O Preço da Traição.

10 A Inexistência do indubitável.


Notas iniciais
Olá Cupcakes! Como estão? Bom, esse capítulo foi escrito totalmente para a Malu. Espero de verdade que você fuja da sua zona de conforto e mergulhe nas dúvidas, Maluzinha. Afinal, a vista daqui é belíssima. Ele também só foi escrito porque a Diana votou nessa fic kkkkkkk Um beijão para todas as maravilhosas meninas do grupo, que me ajudam pra caramba e nem sabem disso. Não me matem, eu amo vocês. Super obrigado ao pessoal que comentou o capítulo passado. Peço que leiam cada palavra com extrema atenção e notem a realidade por meio das entrelinhas. Esse não é um dos melhores capítulos que já escrevi, mas espero que entendam. Sem mais delongas, boa leitura.

Quando René Descartes, séculos atrás, propõe a ideia de dúvida metódica, talvez ele não imaginasse o quanto ela pode ser aplicada em nosso dia-a-dia e ir além do seu objetivo em relação à metafísica. Talvez, propor a dúvida metódica de tal maneira seja banal, mas me parece certo até aqui. Os seres humanos tendem a entrar em um tipo de estagnação, popularmente conhecida como zona de conforto. O grande problema por trás dessa suposta zona de conforto é que nem sempre existe o conforto. Muitas vezes algo nessa zona lhe incomoda, mas você está tão acostumado com aquele incomodo, que simplesmente o aceita. Você fecha os olhos para o que te desagrada e acomoda-se ali. Aceita-se que aquela situação, ainda que ruim, pode piorar caso se busque uma mudança. Ah, a mudança. Qualquer possibilidade que a inclua se torna assustadora, pois a mudança é desconhecida e o desconhecido assusta. Nós nos acomodamos, então. Fugimos apenas por meio da mente, de tal forma que quando retornamos à realidade, percebemos que nos tornamos estrangeiros dentro de nós mesmos. Dentro de nossa própria vida e nossa própria verdade. Aceitamos uma situação, pois negá-la significa sair de nossa zona, de nossa estagnação, mas quando abrimos os olhos e a enxergamos por completo, o pânico se instala. E onde Descartes entra nisso? Simples. Ou não tão simples. Aplica-se a dúvida metódica em sua vivência e prenda-se somente as certezas. A busca aqui não é por algo indubitável, mas pelas dúvidas que lhe tragam as mais agradáveis respostas.

Quando me casei com Daniel, no fundo, eu sabia que não o amava, mas ainda assim me casei. Eu me convenci de que o que tínhamos era amor, e até podia ser, porém um amor líquido demais. Eu aceitei aquilo como sendo o mais intenso que poderia vivenciar. Aos poucos nossa família cresceu e eu engoli os meus desagrados, fechei os olhos para os incômodos e estabeleci uma rotina que me impedisse de questionar a mim mesma. Eu me instalei em uma zona de conforto. No entanto, partindo do princípio que estabelecemos para por certas questões à dúvida e buscarmos pelas melhores respostas, até onde isso pode ir? Eu, certamente, não quero retornar àquela zona. Isso independe de Emma e aqui chegamos até ela. Emma é dona de todas as minhas dúvidas e ela me dá as melhores respostas. Escolher não estar com Daniel parte de um principio que só diz respeito a mim e meu novo comprometimento com minha própria liberdade, contudo, escolher estar com Emma vai além. Escolher estar com ela é pular em um abismo, dizer adeus a minha zona de conforto e mergulhar de cabeça em um turbilhão de novidades. Mudança. Ela não me assusta mais. Não agora, pois eu sei que estou pronta para ela. Eu anseio pela mudança. Colocar em dúvida as situações nas quais estou me fez perceber inúmeras coisas. Por que eu ainda estou com Daniel? O que me faz estar com ele? Eu preciso estar com Daniel? Até onde os meus filhos interferem nisso? Dúvidas. As respostas me fazem crer que até aqui eu simplesmente sobrevivi, vivendo para outras pessoas e ignorando a minha própria existência. E como dizia Descartes, para examinar a verdade, é necessário, uma vez na vida, colocar todas as coisas em dúvida o máximo possível. Basta.

