O sol do entardecer banhava o jardim em tons de âmbar e ouro, criando sombras longas e dramáticas entre as estátuas de mármore. Diana caminhava devagar, sentindo a grama fresca sob suas botas de montaria, um contraste com a rigidez que o palácio exigia. Ela achava que estava sozinha, até que o som de passos ritmados sobre o cascalho a fez parar.


​Marcos Delavga aproximou-se com a naturalidade de quem pertencia àquele cenário. Ele não vestia a casaca formal da reunião; estava com uma camisa de linho fino e um colete escuro, as mangas levemente dobradas. Em uma das mãos, ele carregava um pequeno cacho de uvas roxas, tão escuras que pareciam pedras preciosas colhidas no orvalho.

​— Dizem que as uvas de Aethelgard são as mais doces do continente — começou Marcos, parando a uma distância que era, ao mesmo tempo, respeitosa e provocante. — Mas, observando-a caminhar sozinha por este jardim, começo a achar que a doçura do reino está concentrada em um único lugar.

​Diana, que sempre tivera uma resposta afiada para qualquer nobre, sentiu algo estranho: as palavras pareceram travar por um segundo. Ela olhou para as uvas e depois para os olhos azuis dele, que a fitavam com uma intensidade perturbadora.

​— O Conde é um mestre nas palavras, tanto quanto é nos negócios, ao que parece — ela respondeu, tentando recuperar seu tom travesso. — Mas cuidado, Delavga. Elogios vazios costumam murchar mais rápido que essas frutas.

​Marcos deu um passo à frente, colhendo uma única uva e estendendo-a na direção dela, segurando-a entre os dedos.

​— Não há nada de vazio em reconhecer a beleza que desafia o sol — ele sussurrou, a voz caindo para um tom mais grave. — Experimente. Foram colhidas agora mesmo. A menos, é claro, que a Princesa tenha medo de descobrir que algumas tentações valem o risco.

​Diana sentiu o coração acelerar. Pela primeira vez na vida, ela não sentiu vontade de revirar os olhos para um galanteio. Havia algo de genuíno, ou talvez perigosamente magnético, no modo como ele a olhava. Ela aceitou a uva, seus dedos roçando nos dele por um milésimo de segundo — um toque que pareceu queimar a pele.

​— Medo é uma palavra que não existe no vocabulário dos Kane, Conde — ela disse, após provar a fruta, mantendo o olhar firme no dele. — E você? Tem medo de quê?

​Marcos sorriu, um sorriso lento que não chegou totalmente aos olhos, onde o plano de sua mãe ainda lutava contra a realidade de estar diante dela.

​— Eu? Eu tenho medo de que este jardim seja pequeno demais para a imensidão que vejo em seus olhos, Diana — ele respondeu, usando o nome dela sem o título pela primeira vez. — E tenho medo de que, uma vez que eu prove da sua companhia, o café e o ouro do resto do mundo pareçam amargos demais.

​Diana soltou uma risada baixa, mas seu rosto estava corado. — Você é perigoso, Marcos Delavga.

​— O perigo é apenas o nome que os covardes dão à aventura — ele rebateu, inclinando a cabeça. — E você não me parece o tipo de mulher que se contenta com uma vida segura.

​Eles continuaram caminhando lado a lado, o silêncio entre eles agora preenchido por uma tensão nova e eletrizante. Diana, a menina que subia em árvores e fugia de bailes, sentia-se, pela primeira vez, capturada por uma rede feita de palavras doces e olhares profundos. E Marcos, enquanto observava o perfil dela contra a luz do poente, percebeu que o veneno que ele viera destilar estava, lentamente, transformando-se em algo que ele não sabia se queria parar de beber.