A noite em Aethelgard era silenciosa, mas a tensão dentro do palácio era quase palpável. Marcos Delavga estava em seus aposentos, terminando de analisar alguns mapas à luz de velas, quando a porta se abriu sem que ele tivesse dado permissão.

​Alexander Kane entrou. Ele não vestia a coroa, mas sua presença carregava todo o peso da autoridade real. Ele fechou a porta atrás de si com um estalo seco e caminhou até o centro do quarto, parando diante da mesa de Marcos.


​Houve um longo silêncio enquanto os dois jovens se avaliavam. Alexander tinha a frieza de Mellyssa e a postura defensiva de Adrian quando se tratava da família.

​— O café do Norte deve ser realmente excepcional, Conde — começou Alexander, a voz baixa e perigosamente calma. — Já que ele parece exigir que o senhor passe tanto tempo nos jardins privados com a minha irmã, em vez de estar nas salas de comércio.

​Marcos largou a pena e recostou-se na cadeira, mantendo uma expressão de serenidade calculada.

— A beleza dos jardins de Aethelgard é um convite difícil de recusar, Alteza. E a companhia da Princesa é... revigorante.

​Alexander deu um passo à frente, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se sobre o Conde.

— Vamos pular as formalidades, Delavga. Eu conheço homens como você. Homens que chegam com sorrisos ensaiados e promessas de ouro para distrair os Reis enquanto tentam roubar o que há de mais precioso neles. O que você quer com a Diana?

​Marcos sustentou o olhar do príncipe. Por um momento, a máscara do Conde Marcos vacilou, e a sombra de Lucca Lâfrer brilhou naqueles olhos azuis — um brilho de desafio que Alexander não soube identificar, mas que o fez tensionar os músculos.

​— Eu a acho uma jovem deslumbrante, Alexander — Marcos respondeu, sua voz ganhando uma sinceridade que ele mesmo começava a temer. — Ela é indomável, inteligente e, sim, estou encantado por ela. Não há crime em admirar uma obra-prima.

​Alexander soltou uma risada curta, desprovida de humor.

— Diana não é uma obra-prima para ser admirada por colecionadores. Ela é minha gêmea. Metade da minha alma. E se eu perceber que você está usando esse "encantamento" como um degrau para ganhar influência ou, pior, para brincar com os sentimentos dela...

​O príncipe suspirou, um som pesado, e sua expressão mudou para algo muito mais sombrio, lembrando a fúria que Adrian demonstrara anos atrás.

​— Tome muito cuidado com as intenções que tem com a Princesa — Alexander disse, cada palavra saindo como uma sentença. — Meu pai expulsaria você por decreto, mas eu? Eu sou muito mais paciente. Eu estarei de olho em cada passo que você der, em cada palavra que sussurrar no ouvido dela. Se você a fizer chorar, ou se eu descobrir que há uma única mentira por trás desse seu verniz de nobreza, o Norte ficará pequeno demais para você se esconder.

​Marcos levantou-se lentamente, ficando cara a cara com o herdeiro.

— O seu zelo é admirável, Príncipe. Mas o coração de uma mulher como Diana não é algo que você possa guardar em um cofre.

​— Eu não guardo o coração dela, Delavga. Eu guardo o caminho que leva a ele — Alexander retrucou, virando as costas e caminhando em direção à porta. — Durma bem, Conde. E lembre-se: em Aethelgard, as paredes têm ouvidos, mas os meus olhos estão sempre abertos.

​A porta se fechou, deixando Marcos sozinho com a luz vacilante das velas. Ele sentiu o coração bater forte. A ameaça de Alexander era real, mas o que mais o perturbava não era o medo de ser descoberto, mas o fato de que, quando dissera que estava "encantado" por Diana, aquela fora a única verdade que dissera desde que atravessara os portões daquele reino.

​O lobo estava sendo vigiado pelo cão de guarda, e o plano de vingança de Giulia estava se tornando um campo minado onde o amor e o ódio começavam a se confundir perigosamente.