— Regina? — a voz de Archie chamou-me a atenção, fazendo com que eu me libertasse do transe em que minha mente se encontrava. — Está tudo bem?

— Sim, claro. — ajeite-me na poltrona em que estava sentada e ele acompanhou meus movimentos, analisando cada mínimo gesto. — Onde estávamos?

— Daniel ajoelhou-se e pediu uma nova chance, você negou e viu Emma por trás do vidro... — ele me encarou e sorriu fraco. — e então você se perdeu em pensamentos.

— Bom, — limpei a garganta e uni as mãos. — eu sai de meu consultório e deixei Daniel para trás. Eu não me recordo de ter corrido tanto quanto corri aquele dia, mas ainda assim, não foi o bastante. Eu esperei por Emma durante horas, mas ela não apareceu e o porteiro me disse que ela não estava lá. As ligações foram ignoradas assim como qualquer tipo de contato... Ela simplesmente sumiu.

— E hoje faz uma semana que você não a vê? — ele anotou algo no bloco que trazia em mãos e eu assenti.

— Sim, uma semana. — prendi meus olhos a estante de livros que Archie mantinha em seu consultório. Depois de anos de terapia, eu já havia decorado cada detalhe daquele consultório. — Você não acha curiosa a forma como o destino funciona, Archie?

— O que quer dizer com isso? — ele tomou o quinto gole de café e eu soube que sua caneca estava vazia agora. Seu café durava exatos cinco goles.

— Eu quero dizer que as coisas funcionam de uma maneira, o destino joga conosco o tempo inteiro e, no fim, ou você se torna um jogador, ou você se torna uma peça. — deslizei a ponta dos dedos sobre o couro que revestia a espuma da poltrona, enquanto ele se manteve em silêncio.

— Desculpe, Regina, mas eu não entendi o seu objetivo com isso. Algo me diz que você tem muito mais para dizer, do que o que realmente fala. — Ele se levantou para colocar mais café em sua caneca.

— Ainda não é o momento para você compreender, querido, mas eu lhe prometo que tudo será esclarecido. — levantei-me e antes que ele pudesse argumentar, o baixo toque do relógio se fez presente, anunciando que a sessão chegara ao fim. — Até a próxima, doutor.

É engraçado o fato de que quando nós nascemos não passamos de uma folha de papel em branco, que, com o tempo, vai sendo escrita e rabiscada por experiências boas ou ruins. Elas nos marcam, manchando o branco com suas diversas cores e, em certo ponto, sua vida é medida através de algumas cicatrizes. Você hesita ao entrar em um carro, caso já tenha sofrido um acidente. Você para alguns segundos antes de apagar a luz descalça, se já tiver levado um choque no interruptor. Você pensa duas vezes antes de se permitir amar, se um dia já sofreu por amor. O tempo todo, somos submetidos a novas experiências e, o tempo todo, nós hesitamos por conta dessas experiências. Criamos nossos filhos medindo com cuidado o que devem ou não fazer, pois temos medo de que eles se machuquem, mas esquecemos de que eles precisam de suas próprias cicatrizes, de suas próprias marcas, afinal, eles também são uma folha que precisa ser preenchida. Então você nota isso e acredita que compreendeu a maneira como a vida funciona. Acredita que detêm a razão e o conhecimento. No entanto, acredite, eu daria tudo o que sei, pela metade do que ignoro, ou por um terço do que é escrito nas entrelinhas da vida.

— Olá, querido! — beijei o rosto de Henry quando ele entrou no carro, sentando-se ao meu lado. — Como você está?

— Confuso e completamente perdido em toda essa história. — ele cruzou os braços e se virou para mim, deixando clara a mágoa em sua expressão. — Você vai me contar o que está acontecendo?

