O Preço da Traição.
9 Entre Dúvidas e Questionamentos.
Notas iniciais
“Uma vida sem questionamentos, não merece ser vivida”, dizia Platão, mas, afinal, por que isso acontece? Qual é a grande questão por trás dos questionamentos que os tornam tão importantes e essenciais? Simples, o conhecimento se origina na dúvida e acredite isso não se aplica só na ciência. Todos nós, o tempo todo, somos afetados por crenças sociais, por regras que nem ao menos sabemos o motivo de existirem, mas seguimos. Seguimos porque todos seguem, porque vivemos em um grande bando, onde qualquer ser divergente é visto como um tipo de aberração, ou uma desordem no sistema em que estamos inseridos. Você já se pegou fazendo algo, que não sabia o motivo de estar fazendo? Como vestir um modelo de roupa, usar uma determinada forma de linguagem ou evitar dizer certa coisa. As regras estão ali. Escondidas em nosso dia-a-dia, como bactérias que não podem ser vistas a olho nu. No entanto, até mesmo bactérias podem ser enxergadas quando olhadas da devida forma e o mesmo se aplica a essas regras. A tudo isso, toda essa massa dominante, o questionamento representa uma ameaça, pois nem sempre há argumentos para respondê-los.
Você precisa exercer uma profissão que lhe dará um bom retorno financeiro. Sim, mas por quê? Por que não posso trabalhar com algo que gosto, independente do retorno financeiro existente ali? Por que o retorno econômico é mais importante que o prazer? Você deve se casar cedo. Sim, mas qual o motivo? Ser casada nos torna mais mulher, ou doma nossa natureza feminina? Você deve respeitar os tabus, algumas coisas não devem ser ditas. Certo, mas onde isso se origina? Por que assuntos como sexo, homossexualidade, religião e preconceito são errados? Ou será que o questionamento representa uma ameaça àquilo que é errado, mas ainda assim permanece protegido por uma camada social e se apresenta como certo?
— Mãe! Acorde — Henry beijou-me a bochecha e se deitou ao meu lado, como fazia quando era apenas uma criança.
— Olá, querido — abri os olhos com demasiada dificuldade, lutando para me adaptar à claridade matinal — que horas são?
— Quase oito, mas você precisa levantar, pois vamos a um lugar e você acabará nos atrasando — ele se sentou na cama e esperou que eu fizesse o mesmo.
— Com “nós” você quer dizer...
— Eu, você e Emma — ele sorriu de uma forma que todo o meu coração se iluminou.
— E eu posso saber desde quando você e a senhorita Swan planejam coisas pelas minhas costas? — ergui uma sobrancelha e o encarei, mas seu sorriso pareceu dobrar de tamanho.
— Mãe, você não precisa se referir à Emma dessa forma na minha frente — ele ergueu uma mão, como quem declara o óbvio — eu sei que você gosta dela e... — ele se aproximou, beijando-me a bochecha — ela também gosta de você!
Antes que eu pudesse responder ou reagir de qualquer maneira, ele desceu da cama e correu para fora do quarto, deixando-me para trás com um sorriso bobo nos lábios e um rubor marcando o rosto. Levantei-me da cama, já que as decisões foram tomadas sem mim, restava seguir os pedidos até descobrir o destino daquilo tudo. Mal fechei a porta do quarto e deparei-me com Lily saindo do seu, sendo seguida por um rapaz, que com certeza era mais velho do que ela.
— Lily! — chamei sua atenção, que me olhou com certo espanto, mas não tardou a recompor sua expressão de indiferença — você pode me explicar o que significa isso? — apontei para o rapaz, que olhava-me com certa surpresa.
— Ele é meu namorado — ela revirou os olhos — faça o favor de não se meter — ela se virou para descer, mas segurei seu braço, impedindo-a de continuar.
— Saia daqui — olhei para o rapaz, que recuou alguns passos antes de praticamente correr. Voltei minha atenção para Lily — eu vou falar apenas uma vez e espero que você entenda. Eu não quero seus amiguinhos dentro da minha casa! Deus sabe o quanto me dói Lily, mas eu já abri mão de tentar compreendê-la. Você quer ser inconsequente? Que seja. Longe da minha casa. Porque, acredite, você não sabe do que eu sou capaz.
