O PESO DE UMA PROMESSA

20 CAPÍTULO 20 -A NOSSA HISTÓRIA


Jacob apareceu no restaurante às onze e vinte da manhã seguinte.

Elena o viu antes que Rosalie tivesse oportunidade de fazer qualquer comentário, o que, considerando Rosalie, já podia ser considerado uma pequena vitória.

Ele entrou como se soubesse exatamente aonde estava indo. Terno escuro, camisa sem gravata, passos decididos e aquela expressão que Elena começara a reconhecer como particularmente perigosa: Jacob havia tomado uma decisão e, provavelmente, esquecera que outras pessoas tinham direito a participar dela.

Elena estava diante da bancada revisando a lista de fornecedores quando ergueu os olhos.

— Não.

Jacob parou diante dela.

— Bom dia para você também.

— Bom dia. Não.

— Eu ainda não falei nada.

— Não precisa. Conheço essa cara.

— Que cara?

— Essa cara de “eu decidi alguma coisa e agora todo mundo precisa obedecer”.

Rosalie, que conferia uma planilha a poucos passos, levantou os olhos.

— Eu também conheço.

Elena apontou para ela.

— Obrigada.

Jacob olhou para Rosalie.

— Não ajuda.

— Não estava tentando ajudar você.

— Rosalie.

— Já estou indo.

Ela recolheu os papéis, mas, antes de se afastar, cochichou para Elena:

— Se ele quiser levar você para algum lugar romântico, pelo amor de Deus, vai.

— Por quê?

— Porque alguém nessa relação precisa colaborar com o entretenimento dos demais.

— Não existe relação.

Rosalie lançou um olhar para Jacob.

Depois para Elena.

— Claro.

Saiu antes que Elena pudesse responder.

Jacob colocou as mãos nos bolsos.

— Vamos.

Elena o encarou.

— Viu?

— O quê?

— A cara.

— Elena.

— Jacob.

— Preciso que venha comigo.

— Para onde?

— Depois você descobre.

Ela baixou lentamente a prancheta.

— Não.

— Por quê?

— Porque eu tenho vinte e quatro anos, fui criada numa sociedade relativamente civilizada e aprendi que não se entra no local de trabalho de uma pessoa dizendo apenas “vamos”.

— Você aceitou se casar comigo ontem.

Elena olhou rapidamente ao redor.

— Fala mais alto. Acho que o pessoal da confeitaria não ouviu.

— Desculpa.

— E ter aceitado seu plano absurdo não significa que perdi meu direito de fazer perguntas.

— Não disse isso.

— Para onde estamos indo?

— Não vou contar.

— Então não vou.

Jacob respirou.

— Vai.

— Isso foi uma ordem?

— Um pedido.

— Pareceu uma ordem.

— Elena.

— Jacob.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Uma hora e meia.

— O quê?

— Preciso de uma hora e meia do seu tempo.

— Para quê?

— Para resolver um problema.

Ela ficou imediatamente desconfiada.

— Que problema?

— Nossa história.

Elena piscou.

Lembrou-se da conversa na cozinha da casa dele.

Como vamos contar para as pessoas que você me pediu em casamento?

Lembrou-se também de ter dito que não importava.

Porque não era um pedido verdadeiro.

— Você inventou alguma coisa?

— Mais ou menos.

— Isso é tranquilizador.

Jacob estendeu a mão.

— Vem comigo.

Elena olhou para a mão dele.

Depois para seu rosto.

— Não vou segurar sua mão.

— Não pedi para segurar. Estava indicando a porta.

Ela lançou um olhar irritado.

Jacob quase sorriu.

— Você é insuportável.

— Também já me disseram.

— Muitas mulheres?

— Está com ciúme?

Elena pegou o casaco.

— Agora quero ficar.

— Imaginei.

— Para onde vamos?

— Não vou contar.

— Vou perguntar o caminho inteiro.

— Eu sei.

— Até você falar.

— Não vou falar.

— Você subestima minha capacidade de irritar alguém.

Jacob abriu a porta para ela.

— Nunca.


Elena cumpriu a ameaça.

— Para onde estamos indo?

— Não vou contar.

Três minutos depois:

— Sua empresa?

— Não.

— Casa da Leah?

— Não.

— Algum cartório?

— Não.

— Tribunal?

Jacob virou o rosto.

— Por que eu levaria você ao tribunal?

— Você me pediu em casamento para ajudar numa disputa judicial. Minhas expectativas mudaram.

— Não é tribunal.

Mais alguns minutos.

— Casa do seu pai?

— Não.

— Alguma joalheria?

Jacob não respondeu imediatamente.

Elena percebeu.

— Joalheria?

— Não.

— Você demorou.

— Não demorei.

— Demorou.

