O PESO DE UMA PROMESSA

13 CAPÍTULO 13 - ENQUANTO VOCÊ NÃO VOLTA



Jacob descobriu que existiam viagens que não podiam ser medidas em quilômetros.

Da empresa até o aeroporto, quase não falou.

Durante o voo, não dormiu.

Do aeroporto até o hospital, perdeu a conta de quantas vezes perguntou a Emmett se Rosalie havia mandado alguma notícia.

Nenhuma mudança.

Elena permanecia em coma.

Grave.

Estável dentro do que os médicos consideravam possível.

Bella estava morta.

As palavras continuavam se recusando a ocupar o mesmo espaço dentro da cabeça dele.

Quando chegaram ao hospital, Rosalie estava no corredor.

Emmett mal teve tempo de parar.

Ela atravessou a distância entre eles e se jogou em seus braços.

— Rose.

Rosalie começou a chorar.

Emmett a abraçou.

Jacob parou alguns passos atrás.

Não perguntou nada.

O rosto dela já respondia.

Rosalie ergueu os olhos por cima do ombro de Emmett.

Viu Jacob.

E chorou ainda mais.

— Ela não acordou.

Jacob fechou os olhos por um segundo.

— Eu sei.

— Os médicos disseram que precisamos esperar.

Esperar.

Jacob odiava aquela palavra.

— Posso vê-la?

Rosalie hesitou.

Antes que respondesse, uma voz veio do corredor.

— Não.

Jacob se virou.

Alice estava parada alguns metros adiante.

Por um instante, quase não a reconheceu.

A mulher sempre impecável parecia ter envelhecido anos em poucos dias. Os cabelos estavam presos de qualquer maneira, os olhos inchados, o rosto sem maquiagem.

Mas o que mais o atingiu foi a expressão.

Alice olhava para ele com ódio.

— Alice... — Rosalie começou.

— Eu disse não.

Jacob não se moveu.

— Quero apenas vê-la.

Alice soltou uma risada curta.

— Você quer?

— Sim.

— Que bom.

Caminhou até ele.

— Porque Elena também queria muitas coisas.

Emmett olhou para Rosalie.

Rosalie fechou os olhos.

Jacob permaneceu imóvel.

Alice parou diante dele.

— Ela queria que você acreditasse que amava você.

Jacob sentiu.

— Alice...

— Queria que você entendesse por que teve medo.

— Eu entendo agora.

— Agora?

Alice riu.

— Que conveniente.

Jacob não respondeu.

— Ela passou dois dias chorando.

A informação atravessou seu peito.

— Alice — Rosalie tentou novamente.

— Não. Ele quer ver Elena? Então vai ouvir sobre Elena.

Alice voltou-se para Jacob.

— Ela chorava e depois parava. Aí alguma coisa lembrava você e começava de novo.

Jacob baixou os olhos.

— Eu sei que machuquei ela.

— Não sabe.

— Sei.

— NÃO SABE!

Algumas pessoas no corredor olharam.

Alice não se importou.

— Você sabia exatamente onde machucar e fez mesmo assim.

Jacob levantou os olhos.

— Sim.

A resposta a desarmou por um segundo.

Ele não tentou justificar.

Não falou de Seth.

Não falou do segredo.

Não disse que estava ferido.

Apenas:

— Sim.

Alice respirou com dificuldade.

— E depois tirou o restaurante dela.

— Sim.

— Ela assinou aquele maldito papel porque achava que merecia perder tudo.

Jacob sentiu o estômago se contrair.

— Eu não sabia.

— Esse é exatamente o problema, Jacob. Você não sabia porque estava ocupado demais tentando fazer ela pagar.

Ele recebeu a frase em silêncio.

Alice começou a chorar.

— Ela foi embora porque não conseguia mais respirar em Nova York.

Jacob fechou os olhos.

— Eu sei.

— Para de dizer que sabe!

— Então me diz o que quer que eu diga.

Alice ficou imóvel.

Jacob respirou fundo.

— Quer que eu diga que me arrependo? Eu me arrependo. Quer que eu diga que fui cruel? Eu fui. Quer que eu diga que daria qualquer coisa para voltar e não dizer aquelas coisas? Eu daria.

