O PESO DE UMA PROMESSA
15 CAPÍTULO 15 - UMA PEQUENA FRESTA
A ideia surgiu para Jacob pouco depois das seis da manhã.
Não foi uma conclusão lógica, embora ele tentasse transformá-la em uma.
Não veio de uma reunião, de um relatório ou de qualquer uma das ferramentas com as quais estava acostumado a resolver problemas. Surgiu enquanto ele estava parado na cozinha de casa, segurando uma xícara de café que não bebera, olhando para a cadeira onde Seth costumava sentar quando Elena ainda trabalhava ali.
Rosalie ligara na noite anterior.
Nenhuma mudança.
Elena continuava comendo quase nada.
Falava apenas quando necessário.
Não perguntava pelo restaurante.
Não perguntava por Nova York.
Não perguntava por Jacob.
E continuava sem chorar.
Jacob passara metade da madrugada tentando encontrar alguma coisa que pudesse fazer.
Médicos?
Ela já tinha os melhores.
Psicólogos?
O hospital acompanhava.
Transferência?
Não havia indicação.
Dinheiro?
Completamente inútil.
Ele próprio?
Talvez piorasse.
Então seus olhos haviam parado sobre uma pequena tigela esquecida na bancada.
Morangos.
Jacob ficou olhando para eles.
E se lembrou.
Seth no chão da cozinha.
Elena ao lado dele.
A maneira como ela sempre mudava perto do menino.
Não porque Seth exigisse que ela fosse forte.
Mas porque nunca exigira coisa alguma.
Jacob colocou a xícara sobre a bancada.
Pegou o telefone.
Leah atendeu com uma voz sonolenta.
— Se alguém estiver preso, espero sinceramente que seja você.
— Preciso levar Seth para a Flórida.
Houve silêncio.
— Bom dia para você também.
— Bom dia.
— Que horas são?
Jacob olhou para o relógio.
— Seis e oito.
— Eu odeio você.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. O ódio que estou sentindo agora possui fundamentos constitucionais.
Jacob quase sorriu.
Quase.
— Leah.
Ela percebeu a voz.
O sono desapareceu.
— O que aconteceu?
— Nada novo.
— Elena?
— Continua igual.
Silêncio.
— Então por que Seth?
Jacob apoiou a mão na bancada.
— Porque talvez ele consiga chegar onde nenhum de nós está conseguindo.
Leah demorou alguns segundos.
— Explique.
— Rosalie disse que ela não reage a nada. Alice tenta. Rosalie tenta. Os médicos tentam. Eu não posso nem entrar naquele quarto sem correr o risco de piorar tudo.
— E você acha que Seth pode ajudar.
— Acho que Elena ama aquele menino.
— Isso eu sei.
— E ele ama ela.
Leah respirou.
— Jacob, você não tem a guarda de Seth neste momento.
— Eu sei.
— A visitação é limitada.
— Eu sei.
— E levar uma criança para outro estado exige...
— Por isso estou ligando para você.
Leah soltou o ar.
— Claro.
Jacob olhou para os morangos.
— Consegue pedir autorização?
— Consigo pedir.
— Hoje?
— Jacob...
— Leah.
— Eu não faço milagres.
— Nunca pedi um.
— Você pede uns quatro por semana.
Ele não respondeu.
Leah percebeu.
— Vou tentar uma autorização emergencial fundamentada. Temos hospitalização grave de pessoa com vínculo afetivo significativo com a criança, circunstância excepcional, viagem curta, acompanhamento do responsável autorizado...
— Eu vou acompanhar.
— Imaginei.
— Seth não vai ficar sozinho.
— Eu sei.
Leah fez uma pausa.
— Irina vai se opor.
A mandíbula de Jacob endureceu.
— Então deixa ela se opor.
— Não transforma isso em outra guerra.
— Não estou transformando.
— Tem certeza?
Jacob ficou quieto.