— Sim, eu vou te contar o que está acontecendo, — ele suspirou, sorrindo fraco logo em seguida. — mas só se você colocar o cinto.

— Certo! — Henry revirou os olhos e abriu mais seu sorriso, fazendo com que ao menos parte do meu dia valesse a pena.

Cerca de alguns minutos depois nós estramos no quarto de hotel em que eu estava hospedada desde a noite em que deixei Daniel para trás em meu consultório. Henry tirou os sapatos, deixando-os jogados sobre o tapete e se sentou na cama. Ele me esperou e eu o encarei, para logo depois levar o olhar até o tênis. As palavras não foram necessárias, pois Henry se levantou e juntou seus sapatos ao lado da cama, tirando-os do meio do caminho. Eu sorri e caminhei até ele, acomodando-me ao seu lado.

— Me diga o que quer saber e eu tentarei responder da melhor forma. — encostei-me no quadro da cama e ele deitou sua cabeça em meu colo.

— Você e Emma... — ele me encarou, tornando suas palavras um pouco mais convictas. — até quando vamos fingir que vocês duas são só amigas e que eu sou ingênuo e não sei de nada? — os meus olhos se arregalaram levemente e ele sorriu. — Só seja sincera comigo, mãe.

— Meu Deus! — suspirei, bagunçando seus cabelos. — Quando foi que você cresceu tanto? — ele apenas deu de ombros e esperou que eu respondesse. — Certo... Eu não sei explicar o que sinto por Emma, Henry. Não sei nem explicar para mim mesma, mas é maravilhoso. Quando estou com ela e com você, é como se eu estivesse em casa, entende? Tudo fica mais leve e eu me sinto bem.

— Eu também me sinto bem. — ele segurou uma das minhas mãos, entrelaçando seus dedos aos meus. — E o que aconteceu com entre você e meu pai? Ele descobriu sobre a Emma?

— Não... O seu pai, ele me pediu uma segunda chance. Uma segunda chance para nós e para o nosso relacionamento, mas eu não pude Henry... Eu não posso aceitar. — desviei os olhos e encarei um ponto qualquer na parede. — Emma viu quando ele se ajoelhou e me ofereceu o anel. Ela entendeu tudo errado e desde então eu não a vi.

— Mãe. — Henry se sentou a minha frente e eu encarei seu rosto. — Está tudo bem. Está tudo bem de verdade. Eu não te culpo por querer se separar dele, na verdade... Você deveria ter feito isso há algum tempo.

— Do que você está falando, Henry? — desencostei-me da cama e me aproximei dele.

— Eu... Eu o vi com uma mulher há alguns meses atrás. Lembra quando você brigou com Lily e ele viajou? — eu assenti e ele piscou freneticamente antes de continuar, o que sempre fazia quando estava nervoso. — Bom, ele não viajou de imediato. Eu estava indo até a livraria quando o vi com ela, saindo de um hotel. Ontem eu os vi, de novo. Acho que ela é uma das alunas dele. Eu sinto muito por não ter contado antes, mãe... — ele abaixou a cabeça, balançando-a levemente.

— Hey, Henry. — ergui seu queixo e ele me encarou com os olhos umedecidos. — Está tudo bem, certo? Eu já sabia que seu pai me traía, querido. Eu sei de muitas coisas, não quer dizer que eu as fale. — ele me olhou com desentendimento, mas nada disse, apenas se deitou novamente em meu colo.

— Mãe, eu ficarei ao seu lado se você se separar dele. Também estarei ao seu lado se decidir ficar com a Emma. Eu gosto dela. — ele tirou uma mecha do cabelo que estava em meu rosto e eu o abracei. — Não deixe ela escapar.

— Eu não tenho ideia de como fazer isso, querido. — segurei sua mão, beijando-lhe a palma e ele sorriu.

— Bom, nisso eu posso ajudar!

