O PESO DE UMA PROMESSA
7 CAPÍTULO 7 - Quarenta por Cento
— Quero a guarda do meu sobrinho.
O advogado não respondeu imediatamente.
Apenas retirou os óculos, colocou-os sobre a mesa e olhou para Irina Cullen.
Depois para Edward.
— Guarda definitiva?
— Sim — Edward respondeu.
Irina corrigiu:
— Nós queremos cuidar dele.
O advogado tornou a olhar para ela.
— Seth Grey tem cinco anos?
— Cinco e meio.
Irina não sabia por que sentiu necessidade de corrigir.
Talvez porque Salomon sempre corrigisse.
Ele já tem cinco e meio, Irina.
Engoliu em seco.
— E atualmente está com Jacob Black? — perguntou o advogado.
Edward assentiu.
— Desde o acidente.
— Qual é o parentesco?
— Jacob é irmão da mãe.
— E a senhora é irmã do pai.
— Sim.
O advogado juntou as mãos.
— Existe testamento? Alguma indicação formal dos pais sobre quem deveria assumir a criança em caso de falecimento?
Edward e Irina se entreolharam.
— Estamos verificando — Edward respondeu.
— Isso é importante.
— Mas não impede o pedido.
O advogado analisou Edward por alguns segundos.
— Não.
Irina inclinou-se.
— Eu sou tia dele.
— Naturalmente.
— Salomon era meu irmão.
Sua voz falhou.
— Meu único irmão.
Edward segurou sua mão.
Irina continuou:
— Eu sei que não convivia com Seth como deveria.
O advogado permaneceu em silêncio.
— Meu relacionamento com Salomon estava...
Ela procurou a palavra.
— Complicado.
Edward respondeu por ela:
— A família afastou Irina.
Ela olhou para o marido.
— Edward...
— Foi o que aconteceu.
— Não importa agora.
— Importa juridicamente.
Irina respirou fundo.
— Meu irmão e eu brigamos. Passamos anos praticamente sem nos falar. Eu vi Seth poucas vezes.
Os olhos dela se encheram.
— Mas ele é meu sobrinho.
O advogado assentiu.
— Entendo.
— É a única coisa que me resta do meu irmão.
Edward apertou sua mão.
— E nós podemos oferecer uma família para ele.
O advogado voltou a olhar para Edward.
— Jacob Black é solteiro?
— Sim.
— Mora sozinho?
— Morava.
— Como assim?
Edward já havia levantado algumas informações.
— Atualmente há uma funcionária residindo na casa.
Irina franziu a testa.
— Funcionária?
— Uma cozinheira.
— Morando lá?
— Pelo que descobri, sim.
— Por quê?
— Está ajudando com Seth.
Irina ficou desconfortável.
— Uma estranha está cuidando do meu sobrinho?
Edward percebeu imediatamente.
— Exatamente.
O advogado ergueu a mão.
— Não tiremos conclusões antes de conhecermos as circunstâncias.
Edward recostou-se.
— Claro.
— Jacob possui algum problema que possa ser relevante para a guarda? Drogas? Álcool? Antecedentes? Comportamento violento?
— Não.
Irina respondeu antes do marido.
— Jacob pode ser muitas coisas, mas não é irresponsável.
Edward olhou para ela.
— Eu não disse que era.
— Estava prestes a dizer.
O advogado percebeu a tensão.
— A questão central será o interesse da criança. Parentesco é relevante, mas não é o único elemento. Rotina, vínculo afetivo, ambiente em que já está inserido, disponibilidade dos responsáveis...
Edward interrompeu:
— E patrimônio?
O advogado ficou em silêncio.
Irina virou-se lentamente.
— O quê?
Edward manteve a expressão tranquila.
— Estou perguntando porque Seth herdou o patrimônio dos pais.
O advogado assentiu.
— Essa é uma questão separada, embora possa haver reflexos dependendo da estrutura sucessória, das disposições societárias e de eventual administração dos bens do menor.
— Especificamente as ações da Black Automotivos — Edward disse.
Irina franziu a testa.
— Edward.
Ele olhou para ela.
— Precisamos pensar nisso também.
— Estamos falando de Seth.
— Justamente. É patrimônio dele.
