O silêncio que se seguiu à confissão de Diana foi mais ensurdecedor do que o grito. Lucca a olhou por longos segundos, mas não houve o abraço esperado, nem o beijo de reconciliação. Em vez disso, ele deu as costas e saiu do salão, deixando-a cercada pelos olhares da corte e pelo peso das próprias palavras.

​Horas depois, o som metálico de fivelas sendo apertadas ecoava nos aposentos de Lucca. Ele não chamara criados; ele mesmo jogava as roupas de linho e os documentos das rotas de café dentro do baú com uma pressa que beirava o desespero.

​A porta se abriu. O Rei Adrian entrou sozinho, sem a coroa, apenas um homem observando o outro.


​— Você vai fugir agora, Lucca? — perguntou Adrian, a voz grave e calma, encostando-se na ombreira da porta. — Logo agora que as cartas foram finalmente colocadas sobre a mesa?

​Lucca parou, as mãos apoiadas na borda do baú. Seus ombros subiam e desciam com uma respiração pesada.

​— Não é fuga, Majestade. É sobrevivência — respondeu Lucca, sem se virar. — Eu ouvi o que ela disse. Eu ouvi o grito dela. Mas as palavras não apagam os últimos dez anos. Elas não apagam o desprezo, as humilhações e os homens que ela levou para o quarto apenas para me ferir.

​Adrian deu alguns passos para dentro do quarto. — Ela fez tudo isso porque estava sangrando por dentro. Você, melhor do que ninguém, sabe o que o ódio faz com uma pessoa.

​— Eu sei! — Lucca virou-se bruscamente, o rosto marcado por uma angústia profunda. — Mas eu tenho medo, Adrian! Eu tenho um medo mortal de me entregar novamente. Eu passei uma década sendo o vilão, sendo o prisioneiro, sendo o homem que rastejava por um olhar dela. Eu não posso baixar a guarda e deixar que ela me destrua de novo na primeira manhã em que ela acordar de mau humor.

​Ele bateu com o punho no baú aberto.

​— O meu coração não é um tapete para ser pisado toda vez que ela se sente culpada! — continuou Lucca, a voz embargada. — Ela diz que me ama, mas o amor dela é um incêndio que consome tudo ao redor. Eu não sei se tenho forças para ser queimado mais uma vez. Eu prefiro a solidão do Norte, onde o gelo é previsível, do que o fogo de Diana que muda de direção conforme o vento.

​Adrian observou o genro. Ele via ali um homem que fora quebrado não pela masmorra, mas pela incerteza.

​— Você está livre para ir, Lucca. Eu te dei a minha palavra — disse o Rei, aproximando-se. — Mas saiba que, se você cruzar aquele portão hoje, estará selando não apenas o seu destino, mas o dela. Ela finalmente admitiu que você é a vida dela. Se você for embora agora, você não estará apenas protegendo seu coração; estará deixando-a morrer no escuro que você mesmo ajudou a criar.

​Lucca fechou o baú com um estrondo. O som pareceu um tiro de canhão no quarto silencioso.

​— Talvez seja melhor assim — sussurrou Lucca, pegando seu casaco de viagem. — Dois mortos vivos em reinos diferentes incomodam menos do que dois amantes que se destroem toda vez que se tocam.

​Ele passou por Adrian sem olhar para trás, a determinação de fugir daquela dor sendo a única coisa que o mantinha de pé. Mas, enquanto caminhava pelo corredor, a imagem de Diana chorando no chão do salão queimava em sua mente, tornando cada passo em direção à saída mais pesado do que as correntes que ele carregara por dez anos.