Depois respondeu:
— Eu não quero levar Seth para provocar Irina. Não quero usar ele para melhorar meu processo. Não quero uma fotografia bonita para mostrar a juiz nenhum.
Sua voz baixou.
— Quero levar um menino que está sofrendo para ver uma mulher que ele ama e que talvez precise lembrar que ainda existe alguém esperando por ela.
Leah ficou em silêncio.
— Certo.
— Certo o quê?
— Vou fazer.
Jacob fechou os olhos.
— Obrigado.
— E Jacob?
— Sim?
— Não cria expectativa.
Ele olhou para a janela.
— Não estou criando.
— Você está.
— Talvez.
— Seth pode entrar naquele quarto e Elena continuar exatamente igual.
Jacob apertou os olhos.
— Eu sei.
— E isso não significa que ela não o ama.
— Eu sei.
— Nem que não vai melhorar.
— Leah.
— O quê?
— Eu sei.
Ela percebeu que ele realmente sabia.
— Vou ligar assim que tiver alguma coisa.
— Leah?
— Sim?
— Não conta para Seth ainda.
— Por quê?
— Porque não quero prometer uma viagem que talvez não aconteça.
Leah ficou alguns segundos em silêncio.
— Está aprendendo.
Jacob entendeu.
Promessas.
— Estou tentando.
A autorização veio no fim daquela tarde.
A viagem aconteceu na manhã seguinte.
Seth passou praticamente todo o voo com uma cesta pequena sobre o colo.
Jacob havia comprado uma maior.
Seth recusara.
— Essa é grande demais.
— Tem mais morangos.
— Elena não precisa de tantos.
— Como sabe?
Seth olhou para ele como se fosse óbvio.
— Porque eu também vou comer.
Jacob olhou para a cesta menor.
— Naturalmente.
— E morango estraga.
— Obrigado pela aula.
— Você não sabe muitas coisas de comida.
— Sei cozinhar.
Seth fez uma expressão desconfiada.
— Ovo não conta.
Jacob decidiu não responder.
Alguns minutos depois, o menino perguntou:
— Ela sabe que eu vou?
— Não.
— É surpresa?
— É.
Seth pensou.
— Ela gosta de surpresa?
Jacob lembrou-se de Elena descobrindo que ele investira no restaurante.
— Depende muito da surpresa.
— Morango é uma surpresa boa.
— Concordo.
Seth passou os dedos pela alça da cesta.
— Ela ainda está triste?
Jacob olhou para o sobrinho.
— Muito.
— Por causa da Bella?
— Sim.
Seth ficou quieto.
— Quando minha mãe morreu eu não queria comer.
Jacob sentiu o peito apertar.
— Eu lembro.
— Elena sentava comigo.
— Lembro também.
— Ela não falava que eu tinha que comer.
Jacob virou o rosto para ele.
— Não.
— Ela só comia perto.
O menino olhou para os morangos.
— Aí eu comia também.
Foi naquele momento que Jacob soube que tivera a ideia certa.
Não porque Seth pudesse curar Elena.
Ninguém podia.
Mas porque aquela criança sabia, por experiência, exatamente o que Elena precisava.
Presença.
Sem cobrança.
Alice estava no corredor quando os viu.
Primeiro viu Jacob.
Sua expressão fechou imediatamente.
Depois olhou para baixo.
Viu Seth.
Parou.
O menino segurava a cesta com as duas mãos.
— Oi, Alice.
Toda a raiva desapareceu do rosto dela por um instante.
— Seth?
Ele se aproximou.
— Vim ver Elena.
Alice olhou para Jacob.
A raiva voltou.
— Você trouxe ele?
— Com autorização judicial.
— Eu não perguntei isso.
Jacob permaneceu calmo.
— Eu sei.
— Ela não está bem.
— Eu sei.
— Pode fazer mal.
— Se você achar que não deve entrar, ele não entra.
Alice pareceu surpresa.
Jacob continuou:
— Você está com ela todos os dias. Sabe melhor do que eu como ela está. Se disser que não é uma boa ideia, eu levo Seth de volta.