O advogado abriu uma pasta.
— Qual é a participação?
Edward respondeu sem hesitar:
— Quarenta por cento.
Irina olhou para o marido.
Ele sabia rápido demais.
— Quarenta?
— As participações de Rebecca e Salomon destinadas a Seth representam quarenta por cento.
O advogado fez uma anotação.
— Uma participação muito significativa.
— Exatamente.
Irina retirou a mão da de Edward.
— Eu não quero o dinheiro dele.
Edward virou-se.
— Ninguém está dizendo isso.
— Quero Seth.
— E eu também.
— Então por que estamos falando das ações?
Edward manteve a voz baixa.
— Porque ele tem cinco anos, Irina. Alguém terá de proteger os interesses patrimoniais dele até que possa fazê-lo sozinho.
— Jacob pode fazer isso.
A frase saiu antes que ela pensasse.
Edward ficou imóvel.
— Jacob?
Irina percebeu.
— Eu quis dizer...
— Estamos entrando com um pedido de guarda contra ele e você acha que Jacob deveria controlar quarenta por cento da empresa em nome de Seth?
— Eu não disse controlar.
— Foi praticamente o que disse.
O advogado interferiu:
— Precisamos separar as duas questões.
Edward olhou para ele.
— Se obtivermos a guarda, eu poderia representar os interesses de Seth na empresa?
— Não necessariamente de forma automática. Isso dependerá da estrutura societária, da sucessão, das decisões judiciais pertinentes e das regras aplicáveis à administração do patrimônio do menor.
Edward assentiu lentamente.
Era suficiente.
Por enquanto.
Irina olhou para o marido.
Alguma coisa naquela conversa a incomodara.
Mas então pensou em Salomon.
No caixão.
Na última discussão.
Nos anos perdidos.
E em um menino de cinco anos que carregava os olhos do irmão.
— Quero meu sobrinho — repetiu.
Dessa vez, Edward sorriu.
— E nós vamos lutar por ele.
Um mês havia passado.
Elena percebeu isso quando encontrou um pequeno par de tênis no meio do corredor e não reclamou.
Olhou para eles.
Depois para o teto.
— Estou ficando mole.
Pegou os tênis.
— Seth!
Nenhuma resposta.
— Seth Grey!
Silêncio.
Elena estreitou os olhos.
Conhecia aquele silêncio.
Era silêncio de criança fazendo alguma coisa errada.
Caminhou até a sala.
Nada.
Cozinha.
Nada.
— Seth?
Ouviu uma risadinha.
Virou-se.
— Onde você está?
Silêncio.
— Certo. Vou comer todos os biscoitos sozinha.
— NÃO!
A voz veio debaixo da mesa.
Elena se abaixou.
Seth estava escondido ali.
— Achei.
— Você roubou.
— Como se rouba num esconde-esconde?
— Falou dos biscoitos.
— Estratégia.
Ele saiu.
Estava diferente.
Ainda havia dias ruins.
Muito ruins.
Dias em que acordava chorando.
Dias em que perguntava pela mãe.
Dias em que se recusava a entrar no antigo quarto porque uma camiseta de Rebecca ainda estava lá.
Dias em que ficava com raiva de Jacob sem motivo.
Ou de Elena.
Ou do mundo.
Uma semana antes, gritara:
— Você não é minha mãe!
Elena respondera apenas:
— Eu sei.
Depois entrara no quarto e chorara escondida no banheiro.
Mas havia também momentos como aquele.
Pequenos.
Preciosos.
Seth voltou a rir.
A comer.
A brincar.
Começou a dormir algumas noites inteiras.
E Elena tornou-se parte da rotina dele.
— Cadê meus biscoitos?
— Seus?
— Você disse.
— Eu disse que ia comer.
— Elena!
Ela riu.
— Cozinha.
Seth saiu correndo.
— Não corre!
Ele diminuiu.
Elena sorriu.
— Eu estou virando o Jacob.
— Ouvi isso.
Ela se assustou.
Jacob estava parado no corredor.
— Você tem que parar de aparecer sem fazer barulho!
— A casa é minha.
— Essa justificativa está ficando velha.
Ele afrouxou a gravata.
— Onde está Seth?