Encarei o celular de Henry com um misto de raiva, nervoso e felicidade. Todas as minhas ligações foram ignoradas, tal como todas as mensagens, mas Emma respondeu a primeira que enviei do celular de Henry. Eu me passei por ele e disse que estava com problemas, que queria conversar e ela prometeu me encontrar, e quanto digo isso quero dizer encontrar Henry, em seu apartamento. Então, as exatas dezoito horas, eu parei o carro em frente ao seu prédio. Agradeci aos céus pelo porteiro já me conhecer e por Emma não ter deixado nenhum aviso.

— Olá, senhorita Mills! — o senhor sorriu e abaixou a cabeça em reverência. — Eu irei avisar à senhorita Swan de que você irá subir.

— Na verdade... — caminhei até ele, abaixando a voz para que ninguém nos ouvisse. — Eu quero fazer uma surpresa para ela. — fingi confessar um segredo e seu sorriso se abriu ainda mais. Tolo.

— Sendo assim, boa sorte! — ele apertou o botão do elevador e eu forcei um sorriso.

Vinte passos foram dados da saída do elevador até a porta de Emma. Por exatos trinta e dois segundos eu encarei a madeira, antes de respirar fundo e bater contra ela. Um. Dois. Três. Quatro segundos se passaram, até que a porta fosse aberta. O sorriso que habitava o rosto de Emma desapareceu, no instante em que os nossos olhares se encontraram.

— Regina... — ela vacilou, apoiando-se na porta.

— Olá, querida — um sorriso irônico tomou-me os lábios. — Você sabe muito bem que eu não sou o tipo de mulher que você pode simplesmente ignorar. — ela inspirou fundo e desviou o olhar, encarando um ponto qualquer. — Eu posso entrar ou vamos começar essa conversa aqui mesmo?

— Eu acho que nós não temos o que conversar... — Emma se afastou, deixando a porta aberta. Eu a segui para dentro do apartamento que já havia se tornado um tanto quanto familiar. — Aliás, nós não temos nada, Regina. Eu fui uma tola em achar que você pensaria em abandonar sua vidinha perfeita. Não mesmo, não é? — ela se virou, deixando a mostra às lágrimas que lhe marcavam o rosto. — Eu fui uma idiota! Fui um passatempo em meio ao seu casamento que estava caindo no tédio. Não foi isso, Regina Mills? — ela levantou seu tom de voz e andou em direção a mim. — Bastou que seu belo marido voltasse, lhe dissesse meia dúzia de belas palavras... — ela se aproximou, segurando minha mão esquerda e erguendo no ar. — e lhe oferecesse um anel, para você... — só então os seus olhos focaram na inexistência de qualquer joia em meus dedos. — Onde ele está?

— O anel? — puxei minha mão, dando as costas para Emma. — Provavelmente continua dentro da caixa, na verdade, eu não faço a mínima ideia. Você saberia disso se não tirasse conclusões precipitadas. Se não tivesse me abandonado no primeiro obstáculo. Você escolheu me deixar, Emma e eu... — virei-me para ela, encarando seus profundos olhos verdes. — eu escolhi deixá-lo.

— Você... — ela apontou para mim e se virou novamente, caminhando até o sofá e apoiando as mãos no encosto. — Você está mentindo, Regina! Eu vi Daniel ajoelhado, vi a forma como você o olhava. Eu vi tudo isso.

— Não sou eu quem mente aqui, querida. — Emma se virou e me encarou com desentendimento. — Você me disse que encontrou com Daniel na noite seguinte à que ele saiu de casa para viajar. Você me disse que ele te procurou e vocês transaram... — eu me aproximei, ficando a centímetros do seu rosto. — Vocês dois nunca mais se viram depois da palestra, não é mesmo? Vocês não se viram porque na suposta noite em que se encontraram, Daniel estava com a amante dele. A aluna. Aquela com a qual ele me trai há longos três anos. Na verdade, uma das.

— Como você... — coloquei o indicador sobre sua boca, impedindo-a de continuar.

— Acredite, meu amor, eu sei de muitas coisas. Uma ajudinha do destino confirmou o que eu já sabia. — abaixei o dedo e a encarei. — Então não diga que eu menti, Emma. Não ouse dizer que eu menti. Eu te contratei para provar a traição de Daniel, uma traição que eu sempre soube acontecer e você mentiu para mim.

