O PESO DE UMA PROMESSA
16 CAPÍTULO 16- A DISTÂNCIA ENTRE NÓS
Seth deveria voltar para Nova York naquela tarde.
Ele sabia.
Alice sabia.
Jacob sabia.
Provavelmente metade do hospital sabia, porque Seth perguntara três vezes à enfermeira se existia alguma regra que proibisse crianças de perderem voos quando estavam visitando alguém doente.
Na terceira vez, a enfermeira rira e respondera:
— Infelizmente, não.
Seth ficara profundamente decepcionado.
Agora estava sentado na poltrona ao lado da cama de Elena, balançando as pernas, enquanto ela terminava lentamente um copo de suco.
A cesta de morangos estava vazia sobre a mesa.
Elena parecia diferente do dia anterior.
Não muito.
Para alguém que não a conhecesse, talvez não houvesse mudança alguma.
Mas Alice percebia.
Rosalie percebia.
Seth, de alguma forma, também.
Elena ainda não sorria.
Ainda falava pouco.
Ainda havia momentos em que simplesmente desaparecia dentro de si mesma e ficava olhando para algum ponto que ninguém mais conseguia alcançar.
Mas estava mais presente.
Pequenos segundos.
Pequenas respostas.
Um olhar.
Uma pergunta.
Um comentário.
Quase nada.
Mas, depois de tantos dias de absoluto vazio, quase nada havia se transformado em muito.
Seth olhou para o relógio.
— Tenho que ir.
Elena virou o rosto.
— Eu sei.
— Não quero.
Ela baixou os olhos.
— Você tem escola.
— Escola existe todo dia.
— Esse não é um argumento muito bom para faltar.
— Você faltava?
Elena pensou.
— Algumas vezes.
Os olhos dele se iluminaram.
— Então eu posso.
— Não foi isso que eu disse.
— Quase.
Elena soltou o ar pelo nariz.
Ainda não era riso.
Mas Seth já aprendera a reconhecer aquilo como vitória.
Desceu da poltrona.
Aproximou-se da cama.
— Posso pedir uma coisa?
— Depende.
— Você sempre fala isso.
Elena olhou para ele.
— Porque normalmente suas ideias são perigosas.
— Essa não é.
— Então fala.
Seth apoiou os braços na lateral da cama.
— Quando eu for embora, você conversa comigo pelo celular?
Elena ficou em silêncio.
— Por vídeo — ele acrescentou.
Ela desviou os olhos.
— Seth...
— Não precisa falar muito.
Aquilo a fez olhar novamente.
— Pode ficar quieta.
A criança deu de ombros.
— Eu falo.
Elena sabia que aquilo era verdade.
— Você fala bastante.
— É.
— Muito.
— É.
— Sem parar.
Seth franziu a testa.
— Você está reclamando?
— Estou constatando.
Ele pareceu satisfeito.
— Então promete?
A palavra atingiu Elena.
Seth não percebeu.
— Promete falar comigo por vídeo enquanto estiver aqui?
Elena olhou para ele.
Promessas.
Durante toda a vida, acreditara que prometer significava garantir.
Impedir.
Proteger.
Controlar aquilo que ninguém podia controlar.
Charlie.
Bella.
Jacob.
Ela estava começando a compreender que talvez algumas promessas pudessem ser menores.
Possíveis.
— Posso prometer tentar atender.
Seth pensou.
— Toda vez?
— Não.
— Quase toda?
— Seth.
— Uma vez por dia?
Elena ergueu uma sobrancelha.
— Você está negociando comigo?
— Tio Jake fala que tudo pode ser negociado.
O nome ficou entre eles.
Elena baixou os olhos.
Seth não percebeu a mudança.
— Então uma vez por dia.
Ela respirou.
— Está bem.
O sorriso dele apareceu imediatamente.
— Promete?
Elena demorou.
Depois:
— Prometo.
Seth estendeu o dedo mínimo.
Elena olhou.
— Sério?
— Tem que fazer.
— Quem inventou essa regra?
— Eu.
Elena entrelaçou o dedo mínimo no dele.
— Uma vez por dia.
— Vídeo.
— Vídeo.
— E você tem que ficar boa.
Elena parou.
— Isso eu não posso prometer.
O sorriso dele diminuiu.
— Por quê?