— Elena.

— Estamos indo comprar aliança?

— Não.

— Você já comprou?

Silêncio.

Ela virou completamente o rosto para ele.

— Jacob.

— O quê?

— Você comprou uma aliança?

— Precisávamos de uma.

— Poderíamos escolher juntos.

— Poderíamos.

— Mas você escolheu sozinho.

— Escolhi.

— E se eu odiar?

— Não vai.

Elena abriu a boca.

Fechou.

— Essa confiança é irritante.

— Você vai gostar.

— Agora espero que seja horrível só para provar que você está errado.

Jacob sorriu.

— Mentira.

Ela voltou a olhar pela janela.

Quando reconheceu a direção, franziu a testa.

— Central Park?

Jacob permaneceu em silêncio.

— Estamos indo ao Central Park.

— Parabéns.

— Para quê?

— Você vai descobrir.

— Odeio surpresas.

— Não odeia.

— Odeio as suas.

— Você nunca teve uma surpresa minha.

— Exatamente. Estou tentando manter a estatística.

Jacob estacionou.

Elena saiu ainda desconfiada.

Caminharam por uma das entradas do parque, seguindo por uma alameda arborizada. O movimento era tranquilo naquela hora. Algumas pessoas corriam, outras passeavam com cachorros, crianças passavam de bicicleta.

Elena olhava constantemente para Jacob.

— Quanto falta?

— Pouco.

— Isso não é medida de distância.

— Cinco minutos.

— Poderia ter dito isso antes.

— Você não perguntou quanto faltava. Perguntou onde estávamos indo.

— Não começa.

Ele sorriu.

Foi então que Elena viu o pequeno bistrô.

Já conhecia o lugar de vista. Charmoso, cercado por árvores e com uma área externa voltada para um pequeno jardim.

Mas naquele dia havia alguma coisa diferente.

As portas estavam fechadas para o público.

Jacob caminhou até a entrada.

Elena parou.

— Jacob.

Ele abriu a porta.

— Vem.

— O que você fez?

— Entra.

— Essa frase nunca antecede nada normal.

— Elena.

Ela entrou.

E parou.

O primeiro impacto foram as flores.

Não exageradas. Não havia arranjos enormes ou qualquer coisa ostensiva. Eram muitas, mas distribuídas pelo ambiente como se sempre tivessem pertencido àquele lugar.

Havia balões em tons claros presos discretamente próximos às janelas e ao jardim.

Mas não foram eles que fizeram Elena perder a fala.

Foram os pequenos papéis pendurados em uma estrutura de madeira logo na entrada.

Bilhetes.

Elena aproximou-se.

Reconheceu imediatamente a própria letra.

Seth — fruta cortada. Não vale biscoito como café da manhã.

Outro.

Jantar na geladeira. Aquecer 3 minutos. NÃO colocar passas.

Outro.

Uma lista de compras.

Outro.

Um lembrete sobre o horário de Seth.

Outro ainda tinha uma reclamação escrita às pressas:

Comprar café decente. O seu é um atentado contra a gastronomia.

Elena tocou o papel.

Jacob tinha guardado aquilo.

Coisas insignificantes.

Papéis que ela deixara sobre a geladeira, bancada, mesa.

Coisas que acreditava terem ido para o lixo no mesmo dia.

Continuou caminhando.

No jardim havia uma pequena mesa.

Duas xícaras.

Elena reconheceu o modelo.

As mesmas xícaras que usavam na casa Black.

Uma delas tinha café preto.

Sem açúcar.

A outra, café com leite.

Ao lado delas estava uma taça de cristal.

Cheia de uvas-passas.

Elena arregalou os olhos.

Se não estivesse completamente atordoada, teria rido.

Jacob odiava passas.

Odiava de uma forma quase pessoal.

E alguém havia colocado uma quantidade absurda delas dentro de uma taça de cristal como se fossem alguma iguaria sofisticada.

Então Elena ouviu.

A música.

Parou novamente.

Conhecia aquela música.

Era a mesma que tocava no restaurante naquela noite.

A noite em que dançaram.

A noite anterior à inauguração.

A noite em que Jacob segurara sua cintura e, por alguns minutos, ela se permitira imaginar como seria se as coisas entre eles fossem simples.

Elena virou-se.

Jacob não estava mais ao lado dela.

Ela procurou.

E o encontrou ajoelhado.

O mundo pareceu parar.

Jacob estava diante dela, sobre um joelho, segurando uma pequena caixa.

Elena levou a mão à boca.

Não conseguiu perguntar o que ele estava fazendo.

Não conseguiu dizer o nome dele.

Não conseguiu sequer lembrá-lo de que aquilo não era necessário.

Apenas ficou ali.

Completamente imóvel.

