O PESO DE UMA PROMESSA

19 CAPÍTULO 19- UMA MENTIRA DE VERDADE


— Case comigo.

Elena continuou olhando para Jacob.

Não piscou.

Não respondeu.

Por alguns segundos, considerou seriamente a possibilidade de que o acidente tivesse deixado consequências que nenhum dos médicos percebera.

Talvez o traumatismo craniano tivesse sido pior do que imaginavam.

Talvez aquela dor de cabeça persistente significasse alguma coisa.

Talvez estivesse delirando.

Era a única explicação razoável.

— Desculpa... o quê?

Jacob permaneceu sentado diante dela.

— Case comigo.

— Eu acho que não estou bem...

Elena tocou discretamente o curativo na testa.

Jacob franziu a testa.

— Elena...

— Eu bati a cabeça muito forte.

— O quê?

— No acidente.

— Eu sei.

— Talvez tenha ficado alguma sequela.

Ele ficou olhando para ela.

— Você não está delirando.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Porque eu tenho quase certeza de que você acabou de me pedir em casamento.

— Pedi.

Elena soltou uma risada curta.

Nervosa.

— Então definitivamente preciso de uma tomografia.

— Elena.

— Jacob, você enlouqueceu?

Ele olhou ao redor.

Duas pessoas da equipe passaram a poucos metros.

— Fala mais baixo.

— Você me pede em casamento e quer que eu fale baixo?

— Quero.

— Por quê? Está preocupado que alguém descubra que você perdeu completamente a razão?

— Estou preocupado que alguém escute antes da hora.

Elena parou.

— Antes de que hora?

Jacob respirou.

— Não seria um casamento de verdade.

Silêncio.

Elena piscou.

— Ah.

Outra pausa.

— Claro.

Ela assentiu lentamente.

— Naturalmente.

— Elena...

— Não, agora tudo faz sentido.

Ela fechou a prancheta.

— Você não enlouqueceu. Só está propondo fraude matrimonial.

— Não é isso.

— Parece bastante isso.

Jacob aproximou a cadeira.

— Escuta primeiro.

— Estou ouvindo desde “case comigo”. Até agora não melhorou.

— No papel seria real.

Elena arregalou os olhos.

— Isso continua piorando.

— Legalmente, seria um casamento verdadeiro. Não estou falando de falsificar documento.

— Que alívio.

— E, para todo mundo, também seria verdadeiro.

Ela ficou séria.

— Todo mundo?

— Todo mundo.

— Alice?

— Sim.

— Rosalie?

— Sim.

— Paul?

Jacob hesitou apenas o suficiente para irritá-la.

— Sim.

— Sue?

— Sim.

— Seu pai?

— Sim.

Elena demorou um pouco antes de fazer a pergunta mais importante.

— Seth?

Jacob sustentou seu olhar.

— Principalmente Seth.

A expressão dela mudou.

— Nós mentiríamos para ele.

— Ele acreditaria que somos casados.

— Isso é mentir.

— Eu sei.

Elena recuou na cadeira.

— Não.

Jacob ficou imóvel.

— Elena...

— Não.

— Você nem ouviu tudo.

— Não preciso.

Ela se levantou depressa demais e levou a mão ao abdômen quando os pontos repuxaram.

Jacob imediatamente se levantou.

— Devagar.

— Não toca em mim.

Ele parou.

Elena respirou até a dor diminuir.

— Eu passei semanas pagando pelo preço de uma mentira.

— Eu sei.

— Não. Você sabe o que aconteceu. Não sabe como foi acordar todos os dias sabendo que eu podia ter contado a verdade e não contei.

Jacob ficou em silêncio.

— Eu perdi você.

A frase escapou.

Os dois pararam.

Elena desviou os olhos.

— Perdi o restaurante.

— Você não perdeu o restaurante.

— Naquele momento eu perdi.

— Elena...

— Perdi sua confiança. Seth acabou naquela casa. Bella morreu sem que eu tivesse conseguido consertar nada entre nós.

A voz ameaçou quebrar.

Ela controlou.

— Então não vem me pedir para entrar voluntariamente em outro ciclo de mentiras.