— Porque não sei quanto tempo vai demorar.
Seth pensou.
— Então tenta ficar boa.
Elena sentiu alguma coisa apertar o peito.
— Isso eu posso prometer.
Ele assentiu, satisfeito.
Depois ficou sério.
— Porque eu amo você.
Elena não respirou.
Seth continuou, como se tivesse dito a coisa mais óbvia do mundo:
— E quando a gente ama alguém, quer que fique.
Os olhos dela arderam.
Nenhuma lágrima caiu.
Mas Seth viu alguma coisa mudar.
— Você também me ama?
Elena fechou os olhos por um instante.
Quando abriu:
— Muito.
Seth sorriu.
— Eu sabia.
Ela passou delicadamente os dedos pelos cabelos dele.
Era a primeira vez desde o acidente que iniciava um gesto de carinho.
Alice, parada perto da porta, precisou virar o rosto.
Seth encostou a cabeça na lateral do corpo de Elena com cuidado.
— Quando você sair daqui, pode ir para casa.
Elena ficou tensa.
— Seth...
— Tem seu quarto.
— Nós já conversamos sobre isso.
— Eu sei.
Ele levantou a cabeça.
— Mas tio Jake não vai ficar bravo.
Elena não respondeu.
Seth continuou:
— Ele está triste também.
— Seth.
— E ele veio até aqui.
Elena parou.
Alice fechou os olhos.
Pronto.
Seth percebeu tarde demais que talvez não devesse ter contado.
— Quem veio?
A voz de Elena saiu baixa.
— Tio Jake.
Silêncio.
— Aqui?
Seth olhou para Alice.
Alice fez uma expressão que dizia claramente agora termina.
— Foi ele que me trouxe.
Elena ficou completamente imóvel.
— Jacob está na Flórida?
— Estava.
— Estava?
— Ele já foi embora.
Elena olhou para Alice.
— Você sabia?
Alice respirou.
— Sabia.
— E não me contou.
— Você tinha acabado de começar a falar conosco, Elena.
Ela não respondeu.
Seth tentou ajudar:
— Ele não entrou.
Elena olhou para ele.
— O quê?
— No seu quarto.
Seth explicou com toda a naturalidade:
— Ele queria.
Pausa.
— Muito.
Elena sentiu o coração acelerar.
— Como sabe?
— Porque dava para ver.
Alice abaixou os olhos.
Seth continuou:
— Mas ele falou que não queria aborrecer você.
Elena ficou em silêncio.
— Ele ficou do lado de fora.
A criança apontou para a porta.
— Ali.
Elena olhou.
A porta.
Por alguns segundos, imaginou Jacob parado do outro lado.
Tão perto.
Sem entrar.
— Ele viu você comer morango — Seth contou.
Elena virou o rosto rapidamente.
— Viu?
— Viu.
— Seth...
Alice tentou interromper.
— O quê? É verdade.
O menino voltou-se para Elena.
— Ele ficou feliz.
— Como sabe?
— Ele chorou.
Elena parou.
Seth imediatamente corrigiu:
— Mas acho que ele não queria que ninguém visse.
Alice suspirou.
— E agora absolutamente todo mundo sabe.
Seth deu de ombros.
— Só falei para Elena.
Elena continuava olhando para a porta.
Jacob estivera ali.
Vira tudo.
E fora embora sem entrar.
A conclusão veio naturalmente.
Ele ainda não queria vê-la.
Ou talvez quisesse, mas não o suficiente para esquecer o que ela fizera.
Seth interpretara como cuidado.
Elena interpretou como distância.
E, naquele momento, ninguém percebeu.
Nos dias seguintes, Seth cumpriu sua parte do acordo com uma disciplina quase militar.
Todos os dias.
Sete da noite.
Videochamada.
No primeiro dia, Elena falou durante quatro minutos.
Seth falou durante vinte e três.
Contou sobre uma prova.
Sobre Sue.
Sobre Paul.
Sobre um cachorro que vira na rua.
Sobre um sanduíche que Jacob fizera errado.
— Como se faz sanduíche errado? — Elena perguntou.
Seth aproximou o rosto da câmera.
— Ele colocou mostarda.
— Isso não é errado.
— É sim.
— Discordo.
— Você está doente.
Elena ficou olhando para ele.