Jacob abriu a caixa.

O anel brilhou.

Mas Elena mal olhou para ele.

Seus olhos estavam presos aos de Jacob.

Ele respirou fundo.

E começou.

— Você entrou na minha vida sem pedir licença, Elena. Pensando bem, talvez essa seja uma das coisas que você faz melhor.

Ele a olhava diretamente.

— Desde o primeiro dia.

A lembrança pareceu surgir entre os dois.

— Desde o primeiro dia em que eu vi você no meio da sala da minha casa, com aqueles fones nos ouvidos, completamente alheia ao mundo, olhando para mim como se eu fosse um invasor e pronta para chamar a polícia.

Os olhos de Elena começaram a arder.

— Você não sabia quem eu era. Não sabia que aquela era minha casa. Não sabia praticamente nada sobre mim e, ainda assim, estava preparada para me expulsar de lá.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Depois descobriu que o homem do retrato não era eu.

Elena sentiu vontade de rir.

Não conseguiu.

— E, de algum jeito, depois daquele dia, você nunca mais realmente saiu.

O sorriso de Jacob desapareceu lentamente.

— Você entrou naquela casa para trabalhar. Era isso. Pelo menos deveria ter sido. Tinha regras. Horários. Funções. Tudo muito simples.

Ele fez uma pequena pausa.

— Só que você nunca foi muito boa em deixar as coisas simples.

Elena continuava sem conseguir falar.

— Você mexeu na cozinha. Mudou a comida. Discutiu comigo sobre café. Descobriu que eu odiava passas e decidiu transformar isso numa informação fundamental sobre minha personalidade. Deixava bilhetes em todos os lugares. Reclamava das minhas regras e, mesmo assim, criava outras para Seth.

Jacob olhou rapidamente para os pequenos papéis.

— E eu comecei a guardar esses bilhetes.

Elena sentiu outra lágrima se formar.

— Nem sei por quê.

Ele voltou a olhar para ela.

— Talvez porque alguma parte de mim já soubesse o que eu ainda não estava disposto a admitir.

Silêncio.

— Você entrou no meu coração do mesmo jeito que entrou naquela sala no primeiro dia.

Pausa.

— Sem pedir permissão.

O peito de Elena apertou.

— E eu tentei impedir.

A voz dele ficou mais baixa.

— Tentei transformar você em uma funcionária. Depois em alguém importante para Seth. Depois numa amiga. Depois numa mulher com quem eu definitivamente não deveria me envolver.

Outra pausa.

— Não funcionou.

Jacob respirou.

— Porque você começou a aparecer em todos os lugares.

— No café que surgia na minha frente exatamente como eu gostava.

— Nos bilhetes espalhados pela casa.

— Nas discussões sobre comida.

— Na maneira como Seth sorria quando você chegava.

— E no silêncio quando você ia embora.

Os olhos de Elena já estavam cheios.

— Então Rebecca e Salomon morreram.

A expressão dele mudou.

— E eu vi Seth perder tudo.

Jacob engoliu em seco.

— Eu sabia resolver empresas. Contratos. Problemas financeiros. Qualquer coisa que tivesse uma lógica, uma regra ou um número. Mas não sabia como olhar para aquele menino e explicar que os pais dele nunca mais voltariam.

A voz dele tornou-se mais baixa.

— Você também não sabia.

Pausa.

— Mas você sabia ficar.

Elena sentiu a primeira lágrima cair.

— Você sentou no chão com ele. Não tentou consertar. Não fez promessas impossíveis. Não disse que tudo ficaria bem.

Jacob respirou.

— Apenas ficou ao lado dele enquanto doía.

Os olhos dele permaneceram nos dela.

— E eu me apaixonei por você enquanto via você fazer isso.

Elena parou de respirar.

Jacob não interrompeu.

— Talvez tenha acontecido antes. Talvez eu só tenha entendido naquele momento. Não sei.

Pausa.

— Só sei que me apaixonei.

A música continuava baixa.

— Então veio a verdade.

Elena sentiu o corpo enrijecer.

— Descobri sobre Bella. Sobre o documento. Sobre o dinheiro. Descobri que você sabia e não me contou.

A mandíbula dele se contraiu.

— Eu fiquei com raiva.

Pausa.

— Não. Fiquei furioso.

Jacob continuou olhando para ela.

— Eu me senti traído.

A lágrima percorreu o rosto de Elena.

— E doeu daquele jeito porque era você.

Silêncio.

— Se tivesse sido qualquer outra pessoa, eu teria cortado aquela pessoa da minha vida e seguido em frente. Mas era a mulher em quem eu confiava dentro da minha casa. Era a mulher em quem Seth confiava.

A voz dele baixou.

— Era a mulher que eu amava.