Jacob permaneceu calado por alguns segundos.

— É diferente.

— Toda mentira parece diferente quando a gente decide contá-la.

A frase o atingiu.

— Isso é por Seth.

— A primeira também era.

Silêncio.

— Eu escondi o que Bella fez porque queria protegê-la.

Elena olhou diretamente para ele.

— Eu tinha uma justificativa maravilhosa.

Jacob não respondeu.

— E olha onde terminou.

Ele respirou fundo.

— Isso pode ajudar Seth.

— Pode.

— Muito.

— Eu sei.

— Então pensa.

Elena cruzou os braços.

— Você está falando sério.

— Estou.

— Você realmente quer casar comigo.

— Estou pedindo que se case comigo.

A escolha das palavras não passou despercebida.

Não quero casar com você.

Estou pedindo que se case comigo.

Elena sentiu uma pontada no peito.

— Porque precisa de uma esposa.

Jacob não respondeu imediatamente.

— Porque preciso recuperar Seth.

Ela assentiu.

Claro.

— E por que eu?

Jacob olhou para ela.

— Porque Seth ama você.

Elena ficou quieta.

— Porque confia em você. Porque você já faz parte da vida dele. Porque qualquer outra pessoa seria uma estranha e isso seria apenas uma encenação.

— E comigo não seria?

— Não inteiramente.

A resposta a desarmou por um instante.

Jacob continuou:

— Você conhece a rotina dele. A escola. Os medos. O que ele come. O que não come. Sabe quando está fingindo que está bem. Sabe quando precisa falar e quando precisa apenas de alguém sentado perto.

Elena desviou os olhos.

— E ele quer você por perto.

— Isso não significa que queira que eu case com você.

— Provavelmente significa exatamente isso se alguém perguntar para ele.

Apesar de tudo, Elena quase sorriu.

— Não tem graça.

— Não foi piada.

— Pior ainda.

Silêncio.

Jacob então disse:

— E você me deve isso.

Elena ergueu lentamente o rosto.

— O quê?

— Você ouviu.

O pouco humor desapareceu.

— Cuidado, Jacob.

— Você perguntou ontem se tinha responsabilidade pela situação em que Seth está.

— E você respondeu que sim.

— Porque tem.

Elena ficou imóvel.

— Então está cobrando.

— Estou pedindo que ajude a reparar.

Aquilo doeu.

Muito.

Talvez porque parte dela acreditasse que ele tinha direito de pedir.

— Você acha que eu devo casar com você porque escondi o que Bella fez?

— Acho que você deve me ajudar a trazer Seth para casa.

— Não foi o que você disse.

— É o que estou dizendo agora.

Elena respirou fundo.

— Eu vou pensar.

Jacob franziu a testa.

— Elena...

— Eu disse que vou pensar.

— Não temos muito tempo.

— Então deveria ter pensado nisso antes de me pedir casamento no meio do meu restaurante.

— Você perguntou como podia ajudar.

— Eu esperava algo como testemunhar.

Jacob quase sorriu.

— Isso também pode acontecer.

Ela lançou um olhar mortal.

— Não conta para ninguém.

Elena ficou surpresa.

— O quê?

— Ninguém pode saber enquanto você não decidir.

— Isso eu não pretendia colocar no cardápio.

— Estou falando sério.

— Eu também.

— Alice não pode saber.

Elena olhou para ele.

— Alice sabe quando eu troco de xampu.

— Não conta.

— Jacob...

— Nem Rosalie.

— Ela percebeu que você entrou aqui e me deixou com cara de quem viu uma aparição.

— Inventa alguma coisa.

Elena riu sem humor.

— Excelente. Começamos o casamento falso com mentiras antes mesmo de eu aceitar.

Jacob percebeu.

— Certo.

— É.

— Eu preciso da resposta logo.

— Eu sei.

Ele se levantou.

Elena permaneceu sentada.

— Jacob.

Ele parou.

— Se eu disser não?

Por alguns segundos, ele apenas a olhou.

— Vou encontrar outro jeito.

Aquilo deveria tê-la tranquilizado.

Não tranquilizou.

Jacob saiu.

Elena permaneceu imóvel.