Então soltou um pequeno sopro de ar.
Alice, sentada do outro lado do quarto, ergueu imediatamente os olhos.
Quase riso.
No segundo dia, Seth mostrou um desenho.
No terceiro, reclamou de matemática.
No quarto, fez Elena explicar por que tomates eram frutas e depois declarou que a ciência estava errada.
No quinto dia, Elena perguntou antes que ele pudesse começar:
— Como foi sua prova?
Alice olhou para Rosalie.
Rosalie olhou para Alice.
Era a primeira vez que Elena perguntava espontaneamente sobre alguma coisa fora daquele hospital.
A partir dali, todos começaram a perceber.
Nos dias em que falava com Seth, Elena comia um pouco mais.
Dormia melhor.
Respondia mais.
Às vezes, depois que a ligação terminava, permanecia presente por horas.
Nos dias ruins, Alice simplesmente colocava o telefone sobre a mesa.
— Não precisa falar.
Seth falava.
E Elena ouvia.
Nunca perguntava por Jacob.
Mas às vezes ele aparecia.
Ao fundo.
Uma voz.
Uma sombra atravessando a câmera.
Uma mão entregando alguma coisa.
Certa noite:
— Seth, já são oito e meia.
A voz de Jacob.
Elena congelou.
Seth virou o celular.
— Tio Jake, dá oi para Elena.
A imagem balançou.
Por um segundo, Jacob apareceu.
Os dois se viram.
Foi rápido.
Muito rápido.
Jacob parou.
Elena também.
Nenhum sorriu.
— Oi — ele disse.
— Oi.
Silêncio.
Seth olhou de um para outro.
— Vocês são muito estranhos.
Jacob desviou os olhos.
— Termina a ligação e vai tomar banho.
— Eu ainda tenho dez minutos.
— Cinco.
— Oito.
— Seis.
— Sete.
Jacob suspirou.
— Sete.
Seth voltou a câmera.
— Ganhei.
Elena olhou para a tela.
— Claramente.
Jacob ouviu.
E, do outro lado, sorriu.
Elena não viu.
A alta veio quase duas semanas depois.
Fisicamente, Elena ainda precisava de cuidados.
Fisioterapia.
Medicação.
Repouso.
Acompanhamento.
Nada de esforço prolongado.
Nada de dirigir.
Nada de trabalhar.
A última recomendação foi repetida três vezes.
Elena ignorou mentalmente nas três.
Alice a levou para casa.
Quando abriu a porta do apartamento, Elena parou.
Tudo estava igual.
E completamente diferente.
Um par de sapatos de Bella ainda estava perto da entrada.
Alice percebeu tarde demais.
Elena ficou olhando.
Não chorou.
Entrou.
Na cozinha havia uma caneca que Bella usava.
No sofá, uma manta.
No corredor, uma fotografia.
Elena caminhou devagar.
Cada objeto parecia uma ausência materializada.
Chegou ao quarto de Bella.
A porta estava fechada.
Parou.
Alice ficou atrás.
— Não precisa.
Elena segurou a maçaneta.
Não abriu.
— Ainda não.
Alice assentiu.
— Quando quiser.
Elena voltou para o próprio quarto.
Sentou-se na cama.
Exausta.
— Eu odeio essa casa.
Alice sentiu o coração apertar.
— Podemos ficar na minha mãe.
— Não.
— Hotel.
— Não.
— Na Rosalie.
— Não.
Alice suspirou.
— Você só conhece essa palavra?
Elena olhou para ela.
— Não.
Alice quase riu.
— Idiota.
Elena não sorriu.
Mas havia algo mais vivo em seus olhos.
Rosalie apareceu naquela tarde com comida.
Elena fez uma careta.
— Todo mundo decidiu me alimentar?
— Sim.
— Por quê?
— Porque aparentemente seres humanos precisam comer.
Rosalie colocou as sacolas na mesa.
— Descoberta recente.
Elena sentou-se devagar.
A dor na lateral do corpo ainda aparecia em movimentos bruscos.
Rosalie percebeu.
— Você deveria estar deitada.
— Passei semanas deitada.
— E recebeu alta hoje.
— Exatamente. Alta.
— Hospitalar. Não espiritual.
Alice riu.
Elena não.
Rosalie começou a tirar recipientes da sacola.
Depois respirou.