Elena fechou os olhos por um segundo.

— Eu queria você longe de mim.

Jacob não suavizou.

— Queria olhar para você e não sentir mais nada. Queria arrancar de mim tudo que sentia porque achei que seria mais fácil sentir raiva.

Ele respirou.

— E eu fui cruel.

Elena tornou a abrir os olhos.

— Eu sabia onde machucar você.

A voz dele ficou rouca.

— Sabia exatamente qual era a ferida que você carregava desde os seis anos. E usei aquilo contra você.

Pausa.

— Eu sabia que você ainda carregava a culpa pelo acidente dos seus pais. Sabia que aquela criança ainda existia dentro de você, tentando cumprir uma promessa impossível feita ao pai.

Os olhos dele brilharam.

— E mesmo sabendo que você tinha seis anos, mesmo sabendo que uma criança não poderia ter causado aquilo, eu usei essa culpa para ferir você.

Elena chorava silenciosamente.

— Porque eu estava ferido e queria que você sentisse o mesmo.

Jacob respirou fundo.

— Depois você foi embora.

Silêncio.

— E eu deixei.

A música parecia ainda mais distante.

— Disse para mim mesmo que era melhor assim. Que não queria você perto. Que não confiava mais em você. Que tudo que existia entre nós tinha acabado.

Ele fez uma pausa.

— Até o telefone tocar.

Elena ficou completamente imóvel.

— Até alguém me dizer que você tinha sofrido um acidente.

O rosto de Jacob mudou.

— Até eu chegar naquele hospital.

A voz dele falhou quase imperceptivelmente.

— E ver você naquela cama.

Elena levou a outra mão aos lábios.

— Você não falava. Não abria os olhos. Não sabia que eu estava ali.

Jacob engoliu em seco.

— E, pela primeira vez, eu descobri o que realmente significava ter você longe de mim.

Pausa.

— Porque naquele momento você estava.

Os olhos dele ficaram úmidos.

— Eu podia falar e você não respondia. Podia segurar sua mão e você não sabia. Podia pedir para você abrir os olhos quantas vezes quisesse e não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para obrigar você a voltar.

Uma lágrima escapou pelo rosto de Jacob.

Ele não a enxugou.

— E toda aquela raiva deixou de importar.

Silêncio.

— A mentira.

— O documento.

— O dinheiro.

— A discussão.

— O restaurante.

— Meu orgulho.

— Quem estava certo.

— Quem estava errado.

Jacob balançou levemente a cabeça.

— Nada importava.

A voz saiu quase num sussurro.

— Porque eu percebi que podia passar o resto da minha vida com raiva de você.

Pausa.

— Desde que você estivesse viva para eu poder sentir essa raiva.

Elena soluçou silenciosamente.

— Foi sentado ao lado daquela cama que eu percebi que não conseguiria viver num mundo sem você.

Ele não desviou os olhos.

— Não porque Seth precisa de você.

Pausa.

— Não porque minha casa funciona melhor quando você está nela.

— Não porque você sabe exatamente como eu tomo café.

— Não porque discute comigo.

— Não porque deixa bilhetes espalhados.

— Não porque é a única pessoa que consegue convencer Seth de que biscoito não é uma refeição completa.

Jacob respirou.

— Eu não consigo viver num mundo sem você porque eu amo você.

Elena sentiu o chão desaparecer sob os pés.

— Eu amo você, Elena.

Nenhuma hesitação.

Nenhuma condição.

— Amo quando estou com raiva de você.

Pausa.

— Amo quando confio em você e, infelizmente, descobri que continuo amando mesmo quando estou tentando não confiar.

Os olhos dela transbordaram.

— Amo quando você está perto.

— Amo quando tenta fugir.

— Amo quando ri.

A voz dele ficou mais baixa.

— E descobri da pior maneira possível que amo você até quando está deitada numa cama de hospital sem conseguir me responder.

Jacob respirou profundamente.

— Eu amo a mulher que entrou na minha casa sem saber quem eu era.

— Amo a mulher que cuidou de Seth quando eu não sabia como cuidar.

— Amo a chef que quase abriu mão do próprio sonho porque passou a vida inteira acreditando que todos precisavam vir antes dela.

— Amo a mulher que errou comigo.

Pausa.

— E amo a mulher com quem eu também errei.

Elena estava em choque.

Completamente.

— Ontem de manhã eu entrei naquela cozinha e encontrei você discutindo com Seth por causa de dois ovos.

O rosto dele suavizou.

— Ele estava rindo.

Jacob respirou.

— Você colocou meu café sobre a mesa sem perguntar como eu queria. Mandou Seth pegar a mochila. Ele jurou que tinha perdido o tênis e você descobriu que estava no próprio pé.