— Eu nunca mais vi Daniel depois daquela palestra. Na verdade, eu cheguei perto de ir encontrá-lo, mas eu não podia. Eu não podia fazer isso com você, eu não queria fazer. Daniel pouco me importava, mas eu queria você, Regina... — ela foi até uma das cômodas, onde um longo espelho se apoiava e encarou meu reflexo. — eu menti, mas mentiria de novo se dissesse que me arrependo.

— Emma, eu não me importo com isso... No fundo, a traição de Daniel nunca importou e se tornou insignificante quando eu conheci você. Eu não o quero mais e meu casamento acabou muito antes de qualquer envolvimento entre nós duas. — pensei em ir até ela, mas hesitei.

— Regina, nós não podemos continuar com isso, você não entende? — ela apoiou os cotovelos na cômoda e se abaixou, sustentando o rosto nas mãos. — Você tem filhos e a sua vida... Eu não posso te dar estabilidade nenhuma. Eu não sou ninguém. Além disso, quanto tempo acha que isso vai durar até você perceber que não é o bastante?

— Emma, eu não preciso que você me dê estabilidade, eu a tenho. — ergui as mãos no ar, como se declarasse o óbvio. E era óbvio. — Eu só preciso que fique comigo, que confie em mim. Eu não tenho ideia de quanto tempo isso vai durar, afinal, é diferente de qualquer coisa que eu já tenha experimentado em toda a minha vida, mas eu estou disposta a tentar. Com todos os riscos e as incertezas, eu quero você, Emma. Somente você.

— Eu não consigo me envolver com ninguém além de você, Regina... — ela ergueu o rosto, encontrando meu olhar novamente. A pele clara brilhava em consequência das lágrimas que lhe marcava. — Eu não faço ideia do que você fez comigo, mas eu simplesmente não consigo parar de pensar em você. Não atendi nenhum cliente desde o dia em que nós dormimos juntas e não me arrependo nem um pouco, mas eu realmente tenho medo.

— Do que você tem medo?

— Eu estou apaixonada por você, Regina. Estou incrivelmente apaixonada por você. Eu não sei muito bem como é amar, mas eu posso jurar que estou te amando e isso é assustador! — ela soluçou, secando o rosto com as costas da mão e eu me limitei a sorrir diante daquilo. — Eu vou entender se você quiser ir embora, eu juro que vou entender.

— Eu não quero ir embora, Emma, pelo contrário. Eu jamais tive tanta vontade de estar em um lugar e, no fundo, eu sei o porquê. — agora, sem hesitações, eu fui até ela e a virei para mim. Os seus profundos olhos verdes refletiram o meu rosto e era ali que eu sempre iria buscar por meu reflexo. — Eu amo você, Emma. Eu a amo como jamais amei alguém em toda a minha vida. Eu não vou embora, não me faça ir embora, porque tudo o que eu quero é ficar com você. Não importa o quanto isso custe.

Eu segurei seu rosto entre as minhas mãos e selei seus lábios. O beijo de Emma sempre era único e ainda que eu a beijasse mil vezes, sempre seria como a primeira vez. Talvez não como a primeira vez, visto que a cada toque a dose de simbologia aumentava e o desejo ganhava uma nova face, mas sempre era diferente, sempre era novo. As paredes se tornavam apoios para os nossos corpos, que se chocavam sem preocupação alguma. Segurei os braços de Emma, erguendo-os acima de sua cabeça e ela sorriu, avançando para beijar-me novamente. No entanto, eu me afastei. Deixei que a jaqueta que vestia caísse de encontro ao chão e levei à mão até o zíper lateral de meu vestido azul escuro, que se mantinha estrategicamente aberto até certo ponto da coxa. Eu o abri em uma lentidão tortuosa, sentindo os olhos de Emma queimando-me a pele, em um desejo característico dela e toda sua intensidade.