Depois levou as duas mãos ao rosto.

— Meu Deus.

Rosalie apareceu do outro lado da cozinha.

— Posso voltar ou vocês ainda estão tendo aquela conversa estranhíssima?

Elena levantou a cabeça.

— Que conversa?

Rosalie estreitou os olhos.

— Essa resposta foi extremamente suspeita.

— Volta para os tomates.

— Elena...

— TOMATES, ROSALIE.

Rosalie levantou as mãos.

— Certo.

Elena olhou para a porta por onde Jacob desaparecera.

Case comigo.

Talvez realmente precisasse daquela tomografia.


Alice soube naquela noite.

Não porque Elena quisesse contar.

Porque Alice Brandon possuía uma capacidade quase sobrenatural de perceber quando a melhor amiga escondia alguma coisa.

Elena estava sentada no sofá, olhando para a televisão desligada havia quase quinze minutos.

Alice apareceu com duas canecas.

— Conta.

— O quê?

— Aquilo.

— Que aquilo?

— Aquilo que está fazendo você olhar para uma televisão desligada como se ela tivesse acabado de revelar os segredos do universo.

— Estou cansada.

Alice sentou.

— Mentira.

Elena fechou os olhos.

— Alice.

— Foi Jacob?

Silêncio.

— Foi.

— Vocês brigaram?

— Não.

— Se beijaram?

Elena abriu os olhos.

— Não!

— Pena.

— Alice.

— Ele pediu desculpas?

— Não.

— Disse que ama você?

Elena ficou quieta por um segundo.

— Não.

— Então o que aconteceu?

— Nada.

Alice inclinou a cabeça.

— Elena.

— Nada.

— Elena.

— Alice.

— Elena.

— Para.

— Conta.

— Não.

— Então vou começar a adivinhar.

Elena fechou os olhos.

— Ele quer que eu case com ele.

Silêncio.

Alice piscou.

— Desculpa?

Elena continuou olhando para frente.

— Jacob me pediu em casamento.

A caneca de Alice parou no meio do caminho.

— O QUÊ?

— Fala baixo.

— ELE PEDIU O QUÊ?

— Alice!

— Você acabou de dizer que Jacob Black pediu você em casamento!

— Falso.

Alice parou.

— O pedido?

— O casamento.

Mais silêncio.

— Eu vou precisar de vinho.

— Você não vai beber vinho.

— Então eu vou precisar de alguma coisa mais forte.

Elena contou.

Não todos os detalhes jurídicos.

Apenas o necessário.

A situação de Seth.

A ameaça de Irina.

A necessidade de demonstrar estabilidade.

A proposta.

Quando terminou, Alice estava indignada.

— Não.

— Alice...

— Não.

— Eu nem disse que aceitei.

— Ainda bem.

— Mas...

— Não tem “mas”.

Alice se levantou.

— Ele quer que você case com ele, more com ele, finja para todo mundo que vocês são apaixonados...

Elena soltou uma risada amarga.

— Essa parte não seria tão difícil.

Alice parou.

O rosto mudou.

— Elena.

Ela desviou os olhos.

— É exatamente esse o problema.

Alice voltou a sentar.

— Você ainda ama ele.

Elena engoliu em seco.

— Sim.

A resposta saiu pequena.

Mas inteira.

— Eu amo.

Alice segurou sua mão.

Elena continuou:

— Como eu vou fazer isso?

— Não sei.

— Como eu vou morar com ele, aparecer ao lado dele, deixar todo mundo acreditar que somos um casal e depois fechar uma porta e lembrar que nada é verdade?

Alice apertou sua mão.

— Você não precisa aceitar.

— Eu sei.

— Então diz não.

Elena ficou em silêncio.

— Elena.

— Seth está naquela casa.

Alice fechou os olhos.

Ali estava o problema.

— Eu sei.

— Com Edward.

— Eu sei.

— E se Jacob estiver certo?

— Nós não sabemos.

— Mas e se estiver?

A voz de Elena quebrou.

— Como eu digo não sabendo que talvez eu pudesse ajudar a tirar Seth de lá?

Alice não respondeu.