Uma emoção estranha atravessou o rosto dele.

— E aquilo era tão comum.

Pausa.

— Tão simples.

Os olhos de Jacob permaneceram nos dela.

— E eu não consigo lembrar da última vez que alguma coisa tão simples me fez querer tanto que o tempo parasse.

Elena sentiu outra lágrima cair.

— Por alguns minutos, nós não éramos três pessoas tentando sobreviver ao que aconteceu.

Jacob respirou.

— Éramos uma família tomando café da manhã.

O coração dela pareceu grande demais para o peito.

— Talvez nossa história seja uma bagunça.

Pausa.

— Talvez tenha começado do jeito errado. Talvez tenha passado pelos lugares errados. Talvez nós dois tenhamos cometido mais erros do que deveríamos.

Ele levantou levemente a caixa.

— Mas, quando penso nos últimos meses, você está em todos os lugares que importam.

— Na minha casa.

— Com Seth.

— No restaurante.

— Nos piores dias da minha vida.

Pausa.

— E nos melhores também.

Os olhos dele não deixaram os dela.

— Você entrou no meu coração sem pedir permissão, Elena.

Jacob respirou.

— Eu tentei tirar você de lá.

Pausa.

— Não consegui.

Outra.

— Então não quero mais tentar.

Ele abriu completamente a pequena caixa.

— Eu amo você.

Silêncio.

— Quero você na minha vida.

Jacob sustentou o olhar dela.

— Elena Swan...

Uma pausa.

— Case comigo.

Por alguns segundos, Elena não soube onde estava.

Não havia restaurante.

Não havia disputa pela guarda.

Não havia Irina.

Não havia Edward.

Não havia tribunal.

Não havia acordo.

Não havia casamento de conveniência.

Havia apenas Jacob.

Ajoelhado diante dela.

Dizendo que a amava.

E tudo que acabara de dizer era verdadeiro demais.

Detalhado demais.

Íntimo demais.

Ele guardara os bilhetes.

Lembrara das xícaras.

Perguntara a Rosalie qual música tocara quando dançaram.

Colocara uvas-passas numa taça de cristal apenas porque sabia que ela entenderia.

Lembrara do primeiro encontro.

De Seth.

Da cozinha.

Do hospital.

Dos morangos.

De tudo.

E dissera que a amava.

Elena sabia.

Sabia exatamente qual era o acordo.

Sabia o que Jacob explicara no dia anterior.

Diante das pessoas, seriam marido e mulher.

Quando estivessem sozinhos, não.

No papel, seria verdadeiro.

Entre eles, não.

Mas, naquele momento, Elena esqueceu.

Ou talvez apenas tenha escolhido esquecer.

Por alguns segundos preciosos, permitiu-se acreditar que Jacob Black estava ajoelhado diante dela porque queria que ela fosse sua esposa.

Não porque precisava recuperar Seth.

Não porque um advogado precisaria de uma história convincente.

Não porque Irina apresentava uma estrutura familiar mais estável.

Porque ele a amava.

As lágrimas continuavam descendo quando Elena finalmente conseguiu falar.

— Sim.

Jacob permaneceu olhando para ela.

Elena sorriu entre as lágrimas.

— Eu caso com você.

Ele fechou a caixa.

Levantou-se.

— Ótimo.

Elena ainda sorria.

— Agora temos a nossa história.

O sorriso permaneceu em seu rosto por uma fração de segundo.

Então desapareceu.

Elena piscou.

Uma vez.

Duas.

O mundo voltou.

As flores continuavam ali.

A música ainda tocava.

Os bilhetes permaneciam pendurados.

As duas xícaras continuavam sobre a mesa.

A taça de cristal ainda estava cheia das ridículas uvas-passas.

Mas tudo parecia diferente.

Agora temos a nossa história.

História.

Era aquilo.

Uma história.

Uma narrativa para contar quando perguntassem como Jacob Black pedira Elena Swan em casamento.

Ela tinha esquecido.

Por alguns minutos, estupidamente, tinha esquecido.

Jacob pegou a pequena caixa e a lançou suavemente em sua direção.

Elena a segurou por reflexo.

— Coloca.

Ela olhou para ele.

— O quê?

— A aliança.

A voz dele estava novamente prática.

— Precisamos começar a usar. Se alguém perguntar, o pedido aconteceu hoje.

Elena olhou para a caixa.

Depois para Jacob.

— Claro.

Abriu.

Retirou o anel.

Colocou no dedo.

Serviu perfeitamente.

É claro que servia.

Jacob provavelmente descobrira a medida de alguma maneira e resolvera aquilo com a mesma eficiência com que resolvia contratos, empresas e problemas.

Ele observou a mão dela.

— Pronto.

Elena levantou os olhos.