— Preciso falar com você sobre o restaurante.
Elena ficou imóvel.
— Não.
— Elena...
— Eu não quero falar sobre aquilo.
— Precisa.
— Por quê?
Rosalie puxou uma cadeira.
— Porque ainda é seu.
Elena olhou para ela.
— O quê?
— O restaurante.
— Não.
— Sim.
— Eu assinei o distrato.
— Eu sei.
— Então não é meu.
Rosalie respirou.
— Jacob não levou adiante.
Silêncio.
Elena não entendeu.
— Como assim?
— Ele não concluiu sua saída da sociedade.
— Por quê?
Rosalie olhou para Alice.
Alice permaneceu quieta.
— Porque mudou de ideia.
Elena sentiu alguma coisa desagradável no peito.
— Quando?
Rosalie hesitou.
Elena percebeu.
— Depois do acidente.
Silêncio.
Ela olhou para as próprias mãos.
Claro.
Depois do acidente.
Coma.
Bella morta.
Culpa.
Pena.
— Elena...
— Ele ficou com pena.
— Não.
— Rosalie.
— Não foi pena.
— Como sabe?
— Porque conheço Jacob.
Elena soltou uma pequena risada sem humor.
— Eu também achava que conhecia.
Rosalie recebeu a frase.
— Ele não desfez sua participação.
— Por pena.
— Para de falar isso.
— Por culpa, então.
— Talvez ele sinta culpa.
Elena levantou os olhos.
— Então pronto.
— Sentir culpa não significa que essa foi a razão.
Elena ficou quieta.
— Ele disse que você pode voltar quando quiser.
Aquelas palavras tocaram alguma coisa.
Quando quiser.
Não se puder.
Não quando estiver recuperada.
Quando quiser.
— Eu não quero favor dele.
— Não é favor.
— Eu assinei.
— E ele decidiu não executar.
— Porque eu quase morri.
Rosalie perdeu a paciência.
— Você consegue considerar por cinco segundos que talvez Jacob simplesmente não quisesse arrancar de você uma coisa que você construiu?
Elena ficou imóvel.
— Não.
A honestidade surpreendeu Rosalie.
— Por quê?
Elena baixou os olhos.
— Porque é mais fácil acreditar que foi pena.
Rosalie não esperava.
— Por quê?
— Porque se foi pena, eu sei onde colocar.
Silêncio.
— E se não foi?
Elena olhou para ela.
— Então eu tenho que pensar nele.
Rosalie entendeu.
E não insistiu.
— Certo.
Elena respirou.
— Mas eu vou voltar.
Alice, que bebia água, quase engasgou.
— Não vai.
— Vou.
— Você recebeu alta HOJE.
— Eu não disse hoje.
Alice estreitou os olhos.
— Quando?
— Depois de amanhã.
— Elena!
— Amanhã, então.
— NÃO ERA UMA NEGOCIAÇÃO!
Rosalie começou a rir.
Elena olhou para ela.
— O que foi?
— Nada.
— Rosalie.
— Senti falta disso.
Elena não sorriu.
Mas baixou os olhos.
Três dias depois, contrariando recomendações médicas, ameaças de Alice, reclamações de Rosalie e uma ligação de Seth em que ele declarou que “médico sabe mais que chef”, Elena entrou no restaurante.
Parou na porta.
O lugar estava funcionando.
Pessoas.
Garçons.
Talheres.
Vozes.
Cheiros.
Vida.
Seu peito apertou.
Rosalie aproximou-se.
— Ainda pode voltar para casa.
— Não.
— Claro que não.
Elena caminhou.
Devagar.
A dor estava lá.
No quadril.
Nas costelas.
Na perna.
Mas também havia outra coisa.
Trabalho.
Na cozinha, alguém a viu.
— Chef?
Elena parou.
Outro funcionário virou.
Depois outro.
Em poucos segundos, todos estavam olhando.
Ela odiou.
— Se alguém me abraçar, eu vou embora.
Ninguém se moveu.
Um cozinheiro levantou a mão.
— Podemos falar “bem-vinda”?
Elena pensou.
— Uma vez.
— Bem-vinda.
Outros repetiram.
Elena sentiu os olhos arderem.
— Certo. Acabou.
Rosalie sorriu.
— Continua mandona.