Seth olhou para o tio.
Depois para Alice.
— Eu posso só dar os morangos.
Alice baixou os olhos.
— Morangos?
Ele levantou a cesta.
— Ela gosta.
Alice sentiu os olhos encherem.
— Gosta.
— Eu não vou fazer barulho.
Aquilo quase a destruiu.
— Seth...
— Posso entrar?
Alice olhou para Jacob.
— Você não.
Ele assentiu imediatamente.
— Eu sei.
Nenhuma discussão.
Nenhuma tentativa.
Alice esperava resistência.
Não veio.
— Ela sabe que você está aqui?
— Não.
— Quero dizer você.
Jacob entendeu.
— Não.
— E vai continuar sem saber.
Ele demorou apenas um segundo.
— Se for melhor para ela.
Alice apertou os lábios.
Ainda estava com raiva.
Talvez demorasse muito para deixar de estar.
Mas, naquele momento, percebeu que Jacob não estava ali para tomar espaço.
Estava devolvendo um pedaço de Elena a ela.
Seth.
— Vem comigo — disse ao menino.
Seth olhou para Jacob.
— Você não vai?
Jacob se abaixou.
— Hoje não.
— Por quê?
Jacob pensou antes de responder.
— Porque hoje é você que ela precisa ver.
Seth pareceu satisfeito.
— Tá.
Jacob ajeitou a gola da camiseta dele.
— Não pede nada para ela.
— Eu sei.
— Se ela não quiser conversar...
— Eu fico quieto.
— Se não quiser comer...
Seth levantou a cesta.
— Eu como.
Apesar de tudo, Alice soltou uma pequena risada.
Jacob olhou para o sobrinho.
— Você planejou isso muito bem.
— Eu sei.
Seth virou-se.
Depois voltou e abraçou Jacob rapidamente.
— Eu conto depois.
Jacob fechou os olhos por um segundo.
— Certo.
Elena estava sentada na cama.
Os médicos haviam começado a deixá-la permanecer naquela posição durante períodos maiores.
Uma almofada sustentava suas costas.
O braço ainda estava protegido.
O cabelo havia sido penteado por Alice naquela manhã, embora Elena não tivesse demonstrado qualquer interesse.
Ela olhava pela janela.
O céu estava claro.
Elena não parecia vê-lo.
Alice abriu a porta devagar.
Seth entrou.
Parou imediatamente.
A imagem atingiu a criança.
Elena parecia diferente.
Pálida.
Magra.
Quieta.
Havia marcas que ainda desapareciam lentamente de seu rosto.
Seth apertou a cesta.
Olhou para Alice.
Ela abaixou-se.
— Está tudo bem.
Ele assentiu.
Entrou.
Elena não percebeu.
Seth caminhou até a cama.
Esperou.
Nada.
Olhou para Alice novamente.
— Posso subir?
Alice sorriu com os olhos molhados.
— Pode.
Aproximou uma pequena escada usada pela equipe.
Seth subiu cuidadosamente.
Alice o ajudou.
— Cuidado com o braço dela.
— Eu sei.
Ele sentou-se sobre a cama.
Colocou a cesta entre as pernas.
Elena continuou olhando pela janela.
Não vira Alice entrar.
Não percebera Seth.
O menino observou seu rosto durante alguns segundos.
Depois chamou baixinho:
— Elena?
O mundo parou.
Não para Alice.
Não para Rosalie, que acabara de chegar ao corredor.
Não para Jacob, que estava alguns metros distante, incapaz de ir embora antes de saber se a ideia fora um erro.
Parou para Elena.
Aquela voz.
Pequena.
Conhecida.
Viva.
— Elena?
Os olhos dela se moveram.
Não o rosto.
Apenas os olhos.
Por alguns segundos, pareceu não entender.
Então virou lentamente a cabeça.
Seth.
Sentado em sua cama.
Segurando uma cesta de morangos.