— Pronto?

— Essa parte do problema está resolvida.

Alguma coisa dentro dela se partiu silenciosamente.

— Sim.

Olhou para a aliança.

— Resolvida.

Jacob começou a falar sobre horários.

Sobre avisar Leah.

Sobre a necessidade de definirem uma data.

Elena mal ouviu.

Só conseguia pensar em uma coisa.

Eu amo você.

Agora não sabia se aquelas palavras pertenciam a Jacob.

Ou à história.


No carro, Elena permaneceu voltada para a janela.

Jacob dirigia enquanto falava sobre os próximos passos.

— Leah provavelmente vai querer conversar com nós dois antes de qualquer anúncio formal.

Elena girou discretamente a aliança no dedo.

— Certo.

— Precisamos definir a cerimônia. Acho que não faz sentido esperar meses.

— Hum.

— Quanto mais natural parecer, melhor.

Natural.

Elena quase riu.

— Talvez três semanas.

Ela não respondeu.

— Elena?

— O quê?

— Três semanas.

— Para quê?

Jacob olhou rapidamente para ela.

— Casamento.

— Ah.

Ela voltou a olhar para a janela.

— Certo.

— Você não ouviu nada do que eu falei nos últimos cinco minutos, ouviu?

— Ouvi.

— O que eu disse?

Elena permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Leah.

Jacob suspirou.

— Impressionante.

Ela tentou sorrir.

Não conseguiu.

A mão repousava sobre o colo.

O anel brilhava.

Bonito.

Perfeito.

Real.

Talvez fosse essa a pior parte.

Tudo seria real.

O documento.

A cerimônia.

A aliança.

A casa.

As fotografias.

Os convidados.

Seth acreditando que eles se amavam.

Só o casamento entre os dois não seria.

Uma lágrima escapou.

Elena virou um pouco mais o rosto para a janela.

Limpou-a rapidamente.

Jacob continuou falando sobre datas.

Não viu.

E Elena ficou agradecida.


Jacob telefonou para Leah assim que voltou para a empresa.

— Ela aceitou.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Quem?

— Elena.

Outro silêncio.

— Aceitou o quê?

Jacob franziu a testa.

— Casar comigo.

— Jacob.

— O quê?

— Ontem nós tivemos uma conversa sobre o processo.

— Eu lembro.

— Eu mencionei casamento como exemplo de argumento utilizado pela outra parte.

— Eu sei.

— Não recomendei que você saísse pedindo alguém em casamento vinte e quatro horas depois.

— Não pedi alguém.

— Isso não melhora.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Elena sabe exatamente o que estamos fazendo.

Leah ficou séria.

— Ela concordou livremente?

— Sim.

— Entendeu que casamento não garante guarda?

— Sim.

— Você entendeu?

— Leah.

— Preciso perguntar.

— Entendi.

— E vocês vão realmente se casar?

— Sim.

Leah soltou o ar.

— Então quero conversar com os dois antes de qualquer providência relacionada ao processo.

— Certo.

— E não inventa mais nada até lá.

Jacob quase sorriu.

— Vou tentar.

— Isso não me tranquiliza.

Desligaram.

Paul recebeu a notícia pouco depois.

— Ela aceitou?

— Sim.

— Elena Swan aceitou voluntariamente se casar com você?

— Paul.

— Preciso estabelecer os fatos.

— Sim.

— E você fez o quê? Foi até o restaurante e disse “ótimo, assina aqui”?

Jacob ficou em silêncio.

Paul percebeu.

— O que você fez?

— Nada.

— Jake.

— Levei ela ao Central Park.

Silêncio.

— Não.

— Paul.

— Onde?

— Num bistrô.

— Não.

— Qual é o problema?

— Você alugou um bistrô?

— Reservei.

— Tinha flores?

Jacob permaneceu quieto.

Paul começou a rir.

— Tinha flores.

— Precisávamos de uma história convincente.

— Claro.

— Para de rir.

— Você ajoelhou?

Jacob fechou os olhos.

Paul perdeu completamente a compostura.

— VOCÊ AJOELHOU?

— Ela disse que o pedido no restaurante era ruim.

— Então você montou um pedido romântico no Central Park?

— Precisávamos contar alguma coisa para as pessoas.

— E tinha música?

Jacob ficou em silêncio.

Paul riu ainda mais.

— Meu Deus.

— Cala a boca.

— Que música?

— A que estava tocando quando dançamos.

Paul parou de rir.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Jake.

— O quê?

— Você tem certeza de que entende o significado de “casamento falso”?

Jacob desligou.


Rosalie percebeu o anel antes mesmo de Elena terminar de atravessar o restaurante.

— Não.

Elena continuou andando.

— Rosalie...

— NÃO.

