A atmosfera no café da manhã real havia mudado drasticamente. Onde antes reinavam risadas e planos para o futuro, agora havia um silêncio cortante, interrompido apenas pelo tilintar das pratarias. Diana, sentada à mesa, não lembrava em nada a jovem doce de meses atrás. Seus olhos eram frios, e ela vestia roupas de montaria escuras, como se estivesse sempre pronta para uma guerra.


​Adrian observava a filha por cima de sua taça. Ele via nela o espelho de sua própria juventude mais sombria, a fase em que a dor se transformava em uma armadura de indiferença.

​— Soube que voltou tarde ontem, Diana — comentou Adrian, o tom neutro, tentando medir a reação dela. — O Capitão da Guarda mencionou que você estava acompanhada de um dos filhos do Barão de Ouro Preto.

​Diana levou a xícara de café aos lábios, sem pressa. Um sorriso de canto, desprovido de qualquer calor, surgiu em seu rosto.

— Ele é um excelente dançarino, pai. E um passatempo divertido para uma noite de tédio. Nada além disso.

​Mellyssa suspirou, deixando o talher de lado. O coração de mãe sofria ao ver a filha se entregando a prazeres vazios para não ter que enfrentar o vazio no peito.

— Diana, querida... você não precisa se forçar a essa vida. Esse comportamento, essas companhias... eles não vão curar o que aquele homem fez.

​— Curar? — Diana riu, uma risada seca que fez Mellyssa estremecer. — Eu não estou doente, mamãe. Eu estou acordada. O amor é uma doença que cega; a luxúria é apenas um contrato. Eu dou o que eles querem e eles me dão o que eu preciso: distração. Não há mentiras, não há planos de vingança. Apenas corpos. É muito mais honesto, não acha?

​Alexander, que até então permanecia em silêncio, interveio com a voz grave.

— Você está se tornando uma figura perigosa para a corte, irmã. O povo começa a comentar sobre sua "liberdade". Você é a Princesa Herdeira, não uma cortesã.

​Diana cravou os olhos no irmão, o brilho de desafio era quase insuportável.

— Eu sou o que a traição me tornou, Alexander. Se você se preocupa com a reputação do reino, cuide das fronteiras. Dos meus lençóis, cuido eu.

​O Contraste da Solidão

​Enquanto isso, nas entranhas do castelo, o ritmo era outro. Lucca terminou de limpar a última sela da cavalariça subterrânea. Suas mãos estavam calejadas, sujas de graxa e fuligem. Ele subiu para sua cela "privilegiada". Adrian, em um misto de culpa e reconhecimento, garantira que ele não vivesse como um bicho. Havia uma cama, uma pequena lareira que ele mesmo alimentava e pergaminhos que ele usava para escrever.

​Ele se sentou à pequena mesa, pegando a pena. Ele sabia o que acontecia lá cima. O eco dos escândalos de Diana chegava até os guardas, que faziam questão de comentar alto perto de sua grade para feri-lo.

​— Ela está com outro hoje, sabia, Lâfrer? — zombou um guarda enquanto entregava a bandeja de comida. — Um duque, dizem. Ela parece ter pressa em esquecer o seu toque.

​Lucca não respondeu. Ele apenas pegou o pergaminho e começou a escrever. Ele não escrevia cartas para ela — sabia que seriam queimadas. Ele escrevia a história deles, a verdade pura, como uma forma de manter a sanidade.

​"Ela beija outros para apagar o meu gosto," ele escreveu, as letras trêmulas. "Ela se entrega ao mundo porque eu roubei o mundo dela. Que ela queime o reino se for preciso para parar de sentir dor. Eu aceito o frio desta cela, se isso significar que o fogo dela ainda está aceso, mesmo que não seja para mim."

​Ele olhou para a pequena lareira. O calor ali era o único que ele teria. Ele era o prisioneiro bem cuidado, o segredo escondido sob os pés de uma princesa que tentava, desesperadamente, provar ao mundo que não tinha mais coração.

​Naquela manhã, o café real terminou com Diana saindo da mesa sem pedir licença, e Lucca terminando sua refeição solitária no escuro. Dois estranhos ligados por um crime, separados por um muro de pedra e um oceano de mágoa.