O Preço da Coroa

14 A Baronesa de Valfenda


Três anos se passaram. A Escócia floresceu sob o comando de Edmund, mas o rei tornou-se um homem de poucas palavras e sorriso raro, cumprindo seus deveres com a Princesa Isabella com uma cortesia fria e protocolar. Enquanto isso, do outro lado do canal, o destino de Maria Benevides tomava um rumo digno de um conto de fadas — ou de uma justiça divina tardia.


​O porto de Edimburgo parou para assistir à chegada do Estrela de Provença. Não era um navio mercante comum, mas uma embarcação elegante, com cascos de madeira polida e velas de seda que brilhavam sob o sol pálido da Escócia.

​Quando a prancha desceu, a mulher que surgiu não lembrava em nada a moça de avental sujo de fuligem. Maria Benevides, agora formalmente a Baronesa de Valfenda, descendente de uma linhagem nobre francesa por parte de um tio-avô materno, vestia um traje de viagem em veludo azul-profundo, com detalhes em renda negra e um chapéu adornado com uma pluma de garça.

​Sua mãe, Elena, e seu pai, Jorge, a esperavam no cais. Eles não moravam mais na casa de pedra, mas em "Bela Vista", uma mansão senhorial que Maria mandara construir para eles com a fortuna que herdara. Jorge usava casaco de boa lã e Elena, com o filho pequeno pela mão, parecia uma matrona da alta sociedade.

​— Você voltou, minha pequena baronesa — Jorge disse, abraçando a filha com força.

​— Eu voltei, pai — Maria sussurrou, olhando para o castelo no topo da colina. — Mas não como a menina que fugiu. Voltei para ocupar o meu lugar.

​O Choque no Trono

​No gabinete real, Lorde Archibald entrou sem bater, o que era um sinal claro de urgência. Edmund estava assinando decretos, a coroa repousando pesadamente sobre a mesa.

​— Majestade... ela voltou.

​Edmund nem levantou os olhos.

— Quem, Archibald? A delegação dinamarquesa?

​— Não, senhor. Maria Benevides. Mas ela não é mais a filha do minerador. Ela acaba de desembarcar com o título de Baronesa de Valfenda. Ela herdou terras, títulos e uma fortuna na França. O porto está em polvorosa.

​A pena de Edmund parou no meio de uma assinatura. O coração, que ele acreditava ter se transformado em pedra, deu um solavanco violento contra as costelas. Ele se levantou lentamente, sentindo o sangue fugir do rosto.

​— Baronesa? — Edmund repetiu, a palavra soando estranha em sua boca. — Maria é... nobre?

​— Pelo sangue francês, sim — Archibald confirmou, com um brilho de esperança nos olhos. — E ela construiu uma mansão para os pais nos arredores da cidade. Majestade, ela não é mais uma "plebeia proibida". Ela agora tem o status necessário para frequentar a corte.

​Edmund caminhou até a janela. Ele viu o navio luxuoso ancorado no porto. Uma mistura de alegria avassaladora e dor profunda o atingiu. Ela voltara. Ela era nobre. Mas ele... ele ainda estava casado com Isabella.

​— O que eu fiz, Archibald? — Edmund murmurou, a voz carregada de arrependimento. — Eu me apressei em me acorrentar ao dever enquanto ela se tornava o que o mundo exigia.

​— O destino é um mestre cruel, Majestade — disse o conselheiro. — Mas ela está aqui. E agora, ela é uma igual aos olhos da lei.

​Naquela noite, o convite foi enviado. Um baile de recepção para a nova Baronesa de Valfenda. O Rei e a Rainha exigiam a presença dela no palácio. Edmund precisava vê-la. Ele precisava saber se, por trás das vestes finas da baronesa, ainda batia o coração da moça que quase o matara... e que o ensinara a viver.