Soltei seu braço e recuei, ainda encarando seus olhos, que estavam assustados. Dei as coisas a ela e subi novamente para meu quarto, encostando-me na porta e respirando fundo. Olhei para um ponto fixo em minha estante, onde um porta retrato levava a foto de minha família, quando ainda podia ser considerada uma família. Geralmente eu me perguntaria inúmeras coisas. Onde eu errei? O que deixei de fazer? O que preciso mudar? Contudo, será que só eu errei? Será que só eu deixei de fazer coisas? Será que só eu preciso mudar? E ainda que precise, a mudança vale a pena? Precisa ser em prol deles? Não, não precisa. Depois de anos eu percebi que mudar em função de outras pessoas é uma atitude errônea e repetitiva. A mudança só funciona até certo tempo, logo outras são necessárias, pois as pessoas nunca se satisfazem. No final das contas, a única mudança verdadeira é a que acontece internamente. Não por outras pessoas. Por si próprio.
— Henry! — sai de meu quarto, já devidamente vestida — onde você está?
— Aqui em baixo — segui o som de sua voz, encontrando-o no jardim da frente.
— Henry, o que você... — ergui o olhar, encontrando os intensos olhos verdes e o sorriso que desarmava-me por completo — Emma.
— Olá, Regina Mills — ela sorriu, caminhando em minha direção e beijando-me o rosto — você está linda, mas terá que trocar de roupa.
Olhei para o vestido vermelho que trajava, em busca de algum defeito que denunciasse o motivo de Emma ter dito aquilo, mas nada encontrei.
— Por que? — ergui uma sobrancelha, demonstrando meu desentendimento.
— Porque...
— Nós vamos jogar baseball! — Henry ergueu as mãos, batendo nas de Emma.
— E é assim que sou informada? — cruzei os braços e encarei os dois, que recuaram diante do meu olhar — dessa maneira impositiva? — os olhares pidões se reproduziam no rosto de ambos, como se convivessem há anos e compartilhassem das mesmas manias.
— Mãe, por favor... — Henry abraçou-me o lado direito do corpo.
— É Regina, por favor — Emma abraçou-me o lado esquerdo — você vai se divertir, vamos comer besteiras e rir do Henry.
— Por que rir de mim? — ouvi o tom ofendido de Henry e gargalhei.
— Por que nós vamos ganhar e você vai perder — Emma o provocou, como uma criança. Encarei o rosto de ambos com completa descrença.
— Certo e o que os jogadores profissionais sugerem que eu vista para essa partida emocionante? — Emma ergueu os braços, comemorando vitória e abraçando Henry.
— Eu não conheço todas as suas roupas, Mills. Terei que ir lá em cima escolher — Emma ofereceu-me o braço — vamos logo — olhei para seu braço e logo em seguida para Henry, que parecia se divertir com aquela situação.
— Eu vou me arrepender disso — cantarolei enquanto aceitava seu braço e a guiava até meu quarto.
Mal passamos pela porta e Emma me encostou contra a parede, unindo seus lábios ao meu em um beijo cheio de significados. Carinho. Saudade. Desejo. Apresentavam-se ali a cada movimento, a cada troca de gestos. Nossas bocas se separaram, mas ela manteve as testas unidas. Abri os olhos a tempo de vê-la sorrir.
— Bom dia, meu amor — um arrepio se espalhou por todo o meu corpo diante daquilo.
— Bom dia, querida — toquei seus lábios novamente, buscando por iniciar um novo beijo.
No entanto, Emma nos separou, olhando-me com reprovação.
— Mas que depravada, Regina Mills. Veio aqui, inocentemente, lhe ajudar e é assim que me recebe? Abusando de minha boa vontade? — gargalhei diante de sua expressão ofendida.
Ela se virou, caminhando em direção ao meu closet. Analisou cada prateleira, ignorando as roupas de Daniel, que ficavam dispostas do lado esquerdo.
— Eu não acredito que você tem um moletom do Mickey! — ela ergueu a peça à minha frente.
— Eu não vou vestir isso — apontei para a roupa.