Algumas pessoas olharam.

— Fala baixo.

Rosalie correu até ela.

— Você vai casar?

Elena levantou a mão.

— Vou.

Rosalie segurou-a.

— Meu Deus.

— Rosalie.

— Isso é enorme.

— O anel ou a notícia?

— Os dois!

Elena riu, apesar de tudo.

Rosalie examinou a joia.

— Jacob?

— Não. Resolvi comprar uma aliança e surpreender um desconhecido.

— Você seria capaz.

— Obrigada.

Rosalie olhou novamente.

— Como ele pediu?

Elena parou.

Por uma fração de segundo, viu tudo novamente.

Jacob ajoelhado.

Eu amo você.

Agora temos a nossa história.

— No Central Park.

Rosalie arregalou os olhos.

— O quê?

— Num bistrô.

— Jacob Black levou você para um bistrô no Central Park e pediu você em casamento?

— Sim.

— Como?

Elena sorriu discretamente.

— Essa parte fica comigo.

Rosalie estreitou os olhos.

— Por quê?

— Porque eu quero.

— Elena.

— Rosalie.

— Foi romântico?

O peito dela apertou.

— Foi.

— Muito?

Elena olhou para o anel.

— Muito.

Rosalie sorriu e a abraçou.

— Estou tão feliz por você.

Elena fechou os olhos durante o abraço.

— Obrigada.

Não contou mais nada.

Não contou sobre o acordo.

Não contou que o casamento tinha começado como estratégia.

Não contou que Jacob dissera que a amava.

E, principalmente, não contou que Elena não sabia se aquela parte também tinha sido mentira.


Alice viu o anel três segundos depois de Elena entrar no apartamento.

Parou no corredor.

Olhou para a mão da amiga.

Depois para o rosto dela.

Depois novamente para a mão.

— Elena.

— Oi.

— Elena.

— Alice...

— Você aceitou?

Elena colocou a bolsa sobre a cadeira.

— Aceitei.

Alice soltou um grito.

— Meu Deus!

Correu até ela.

Elena foi abraçada antes de conseguir reagir.

— Você vai casar!

— Tecnicamente, sim.

Alice afastou-se.

— Não estraga.

Pegou a mão dela.

— Meu Deus, olha isso.

Elena sorriu.

— Bonito?

— Bonito? Esse anel provavelmente paga meu aluguel durante cinco anos.

— Alice.

— Estou apenas contextualizando.

Virou a mão dela.

— Jacob tem bom gosto.

— Tem.

Alice percebeu alguma coisa.

O sorriso de Elena não chegava aos olhos.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Elena.

— Alice...

— Não faz isso comigo. Eu sei que o casamento é um acordo. Sei que você está apavorada. Mas você saiu daqui sem anel e voltou com isso no dedo e com uma cara de quem acabou de perder alguma coisa.

Elena ficou quieta.

Alice soltou sua mão.

— O que ele fez?

Elena sentou-se no sofá.

— Ele apareceu no restaurante.

Alice sentou ao lado.

— E?

— Insistiu que eu fosse com ele.

— Claro que insistiu.

— Me levou ao Central Park.

Alice piscou.

— Central Park?

— Num bistrô.

— Espera.

Elena respirou.

— Tinha flores.

Alice ficou quieta.

— Balões.

— Elena...

— E os bilhetes.

— Que bilhetes?

— Os que eu deixava na casa dele.

A voz começou a ficar instável.

— Lista de compras. Recado sobre o jantar. Horário do Seth. Coisas idiotas.

Alice franziu a testa.

— Ele guardou?

Elena assentiu.

— Todos.

Pausa.

— Tinha duas xícaras de café no jardim.

Alice não disse nada.

— E uma taça de cristal cheia de passas.

Alice quase riu.

— Por quê?

Elena também quase sorriu.

— Porque ele odeia.

— Claro.

— E estava tocando a música.

— Que música?

Elena olhou para ela.

— A que tocava quando nós dançamos no restaurante.

O sorriso de Alice desapareceu completamente.

— Elena...

— Então eu virei.

Ela respirou fundo.

— E ele estava ajoelhado.

Alice permaneceu imóvel.

— Com a caixa.

Os olhos de Elena começaram a encher.

— E ele falou.

— O quê?

Elena tentou responder.

Não conseguiu imediatamente.

— Sobre tudo.

Uma lágrima caiu.

— Sobre o primeiro dia em que me viu. Quando achei que ele era um invasor e quis chamar a polícia.

Alice segurou sua mão.

— Sobre Seth. Sobre Rebecca e Salomon. Sobre como eu fiquei com Seth quando eles morreram.

Outra lágrima.

— Sobre quando descobriu o que Bella tinha feito.

— Elena...

