O Poema Dos Surdos

9 "Como eu estou vivo...?" - por Matthew Williams


Notas iniciais
A "pequena" redação que o Matthew escreveu para Francis contando sua história. Boa Leitura!

"Como eu estou vivo...?

Sabe, Francis, eu passei por tantas coisas ruins que fica ruim eu listar para você qual foi a pior. Depois da nossa ida ao cemitério, eu vejo como é necessário eu escrever o que aconteceu comigo para eu tentar entender o que aconteceu com você. Acho que assim eu conseguiria tornar esse meu trabalho de tutor um pouco mais fácil. Mas quero alertá-lo que tudo que eu escrever aqui fique apenas entre a gente. Isso é extremamente pessoal, e eu apenas compartilho com quem eu acredito ser de confiança.

Enfim, eu nasci de um casal de classe baixa, que por um erro da parte deles eu acabei nascendo. Desde pequeno, eu sempre fui renegado por eles. Quem me deu leite durante a minha formação, foi uma enfermeira da maternidade pública de onde eu nasci. Obviamente, eu nunca pude ouvi-los, mas eu via suas expressões de fúria e sua agressividade entre eles e comigo. Tenho marcas espalhadas por todo o meu corpo até hoje, e a pior foi a facada que eu levei na barriga quando tinha uns 4 anos de idade. Por que eles esfaqueariam uma criança de 4 anos? Até hoje eu não sei.

Minha progenitora era uma prostituta da pior forma da palavra. Meu pai era seu cafetão, mas sempre acabavam brigando por causa de clientes. Ambos eram viciados e viviam para pagar as drogas. Cresci vendo vários homens e mulheres entrando naquela casa improvisada e praticando inúmeras obscenidades com minha mãe biológica. Chegou a um ponto de um dos clientes apontar para mim e olhar com uma cara excitada.

Eles só perceberam que eu era surdo quando cheguei aos meus 3 anos, e tentaram viver comigo do mesmo jeito durante um ano inteiro, mas esse, com certeza, foi o ano que eu mais me machuquei em suas mãos. E não aguentando mais lidar com uma criança indesejada e surda, eles me largaram na rua. Levei apenas um livro de histórias velho e um cobertor com o meu nome gravado que ganhei da maternidade.

Eu perambulei pela cidade por alguns meses, vivendo de comida do lixo e morando em parques ou no fim de alguma rua fechada. Pessoas me agrediram, me estupraram e me fizeram provar vários tipos de drogas... e eu tinha apenas 5 anos.

Das vezes que eu estava muito ruim, vinha alguma alma bondosa para me levar ao hospital público e ficava comigo até eu melhorar. Nunca descobri quem eram essas pessoas, mas fico feliz que elas tenham feito isso comigo quando eu estava na pior. E foi indo aos hospitais, com essas pessoas, que eu fui aprendendo como a vida pode ser absurdamente irônica. Toda vez que eu levava alta do hospital, eu fugia. Não aguentava mais ficar perto de adultos, pois eles me davam medo. Então você pode concluir que até os meus 6 anos eu vivi na rua por escolha própria.

Não pensava mais em nada a não ser morrer. Não aguentava não ser amado, ser marginalizado. Tentei me jogar na frente de alguns carros para ver ser morria, mas eu só conseguia machucados. Me joguei de árvores para ver se assim eu iria de uma vez, mas apenas quebrava alguma coisa. Eu estava perdendo toda a minha sanidade.

Pensei que viveria assim para sempre, até encontrar a Maddie. Eu estava no parque, brincando com alguns pombos, todo sujo e esfarrapado, e foi quando Maddie apareceu. Ela queria brincar comigo. Naquela época, ela deveria ter uns 5 anos, mas já sabia a língua de sinais. E a minha reação de quando ela falou comigo em língua de sinais foi a mesma que sua. Eu não entendia nada. Não sabia explicar porque ela movimentava as mãos na minha frente. Mas ela insistiu e me fez, de algum jeito, que eu brincasse com ela naquela tarde.

E foi assim todos os dias, durante alguns meses, dela indo me ver no parque, para brincarmos. Até que eu conheci seus pais, e eles foram tão gentis quanto ela. Não levou muito tempo para eles perceberem que eu era surdo, e então foram na justiça para terem a autorização para me adotar. E fizeram de tudo para eu me alfabetizar nas duas línguas. Me ensinaram, primeiro com a língua de sinais, e depois aprendi a escrita das pessoas oralizadas. Fizeram esse processo de educação comigo por 3 anos, que foi meu tempo de convivência com eles.

Soubemos, depois, que Maddie tinha uma infecção no coração, e que se não ocorresse nenhum transplante, ela iria morrer. Meus professores e eu ficamos em desespero, pois deveria ser compatível o órgão. Só sei que no fim, o meu era compatível com o dela.

A primeira coisa que fiz foi dizer que não me importava em morrer, pois eu já estava morto a muito tempo. Por tudo que eu passei, por não ter feito nada por ninguém, e só ter causado problemas, que ela podia pegar meu coração para poder viver. A prior, ela agradeceu e não falou mais nada. E no dia da operação, ela veio me falar que não importava o que acontecesse, que ela me amava muito e que eu não tinha morrido, e sim renascido.

Fui sedado, ao lado dela, mas apenas eu acordei. Não haviam retirado meu coração, apenas me sedaram para não me falarem o que iriam fazer. O coração que iriam dar a Maddie não era meu, mas de algum doador da lista, e infelizmente, a cirurgia não deu certo, e Maddie veio a falecer do mesmo jeito. Quando eu soube disso, eu quis bater em todos os médicos, mas minha professora falou que Maddie não queria sacrificar a minha vida, pois eu havia conseguido uma nova chance.

Eu tinha uns 9 anos quando isso aconteceu, e tentei seguir a vida com meus professores por mais um tempo. Mas a perda da Maddie, para eles, foi maior do que eu esperava. Eles eram ouvintes, e tinha certas coisas que eu não compreendia quando falavam, mas das que eu consegui entender, eu lia a palavra “suicídio” saindo de seus lábios. E foi quando eu já estava para completar meus 10 anos que eu descubro que os dois se enforcaram para reencontrar Maddie.

Se fossemos seguir a bíblia, eles iriam para o inferno e Maddie estaria no céu. Mas eu ainda continuo aqui, sem nenhum dos 3 ao meu lado. A única coisa que eles me deixaram foi a língua de sinais. Toda vez que eu utilizo dela, eu me lembro do tempo e paciência que eles tiveram para me ensinar. Mas no fundo, eu agradeço a Maddie, por me dar duas chances de viver.

Eu precisava compartilhar isso com você, Francis. Acho que no mínimo, você exigia uma explicação por minha parte. Perdão todo esse transtorno.

Obrigado por ler.

Matthew Williams"

Notas finais
Na verdade, eu pretendia postar essa redação no fim da fic, mas acho que algumas coisas que eu fosse explicar lá na frente iriam ser bem confusas se vocês acabassem não lendo isso. A prior, eu ia colocar todos os detalhes de como foi a vida do Matthew desde criança. Sim, eu iria narrar as partes de estupro e violência, mas achei que iria ficar muito mais pesado se eu colocasse TODOS OS DETALHES. Então resolvi só mencionar mesmo. Quem sabe, eu faça um spin-off sobre a vida dele em uma outra fic, mas por enquanto, aproveitem a redação! E não me matem pelos feels!!! PLS!!!