— Alguém precisa trabalhar aqui.
— Eu trabalhei.
— Sobreviveu.
— Ingrata.
Elena vestiu o avental.
Pela primeira vez desde o acidente, alguma coisa pareceu encaixar.
Não felicidade.
Mas função.
Sabia fazer aquilo.
Cortar.
Temperar.
Provar.
Organizar.
Dar ordens.
Talvez ainda não soubesse viver.
Mas sabia cozinhar.
Por enquanto, serviria.
Jacob não sabia que Elena estava no restaurante.
Rosalie havia prometido não avisá-lo.
Tecnicamente, cumpriu.
Foi Emmett quem contou.
— Ela voltou.
Jacob levantou os olhos do computador.
— Para Nova York?
— Para o restaurante.
Jacob ficou imóvel.
— Hoje?
— Agora.
Ele olhou o relógio.
— Ela recebeu alta há três dias.
— Eu sei.
— O médico liberou?
Emmett fez uma expressão.
Jacob já sabia.
— Claro que não.
Levantou-se.
Emmett apontou.
— Antes que você saia marchando até lá como um ditador...
— Eu não sou ditador.
— Você tem a sutileza emocional de um tanque.
Jacob pegou o paletó.
— Ela não deveria estar trabalhando.
— Eu concordo.
— Então por que ninguém impediu?
Emmett riu.
— Você já tentou impedir Elena de fazer alguma coisa?
Jacob parou.
Lembrou-se.
— Certo.
— Vai fazer o quê?
Jacob não sabia.
— Ver se ela está bem.
Emmett observou.
— Só isso?
— Só.
— Vai falar sobre vocês?
— Não.
— Sobre o restaurante?
— Não.
— Sobre o acidente?
— Não.
— Vai dizer que ama ela?
Jacob lançou um olhar.
Emmett levantou as mãos.
— Só verificando.
Elena estava na cozinha quando percebeu que alguma coisa mudara.
Não ouviu o nome.
Não ouviu passos.
Apenas sentiu.
Levantou os olhos.
Jacob estava parado na entrada.
Por um segundo, o restaurante desapareceu.
O barulho.
As panelas.
As pessoas.
Tudo.
Era a primeira vez que o via realmente desde antes do acidente.
Na videochamada com Seth tinham sido segundos.
Agora estava ali.
Jacob parecia diferente.
Mais magro.
Cansado.
Os olhos tinham uma sombra que Elena não lembrava.
Ele também ficou imóvel.
Vê-la de pé foi um choque.
Porque a última imagem que tinha dela era naquela cama.
Pálida.
Imóvel.
A mão fria entre as suas.
Eu amo você.
Ela não sabia.
Não sabia que ele dissera.
Agora Elena estava diante dele.
Viva.
E Jacob sentiu uma gratidão tão brutal que precisou lembrar como respirar.
Mas não se aproximou.
Ela talvez não quisesse.
— Oi.
Elena apertou o pano que segurava.
— Oi.
Silêncio.
Rosalie observou de longe.
Emmett havia chegado atrás de Jacob e imediatamente percebeu que aquele seria um desastre.
Dois adultos apaixonados.
Dois completos idiotas.
— Soube que voltou — Jacob disse.
— Voltei.
— Deveria estar descansando.
Elena endureceu.
Lá estava.
Controle.
— Estou bem.
Jacob percebeu a mudança.
Recuou imediatamente.
— Certo.
Elena estranhou.
Esperava discussão.
— Só vim...
Ele parou.
Só vim ver você.
Não conseguiu dizer.
— Ver o restaurante.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Elena assentiu.
Claro.
O restaurante.
— Está funcionando.
— Eu vi.
— Rosalie cuidou bem.
— Eu sabia que cuidaria.
Silêncio.
Jacob olhou para ela.
Queria perguntar sobre a dor.
Sobre as noites.
Sobre Bella.
Sobre os olhos que Rosalie dissera que Elena não conseguia esquecer.
Queria dizer que estivera no hospital.
Queria dizer que segurara sua mão.
Que dissera que a amava.
Que passara semanas acordando no meio da noite com medo de receber uma ligação.
Mas Elena estava distante.
E ele interpretou aquela distância como pedido.
Não chega perto.
Então respeitou.
— Seth ficou feliz quando soube que você saiu do hospital.
