O dia amanheceu com um céu de chumbo, mas a Igreja de Santa Mellyssa estava decorada com as flores mais caras do reino. O burburinho na corte era um só: o herdeiro das rotas de café finalmente daria o seu nome a outra mulher.


​Horas antes da cerimônia, Diana entrou no quarto onde a Condessa de Valença terminava de ajustar o véu. A princesa não levava armas, apenas o seu deboche habitual e um olhar que atravessava a alma.

​— Um belo vestido, Condessa — disse Diana, circulando a noiva como um predador. — Mas olhe bem para o homem que estará no altar. Você terá o título dele, o ouro dele e o corpo dele em sua cama. Mas saiba de uma coisa: toda vez que ele fechar os olhos, é o meu rosto que ele verá. O coração dele é meu, e você será apenas a sombra que ele usa para tentar não sentir frio.

​A Condessa empalideceu, as mãos tremendo sobre o buquê de rosas brancas. Diana saiu com um sorriso vitorioso, deixando o veneno agir.

​O Altar Vazio

​Na igreja, Lucca esperava. Os minutos se transformaram em uma hora. O silêncio da congregação era sufocante. De repente, um mensageiro entregou um bilhete a Lucca. Ele leu as poucas palavras: "Não posso viver à sombra de uma princesa que ainda possui sua alma. O casamento está cancelado."

​Lucca não hesitou. Ele não chorou. Ele apenas amassou o papel e caminhou de volta ao palácio com passos que faziam o chão tremer.

​O Confronto Público

​Ele entrou no Salão de Cristal como um vendaval. Diana estava lá, encostada em uma coluna, segurando uma taça de vinho com um sorriso de triunfo nos lábios enquanto observava a confusão.

​Lucca avançou e, antes que ela pudesse dizer uma palavra, ele deu um tapa na mão dela, jogando a taça de cristal longe. O som do vidro estilhaçando contra o mármore silenciou o salão.

​— VOCÊ ESTÁ SATISFEITA AGORA? — Lucca rugiu, a voz ecoando pelas abóbadas. — Você destruiu a última chance de paz que eu tinha!

​— Eu salvei você de uma mediocridade, Lucca — Diana respondeu, tentando manter a pose, mas recuando diante da fúria dele.

​— CALADA! — ele gritou, aproximando-se a ponto de seus rostos quase se tocarem. — Você fala de traição, mas olhe para você! Você se tornou uma devassa, Diana! Se entregando a qualquer um nos corredores, manchando o nome da sua família só para provar que não sente nada! Por mais que eu tenha mentido no passado, eu nunca te desrespeitei. Eu nunca levei outra para a cama enquanto dizia que te amava! Eu vivi dez anos no escuro por você, enquanto você vivia na luz tentando se tornar o que há de pior nesta corte!

​— Você não tem o direito de me julgar! — Diana gritou de volta, as lágrimas de raiva começando a surgir.

​— Eu tenho todo o direito! Eu te amei quando você não era nada além de uma menina em uma árvore, e te amei quando você era a carrasca da minha cela! Mas você é covarde! Você prefere ser a "devassa de Aethelgard" do que admitir que ainda é humana!

​Eles se encararam, ofegantes, no centro do salão, cercados por nobres, pelo Rei e pela Rainha, que assistiam ao desmoronamento final. Diana estava trêmula, a máscara de deboche finalmente estilhaçada no chão junto com o vinho. A pressão de dez anos de ódio, desejo e negação explodiu em seu peito.

​— É PORQUE EU TE AMO, SEU IDIOTA! — ela berrou, a voz quebrada, o grito saindo como um lamento que rasgou o salão. — EU TE AMO E EU TE ODEIO PORQUE EU NÃO CONSIGO PARAR DE TE AMAR MESMO DEPOIS DE TUDO!

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. Diana cobriu o rosto com as mãos, soluçando violentamente, a confissão que ela jurara levar para o túmulo agora exposta diante de todo o reino.

​Lucca ficou estático. Seus braços, que estavam tensos para o próximo grito, caíram ao lado do corpo. A fúria desapareceu de seus olhos, dando lugar a um choque paralisante. Ele olhou para a mulher à sua frente — não a princesa devassa, não a herdeira gélida, mas a sua Diana, quebrada e sangrando a verdade no meio das cinzas do casamento dele. O mundo parou para os dois, enquanto o eco daquela confissão ainda vibrava nas paredes do palácio.