Elena encostou a cabeça no ombro dela.

— Eu não sei se consigo estar num casamento falso com um homem que eu amo e fingir que está tudo bem.

Alice passou o braço ao redor dela.

— Então não decide hoje.

— Jacob está com pressa.

— Jacob não tem pontos na barriga, nas costas e na testa, acabou de sair de um coma e perdeu a irmã.

Elena soltou o ar.

— Ele perdeu a irmã também.

Alice ficou quieta.

Era verdade.

— Vocês dois estão destruídos.

— Excelente base para um casamento.

Alice quase riu.

— Horrível.

Elena fechou os olhos.

— Eu não quero mentir de novo.

— Então, se fizer isso, pelo menos não minta para você.

Elena ficou em silêncio.

Alice beijou seus cabelos.

— E, independentemente do que decidir, eu fico com você.

Elena apertou a mão dela.

Dessa vez, não prometeu nada.


Jacob contou para Paul.

Também naquela noite.

Paul estava na cozinha da casa Black quando Jacob falou.

— Estou pensando em casar.

Paul continuou bebendo água.

Parou.

Engoliu.

Colocou o copo sobre a bancada.

— Certo.

Jacob estreitou os olhos.

— Só isso?

— Estou tentando ser um amigo maduro.

— Está falhando.

— Bastante.

Paul respirou.

— Com quem?

Jacob apenas olhou.

Paul fechou os olhos.

— Não.

— Não o quê?

— Elena?

Jacob ficou em silêncio.

Paul virou-se e apoiou as duas mãos na bancada.

— Claro.

— É uma estratégia.

— Evidentemente.

— Para Seth.

— Naturalmente.

Jacob ficou irritado.

— Pode parar.

— Estou tentando muito não rir.

— Não tem graça.

— Você está apaixonado por ela.

— Isso não importa.

Paul finalmente riu.

— Isso importa um pouco num casamento.

— Não seria um casamento de verdade.

Paul olhou para ele.

— Vocês assinariam certidão?

— Sim.

— Morariam juntos?

— Provavelmente.

— Todo mundo acreditaria que são casados?

— Sim.

— Seth?

Jacob respirou.

— Sim.

Paul assentiu.

— Então parece surpreendentemente parecido com um casamento.

— Quando estivermos sozinhos, não.

— Ah.

Paul pegou novamente o copo.

— Essa parte certamente vai funcionar maravilhosamente.

Jacob lançou um olhar.

— Ela ainda não aceitou.

— Inteligente.

— Disse que vai pensar.

Paul ficou sério.

— E você?

— O quê?

— Pensou?

— Foi ideia minha.

— Não perguntei isso.

Jacob não respondeu.

Paul o observou.

— Jake, você consegue fazer isso?

— Por Seth?

— Não.

Pausa.

— Com Elena.

Jacob desviou os olhos.

— Consigo.

Paul percebeu que ele não tinha certeza.

Mas, pela primeira vez naquela noite, decidiu não provocar.


No dia seguinte, Jacob ligou para Elena pela manhã.

— Pensou?

Ela estava no restaurante.

— Bom dia para você também.

— Bom dia. Pensou?

— Estou pensando.

— Elena...

— Jacob, você me pediu para casar com você ontem.

— Eu sei quando pedi.

— Então me dá mais de vinte horas para decidir.

— Seth não tem muito tempo.

Ela fechou os olhos.

— Não usa Seth para me pressionar.

Silêncio.

— Não estou tentando.

— Está.

Jacob respirou.

— Certo.

— Eu vou responder.

— Quando?

— Quando souber.

— Eu preciso...

— Eu sei do que você precisa.

A voz dela ficou mais baixa.

— Mas eu também preciso saber se consigo fazer isso.

Jacob ficou quieto.

— Certo.

Desligaram.

Elena permaneceu olhando para o telefone.

Não percebeu quando Rosalie se aproximou.

— Problemas?

— Muitos.

— Posso ajudar?

Elena guardou o celular.

— Não.

Pouco depois do meio-dia, a porta do restaurante se abriu.

Elena ergueu os olhos.

E ficou imóvel.

Irina.

Edward.

Seth.