Elena olhou para ele.
A criança sorriu.
Não um sorriso enorme.
Não havia euforia.
Era o sorriso cuidadoso de alguém que sabia que a pessoa diante dele estava machucada.
— Oi.
Elena ficou imóvel.
Alguma coisa se moveu dentro dela.
Muito longe.
Muito fundo.
Tão pequena que quase não reconheceu.
Seth.
Os olhos dele estavam vivos.
O rosto estava vivo.
A voz estava viva.
Não eram os olhos de Bella.
Elena fechou os olhos.
E, pela primeira vez desde que acordara, uma lágrima conseguiu encontrar o caminho.
Uma única lágrima.
Desceu lentamente pelo rosto.
Alice levou a mão à boca.
Do corredor, Rosalie segurou o braço de Jacob.
Ele não conseguia respirar.
Seth viu a lágrima.
— Você está chorando.
Elena abriu os olhos.
Não respondeu.
Seth pensou um pouco.
— Eu chorei muito quando minha mãe morreu.
A respiração de Elena mudou.
Alice fechou os olhos.
Seth continuou:
— Muito mesmo.
Elena olhava para ele.
— Às vezes eu ainda choro.
Silêncio.
— Tio Jake também.
Jacob, do lado de fora, fechou os olhos.
Alice quase interrompeu.
Mas não interrompeu.
Seth aproximou a cesta.
— Trouxe morangos.
Elena olhou para eles.
Vermelhos.
Bonitos.
Com folhas verdes.
Tão absurdamente normais.
— Eu escolhi.
A voz dela saiu fraca:
— Todos?
Seth abriu um sorriso maior.
Alice sentiu as pernas fraquejarem.
Elena havia feito uma pergunta.
Uma pergunta de verdade.
— Quase.
— Quase?
— Tio Jake escolheu uns.
A expressão de Elena mudou por um instante.
Não foi sorriso.
Mas foi alguma coisa.
Seth fez uma careta.
— Eu tirei os ruins.
A voz de Elena quase desapareceu:
— Claro.
— Ele não sabe escolher morango.
Elena olhou para a cesta.
— Ele não sabe escolher comida.
— Eu falei!
Seth pareceu genuinamente satisfeito por ter sua teoria confirmada.
— Ele disse que sabe cozinhar ovo.
Por um segundo, o canto da boca de Elena ameaçou se mover.
Não chegou a ser sorriso.
Mas Alice viu.
Rosalie viu.
Jacob viu.
E os três sentiram como se tivessem acabado de assistir ao nascer do sol depois de semanas de noite.
Seth pegou um morango.
— Quer?
Elena olhou.
A mão não se moveu.
Seth não insistiu.
— Tá.
Comeu.
Mordeu metade.
Mastigou.
— Está bom.
Elena continuou olhando.
Seth pegou outro.
— Esse é grande.
Comeu também.
Alice enxugou silenciosamente as lágrimas.
Seth olhou para Elena.
— Quando eu não queria comer, você fazia isso.
Elena piscou.
— O quê?
— Comia perto de mim.
Silêncio.
— Você não mandava eu comer.
A garganta de Elena se contraiu.
— Só ficava lá.
Ele balançou as pernas.
— Então eu vim ficar aqui.
Elena fechou os olhos.
Outra lágrima não veio.
A primeira havia sido tudo que seu corpo conseguira dar.
Mas alguma coisa doía diferente.
— Seth...
— Hum?
— Eu sinto muito.
O menino franziu a testa.
— Por quê?
Elena olhou para ele.
— Por ter ido embora.
Seth pensou.
— Você não queria bater o carro.
Elena congelou.
Alice deu um passo.
Seth continuou antes que ela pudesse impedir:
— Igual minha mãe.
O ar desapareceu do quarto.
Elena olhou para ele.
Seth pegou outro morango.
— Ela não queria bater o carro também.
Elena sentiu o peito apertar.
— Não.