Elena finalmente levantou os olhos.
— Falei com ele ontem.
— Eu sei.
— Ele contou?
— Tudo.
Um pequeno silêncio.
— Ele fala muito.
Jacob quase sorriu.
— Aprendeu com você.
Elena quase respondeu.
Quase.
Então lembrou.
O restaurante.
A sociedade.
A pena.
— Rosalie me contou.
Jacob ficou tenso.
— Sobre?
— Minha participação.
— Ah.
— Você não precisava fazer isso.
— Precisava.
A resposta veio rápida.
Elena franziu a testa.
Jacob corrigiu:
— Quero dizer... era justo.
Aquilo confirmou tudo para ela.
Justo.
Culpa.
Reparação.
— Não quero que tenha pena de mim.
Jacob pareceu genuinamente confuso.
— Pena?
— Eu assinei o distrato.
— Eu sei.
— Você tinha o que queria.
A frase o atingiu.
— Elena...
— Não estou reclamando.
A voz dela permaneceu calma.
— Só não quero que ache que precisa compensar alguma coisa porque eu sofri um acidente.
Jacob ficou olhando.
Como podia explicar sem dizer tudo?
— Não foi por pena.
Ela não acreditou.
Ele percebeu.
— Certo.
— Elena.
— Está tudo bem.
— Não está.
Ela baixou os olhos.
— Não quero discutir.
Jacob recuou.
— Nem eu.
Silêncio.
Ela esperava que ele dissesse mais.
Ele queria.
Nenhum dos dois fez.
Jacob olhou para a postura dela.
Percebeu a maneira como evitava colocar peso numa das pernas.
— Está com dor.
Elena imediatamente respondeu:
— Não.
Ele levantou uma sobrancelha.
Por um segundo, era o velho Jacob.
— Você continua péssima mentindo.
Elena quase sorriu.
Quase.
— Estou medicada.
— Isso não foi o que perguntei.
— Não precisa se preocupar.
A frase o fez parar.
Elena percebeu.
Jacob baixou os olhos.
— Certo.
Ela sentiu a própria garganta apertar.
Ele realmente não queria mais.
Era isso.
Tinha vindo por responsabilidade.
Pelo restaurante.
Pela culpa.
E agora ela acabara de dispensá-lo da obrigação de se preocupar.
Jacob, por sua vez, olhava para Elena e pensava exatamente o contrário.
Ela não quer você perto.
Não pressione.
Não repita o erro.
Não transforme amor em invasão.
— Vou deixar você trabalhar.
Elena assentiu.
— Certo.
Jacob deu um passo.
Parou.
— Elena.
Ela levantou os olhos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Ele queria dizer:
Eu amo você.
Ela queria dizer:
Eu também.
Ele disse:
— Cuida de você.
Ela respondeu:
— Você também.
Jacob foi embora.
Elena ficou olhando para a porta.
Rosalie apareceu ao lado dela.
— Vocês são dois idiotas.
Elena voltou-se.
— O quê?
— Nada.
— Rosalie.
— Você quer mesmo que eu responda?
— Não.
— Imaginei.
Elena voltou ao trabalho.
Cinco minutos depois, Rosalie percebeu que ela havia parado diante da mesma bancada sem fazer absolutamente nada.
— Elena.
— Hum?
— Ele não odeia você.
Elena ficou imóvel.
— Não falei que odeia.
— Não precisava.
— Você não sabe.
Rosalie respirou fundo.
— Sei mais do que você imagina.
Elena voltou a cortar os legumes.
— Não quero falar sobre isso.
Rosalie respeitou.
Por enquanto.
Do lado de fora, Jacob entrou no carro.
Não ligou o motor.
Ficou sentado.
As mãos no volante.
Vê-la tinha sido pior e melhor do que imaginara.
Viva.
De pé.
Falando.
Distante.
Emmett abriu a porta do passageiro e entrou.
Jacob olhou.
— Seu carro está ali.
— Eu sei.
— Então por que entrou?
— Porque você está com a mesma expressão de alguém que acabou de assistir ao próprio funeral.
Jacob olhou para frente.
— Ela não me quer perto.
Emmett suspirou.
— Ela disse isso?
— Não.
— Mandou você embora?
— Não.
— Disse que odeia você?
— Não.
— Pediu que não aparecesse?