— Ah você vai sim, Regina Mills — Emma virou-se — com isso aqui e isso aqui — apontou para o jeans que segurava na mão esquerda e o all star azul que pendia em sua mão direita.
— Sabe há quantos anos eu não saio de casa vestindo esse tipo de roupa? — ergui uma sobrancelha, olhando-a de forma desafiadora. Ela deu de ombros e beijou-me os lábios.
— Você pode ser a doutora sensual com seus jalecos brancos, pode ser uma mulher séria com todos esses vestidos, ternos e saltos, mas também pode ser a Regina que jogará baseball com seu filho e a sua... — Emma travou, olhando-me com certo receio.
— A minha? — incentivei que continuasse, pois a curiosidade por saber o que ela se considerava me corroeu.
— Sua... — ela andou até mim, encostando-me contra a parede e prendendo suas mãos a minha cintura — sou o que você quiser que eu seja, Regina.
Selei seus lábios novamente, enquanto suas mãos subiam por minhas costas, apertando meu corpo contra o seu. Prendi as mãos em suas madeixas loiras, enquanto Emma depositava beijos por toda a extensão de meu pescoço.
— Você precisa tirar isso — senti seus dedos brincarei com o feixe de meu vestido.
— Você pode fazer isso — ela sorriu, e virou-me em seus braços.
Apoiei-me contra a parede, enquanto Emma puxava-me pela cintura, colando minha bunda a sua virilha. Mordidas foram dadas em meus ombros e pescoço. Conforme o zíper era aberto, Emma depositava beijos em minha pele, fazendo com que uma onda de arrepios passasse por todo o meu corpo. Abaixei a cabeça, deixando que meus cabelos cobrissem o rosto e me permiti gemer fraco. Emma puxou-me novamente, colando-se por completo em mim. Abaixou meu vestido e eu permiti que ele caísse, deixando-me apenas com a lingerie vinho. As mãos de Emma subirem pelo meu abdômen, indo de encontro aos meus seios.
— Mãe! Emma! — a voz de Henry nos despertou, fazendo com que nos afastássemos — vocês vão demorar? Eu estou com fome!
— Céus! — Emma abanou o próprio rosto, enquanto eu lutava para controlar a respiração.
— Céus! — repeti sua fala e sorrimos.
— Moletom do Mickey! — ela apontou para a peça, que agora estava caída ao chão — e ai de você se descer sem ele.
— O que fará, Swan? — olhei-a de forma desafiadora.
— Não queira saber, Mills! — Emma tocou-me os lábios rapidamente e saiu logo em seguida, indo atrás de Henry.
Eu dirigia, enquanto Emma indicava o caminho por onde devia seguir. Vez ou outra ela e Henry engatavam em uma discussão a respeito de filmes, séries, bandas ou jogos. Eu me permitia sorrir com aquilo e com o prazer de tê-los ali. O conforto de suas palavras, o bem estar existente em cada gesto. Era incrível o quanto se davam bem, mesmo tendo se conhecido há tão pouco tempo. Emma sabia as palavras certas para provocar Henry, tal como ele a provocava. Algumas vezes, de maneira inconsciente, sua mão pousava em minha coxa e ela sorria. Aquele maravilhoso sorriso que seria capaz de iluminar até a noite mais escura.
— Toma isso — Emma colocou um boné vermelho em minha cabeça.
— Você me obrigou a vestir um moletom do Mickey, all star e jeans. Preciso mesmo desse boné? — ela pareceu pensar por alguns segundos.
— O que você acha, Henry? — ela gritou para que ele ouvisse, já que Henry corria no meio do grande campo onde estávamos.
— Dra. Regina Mills — Henry cruzou os braços e me olhou, lutando para se manter sério — você está o estilo em pessoa, deveria trabalhar assim todos os dias.
— Henry Mills — cruzei os braços, imitando sua posição e o encarei — eu acho bom que você corra mocinho.
Parti em direção a ele, que correu, mas não rápido o bastante. Henry caiu sobre a grama verde, gargalhando, enquanto eu fazia cócegas em sua barriga. Há quanto tempo eu não brincava com meu filho e não o via sorrir dessa forma? As coisas que eu estava colocando a frente disso eram realmente mais importantes?