A voz começou a falhar.

— Quer que eu diga que deveria ter ouvido Elena quando ela tentou me contar? Eu deveria. Que deveria ter esperado antes de arrancá-la do restaurante? Deveria.

Alice o encarava.

— Mas nada disso muda onde ela está agora.

Ele olhou para a porta do quarto.

— E eu não consigo mudar isso.

Alice enxugou as lágrimas.

— Então vai embora.

Rosalie abriu os olhos.

— Alice...

— Não quero ele perto dela.

Jacob permaneceu em silêncio.

Emmett se aproximou.

— Jacob...

Ele ergueu a mão.

Não discutiria.

Não ali.

Não com Alice.

— Tudo bem.

Alice pareceu surpresa.

Jacob olhou uma última vez para a porta.

— Se alguma coisa mudar...

— Rosalie vai me avisar — Emmett disse.

Jacob assentiu.

Deu alguns passos.

Parou.

— Alice.

Ela não respondeu.

— Eu não vou pedir que me perdoe.

Ela cruzou os braços.

— Ótimo.

— Mas não fui para a Flórida para conseguir perdão.

Alice o encarou.

Jacob olhou novamente para a porta.

— Vim porque amo Elena.

A mandíbula de Alice tremeu.

— Devia ter lembrado disso antes de quebrar ela.

Jacob recebeu o golpe.

— Devia.

E foi embora.


Naquela noite, Jacob ficou no hotel.

Não conseguiu dormir.

Às duas da manhã, estava sentado numa poltrona junto à janela.

Às três, continuava ali.

Às quatro e vinte, Emmett mandou uma mensagem.

Sem alteração.

Jacob respondeu apenas:

Obrigado.

Às cinco e cinquenta e dois, perguntou:

Rosalie está com ela?

A resposta veio:

Alice.

Jacob colocou o telefone sobre a mesa.

Ficou olhando para ele.

Não podia entrar no quarto.

Não podia acordar Elena.

Não podia trazer Bella de volta.

Não podia desfazer a última discussão.

Não podia fazer absolutamente nada.

E talvez aquela fosse a punição mais perfeita para um homem que passara a vida acreditando que sempre havia alguma coisa a ser feita.


No dia seguinte, Emmett entrou no quarto do hotel.

Jacob estava vestido.

— Como ela está?

Nem bom-dia.

Nem pergunta sobre Rosalie.

Emmett já esperava.

— Igual.

Jacob assentiu.

— E Bella?

Emmett hesitou.

— Alice e Rosalie estão resolvendo o velório.

Jacob ficou quieto.

— Elas têm dinheiro?

Emmett percebeu imediatamente.

— Jacob...

— Não estou perguntando se Elena tem dinheiro. Estou perguntando se elas conseguem pagar tudo sem se preocupar com isso agora.

— Provavelmente não.

Jacob pegou a carteira.

Emmett ergueu uma sobrancelha.

— O que pretende fazer?

— Cuidar.

— Alice vai descobrir.

— Não precisa.

— Vai.

Jacob olhou para ele.

— Então não deixa.

Emmett quase sorriu, mas não conseguiu.

— Você está me pedindo para organizar o funeral de Bella escondido?

— Estou pedindo para garantir que Alice e Rosalie não precisem escolher caixão pensando em preço.

A voz de Jacob ficou mais baixa.

— Elena faria isso.

Emmett observou o amigo.

— Faria.

— Então faz por ela.

— E se Elena não quiser?

Jacob desviou os olhos.

— Quando acordar, pode me devolver cada centavo.

Quando.

Emmett percebeu.

Jacob jamais dizia se.

— Certo.

— Flores também.

— Alguma preferência?

Jacob pensou.

Percebeu que não sabia quais flores Bella gostava.

Aquilo doeu de maneira inesperada.

— Pergunta para Alice sem dizer por quê.

Emmett assentiu.

Caminhou até a porta.

— Emmett.

— Hum?

Jacob demorou.

— Cuida dela direito.