O menino vinha entre os dois.

Não sorria.

Elena sentiu o coração apertar.

Seth a viu.

O rosto mudou imediatamente.

— Elena!

Correu.

Irina segurou sua mão antes que ele chegasse.

— Devagar.

Seth puxou.

— Eu quero falar com ela.

Elena se aproximou.

— Oi.

— Oi.

Ele queria abraçá-la.

Elena percebeu.

Abaixou-se com cuidado.

Seth abraçou seu pescoço.

— Você não ligou ontem.

— Ligamos.

— Pouco.

— Você dormiu.

— Irina mandou desligar.

Elena levantou os olhos.

Irina sorriu.

— Crianças precisam de rotina.

Edward acrescentou:

— Principalmente depois de certos episódios de violência.

Elena entendeu.

— Vieram almoçar?

— Sim — Irina respondeu. — Seth insistiu.

— Porque a comida dela é melhor — Seth disse.

Edward sorriu.

— Imagino que seja. Afinal, essa é a especialidade dela.

O tom era educado.

O desprezo não.

Elena sentiu.

Irina olhou ao redor.

— O restaurante ficou bonito.

— Obrigada.

— Que bom que conseguiu continuar depois de tudo.

Elena sustentou o olhar.

— Também acho.

— Deve ser importante ter alguma coisa sua novamente.

Rosalie apareceu ao longe.

Elena percebeu.

Não precisava dela.

— É.

Edward observou o curativo na testa.

— Está melhor?

— Estou.

— Impressionante.

Elena ficou imóvel.

— O quê?

— Sua recuperação.

Seth puxou a manga dela.

— Você vai na minha casa?

A pergunta cortou tudo.

Elena olhou para ele.

— Eu...

— Você pode ir hoje?

Irina respondeu:

— Elena está trabalhando, querido.

— Depois.

— Talvez outro dia.

Seth abaixou os olhos.

— Você pode dormir lá.

Elena sentiu o peito doer.

— Seth...

— Tem quarto.

Edward soltou uma pequena risada.

— Acho que Elena já teve problemas suficientes se envolvendo demais com essa família.

O menino não entendeu.

Elena entendeu perfeitamente.

Olhou para Edward.

— Algumas pessoas valem o problema.

O sorriso dele desapareceu.

Seth apertou a mão dela.

— Você vai ligar hoje?

— Vou.

— Promete?

Elena olhou para ele.

— Prometo.

Quando os três foram para a mesa, Elena permaneceu parada.

Observou Seth sentar entre Irina e Edward.

O menino não parecia maltratado.

Não parecia abandonado.

Não parecia em perigo naquele instante.

Parecia triste.

E aquilo foi suficiente.

Elena pegou o telefone.

Ligou para Jacob.

Ele atendeu imediatamente.

— Elena?

— Onde você está?

— Empresa.

— Podemos conversar?

Silêncio.

— Sobre ontem?

— Sim.

Jacob se levantou.

— Vou até você.

— Não.

Ela olhou para Seth.

— Na sua casa.

— Quando?

— Assim que eu sair daqui.

— Certo.

Elena desligou.

E soube que já tinha decidido.


Quando chegou à casa de Jacob, já estava escurecendo.

Ele abriu a porta antes que ela tocasse a campainha pela segunda vez.

— Oi.

— Oi.

— Entra.

Elena entrou.

A casa parecia estranhamente silenciosa sem Seth.

Jacob caminhou até a cozinha.

— Café?

Ela tirou a bolsa do ombro.

— Aceito.

Ele parou.

Olhou para ela.

Elena continuou:

— E não estou falando do café.

Jacob ficou completamente imóvel.

Ela respirou.

— Eu aceito.

Silêncio.

— Aceita?

— Casar com você.

Jacob não disse nada.

Elena soltou o ar.

— Não faz essa cara. A ideia foi sua.

— Eu sei.

— Então.

— Então você aceita.

— Sim.

Jacob continuou olhando.

— Por Seth.

Ela sustentou seu olhar.

— Por Seth.

A frase deveria simplificar tudo.

Não simplificou.

Jacob virou-se para a cafeteira.

— Ainda quer café?