— Correndo para a cozinha apesar de eu ter acabado de mandar não correr.
— Seth!
— NÃO ESTOU CORRENDO! — o menino gritou.
Elena e Jacob se entreolharam.
— Ele está correndo — disseram juntos.
Elena começou a rir.
Jacob tentou não sorrir.
Ela percebeu.
— Pode sorrir. Não vou contar para ninguém.
— Não sei do que está falando.
— Naturalmente.
Jacob seguiu para a cozinha.
Elena foi atrás.
— Você vai jantar aqui?
— Moro aqui.
— Isso nunca impediu você de jantar na empresa.
— Hoje vou jantar.
— Certo.
— O que tem?
— Risoto.
Jacob parou.
— Com?
Elena sorriu.
— Passas.
Ele virou-se lentamente.
Ela começou a rir.
— Estou brincando!
— Isso não tem graça.
— Tem um pouco.
— Não tem.
Seth apareceu segurando dois biscoitos.
— O que é passa?
Jacob apontou para Elena.
— Algo que ela está proibida de colocar na minha comida.
Elena colocou a mão no peito.
— “Proibida” é uma palavra muito forte.
— É a palavra correta.
— Autoritário.
— Funcionária insubordinada.
— Velho rabugento.
Jacob parou.
Elena também.
Seth começou a rir.
— Ela chamou você de velho!
Jacob aproximou-se.
— Velho?
Elena recuou.
— Foi uma figura de linguagem.
— Tenho vinte e oito anos.
— Alguns envelhecem por dentro primeiro.
Seth gargalhou.
Jacob apertou os lábios.
Elena apontou.
— Está sorrindo.
— Não.
— Está.
— Não estou.
— Seth?
O menino analisou.
— Está.
— Traidor — Jacob murmurou.
Seth correu e abraçou suas pernas.
— Eu te amo, tio Jake.
Jacob imediatamente passou a mão pelos cabelos dele.
— Também amo você.
Elena observou.
Era sempre assim.
A transformação acontecia em segundos.
Jacob podia estar irritado, cansado, ocupado.
Seth aparecia.
E as muralhas caíam.
Naquela mesma tarde, Edward Cullen entrou na sede da Black Automotivos sem marcar horário.
Sue levantou-se imediatamente.
— Senhor Cullen.
— Sue.
— O senhor tem horário?
— Não.
— Então não pode entrar.
Edward sorriu.
— Preciso falar com Jacob.
— Marque uma reunião.
— É assunto familiar.
— Ainda assim.
Edward retirou um envelope da pasta.
— Acredite. Ele vai querer me receber.
Sue olhou para o envelope.
Depois para Edward.
Não gostou.
Nunca gostara.
Conhecia-o desde os tempos em que trabalhava naquela empresa.
— Espere aqui.
— Naturalmente.
Sue entrou no escritório.
Jacob estava em reunião com Paul e Embry.
— Desculpe interromper.
Jacob ergueu os olhos.
— O que foi?
— Edward Cullen.
O ambiente mudou.
Paul fechou a expressão.
— O que ele quer?
— Diz que é assunto familiar.
Jacob levantou-se.
— Mande entrar.
Edward entrou alguns segundos depois.
— Black.
— Cullen.
— Lahote. Call.
Paul não respondeu.
Embry também não.
Jacob permaneceu em pé.
— Fale.
Edward colocou o envelope sobre a mesa.
— Irina e eu entramos com um pedido de guarda de Seth.
Silêncio.
Jacob não se moveu.
Paul levantou-se.
— Vocês fizeram o quê?
Jacob ergueu uma mão.
Paul parou.
Os olhos de Jacob permaneceram em Edward.
— Repita.
— Estamos requerendo a guarda de Seth.
— Eu ouvi.
A voz de Jacob estava baixa.
Controlada.
Perigosamente controlada.
— Só queria ter certeza de que você teria coragem de repetir.
Edward sorriu discretamente.
— Não vim brigar.
— Então veio ao lugar errado.
— Jacob — Paul advertiu.
Edward permaneceu tranquilo.
— Irina é tia de Seth.
— Eu também sou tio dele.
— Sim.
— E ele mora comigo.
— Há um mês.
Jacob deu a volta na mesa.