Emmett entendeu que ele não estava falando apenas do funeral.

— Vou cuidar.


O velório aconteceu dois dias depois.

Alice não convidou Jacob.

Ele não reclamou.

Rosalie também não pediu que fosse.

Jacob compreendeu.

Aquele espaço pertencia às pessoas que Bella amava e que Bella amava de volta.

Ele não precisava ocupar todos os lugares.

Mas sabia onde Alice estaria.

Sabia onde Rosalie estaria.

Sabia onde Emmett estaria.

E sabia que, durante algumas horas, o corredor do hospital ficaria vazio.

Jacob permaneceu dentro do carro por quase vinte minutos.

Poderia ir embora.

Talvez devesse.

Alice havia sido clara.

Mas Elena estava a poucos metros.

E ele ainda não a tinha visto.

Saiu.


O hospital parecia mais silencioso naquele dia.

Jacob caminhou pelo corredor lentamente.

Sabia o número do quarto.

Sabia desde o primeiro dia.

Parou diante da porta.

Não entrou imediatamente.

A mão permaneceu na maçaneta.

Seu coração batia rápido demais.

Por alguns segundos, teve medo de abrir.

Não medo de Elena.

Medo do que encontraria.

Então entrou.

E parou.

Nada do que imaginara o preparou.

Elena parecia pequena naquela cama.

Era absurdo.

Elena nunca parecia pequena.

Ela entrava nos lugares ocupando espaço sem perceber. Falava com as mãos. Reclamava. Ria alto quando esquecia que estava tentando se comportar. Discutia com retratos. Implicava com seis banheiros. Transformava cozinhas em território próprio.

A mulher naquela cama estava imóvel.

Pálida.

Havia um curativo próximo à testa.

Hematomas marcavam parte do rosto.

Um dos braços estava imobilizado.

Fios.

Monitores.

Equipamentos.

O som regular das máquinas preenchia o quarto.

Jacob não conseguiu se aproximar.

Ficou junto à porta.

— Não.

A palavra saiu sozinha.

Era Elena.

Sabia.

Mas não parecia possível que aquela fosse Elena.

A Elena dele — e imediatamente sentiu que não tinha direito àquele pronome — era movimento.

Era barulho.

Era provocação.

Aquilo era silêncio.

Jacob deu um passo.

Depois outro.

Chegou ao lado da cama.

Olhou para o rosto dela.

— Oi.

A voz falhou.

Sentiu-se ridículo.

Elena não respondeu.

— Eu...

Parou.

Não sabia falar com alguém que não podia responder.

Sentou-se.

As mãos permaneceram sobre os próprios joelhos.

— Alice não quer que eu esteja aqui.

Nada.

— E ela tem razão.

Jacob soltou uma pequena risada quebrada.

— Você provavelmente acharia engraçado ouvir eu admitir que outra pessoa tem razão.

O monitor continuou marcando o ritmo.

Ele olhou para a mão dela.

Quis tocar.

Não tocou.

— Eu não sei se você consegue me ouvir.

Respirou.

— Os médicos dizem que talvez.

Silêncio.

— Então vou assumir que sim porque... porque preciso que você ouça algumas coisas.

A voz começou a tremer.

— Eu sinto muito.

Fechou os olhos.

— Não pelo que aconteceu com Bella. Eu sei que não posso pegar isso para mim.

Abriu novamente.

— Estou tentando aprender.

Olhou para Elena.

— Sinto muito pelo que fiz com você.

Nenhuma reação.

— Você mentiu para mim.

A voz ficou baixa.

— E eu estava tão ferido que achei que isso me dava o direito de ferir você de volta.

Engoliu em seco.

— Não dava.

Finalmente tocou os dedos dela.

Muito de leve.

— Você tinha seis anos.

As lágrimas vieram.

— Seis.

Jacob apertou os olhos.

— Você não matou seus pais.

A mão dela permaneceu imóvel.

— Está me ouvindo?

Sua voz quebrou.

— Você não matou Charlie. Não matou Renée.

Uma lágrima caiu sobre a mão dela.

— E não matou Bella.

Precisou parar.