— Agora quero.

Ele preparou.

Colocou uma xícara diante dela.

Elena segurou com as duas mãos.

— Temos um problema.

— Só um?

— Estou tentando ser otimista.

Jacob sentou-se diante dela.

— Qual?

— Nossa história.

— Que história?

Elena arregalou os olhos.

— Exatamente.

— Elena...

— Nós vamos dizer para todo mundo que estamos nos casando. Pessoas normais vão perguntar como aconteceu.

— Podemos dizer a verdade.

Ela ficou olhando para ele.

— “Jacob apareceu no meu restaurante, disse que eu tinha culpa por Seth estar morando com Irina e, três frases depois, pediu que eu casasse com ele”?

Jacob pensou.

— Talvez não.

— Excelente conclusão.

— Então dizemos que pedi no restaurante.

Elena soltou uma risada.

— Claro.

— O que foi?

— Nada. Combina perfeitamente.

— Com o quê?

— Com a situação.

Ela gesticulou.

— Jacob Black, empresário milionário, pede a cozinheira em casamento dentro da cozinha do restaurante.

— Chef.

Elena parou.

— O quê?

— Você odeia quando chamam você de cozinheira.

Ela estreitou os olhos.

— Esse não é o ponto.

— Só estou corrigindo.

— Muito obrigada.

Jacob bebeu café.

— Então restaurante não serve.

— Não disse isso.

— Disse que é ruim.

— Disse que é extremamente original.

— Sarcasmo.

— Finalmente está aprendendo.

Jacob apoiou os braços na mesa.

— Então como deveria ser?

Elena franziu a testa.

— O quê?

— O pedido.

— Eu não sei.

— Você acabou de criticar o meu.

— Porque foi péssimo.

— Foi objetivo.

— “Case comigo” depois de me dizer que tenho culpa pela perda da guarda de Seth não é exatamente uma história que sua assessoria de imprensa vai querer divulgar.

Jacob quase sorriu.

— Provavelmente não.

— Definitivamente não.

— Então como você gostaria que tivesse sido?

Elena ficou imóvel.

A pergunta a atingiu de um jeito inesperado.

— Não importa.

— Você acabou de passar cinco minutos dizendo que importa.

— Importa para a história.

— Então cria uma.

— A ideia foi sua.

— Você é melhor com detalhes.

Elena colocou a xícara sobre a mesa.

— Jacob, tanto faz.

— Restaurante?

— Se quiser.

— Na cozinha?

— Perfeito.

— Você claramente não acha perfeito.

— Não faz diferença.

Jacob a observou.

Elena levantou-se.

— Pensa em alguma coisa melhor.

Pegou a bolsa.

— Ou deixa a cozinha mesmo.

— Elena.

Ela virou-se.

— O quê?

— Você realmente não se importa?

Elena demorou um segundo.

Então sorriu sem humor.

— Não é um pedido de verdade, Jacob.

A frase caiu entre eles.

— Então não faz diferença.

Ele ficou quieto.

Elena abriu a porta.

— Me avisa quando quiser discutir os detalhes.

— Elena.

Ela olhou por cima do ombro.

— Obrigado.

— Não agradece ainda.

— Por quê?

— Porque nós dois provavelmente vamos nos arrepender.

Jacob quase sorriu.

— Provavelmente.

Ela saiu.

A porta se fechou.

Jacob permaneceu na cozinha.

A xícara dela ainda estava sobre a mesa.

Não é um pedido de verdade.

Ele olhou para a porta.

Depois para a xícara.

Pensou no restaurante.

Na cozinha.

Na maneira indiferente com que Elena dissera que tanto fazia.

E, pela primeira vez desde que tivera aquela ideia absurda, Jacob percebeu que uma coisa o incomodava profundamente.

Elena realmente acreditava que não fazia diferença.

Que não importava como ele a pediria em casamento.

Porque não seria verdadeiro.

Jacob encostou-se na cadeira.

Pensou por alguns segundos.

Depois pegou o telefone.

Não ligou para Leah.

Nem para Paul.

Abriu a agenda.

Ficou olhando para a tela.

E começou a pensar em como faria o pedido.