— Então não foi porque ela queria ir embora de mim.
Silêncio.
— Foi um acidente.
Elena não conseguiu respirar direito.
Seth olhou para ela com a simplicidade brutal das crianças.
— O seu também.
Os olhos de Bella surgiram.
Abertos.
Imóveis.
Elena desviou o rosto.
Seth percebeu.
— Eu falei errado?
Elena fechou os olhos.
— Não.
— Tem certeza?
Ela demorou.
— Tenho.
Seth ficou quieto.
Depois perguntou:
— Você sente falta da Bella?
Elena abriu os olhos.
Alice prendeu a respiração.
Rosalie levou a mão à boca.
Jacob sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
Elena olhou para Seth.
Não havia como escapar daquela pergunta.
Não daquela criança.
— Sinto.
A voz quebrou pela primeira vez.
Seth assentiu.
— Eu sinto da minha mãe.
Elena engoliu em seco.
— Eu sei.
— E do meu pai.
— Eu sei.
— Às vezes eu esqueço por um pouquinho.
Elena franziu a testa.
— Esquece?
— Que eles morreram.
Seth olhou para o morango em sua mão.
— Aí lembro de novo.
Elena sentiu alguma coisa partir.
— E dói tudo de novo.
Seth assentiu.
— Muito.
— Muito.
Ele olhou para ela.
— Mas depois passa um pouquinho.
Elena não respondeu.
— Não passa tudo.
Seth parecia preocupado em explicar corretamente.
— Só passa um pouquinho.
Elena sentiu os olhos arderem.
— E depois?
— Depois volta.
— A dor?
— É.
— E o que você faz?
Seth pensou.
— Às vezes eu abraço tio Jake.
Jacob abaixou a cabeça no corredor.
— Às vezes eu fico com Sue.
Pausa.
— Às vezes eu lembro de você.
Elena fechou os olhos.
— De mim?
— Você falou que eu não precisava parar de sentir saudade.
Ela lembrava.
— Eu falei?
— Falou.
— Não lembro.
— Eu lembro.
Seth aproximou-se um pouco.
— Você falou que sentir saudade não faz a pessoa ficar mais morta.
Alice chorou silenciosamente.
Elena olhou para o menino.
Ela havia dito aquilo.
Meses antes.
Sentada no chão.
Para uma criança destruída.
E não fazia ideia de que um dia aquelas palavras voltariam para encontrá-la.
— Eu falei isso?
— Falou.
— Eu era inteligente.
Seth abriu um sorriso.
— Era.
Elena ergueu uma sobrancelha muito levemente.
— Era?
Seth percebeu o erro.
— É.
E então fez uma coisa simples.
Pegou um morango.
Estendeu.
— Quer?
Elena olhou.
Durante dias, comida havia sido apenas mais uma obrigação.
Mais uma coisa que as pessoas colocavam diante dela porque esperavam que colaborasse com a própria existência.
Mas aquele morango não era uma ordem.
Não era tratamento.
Não era nutrição.
Era Seth.
Esperando.
Sem exigir.
Elena levantou lentamente a mão.
Pegou.
Do lado de fora, Jacob fechou os olhos.
Rosalie chorava.
Alice não tentou esconder as lágrimas.
Elena olhou para o morango.
Depois para Seth.
Mordeu.
Pequeno.
Uma única mordida.
Seth sorriu.
— Bom?
Elena mastigou.
Engoliu.
— Está.
— Eu escolhi esse.
— Claro.
— Os do tio Jake são os feios.
Dessa vez aconteceu.
Não foi um sorriso.
Ainda não.
Mas houve um pequeno sopro pelo nariz.
Quase uma risada esquecida.
Jacob levou a mão à boca.
Aquilo era tão pouco.
E era tudo.
Seth pegou outro morango.
— Vamos comer todos?
Elena olhou para a cesta.
— Todos, não.
— Metade?
— Talvez.
— Mais que metade?
Elena o encarou.
— Você negocia igual ao seu tio.