— Desde o dia em que perdeu os pais.
— Exatamente.
Edward manteve-se parado.
— Uma decisão tomada durante uma emergência não precisa determinar onde ele passará a infância inteira.
Jacob chegou perto.
— Seth fica comigo.
— Isso não cabe apenas a você decidir.
— Ele perdeu os pais. Não vai perder a casa, a rotina e as pessoas que conhece porque sua esposa decidiu lembrar que tem um sobrinho.
A expressão de Edward endureceu.
— Irina ama Seth.
— Irina mal conhece Seth.
— Porque Salomon a afastou.
— Porque vocês escolheram ficar longe.
— Essa é a sua versão.
— É a verdade.
Edward respirou.
— Irina pode oferecer uma família.
Jacob riu sem humor.
— E eu sou o quê?
— Um homem solteiro que passa doze horas por dia administrando uma empresa.
Paul deu um passo à frente.
Jacob novamente o conteve.
Edward continuou:
— Seu sobrinho está sendo criado por empregados.
A expressão de Jacob mudou.
— Cuidado.
— Uma babá...
— Ela não é babá.
Edward percebeu.
— A cozinheira, então.
Jacob apertou o maxilar.
— Não fale dela.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Edward.
— Interessante.
— O quê?
— Nada.
Jacob se aproximou mais.
— Seth está seguro. Está sendo acompanhado. Está voltando a comer. Está voltando a dormir. Está começando a sorrir novamente.
— Com uma funcionária morando na sua casa.
— Com pessoas que ele conhece e em quem confia.
— Irina é sangue dele.
Jacob respondeu imediatamente:
— Sangue não substitui presença.
Silêncio.
Edward colocou as mãos nos bolsos.
— Veremos o que o juiz pensa.
Virou-se.
Jacob falou:
— Edward.
Ele parou.
— Isso é sobre Seth?
Edward virou-se.
— Naturalmente.
Jacob olhou diretamente para ele.
— Ou sobre os quarenta por cento?
Pela primeira vez, Edward não respondeu imediatamente.
Paul olhou para Jacob.
Embry ficou imóvel.
Jacob percebeu.
— Imaginei.
Edward sorriu.
— Tenha cuidado com acusações sem provas.
— Não foi acusação.
Jacob repetiu as palavras do leilão.
— Foi lembrança.
Edward saiu.
A porta se fechou.
Paul virou-se.
— Quarenta por cento?
Jacob pegou o envelope.
— As ações de Rebecca e Salomon.
Embry entendeu.
— Seth herdou tudo.
Jacob assentiu.
Paul xingou baixo.
— Precisamos de advogado.
Jacob já estava pegando o telefone.
— Precisamos de Leah.
Irina chegou à residência Black às quatro e vinte daquela tarde.
Elena abriu a porta.
— Pois não?
Irina ficou olhando para ela.
Jovem.
Cabelos presos de qualquer maneira.
Calça jeans.
Uma camiseta simples.
Sem uniforme.
— Você é Elena?
Elena estranhou.
— Sou.
— Irina Cullen.
O nome não significou nada durante um segundo.
Depois significou.
— Irmã de Salomon.
— Sim.
Elena abriu mais a porta.
— Entre.
Irina entrou.
Olhou ao redor.
Aquela casa lhe trazia lembranças.
Algumas boas.
Muitas ruins.
Então ouviu uma risada.
Seth.
Irina fechou os olhos.
A voz do sobrinho atingiu-a.
— Ele está aqui?
— Está.
— Posso vê-lo?
Elena hesitou.
— Claro.
Irina percebeu.
— Você precisa autorizar?
— Não.
— Pareceu.
— Eu só não sabia se ele estava esperando alguém.
— Sou tia dele.
O tom saiu mais ríspido do que Irina pretendia.
Elena permaneceu tranquila.
— Eu sei.
Seth apareceu no corredor.
Parou.
Irina sorriu imediatamente.
— Oi, meu amor.
Seth ficou olhando.
Não correu até ela.
Não sorriu.
— Oi.
Irina aproximou-se.
— Você lembra de mim?
Seth assentiu devagar.
— Tia Irina.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Isso.
Abaixou-se.
Abriu os braços.
— Vem cá.
Seth não foi.
