O Preço da liberdade livro 2
23 O Incêndio de Aethelgard
O ar no salão de jantar estava carregado com uma expectativa perigosa. A mesa estava posta com o melhor cristal de Aethelgard, e Lucca ocupava uma cadeira de honra, conversando em tom baixo com Alexander sobre as novas tanchagens do porto. Ele parecia ter nascido para aquela posição: a postura relaxada, o olhar inteligente e um sorriso sutil que não via a luz do dia há uma década.
Então, as portas duplas se abriram.
Diana entrou com a sua habitual indiferença calculada, usando um vestido de seda cor de vinho, profundo como o sangue, com um decote que desafiava a moral da corte. Ela trazia uma taça na mão e um comentário sarcástico na ponta da língua, mas as palavras morreram antes de saírem.
Ao ver Lucca sentado ali — não como um prisioneiro, não como um fantasma, mas como um senhor — o tempo pareceu colapsar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som da taça de Diana caindo no tapete de lã, manchando o tecido de vermelho. Seus olhos se arregalaram, passando de choque puro para uma fúria incandescente que fez as velas da mesa parecerem opacas.
— O que... o que é isso? — a voz dela saiu baixa, mas vibrando como uma corda de violino prestes a estourar.
— Boa noite, Diana — Lucca disse, levantando-se com uma elegância irritante. Ele fez uma reverência impecável, a mesma que costumava fazer dez anos atrás. — Você está magnífica, como sempre.
Diana explodiu.
— SAIA DAQUI! — ela berrou, avançando para a mesa e batendo as mãos na madeira com tanta força que os talheres saltaram. — Pai, o que esse monstro está fazendo na minha frente? Por que ele não está apodrecendo no escuro de onde nunca deveria ter saído?
— Diana, acalme-se — Adrian disse, mantendo a voz firme, embora seus olhos estivessem atentos a cada movimento da filha. — Lucca é agora um membro oficial do conselho comercial. Suas terras são vitais para o reino, e ele ficará no palácio para coordenar a reconstrução das rotas.
— NO PALÁCIO? — Ela soltou uma risada histérica, virando-se para Mellyssa. — Mamãe, você permitiu isso? Você vai deixar que o homem que profanou o nosso sangue se sente à nossa mesa como se nada tivesse acontecido?
Mellyssa apenas continuou a cortar sua carne, embora suas mãos tremessem levemente.
— O passado foi pago, Diana. O reino precisa de Lucca Lâfrer. E você precisa aprender a conviver com a realidade.
Diana voltou-se para Lucca, o rosto transfigurado pelo ódio. Ela pegou a garrafa de vinho mais próxima e a arremessou na direção dele. Lucca desviou por pouco, e o vidro estilhaçou-se contra o buffet de carvalho.
— VOCÊ É UM CANALHA! — ela gritou, aproximando-se dele até que seus peitos quase tocassem o peito dele. — Você acha que roupas novas e um título comprado apagam o que você fez? Você acha que eu vou te ver passar pelos meus corredores e não sentir vontade de arrancar seu coração com as minhas próprias mãos?
Lucca não recuou. Ele inclinou a cabeça, mantendo o olhar fixo nos olhos dela, onde a dor ainda gritava por trás do ódio.
— Você pode tentar, Diana — ele sussurrou, a voz calma no meio do furacão dela. — Mas meu coração já foi seu por dez anos no escuro. Se quiser arrancá-lo agora, ele estará em um lugar muito mais acessível.
— EU TE ODEIO! — ela berrou na cara dele, as lágrimas de fúria finalmente transbordando. — Eu vou fazer da sua vida um inferno maior do que qualquer masmorra! Eu vou trazer cada amante para a sua frente, eu vou...
— Faça o que quiser — Lucca interrompeu, um sorriso de canto aparecendo. — Mas você terá que me olhar nos olhos todos os dias. Você terá que ver que eu não sou mais a mentira que você queimou. Eu sou o homem que restou. E eu não vou a lugar nenhum.
Diana deu um passo atrás, ofegante, sentindo que o gelo que ela construíra ao redor de si estava começando a derreter sob o calor daquela presença. Sem dizer mais nada, ela virou a mesa de jantar, derrubando louças e comidas em um gesto de destruição final, e saiu correndo do salão, seus gritos ecoando pelos corredores.
Alexander limpou uma mancha de molho da manga e olhou para Lucca.
— Bem... — disse o príncipe gêmeo. — Pelo menos ela sentiu alguma coisa. O jantar está arruinado, mas o plano... o plano está apenas começando.
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