Emma avançou em minha direção no instante em que meu vestido caiu por completo. Ela impulsionou minha cintura e minhas pernas se fecharam ao redor de seu corpo. O beijo que se iniciou foi voraz, interpretando por meio de toques cada mínima vontade existente. Senti meu corpo se chocar contra uma das paredes e arfei, Emma apertou minhas coxas e mordeu-me o lábio inferior, puxando entre os dentes. Só me dei conta de que estávamos no quarto quando Emma soltou-me sobre a cama. Apoiei-me nos cotovelos e ela se preparou para deitar sobre mim, mas parei seu movimento com o pé direito, que ainda calçava o salto preto.

— Tire a roupa para mim... — ela sorriu, mordendo o lábio inferior e negando com a cabeça, antes de dar alguns passos para trás. — bem devagar.

Ela prendeu os longos cabelos loiros em um coque frouxo e piscou para mim, antes de começar a desabotoar a blusa social que vestia, deixando-a aberta e exibindo parte dos seios, já que estava sem sutiã. Ela esticou a mão e eu segurei, sentando-me na beirada da cama. Emma a guiou até os botões de sua calça e subiu, arrasando seus dedos por minha pele e causando-me uma série de arrepios.

— Abra. — não foi necessário que nada além disso fosse dito.

Levei meus dedos até o vale entre os seus seios e desci acariciando a pele clara de seu abdômen. Ajoelhei-me no colchão e enfiei a mão dentro do jeans, pressionando a vagina de Emma ainda coberta pela calcinha. Ela fechou os olhos e escondeu o rosto em meu pescoço, pude sentir quando seus dentes mordiscaram minha pele, no exato momento em que rodeei seu clitóris com a ponto do indicador. Retirei a mão e voltei minha atenção para os botões da calça, os quais abri sem pressa alguma. Os cabelos de Emma se soltaram do coque recentemente feito e caíram pela lateral de seu rosto. Ela colocou algumas mechas para trás da orelha e observou enquanto o zíper era aberto e eu abaixava sua calça por completo. Eu me afastei, ainda de joelhos e puxei Emma para a cama. Ela apertou minha bunda, colocando ainda mais nossos corpos, enquanto um novo beijo se iniciava. A blusa que ainda lhe cobria parte do corpo fora perdida e minhas mãos apoderaram-se de seus seios. Não tardou para que os nossos corpos, agora completamente nus, ganhassem seu próprio ritmo.

Inverti as posições, fazendo com que Emma deitasse e meu corpo pesasse sobre o dela. Segurei sua mão direita e a levei até o ponto onde eu mais a queria. Mal pude notar quando Emma girou, posicionando-se entre o meio das minhas pernas. Ela segurou minhas coxas e puxou-me, enquanto eu abraçava sua cintura com as pernas. Emma apoiou sua mão esquerda no colchão e pude sentir quando seus dedos me penetraram, sem pudor algum. Um grito de surpresa e prazer abandonou-me os lábios, junto a uma súplica por mais. E ela me deu mais. O ritmo com que Emma se movia era tão intenso, que o som da cabeceira da cama se chocando contra a parede se fez cada vez mais audível. Prendi minhas mãos contra o lençol da cama e impulsionei o peito para frente, sem conseguir controlar as intensas ondas de prazer que se espalhavam por meu corpo. Emma adicionou mais um dedo a maravilhosa tortura a qual estava me submetendo e intensificou as estocadas. O suor fazia com que seu rosto brilhasse, junto ao rubor que tomava suas bochechas. E eu me entreguei a ela. Mais uma vez. Incansavelmente.

— Céus, Emma! — cravei minhas unhas à pele de suas costas quando o orgasmo me atingiu, levando-me ao mais belo paraíso, que residia dentro dos intensos olhos verdes.

***

— Meu amor... — os beijos que eram deixados por toda a extensão das minhas costas me fizeram despertar com um incrível sorriso nos lábios. — Bom dia! — Emma beijou-me os lábios e acariciou meu rosto, só então percebi que ela já estava vestida. — Me dói muito te acordar agora, mas você precisa se vestir. Nós temos visita.