Seth fez uma careta.
— Isso é ruim?
Elena ficou quieta.
Olhou para ele.
Depois para o morango.
— Nem sempre.
Jacob abaixou os olhos.
Alice ouviu.
Rosalie ouviu.
Ninguém comentou.
Seth mordeu outro.
— Tio Jake está triste.
Elena parou.
Alice pensou em entrar.
Jacob fez um pequeno gesto com a cabeça.
Não.
Deixou.
Elena olhou para Seth.
— Está?
— Muito.
Silêncio.
— Ele acha que eu não sei.
Jacob fechou os olhos.
— Mas eu sei.
Elena baixou o olhar.
— Seth...
— Hum?
— Hoje vamos falar de você.
O menino pensou.
— Tá.
Aceitou com a facilidade que adultos raramente possuíam.
— Eu tirei dez em ciências.
Elena olhou novamente.
— Dez?
— É.
— Em quê?
— Dinossauros.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Isso não é uma matéria.
— Devia ser.
— Concordo.
Seth começou a explicar.
Dinossauros.
Fósseis.
Um trabalho.
Um desenho que Paul dissera parecer uma galinha enorme.
Elena ouviu.
No começo, apenas porque ele estava falando.
Depois começou realmente a ouvir.
Fez uma pergunta.
Depois outra.
Comeu outro morango sem perceber.
Seth contou sobre a escola.
Sobre Sue.
Sobre um menino chamado Michael que roubara sua borracha.
Sobre Jacob que queimara uma torrada.
— Ele queimou?
— Duas.
— Impressionante.
— Eu falei que você não queimava.
Elena abaixou os olhos.
— Às vezes queimava.
— Nunca vi.
— Porque eu escondia.
Seth riu.
O som atravessou Elena.
E, por um segundo, os olhos de Bella desapareceram.
Só por um segundo.
Mas desapareceram.
Alice saiu do quarto quase uma hora depois.
Encostou-se à parede.
Chorava.
Rosalie a abraçou.
Jacob permaneceu alguns passos distante.
Não perguntou nada.
Podia ver.
Seth ainda estava sentado na cama.
A cesta estava pela metade.
Elena segurava um morango.
— Ela comeu — Rosalie sussurrou.
Jacob assentiu.
Não confiava na própria voz.
Alice olhou para ele.
A raiva ainda estava lá.
Mas agora dividia espaço com outra coisa.
— Foi uma boa ideia.
Jacob levantou os olhos.
Talvez fosse a coisa mais próxima de gentileza que Alice conseguia oferecer.
— Foi Seth.
— Você trouxe Seth.
— Ele fez o resto.
Alice olhou através do vidro.
— Ela chorou.
Jacob respirou.
— Eu vi.
— Uma lágrima.
— Eu vi.
Alice enxugou o rosto.
— Desde que acordou...
Não terminou.
Jacob assentiu.
— Eu sei.
Alice virou-se para ele.
— Isso não conserta o que você fez.
— Eu sei.
— Não significa que quero você perto dela.
— Eu sei.
— Para de concordar comigo.
Jacob quase sorriu.
— Posso tentar.
Alice apertou os lábios para não demonstrar qualquer reação.
— Ela ainda está muito frágil.
— Eu sei.
Alice lançou um olhar.
— Desculpa.
Rosalie soltou uma risada entre lágrimas.
Alice ignorou.
— Você vai entrar?
Jacob olhou para Elena.
Ela estava ouvindo Seth falar.
Pela primeira vez desde o acidente, havia alguma coisa diferente em seu rosto.
Não felicidade.
Não paz.
Presença.
Muito pequena.
Muito frágil.
Mas presença.
Jacob balançou a cabeça.
— Não.
Rosalie olhou para ele.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Você veio até aqui.
— Por ele.
Apontou discretamente para Seth.
— Não por mim.
Alice observou Jacob por alguns segundos.
— Ela não sabe que você está aqui.
— Eu sei.
