões aos arredores de Dunbroch, pelo menos, agora teria uma desculpa para visitar o local após o termino da guerra.
–Acha que pode me ensinar esse idioma? – Acidentalmente Soluço fez a pergunta da sua mente, e se arrependeu instantaneamente. Fechou os olhos por segundo se amaldiçoando, uma atitude tão sem querer quanto a primeira, já que o gesto não passou desapercebido por Merida.
Mas ela pensou, estava noiva de Macintosh ainda. Era provável que ela deveria pedir a permissão dele para dar aulas de gaélico à um viking, e ele recusaria porque, na opinião de Merida, ele era uma pessoa chata, a ponto do pensamento de pedir um feitiço a bruxa para mudar Macintosh fluiu na sua mente. A presença de um urso parecia mais agradável.
–Eu gostaria... – Respondeu incerta. Soluço se virou para ela após ter captado a sonoridade da voz dela. Merida percebeu que ele não esperava ouvir aquela resposta e suspirou nervosa. Continuou.
–Depois da morte do rei, meu pai. Dunbroch ficará temporariamente sem rei. Eu devo me casar com uma pessoa chamada Lorde Macintosh. Acho que você deveria perguntar para ele, infelizmente, pois não era o que eu planejava para o meu futuro...
A voz dela sumiu gradativamente e Soluço demorou alguns segundos para filtrar o que ouvira. E inesperadamente sentiu uma pontada de decepção.
–Mas pode dizer a ele... – Ela voltou a atenção para a fera. Soluço fez o mesmo. – uasal nathair-sgiathach.
Merida tentou dizer de uma forma com que só Soluço ouvisse, o que de fato não aconteceria pelo dragão ter uma audição tão aguçada, mas Soluço explicaria isso depois para ela. Ele olhou para a fera, que tinha os olhos calmos e fixados nele.
–Uasal nathair-sgiathach. – Ele repetiu com um sotaque característico, mas a reação do dragão ao aceitar as palavras o impressionou, ele abaixou a cabeça agradecendo o que quer que tenha dito.
–O que quer dizer? – Perguntou meio sem-reação.
–Dragão gentil. – Respondeu simplesmente.
–Esse é um bom nome não acha? Esse dragão é certamente gentil.
Depois de ser acordado e ajudar Merida até um lugar para ele desconhecido parecia um nome que fazia tão sentido ao que Banguela tinha, claro que em algumas vezes esse tinha dentes e outras não, mas Merida não questionaria os nomes estranhos dos lugares no mapa de Soluço, ou o próprio nome dele naquele momento. Afinal aquela era uma boa ideia.
–Uasal.
–Posso te ensinar uma palavra do meu idioma antigo? – Soluço viu Merida assentir freneticamente animada com a proposta. Ele se virou para ela.
–Sjau.*
–Sjau. — Ela repitiu sem muitas dificuldades a unica palavra que parecia bem simples até, ela olhou Soluço assentir elogiando a pronuncia quase perfeita dela.
–O que quer dizer? — Perguntou ainda entusiasmada, desde que ouvira a lenda antiga das estrelas no céu, tudo que poderia vim da região nórdica agradaria aos ouvidos da princesa.
–Algo como “liberdade.”
Por segundos sentiu seus dedos formigaram, mas não podia mais ser egoísta do jeito que tinha agido desde então, seu casamento era em prol de seu povo, que tinha sido adiado porque ele não se permitiria casar-se sem a presença de Elinor. Queria sua liberdade, mas o preço era alto, talvez não tivesse outra oportunidade para tirar seu povo do decadencia, logicamente sem considerar o que estava acontecendo em Dunbroch naquele exato momento em que estava conversando.
Merida percebeu que parecia que a luz da lua estava sendo mais impedida de chegar até si do que antes. E a respiração de Soluço tão perto, a despertou de seus pensamentos. Merida não teve tempo de raciocinar quando os lábios de Soluço tocaram os seus. A primeira coisa que pensou foi em protestar, mas sua parte emocional, normalmente agia com predominância sobre a razão, logo ela correspondeu, afinal ele não devia ter escutado quando disse que estava noiva, ou ela própria não devia ter dito alto o suficiente. Sentiu que só duas pessoas existiam e que nada na paisagem poderia diminuir que aquele beijo começasse a ficar mais intenso, nem mesmo os olhos dos dragões em volta. Soluço tentava controlar suas mãos exploradoras à inexperiência de Merida, naquele beijo que contia a inocência e a avidez necessária.
–Filho, eu...
Pararam subitamente envergonhados ao ouvir a voz da terceira pessoa no ambiente. Valka estava parada tentando entender o que tinha visto, porém achou que seria mais sábio de sua parte fingir que não tinha visto nada.
–Filho, eu consegui alguns dragões e estamos prontos para partir. – Ela disse e deu as costas para o casal encabulado. Soluço passou a mão no cabelo com nervosismo, olhou de canto e viu que Merida estava da cor do cabelo e direcionava o olhar ao chão, mas sabia que ela estava disposta a fingir que aquilo não tinha acontecido se ele assim o fizesse, por isso ele deu passagem para que ela passasse na sua frente em direção, novamente, a caverna onde Elinor e Valka se encontravam e naturalmente ela o fez.
[...]
–As armadas estão prontas, mas não temos sinal de Soluço. – Disse um viking, mas Minaz pareceu irritado com o ultimo comentário o que deixou o homem confuso, ele suspirou fundo.
–Soluço está com a rainha em Berk, eu estou no comando agora.
O homem pareceu filtrar o que tinha acabado de ouvir, mas concordou por fim.
–E qual é a ordem? – Perguntou um pouco aflito. Minaz sorriu cruelmente.
–Vamos reconquistar o que é nosso.
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