— Visita? — eu a olhei interrogativamente e ela sorriu em resposta.

— Sim, fui acordada pelo toque insistente do meu celular e eu quase não o atendi, por ser um número desconhecido, mas então, eu resolvi atender e... — esperei que continuasse e ela fez um silêncio misterioso.

— Diga logo, Emma! — bati de leve contra seu braço e ela gargalhou.

— Com certeza essa insistência é genética. Henry me fez ir buscá-lo e agora ele está lá na sala se vangloriando por ter ganhado de mim no vídeo game. — ela revirou os olhos e me limitei a sorrir.

— Diga a ele que eu vou tomar um banho e já vou até lá, certo? — ela assentiu e eu me levantei, indo em direção ao banheiro.

— Então é assim, Regina Mills? Você usa o meu corpo durante toda a noite, me deixa exausta e não me dá um beijo decente de bom dia? — virei-me, encontrando uma Emma emburrada e de braços cruzados.

— Oh, desculpe-me! — apoiei os braços em seus ombros e ela abraçou minha cintura. — Prometo te encher de beijos para compensar essa falha.

— Eu acho muito justo! — o beijo que começou lendo ganhou certa intensidade e quando dei por mim, já estávamos deitadas na cama, com as mãos de Emma passeando por meu corpo desnudo.

— Em! — ouvimos Henry gritar e Emma escondeu o rosto em meu pescoço, mas pude ouvir seu riso. — Não adianta você usar a minha mãe para se proteger, aceite que você perdeu para mim e venha jogar de novo.

— Blá blá blá você perdeu para mim. — Emma se levantou de braços cruzados, tentando imitar a voz de Henry.

— Quantos anos você tem, cinco? — eu ergui uma sobrancelha e ela virou o rosto.

— Seis, eu tenho seis!

Quando cheguei à sala, Emma e Henry travavam uma disputa acirrada no tal jogo. Eles mal notaram minha presença, pois estavam realmente concentrados na partida. Emma movia seu corpo para trás a cada golpe, como se houvesse o risco dela ser realmente atingida. Cerca de alguns minutos depois, Henry largou o controle e cruzou os braços com uma feição de desagrado.

— Você roubou! — ele apontou para Emma, que gargalhava.

— Diga que eu sou a melhor! — ela se ajoelhou, derrubando Henry contra o tapete e iniciando uma série de cócegas.

— Em! Pare! — um sorriso tomou-me os lábios ao notar o modo como Henry se referia a Emma e só aumentou com o som das gargalhadas dadas pelos dois. — Você é a melhor!

— O que? Eu não ouvi! — ela intensificou as cócegas e ele se virou, tentando fugir do ataque.

— Você é a melhor! A melhor! — ele respirou fundo quando ela parou e só então se deu conta de que eu estava ali. — Olá mãe! Há quanto tempo você está ai?

— Tempo o bastante para ver você perdendo no videogame. — eu balancei a cabeça de forma negativa e ele abriu a boca em surpresa.

— Ela roubou! Eu aposto que você também perderia! — ele se levantou e deu-me um beijo no rosto. — Vá até ali jogar.

— Infelizmente, eu não posso. Vamos embora agora, tenho alguns assuntos para resolver. — Henry olhou-me com uma expressão triste, que amoleceria o coração do mais cruel dos homens.

— Ele não precisa ir embora... Nem você precisa ir embora... — Emma limpou a garganta. Pude ver certo rubor tomar sua face e ela coçou a nuca, em um claro sinal de nervosismo. — Quer dizer, você tem suas coisas para resolver, mas Henry pode ficar aqui comigo e depois você volta. Tudo bem se você não deixar ou ele não quiser, eu vou entender e... — antes que Emma pudesse completar, Henry pulou em seus braços, derrubando-a de novo no tapete.

— Por favor, mãe. Eu vou me comportar. Por favor. — os dois me encararam com o olhar pidão. Aquele olhar que pareciam compartilhar há anos.