— Seth pode contar.
— Provavelmente vai.
— Crianças são péssimas com segredos.
Jacob olhou para o sobrinho.
— Esse especialmente.
Alice ficou quieta.
Jacob respirou fundo.
— Não quero que Elena associe o que aconteceu hoje comigo.
— Como assim?
Ele olhou para ela.
— Ela comeu porque Seth ofereceu. Falou porque Seth falou. Chorou porque alguma coisa nele conseguiu alcançar ela.
Olhou novamente para o quarto.
— Isso pertence aos dois.
Alice não respondeu.
— Se eu entrar agora, Elena pode fechar aquela porta outra vez.
A voz baixou.
— Eu não vou correr esse risco só porque quero vê-la.
Alice sentiu parte da raiva perder força.
Não toda.
Ainda não.
Talvez demorasse.
Mas alguma coisa.
— Você queria muito entrar.
Não era pergunta.
Jacob demorou.
— Mais do que consigo explicar.
Olhou para Elena.
— Mas querer não significa ter direito.
Alice baixou os olhos.
— Eu ainda estou com muita raiva de você.
— Tem direito.
— E ainda acho que você foi um completo idiota.
— Também tem razão.
— E acho que, se fizer ela sofrer daquele jeito outra vez, eu mesma atropelo você.
Jacob finalmente olhou para Alice.
— Isso parece uma ameaça criminal.
— Leah pode me defender.
Rosalie soltou uma risada molhada.
Jacob quase sorriu.
— Provavelmente defenderia.
Alice olhou para ele.
— Provavelmente.
Silêncio.
Jacob voltou os olhos para o quarto.
Elena estava dizendo alguma coisa para Seth.
Não conseguiu ouvir.
O menino riu.
Jacob sentiu o peito apertar.
— Cuida dela.
Alice respondeu imediatamente:
— Sempre.
Ele assentiu.
Virou-se.
Rosalie chamou:
— Jacob.
Ele parou.
— Você não vai esperar Seth?
— Paul vem buscar ele.
Rosalie entendeu.
Jacob queria sair antes que Elena soubesse que estava ali.
— Vou avisar qualquer mudança.
— Obrigado.
Deu mais um passo.
Parou.
Sem virar:
— Se ela perguntar por mim...
Alice ficou imóvel.
Jacob demorou para terminar.
— Não mente.
Alice observou suas costas.
— E o que eu digo?
Ele finalmente se virou.
Havia uma tristeza silenciosa no rosto.
— A verdade.
— Qual verdade?
Jacob olhou para Elena através do vidro.
— Que eu estava aqui.
Respirou.
— E que fui embora porque achei que era o melhor para ela.
Alice assentiu.
— Certo.
Jacob começou a andar.
Dentro do quarto, Seth examinou a cesta.
— Só sobraram três.
Elena olhou.
— Você comeu quase todos.
— Você comeu cinco.
— Contou?
— Sim.
— Por quê?
Seth deu de ombros.
— Alice falou que você não estava comendo.
Elena virou o rosto lentamente.
Alice, parada à porta, arregalou os olhos.
Seth percebeu tarde demais.
— Era segredo?
Elena olhou para Alice.
— Traidora.
A palavra foi fraca.
Sem humor suficiente para ser brincadeira.
Mas estava ali.
Alice levou a mão ao peito.
— Meu Deus.
Elena franziu a testa.
— O quê?
Alice sorriu chorando.
— Nada.
Seth pegou outro morango.
— Sobrou dois.
— Esse era o terceiro.
Ele já havia colocado na boca.
— Agora sobrou dois.
Elena quase revirou os olhos.
Quase.
Seth observou seu rosto.
— Elena?
— Hum?
— Você vai ficar boa?
A pergunta veio sem preparação.
Elena olhou para ele.
Alice ficou tensa.
A resposta automática seria:
Sim.
Uma promessa.
Elena não queria mais prometer o que não sabia.
— Eu não sei.