— Emma! Socorro! — olhei para Emma, que vinha correndo em nossa direção.
— Agora! — ela gritou e senti meus braços serem presos.
Henry se sentou sobre minhas coxas e atacou-me a barriga, enquanto Emma prendia meus braços. Lutei para manter a expressão séria e não sucumbir ao riso que tomava-me, mas falhei. Falhei e nunca fora tão bom falhar. Entreguei-me ao prazer de gargalhar, enquanto lutava para me desprender dos braços de Emma.
— Diga que nós somos os melhores, Regina Mills — Emma falou em meio a risos.
— Vocês são... — tentei parar de rir para completar — vocês são os melhores!
— Diga que você nos ama! — Henry gritou, enquanto continuava a fazer-me cócegas.
Pude sentir os braços de Emma diminuírem a pressão e eu sabia que o sorriso havia sumido de seu rosto.
— Eu... — respirei fundo, soltando-me dos braços de Emma e segurando os de Henry, impedindo-o de continuar. Sentei-me na grama e encarei os dois — eu amo vocês.
Encontrei os olhos verdes, aqueles intensos olhos verdes, encarando-me com demasiada sinceridade. Emma mordeu o lábio inferior e sorriu, abraçando-me em seguida.
— Eu sei — Henry suspirou — somos muito amáveis — e se juntou ao abraço, deitando-me novamente na grama.
Henry beijou-me o rosto, enquanto Emma manteve seu rosto escondido em meu pescoço. Logo Henry nos soltou e caminhou até o carro, mas pude notar um sorriso travesso em seus lábios. Acariciei os cabelos de Emma, apertando-a contra mim. Quando ergueu a cabeça, algumas lágrimas desciam por seu rosto, mas ela tratou de secá-las. Olhou para Henry, vendo que o mesmo pegava algumas coisas dentro do carro. Ela encarou-me novamente, agora com um sorriso nos lábios. Acariciou-me o rosto, beijando-me com tamanha delicadeza.
— Você será a minha ruína, Regina Mills — sorri em resposta, retribuindo seu beijo.
— Deus nos ajude então, Emma, pois você será a minha — abracei-a novamente e ela se levantou, comigo em seus braços.
Colocou-me com cuidado no chão e caminhamos juntas em até o carro, onde Henry retirava os bastões.
— Está pronto para perder, garoto? — Emma cutucou seu ombro e ele a olhou com uma expressão de falsa raiva.
Após quedas, gritos, pontos de Henry, pontos de Emma e a exaustão completa do meu corpo, o dia chegou ao fim, deixando para trás um enorme desejo de repeti-lo inúmeras vezes. Henry dormia no banco de trás, enquanto íamos em direção a casa de Emma. Eu discordei de inicio, mas era realmente difícil resistir aos pedidos e expressões sôfregas dos dois. Então, eu acabei cedendo e não me arrependo nem um pouco de tê-lo feito. Emma retirou Henry com cuidado, segurando em seus braços. Observei os músculos de Emma, que saltavam em consequência do esforço feito.
— Gosta do que vê, Regina? — provocou, lançando-me um beijo.
— Você não imagina o quanto — abri a porta, permitindo que entrasse.
Ela colocou Henry no quarto de hospedes e me puxou em direção ao seu quarto. Indicou para que eu me sentasse na cama e aguardasse. Não demorou para que Emma voltasse de seu closet com uma caixa de veludo em mãos. Ela sentou a minha frente e sorriu, era notável o quanto estava insegura.
— Regina, eu... — ela inspirou — eu congelei hoje mais cedo, quando você disse que amava a mim e ao Henry. Eu não sei o quanto daquilo foi verdade, não sei se você estava brincando e eu rezo para que não esteja. Eu sempre fui solta, nunca quis pertencer a um lugar ou a alguém, mas eu quero... — ela sorriu fraco — eu preciso pertencer a você. Acredite, eu já pertenço. Só espero que você me aceite e que queria pertencer a mim também.
Lágrimas queimaram-me o rosto no momento em que Emma abriu a caixa, revelando uma corrente dourada, que possuía um fino pingente em formato de coração. Em seu interior era possível ver o desenho de um cisne, gravado ao ouro.