Irina tentou esconder a dor.
— Posso te dar um abraço?
O menino olhou para Elena.
Irina percebeu.
Aquilo doeu mais.
Elena não respondeu por ele.
Apenas disse:
— Você que decide, Seth.
Ele olhou novamente para Irina.
Aproximou-se.
Deixou que ela o abraçasse.
Irina fechou os olhos.
Apertou-o.
Por alguns segundos, era Salomon.
Os mesmos cabelos.
O mesmo jeito.
O mesmo cheiro que imaginava lembrar da infância.
Ela começou a chorar.
Seth ficou desconfortável.
— Tia...
Irina o soltou.
— Desculpa.
Limpou as lágrimas.
— Eu senti muita saudade.
Seth não respondeu.
— Trouxe uma coisa para você.
Retirou uma caixa da bolsa.
— Não precisava — Elena comentou.
Irina olhou para ela.
— Eu sei.
Abriu.
Um carrinho de coleção.
Seth se interessou.
— Ferrari!
Irina sorriu.
— Seu tio Edward escolheu.
Elena viu a expressão de Seth mudar.
— Igual a do tio Jake?
Irina hesitou.
— Parecida.
— A do tio Jake é melhor.
Elena mordeu o lábio para não rir.
Irina percebeu.
— Imagino.
Seth pegou o carrinho.
— Obrigado.
— Quer brincar comigo?
Ele pensou.
— Tá.
Sentaram-se no tapete.
Elena voltou para a cozinha.
Mas permaneceu por perto.
Não para vigiar Irina.
Para vigiar Seth.
Nos primeiros quinze minutos, foi estranho.
Irina fazia perguntas demais.
— Qual sua matéria preferida?
— Não sei.
— Você gosta da escola?
— Mais ou menos.
— Tem amigos?
— Tenho.
— Quantos?
Seth deu de ombros.
Depois mostrou o carrinho.
— Ele é rápido.
Irina entendeu.
Parou de perguntar.
— Muito.
Pegou outro carrinho.
— Mas esse ganha.
— Não ganha.
— Ganha.
— Não.
— Vamos apostar?
Seth finalmente sorriu.
— Tá.
Elena observava discretamente da cozinha.
Irina não parecia falsa.
Aquilo a surpreendeu.
Havia tristeza naquela mulher.
E carinho.
Talvez desajeitado.
Mas real.
Quando Jacob chegou, encontrou Irina sentada no chão da sala.
Parou.
Ela o viu.
O sorriso desapareceu.
— Jacob.
— O que está fazendo aqui?
Seth olhou para o tio.
— Tia Irina veio brincar.
Jacob olhou para Elena.
Ela percebeu a pergunta silenciosa.
— Seth quis que ela ficasse.
Jacob assentiu.
Irina levantou-se.
— Podemos conversar?
— No escritório.
Seth imediatamente ficou tenso.
— Ela vai embora?
Irina se abaixou.
— Ainda não.
Jacob viu a preocupação no rosto do menino.
Respirou fundo.
— Cinco minutos.
Irina assentiu.
Assim que a porta do escritório fechou, Jacob virou-se.
— Você não poderia ter avisado?
— Preciso de autorização para visitar meu sobrinho?
— Depois do que Edward fez hoje?
Irina ficou confusa.
— Ele falou com você?
— Pessoalmente.
Ela fechou os olhos.
— Eu pedi para ele não fazer isso.
— Mas entrou com a ação.
— Entramos.
— Então não apareça aqui fingindo que nada está acontecendo.
— Não estou fingindo!
— Vocês querem tirar Seth daqui.
— Eu quero cuidar do meu sobrinho!
— Ele já está sendo cuidado.
— Por você?
Jacob endureceu.
— Sim.
— Você passa o dia inteiro naquela empresa!
— E reorganizei minha vida.
— Em um mês?
— Desde a noite em que sua irmã...
Ele parou.
— Minha irmã e seu irmão morreram.
Irina ficou pálida.
— Não use Salomon contra mim.
— Eu não estou usando.
— Você acha que não sei o que perdi?
— Então por que está fazendo isso com o filho dele?
Irina começou a chorar.
— Porque ele era meu irmão!
Jacob ficou em silêncio.