— Certo! — os dois bateram a mão em vitória e eu apenas sorri.

— Eu te levo até a porta. — Emma caminhou ao meu lado até a saída do apartamento e antes que eu pudesse sair, ela me puxou, selando os meus lábios em um beijo de tirar o fôlego. — Volte para mim. — pude sentir a dose de súplica em sua voz, que fez com que meu coração se apertasse.

— Eu sempre vou voltar para você.

Uma das mais estranhas sensações é voltar para casa. Principalmente quando essa suposta casa não lhe passa nenhuma sensação de lar, pelo contrário. A cada passo eu me sinto mais deslocada, mais fora de mim mesma. Como um animal retirado de seu habitat e colocado em um zoológico, eu me sinto presa. A casa estava vazia, nenhum som se fazia presente além dos meus saltos batendo contra o piso. Nenhum sinal de Lily ou de Daniel. O escritório se mantinha intacto, tudo estava no exato lugar que deixei. Retirei o papel que meu advogado me entregara no dia anterior e coloquei sobre a mesa, com uma caneta posicionada ao seu lado. Então, eu aguardei. Encarei os livros na estante e eu quase podia ouvir o grito de todos os personagens que estavam presos ali dentro. Histórias escritas para nos dar um meio de fugir de nossas próprias vidas.

— Regina... — a voz de Daniel chamou-me a atenção e eu me virei na cadeira. Ele estava horrível. Ou talvez sempre tenha sido assim.

— Olá, Daniel — ele se aproximou, carregando o paletó na mão direita, junto à pasta de couro. — eu poderia perguntar como você está, mas a verdade é que isso não me interessa nem um pouco. — ele olhou para o papel sobre a mesa e me encarou novamente.

— O que é isso? — Daniel se aproximou e leu o que estava escrito no papel. A expressão que tomou seu rosto poderia ser traduzida em espanto, o que me fazia ter vontade de sorrir. — Divórcio, Regina? Eu achei que você havia pensado durante todo esse tempo. Achei que você iria voltar para mim, para nós. Você não pode... — ele ergueu o dedo indicador e eu segurei seu pulso, abaixando-o novamente.

— Eu posso fazer o que bem entender, querido. Eu não vou voltar para você, eu não vou voltar para nós, porque não existe “nós”. — peguei minha bolsa e caminhei em direção à porta. — leia com atenção e assine. Você tem exatas duas semanas para sair da minha casa.

Descartes aplicou a dúvida metódica em busca de uma verdade indubitável, a ponto de duvidar da existência do próprio Deus, para então provar-nos sua existência logo depois. Eu a aplico para enxergar com exatidão todos os questionamentos. Diferente dele, eu não busco uma verdade indubitável, pelo contrário. Acredito que tudo, em algum momento, é digno de dúvida. O questionamento nos faz viver, nos faz ansiar por respostas e movimenta a vida. O que eu busco são as dúvidas que me façam desejar viver para respondê-las e, como consequência, descartar as que me desagradam. Essa atitude é perigosa caso queira se manter na zona de conforto. Ou na zona de desconforto aceito. No entanto, caso queira fugir, eu lhe asseguro de que nada pode ser mais satisfatório. Tome as rédeas da sua vida. Escolhe seus próprios caminhos. Abandone a comodidade. O desconhecido sempre estará presente pelo caminho, basta escolher sua perspectiva de futuro. Um ano pode ser um mistério, tal como um segundo que ainda não chegou. O futuro será sempre uma incógnita, independente de como você o enxergue. As mudanças vão acontecer mesmo que você não esteja pronto para elas. Então viva. Mergulhe nas dúvidas que escolher e busque suas próprias respostas. Eu posso lhe assegurar que a vista daqui é belíssima.

Notas finais
Eu não tenho muito o que dizer. Apenas saibam que a verdade dificilmente vem explicitada, que nem todo conhecimento é dito e que as pessoas são facilmente manipuladas. Beijões ♥ Twitter: @evilquexr