— A você — ela sussurrou — o meu coração.
Toquei com a ponta dos dedos o metal fino e sorri para Emma, assentindo com a cabeça, já que me faltavam palavras para dizer o quanto eu queria pertencer a ela, o quanto eu já pertencia. Ergui os cabelos para que ela colocasse o cordão em meu pescoço e ela o fez, beijando-me a nuca. Beijei-te, sentindo o gosto dos seus lábios, do seu beijo, que embriagava como nenhuma bebida jamais fez. Emma nos deitou, posicionando-se por cima de mim e aprofundando o beijo. Suas mãos invadiram meu moletom, tocando-me a pele e causando arrepios deliciosos por todo o meu corpo. Abracei sua cintura com as pernas, puxando-a para mais perto e acabando com qualquer distância entre nós. Emma ergueu minha blusa até a altura dos cotovelos, mas algo a fez parar.
— Emma! — o grito de Henry fez Emma gargalhar, diante da minha expressão de desapontamento — eu estou com fome!
— O seu filho é um poço sem fundo — ela sussurrou, beijando-me os lábios e levantando da cama.
— Ele não comia tanto antes de te conhecer, acho que a culpa é de certa loira — joguei meu moletom em sua direção, que negou com a cabeça e saiu do quarto. Deixei-me cair sobre o colchão e suspirar — Ah Emma Swan, o que você está fazendo comigo?
***
O relógio marcava exatas dezoito horas da tarde. Emma e Henry estavam juntos e eu me roía de curiosidade para saber o que os dois passaram o dia todo fazendo, enquanto eu trabalhava. Faltava pouco para a hora de sair e eu podia jurar que estava contando os minutos. O som do elevador chamou minha atenção e acabei sorrindo com a possibilidade de serem os dois. Virei-me na cadeira, ficando de costas para a porta. Passos ecoaram pelo consultório e pude ouvir quando pararam, então me virei.
— Daniel — o sorriso cresceu no rosto de meu marido, mas se tornou extinto no meu — o que faz aqui?
— Eu voltei mais cedo, Regina — ele abriu os braços — não gostou da surpresa?
— Bom — limpei a garganta e me levantei — eu não estava te esperando hoje.
— Regina... — ele suspirou, aproximando-se de mim — eu passei esse tempo todo longe e essa distância foi horrível, mas também me serviu para muitas coisas. Servi para que eu notasse o quanto estamos errando, mas também para me mostrar que eu ainda quero estar aqui, que eu preciso de você e que você precisa de mim — olhei para ele, não acreditando naquilo, principalmente quando Daniel se ajoelhou — eu peço desculpas por todos os meus erros e te desculpo pelos seus. Vamos voltar a ser aquela família incrível que já fomos um dia. Você aceita, Regina? Aceita tentar novamente? — sua mão se abriu, revelando uma pequena caixa, onde um anel brilhava.
O meu mundo parou por alguns instantes. Eu não olhava para Daniel. Eu nem se quer o enxergava. Os meus olhos estavam presos a figura que me encarava por trás da porta de vidro. Aos olhos verdes que lagrimavam sem controle algum. Emma observava a cena em silêncio. Ela negou com a cabeça e saiu, deixando-me para trás com o peso de uma decisão que mudaria tudo.
Quando você questiona, uma dúvida é plantada e inicia-se uma busca por resposta. Quando situações são questionadas, quando decisões são questionadas, quando o mundo, o seu mundo, é balançado em busca de explicação, as coisas mudam. Muda porque nem tudo é aceito. Muda porque a dúvida gera o conhecimento, o conhecimento de si próprio. Muda porque diante de questionamentos, os argumentos são necessários e, como já vimos, nem sempre eles existem e se existem, podem muito bem contrariar aquela verdade que se apresenta como soberana. Quando isso acontece, quando regras vazias são tombadas, quando os desejos são posto a frentes, quando respostas verdadeiras são buscadas, uma revolução interna acontece. Quando questões não têm respostas, o não se consolida e a única consequência é a libertação de uma regra sem base que antes lhe prendia, sem que você nem ao menos soubesse o porquê.
— Não, Daniel — suspirei — eu não aceito.
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