— Eu perdi anos com Salomon.
Ela limpou o rosto.
— Anos, Jacob.
— Foi uma escolha.
— Eu sei!
A resposta o surpreendeu.
— Eu sei — ela repetiu. — Fiz escolhas. Salomon fez escolhas. Nosso pai fez escolhas. Todos nós fizemos.
Respirou.
— E agora ele está morto.
Jacob desviou os olhos.
— Eu nunca vou consertar aquilo.
A voz dela falhou.
— Nunca vou poder pedir desculpas. Nunca vou poder dizer que senti falta dele.
Jacob permaneceu em silêncio.
— Seth é tudo que restou.
— Ele não é Salomon.
— Eu sei.
— Então não tente transformar o menino numa segunda chance.
Irina fechou os olhos.
A frase atingiu fundo.
Jacob percebeu.
Mas não retirou.
— Eu amo meu sobrinho.
— Talvez.
Irina abriu os olhos.
— Não ouse dizer que não amo.
— Eu disse talvez porque Seth não sabe disso.
Silêncio.
— Amor não é uma palavra que você apresenta num processo, Irina. Para uma criança, amor é estar lá.
Ela ficou imóvel.
— Então deixe que eu esteja.
Jacob não respondeu.
— Deixe que eu o conheça.
— E depois?
— Depois nada.
— Edward quer as ações.
Irina ficou tensa.
— Edward quer proteger o patrimônio dele.
Jacob riu.
— Você realmente acredita nisso?
— Não vou discutir meu marido com você.
— Então não discuta. Apenas mantenha-o longe da minha empresa.
— Quarenta por cento daquela empresa pertencem a Seth.
— Exatamente.
Jacob aproximou-se.
— A Seth.
Não a Edward.
— Não a você.
— E não a você.
— Nunca disse que pertenciam.
Irina ficou quieta.
Jacob abriu a porta.
— Você pode terminar a visita.
Ela passou por ele.
Parou.
— Eu não vou desistir da guarda.
Jacob respondeu:
— Nem eu.
Na sala, Seth estava ensinando Elena a jogar videogame.
Ou tentando.
— Aperta esse!
— Qual?
— O vermelho!
— Tem dois vermelhos!
— Esse!
— Seth, eu tenho vinte e quatro anos, não telepatia!
O carro virtual bateu contra uma parede.
— ELENA!
— A culpa é do controle!
— Você é muito ruim!
— Respeita seus idosos!
Seth gargalhou.
Irina parou no corredor.
Jacob também.
Os dois observaram.
Seth entregou outro controle a Elena.
Ela apertou alguma coisa errada.
O carro começou a andar para trás.
— NÃO!
— EU NÃO SEI COMO PARA!
— FREIA!
— ONDE?!
Seth caiu para trás de tanto rir.
Elena começou a rir também.
Jacob sentiu aquele movimento involuntário no canto da boca.
Irina percebeu.
Depois percebeu outra coisa.
A forma como Seth olhava para Elena.
Não como olhava para uma funcionária.
Não como olhava para uma babá.
Era confiança.
Segurança.
Carinho.
Irina sentiu uma pontada.
Ciúme.
Imediatamente se envergonhou.
Aquela mulher ajudara seu sobrinho quando ela não estava presente.
Deveria agradecer.
Mas ainda doía.
Seth viu Irina.
— Tia!
Ela sorriu.
— Preciso ir.
— Já?
A pergunta aqueceu seu coração.
— Já.
— Você volta?
Irina olhou para Jacob.
Depois para Seth.
— Se você quiser.
O menino pensou.
— Quero.
Os olhos dela se encheram.
— Então eu volto.
Beijou a testa dele.
Dessa vez Seth permitiu.
— Tchau, meu amor.
— Tchau.
Irina olhou para Elena.
— Obrigada.
Elena ficou surpresa.
— Pelo quê?
Irina olhou para Seth.
— Por cuidar dele.
Elena sorriu.
— Ele também cuida de mim.
Seth protestou:
— Não cuido!
— Ontem você matou uma aranha para mim.
— Era pequena!
— Para mim era um monstro.
Irina sorriu.
Foi embora.
Naquela noite, Seth dormiu cedo.