Seth ficou sério.
Ela continuou:
— Mas acho que vou tentar.
O menino sorriu.
— Tá.
Como se tentar fosse suficiente.
Talvez fosse.
— E você vem para casa?
Elena sentiu o peito apertar.
— Qual casa?
Seth pareceu confuso.
— A nossa.
Ela fechou os olhos por um instante.
A nossa.
— Não sei, Seth.
— Tem seu quarto.
Elena abriu os olhos.
— Meu quarto?
— É.
— Eu não tenho quarto lá.
Seth franziu a testa.
— Tem sim.
— Desde quando?
— Eu decidi.
Elena sentiu alguma coisa aquecer, muito pequena, no peito.
— E seu tio sabe?
— Ainda não.
— Isso parece um detalhe importante.
— Eu conto depois.
Elena olhou para ele.
A criança parecia absolutamente convencida de que podia simplesmente reservar um quarto para ela na casa de Jacob.
— Seth...
— Hum?
— Algumas coisas mudaram.
— Eu sei.
— E talvez eu não volte para aquela casa.
Ele ficou triste.
— Por causa do tio Jake?
Elena demorou.
— Por causa de muitas coisas.
Seth pensou.
Depois aproximou-se um pouco.
— Você falou que gente que ama pode ficar brava.
Elena reconheceu outra frase antiga.
— Eu falei muita coisa.
— Falou.
— Devia ter ficado quieta.
— Não.
Ele sorriu.
— Eu lembro.
Elena olhou para aquela criança.
Para os olhos vivos.
Para as bochechas.
Para a boca manchada de morango.
E, pela primeira vez desde o acidente, a imagem de Bella não ocupou todo o espaço.
Ainda estava lá.
Sempre estaria.
Mas agora havia outra coisa ao lado.
Seth.
Vida e morte ocupando o mesmo coração.
Talvez fosse isso que ela ainda não compreendia.
Continuar vivendo não expulsava os mortos.
Não traía quem partira.
Apenas criava espaço para que alguma coisa existisse junto da ausência.
Elena olhou para a cesta.
— Me dá o último.
Seth protegeu imediatamente.
— Tem dois.
— Então me dá um.
— Esse é grande.
— Seth.
— Você já comeu cinco.
Elena o encarou.
— Você veio até a Flórida para me trazer morangos e agora está regulando?
Ele pensou.
— É meu favorito.
Elena estendeu a mão.
— Divide.
Seth sorriu.
— Tá.
Partiu o morango ao meio.
Entregou uma parte.
Elena pegou.
Seth levantou a metade dele.
— Saúde.
Ela olhou para ele.
— É brinde?
— É.
Elena encostou o morango no dele.
— Saúde.
Comeram.
Alice virou o rosto para esconder as lágrimas.
Elena percebeu.
— Alice.
Ela enxugou rapidamente.
— O quê?
— Para de chorar.
Alice riu entre lágrimas.
— Alguém precisa fazer isso por você.
A frase atingiu Elena.
Ficou em silêncio.
Mas não fechou novamente.
Não voltou para a janela.
Apenas olhou para Alice.
Depois para Seth.
E respirou.
Ainda doía.
Bella continuava morta.
Os olhos dela ainda existiam na memória.
Elena ainda não sabia quem era sem a irmã que passara a vida inteira tentando proteger.
Ainda não sabia se conseguiria voltar para Nova York.
Ainda não sabia o que faria com Jacob.
Não sabia se algum dia conseguiria entrar em um carro sem sentir o pedal desaparecer sob o pé.
Não sabia quase nada.
Mas havia comido seis morangos.
Tinha conversado.
Uma lágrima finalmente caíra.
E, pela primeira vez desde que abrira os olhos naquele hospital, Elena não passou a hora inteira desejando que o mundo parasse de exigir sua presença.
Era pouco.
Quase nada.
Uma fresta.
Mas algumas vezes era por uma fresta mínima que a luz começava a entrar.
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