— Disse que ficou com raiva. Que se sentiu traído. Que queria que eu desaparecesse da vida dele.

Alice apertou os dedos dela.

— E depois falou do acidente.

Elena começou a chorar.

— Disse que quando me viu naquela cama do hospital percebeu que não conseguia viver num mundo sem mim.

Alice ficou imóvel.

— E disse...

A voz dela falhou.

— Disse o quê?

Elena fechou os olhos.

— Que me ama.

Alice não respondeu.

— Ele disse que me ama, Alice.

As lágrimas desciam agora sem controle.

— Disse que eu entrei no coração dele sem pedir permissão desde o primeiro dia.

Ela respirou com dificuldade.

— Disse que tentou me tirar de lá e não conseguiu.

Alice a abraçou.

— Elena...

— E eu acreditei.

A voz saiu abafada contra o ombro da amiga.

— Por alguns minutos, eu esqueci tudo.

— Esqueci Irina.

— Esqueci Seth.

— Esqueci o acordo.

— Esqueci que era falso.

Alice passou a mão pelos cabelos dela.

— Eu só vi ele ajoelhado.

Elena chorava.

— E ouvi ele dizer que me amava.

Pausa.

— Então eu disse sim.

Alice apertou o abraço.

— E depois?

Elena soltou uma risada quebrada.

— Ele fechou a caixa.

Alice ficou tensa.

— Levantou e disse: “Ótimo. Agora temos a nossa história.”

— Filho da...

— Alice.

— Não. Desculpa. Não.

Elena afastou-se.

— Ele não fez nada errado.

— Fez.

— Nós tínhamos um acordo.

— Isso não dá a ele o direito de fazer você acreditar...

— Ele precisava de uma história convincente.

— Não precisava dizer que ama você.

Elena parou.

Alice repetiu:

— Não precisava.

Silêncio.

Elena olhou para o anel.

— Eu sei.

— Então por que disse?

Elena balançou a cabeça.

— Não sei.

— Você acha que ele estava mentindo?

Essa era a pergunta.

A única que Elena tentava não fazer desde o Central Park.

Ela olhou para Alice.

— Não.

Alice ficou imóvel.

— Não?

Elena balançou a cabeça.

— Essa é a pior parte.

Passou os dedos sobre a aliança.

— Eu conheço Jacob.

Pausa.

— Conheço quando está irritado. Quando está escondendo alguma coisa. Quando está tentando controlar o que sente. Quando fala apenas porque precisa dizer alguma coisa.

Respirou.

— E, quando ele disse que me amava...

Elena fechou os olhos.

— Eu não achei que estivesse mentindo.

Alice não respondeu.

— Mas depois ele levantou e virou Jacob de novo. Falando de história, aliança, datas, cerimônia...

Ela enxugou o rosto.

— Como se tudo que tinha acabado de dizer fosse parte de um roteiro.

— Talvez ele tenha se assustado.

Elena soltou uma risada triste.

— Ou talvez seja exatamente isso que eu quero acreditar.

Alice segurou seu rosto.

— Escuta.

Elena olhou para ela.

— Eu não sei o que Jacob sente.

— Nem eu.

— Mas sei o que você sente.

Elena baixou os olhos.

— Eu amo ele.

— Eu sei.

— E agora vou morar com ele.

— Eu sei.

— Dormir na mesma casa.

— Sim.

— Acordar com ele.

— Provavelmente.

— Aparecer em fotografias.

— Muitas.

— Fingir que sou esposa dele.

Alice respirou.

— Elena...

— E toda vez que ele olhar para mim, eu vou lembrar de hoje.

Uma lágrima caiu.

— Vou lembrar dele dizendo que me ama.

Alice puxou-a novamente para os braços.

— Então talvez a coisa mais importante seja você não esquecer uma coisa.

— Qual?

— Você aceitou por Seth.

Elena fechou os olhos.

— Eu sei.

— E precisa proteger seu coração enquanto faz isso.

Elena encostou a cabeça no ombro dela.

— Acho que já é tarde demais para essa parte.

Alice não encontrou resposta.

Apenas ficou ali.

Com ela.

Como Elena sempre fizera com as pessoas que amava.

Sem tentar consertar.

Sem prometer que tudo ficaria bem.

Apenas ficando.

E, naquela noite, enquanto Alice a abraçava, Elena percebeu a ironia cruel de tudo aquilo.

No dia seguinte, começaria a contar ao mundo a história de como Jacob Black havia lhe pedido em casamento.

Flores.

Central Park.

Bilhetes.

Café.

Uvas-passas.

A música da primeira dança.

Uma declaração de amor.

Uma aliança.

Seria uma história perfeita.

O único problema era que Elena já não sabia qual parte dela era mentira.