Elena encontrou Jacob na cozinha.
Ele estava diante da geladeira.
— Está procurando alguma coisa?
— Jantar.
— Está na segunda prateleira.
— Não está.
Elena aproximou-se.
— Claro que está.
Abriu.
Olhou.
Não estava.
— Estranho.
Jacob cruzou os braços.
— Você esqueceu meu jantar.
Ela virou-se.
— Eu passei a tarde cuidando do seu sobrinho, recebi sua cunhada sem aviso, perdi no videogame para uma criança e ainda fiz três máquinas de roupa.
— Ex-cunhada.
— O quê?
— Irina.
— Isso foi o que você considerou importante nessa frase?
Jacob quase sorriu.
— Meu jantar.
Elena colocou as mãos na cintura.
— Tem ovos.
— Ovos?
— Sim.
— Isso é jantar?
— Quando se está com fome, é.
— Elena.
— Jacob.
— Eu tive um dia horrível.
— Eu também.
— Fui informado de que querem tirar Seth de mim.
Ela parou.
— O quê?
Jacob percebeu que ela não sabia.
— Irina e Edward entraram com pedido de guarda.
A brincadeira desapareceu.
— Eles podem?
— Podem pedir.
— E conseguir?
Jacob não respondeu.
Elena sentiu o medo.
Não na expressão.
Jacob era bom demais em esconder.
Mas estava lá.
— Seth quer ficar aqui.
— Ele tem cinco anos.
— Cinco e meio.
Jacob olhou para ela.
Elena sorriu de leve.
— Ele sempre corrige.
Jacob baixou os olhos.
— Sim.
Ela se aproximou.
— Você é um bom tio.
Jacob soltou um riso sem humor.
— Hoje ele comeu cereal no almoço porque eu esqueci de comprar o que você pediu.
— Isso não anula os últimos cinco anos.
— Não sou pai dele.
Elena ficou quieta.
— Não.
Jacob olhou para ela.
— Mas é o tio Jake.
Algo naquela frase o atingiu.
Elena abriu a geladeira.
— Agora sente.
— Por quê?
— Vou fazer seu jantar.
— Achei que tivesse ovos.
— Mudei de ideia.
— Não quero dar trabalho.
Elena olhou para ele.
— Jacob Black dizendo que não quer dar trabalho?
Colocou a mão no peito.
— Preciso registrar a data.
Ele sorriu.
Dessa vez não escondeu rápido o suficiente.
Elena apontou.
— Peguei.
— Faça o jantar.
— Está mandando?
— Estou.
— Então vai comer ovos.
Jacob riu.
Uma risada verdadeira.
Curta.
Cansada.
Mas verdadeira.
Elena sorriu e começou a separar os ingredientes.
— Risoto?
— Sem passas.
— Você estraga todos os momentos bonitos.
Jacob sentou-se diante da bancada.
Por alguns minutos, apenas a observou cozinhar.
Elena cantarolava baixo.
Abriu um armário.
Fechou.
Reclamou porque Jacob havia guardado uma panela no lugar errado.
Jacob respondeu que aquela era a casa dele.
Ela disse que a cozinha era território soberano.
Ele disse que pagava pela cozinha.
Ela respondeu que isso apenas lhe concedia direito de visita.
Jacob sorriu novamente.
E percebeu algo que começava a acontecer com frequência demais.
Elena fazia a casa parecer menos vazia.
Fazia Seth rir.
Fazia os dias ruins parecerem um pouco menores.
E, aparentemente, fazia Jacob Black sorrir quando ele tinha todos os motivos do mundo para não fazê-lo.
No andar de cima, Seth dormia abraçado ao dinossauro que Jacob lhe dera.
Naquela noite, três adultos pensavam nele.
Irina pensava no sobrinho como a última ligação que possuía com o irmão que perdera antes de conseguir perdoá-lo.
Jacob pensava no menino como a promessa silenciosa que fizera diante do caixão de Rebecca.
E Edward Cullen pensava em quarenta por cento.
Quarenta por cento de uma empresa da qual fora expulso anos antes.
Quarenta por cento que pertenciam a uma criança de cinco anos.
E, pela primeira vez em muitos anos, Edward enxergava uma porta de volta para a Black Automotivos.
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