— Não.
Jacob olhou para ele.
— Qual é seu ponto?
— Meu ponto é que vocês tiveram uma conversa inteira sem nenhum dos dois dizer o que realmente queria dizer.
Jacob ficou quieto.
— Ela acha que mantive a sociedade por pena.
— E você explicou?
— Disse que não.
— Uau. Eloquente.
Jacob lançou um olhar.
Emmett continuou:
— E você acha que ela não quer você perto porque...
— Porque ela mal olha para mim.
— A irmã dela morreu.
A frase encerrou qualquer irritação.
Jacob baixou os olhos.
Emmett suavizou a voz.
— Elena mal olha para ninguém, Jacob.
Silêncio.
— Não transforma o luto dela numa resposta sobre você.
Jacob respirou fundo.
Emmett estava certo.
O que era irritante.
— Então o que faço?
— Pela primeira vez?
Emmett abriu a porta.
— Nada.
Jacob franziu a testa.
— Nada?
— Dá espaço.
Saiu.
Antes de fechar a porta:
— Mas não desaparece.
Jacob ficou sozinho.
Pensou naquela diferença.
Dar espaço.
Não desaparecer.
Talvez amar Elena agora fosse exatamente isso.
Naquela noite, Elena chegou em casa exausta.
Alice abriu a porta.
Olhou para ela.
— Você está mancando.
— Não estou.
— Está.
— Pouco.
— Eu vou matar Rosalie.
— Ela tentou me mandar embora.
— Então vou matar você.
Elena deixou a bolsa.
— Entra na fila.
Alice percebeu algo em seu rosto.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Jacob?
Elena parou.
Alice cruzou os braços.
— Acertei.
— Ele foi ao restaurante.
— E?
— Nada.
— Vocês conversaram?
— Um pouco.
— E?
Elena fechou os olhos.
— Alice.
— Certo.
Alice recuou.
Elena caminhou lentamente até o sofá.
Sentou-se.
A dor pulsava.
Alice trouxe água e a medicação.
Elena tomou sem reclamar.
Aquilo por si só mostrava o quanto estava cansada.
O telefone tocou.
Videochamada.
Seth.
Elena olhou.
Atendeu.
O rosto dele apareceu ocupando praticamente toda a tela.
— ELENA!
Ela afastou o telefone.
— Você não precisa gritar.
— Você voltou para o restaurante!
Elena olhou para Alice.
— Traidora.
Alice ergueu as mãos.
— Dessa vez não fui eu.
Seth falou:
— Tio Jake contou.
Elena ficou imóvel.
— Contou?
— É.
— Quando?
— Agora.
— Ele está aí?
Seth virou o celular.
Jacob estava ao fundo.
Sentado à mesa.
Os olhos dele encontraram os dela pela tela.
Dessa vez nenhum desviou imediatamente.
— Oi — Elena disse.
— Oi.
Seth virou novamente.
— Ele falou que você está trabalhando sem poder.
Elena estreitou os olhos.
— Falou?
Jacob, ao fundo:
— Eu disse que o médico recomendou repouso.
— Fofoqueiro.
Silêncio.
Então Seth começou a rir.
Alice arregalou os olhos.
Porque Elena havia falado aquilo com alguma coisa muito próxima do antigo tom.
Jacob também percebeu.
— Estou disposto a aceitar o título — respondeu ao fundo.
Elena olhou para a tela.
Por um segundo, muito pequeno, o canto de sua boca se moveu.
Não chegou a ser sorriso.
Mas Jacob viu.
E não disse nada.
Seth começou a contar sobre o dia.
Elena ouviu.
Alice sentou-se do outro lado da sala.
Jacob permaneceu ao fundo da chamada, fingindo ler alguma coisa.
Às vezes Elena o via.
Às vezes ele levantava os olhos.
Nenhum dos dois falava diretamente.
Mas também nenhum foi embora.
E talvez aquele fosse o começo.
Não uma reconciliação.
Não perdão.
Muito menos uma promessa.
Apenas duas pessoas que ainda se amavam, cada uma acreditando que a outra desejava distância, aprendendo lentamente a permanecer próximas o suficiente para não desaparecer.
Por enquanto, talvez fosse tudo que conseguiam oferecer.
E, naquela noite, foi suficiente.
Fale com o autor