O Poema Dos Surdos
10 Estrofe III (Parte 2)
Notas iniciais
Minha cabeça estava doendo, minhas narinas estavam irritadas, minha garganta estava seca. Tudo o que eu não queria sentir naquela hora eu estava sentido. Saí correndo para o meu quarto e acabei levando os pães comigo, eu precisava comer. Tranquei a porta para que Matthew não me perturbasse, e busquei o resto dos cigarros e da bebida que estavam no meu armário. Fumar, comendo pão e bebendo vodca, era o melhor encerramento da tarde. Sentei no chão e apoiei minhas costas na porta, com minhas duas mãos ocupadas de cigarro e uma garrafa de vidro.
A junção de todos esses sabores e cheiros me fez ter náuseas, pois tudo aquilo era horrível. Comecei a tossir por ter me engasgado com os farelos e a lacrimejar pelo forte sabor e odor daquela bebida. Se Matthew me visse agora, ele iria utilizar de todos os sinais que eu desconheço para me repreender. Pegaria meu cigarro, e jogaria na rua. Se ele tivesse mais coragem, até daria um tapa no meu rosto. Meus risos internos começaram a ganhar vida e sair de minha mente para ecoar pelo quarto. E junto com eles, as vibrações da porta de madeira. Matthew batia na porta na falha tentativa de me fazer abri-la.
Continuei a fumar e a beber, esperando que ele fosse embora, mas parecia que ele não iria desistir. Quando me viro para o lado, percebo que ele me passa uma folha de papel pela fresta da porta. Ele queria que eu fosse jantar com ele e que parasse de fumar, pois estava sentindo o cheiro. Olhei o papel por algum tempo, e ri mais alto. Me virei de joelhos para a porta trancada, abaixei as minhas calças e coloquei meu pau em frente a ela. Comecei a me masturbar, querendo sujar aquela folha inteira. Derrubei vodca e cinzas de cigarro nela também.
Só me lembro que quando eu terminei de fazer isso, eu deitei no chão frio, largando o resto do toco de cigarro, e rindo que nem um idiota, que o meu pior estado tinha voltado. Minha sanidade tinha acabado e minha loucura dava o ar de sua graça. Poucos segundos naquele beco me fizeram lembrar das sensações que o meu corpo necessitava. E foi daquele jeito, estirado ao chão, que eu desmaiei.
xXx
Devo ter acordado umas duas da madrugada, e percebo que tinha formigas e baratas ao meu redor. O pão que tinha comprado ficou sendo o banquete delas. Me levanto, e vejo uma poça pegajosa perto da porta. Minha cabeça doía demais, e eu precisava lavar o rosto. Quando destranco e abro a porta, olho para o chão e vejo um prato de comida em cima de uma toalha, que também foi atacado pelas formigas, e virando o rosto, vejo que Matthew adormeceu perto da porta.
Por alguma razão, ao olhar para ele, eu fiquei irritado. Já não queria que ele ficasse por perto, e chutei aquele prato de comida para tentar extravasar a raiva. Me abaixei para ficar da altura dele e peguei com força o seu pescoço. Fiquei virando seu rosto para ambos os lados algumas vezes antes de joga-lo ao chão completamente. Quando eu fiz isso, fiz com que ele acordasse e sentisse uma pequena falta de ar. Ele viu que a comida que ele tinha deixado para mim estava toda espalhada, e logo se levantou e correu em minha direção.
Ele ficava segurando meu braço, querendo chamar a minha atenção, mas eu não queria ele por perto. Fui até a sala, onde Matthew deixava suas coisas, e comecei a procurar sua carteira. Eu precisava de dinheiro, pois sabia o que iria comprar e onde ela estaria. Vendo que eu não estava normal, Matthew se colocou na minha frente e pegou sua carteira, fez o sinal de “Não” e começou a guardá-la.
Fiquei irritado com isso, e puxei sua bolsa e segui em direção a porta. Ele correu mais rápido e bloqueou a minha passagem. O encarei por um tempo antes de dar um forte tapa em seu rosto e disse para ele sair da frente. Ele só colocou a mão sobre a vermelhidão em sua bochecha, mas não saiu do caminho. Me irritei mais e dei outro tapa. E mais uma vez ele repetiu o ato anterior. Então usei minhas duas mãos para segurar-lhe o pescoço e o aproximei do meu rosto para ofende-lo inúmeras vezes. Visivelmente, ele estava com uma tremenda falta de ar, mas o que me surpreendeu foi o que ele fez depois.
Ele levantou suas mãos, e puxou com força meus cabelos, me fazendo o soltar, depois ele deu um forte tapa no meu rosto e me empurrou para que eu perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Quando eu olhei para cima, pude ver que ele estava chorando e vi seus lábios mexerem. Nunca fui um perito em leitura labial, mas ele estava dizendo meu nome. Recebi outro tapa dele que me fez virar o rosto e colocar a mão no lugar onde ele bateu. Vi que ele se ajoelhou para ficar da minha altura e depois me abraçou.
“Me perdoe... me perdoe por não ser confiável.”
Ele continuou me abraçando, e me abraçava forte. Era como se ele não quisesse que eu fosse embora. E por causa do que ele fez, um pouco da minha consciência voltou, e eu comecei a acariciar seus cabelos, e o cheiro dele começou a tomar conta de mim, como naquela noite. Ele soluçava enquanto me abraçava, e o meu coração foi ficando cada vez mais apertado enquanto ele fazia isso. Quando eu me dei conta do que acabara de fazer, eu não estava pronto para encará-lo, principalmente enquanto ele estivesse chorando.
Matthew apoiou suas mãos nos meus ombros e se afastou, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e me encarou. Seu rosto estava vermelho, tanto por causa do choro, quanto por causa dos tapas que eu o tinha dado. Seu pescoço tinha as marcas dos meus dedos, e era bem provável eu ele estivesse com algum roxo debaixo da roupa. Eu abaixei a cabeça pois tinha vergonha do que tinha feito. Não tinha como pedir perdão pelo meus atos.
Mas Matthew, queria que eu olhasse para ele, pois usou suas duas mãos para erguer meu rosto e poder encara-lo. E ironicamente, ele estava dando um pequeno sorriso. Eu queria muito perguntar o motivo dele estar sorrindo depois de tudo aquilo, mas eu não tive como fazer isso. Não tive tempo nem de pensar direito quando ele me fez encará-lo, pois não levou nem meio segundo para que eu e ele nos aproximássemos para nos beijar. Ele me abraçou enquanto me beijava e estava chorando. Senti suas lágrimas encostarem na minha bochecha, e quando nos afastamos, ele se apoiou no meu peito e não queria mais sair de lá.
Naquelas circunstâncias, era pouco provável que algo assim acontecesse, mas quando ele me puxou para encara-lo, parecia o mais ideal a se fazer. Eu fiquei sentado com ele, no meio do corredor, o abraçando, e falando alto que eu nunca mais iria deixar aquilo acontecer.
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