Respirar.

— Eu não sei o que aconteceu naquele carro. Não sei por que vocês bateram. Mas sei que você vai tentar encontrar um jeito de fazer isso ser sua culpa.

Jacob inclinou-se.

— Não faz isso.

Silêncio.

— Por favor.

Passou o polegar delicadamente pelos dedos dela.

— Eu não tenho direito de pedir nada para você.

Outra lágrima.

— Mas vou pedir mesmo assim.

Aproximou a cadeira.

— Volta.

Nada.

— Volta, Elena.

A voz se desfez.

— Você pode voltar e me odiar.

Respirou com dificuldade.

— Pode me dizer que nunca mais quer olhar para mim.

As lágrimas agora caíam sem controle.

— Pode pegar aquele distrato e esfregar na minha cara. Pode contar para todo mundo que eu sou o maior idiota de Nova York.

Uma risada chorosa escapou.

— Alice provavelmente já está fazendo isso.

Olhou para o rosto imóvel.

— Mas volta.

Jacob finalmente segurou a mão dela entre as duas mãos.

— Eu não quero que a última coisa que você saiba sobre nós seja aquela briga.

Fechou os olhos.

— Você disse que me amava.

A garganta apertou.

— E eu mandei você não dizer.

Silêncio.

— Porque ouvir aquilo naquele momento doeu mais.

Abriu os olhos.

— Não porque eu não amasse você.

As palavras ficaram suspensas.

Era a primeira vez.

E Elena não estava acordada para ouvir.

— Eu amo você.

Jacob chorou em silêncio.

— Eu amo você, Elena.

Encostou a testa na mão dela.

— E eu devia ter dito quando você podia responder.

Permaneceu assim por alguns segundos.

Depois sussurrou:

— Então volta para mim.

Corrigiu imediatamente:

— Não.

Respirou.

— Volta para você.

Ergueu a cabeça.

— Depois decide se ainda existe algum espaço para mim.

Beijou os dedos dela.

— Só volta.


Jacob deixou a Flórida naquela noite.

Não porque quisesse.

Porque precisava.

A empresa existia.

Seth existia.

A vida, com uma crueldade quase ofensiva, continuava existindo.

Rosalie prometeu avisar qualquer mudança.

Emmett ficou mais um dia para ajudar Alice.

Jacob voltou sozinho.

Durante o voo, não dormiu.

Mas, quando pousou em Nova York, alguma coisa nele havia mudado.

Não estava melhor.

Apenas voltara a funcionar.

E Jacob Black sabia funcionar.

Era o que fazia quando não sabia sentir.


Na manhã seguinte, chegou à empresa às sete.

Sue olhou para ele.

— Você deveria estar em casa.

— Já estive.

— Deveria dormir.

— Também tentei.

— Jacob.

Ele parou.

Sue observou seu rosto.

— Alguma mudança?

— Não.

Ela não perguntou mais.

Jacob entrou no escritório.

Abriu o computador.

Respondeu mensagens.

Assinou documentos.

Fez duas reuniões.

Às onze, alguém comentou que era bom tê-lo de volta.

Jacob quase perguntou:

De volta de onde?

Porque parte dele ainda estava naquele quarto.

Sentada ao lado de Elena.

Esperando.

Mas trabalhou.

Ao meio-dia, Rosalie mandou:

Sem mudança.

Jacob leu três vezes.

Respondeu:

Me avise de qualquer coisa. Qualquer coisa.

Guardou o celular.

Foi então que uma imagem apareceu.

Um carro destruído.

Rebecca.

Salomon.

Depois outro.

Elena.

Bella.

Jacob franziu a testa.

Dois acidentes.

Duas pessoas ligadas diretamente a ele.

Duas tragédias.

Carros.

Alguma coisa incomodou.

Não era lógica ainda.

Era instinto.

Pegou o telefone.

— Paul.

— Você voltou?

— Voltei.

— Como Elena está?

— Igual.

Silêncio.

— Preciso de você.

— Fala.

— Quero o carro da Rebecca e do Salomon.

Paul ficou quieto.

— O carro do acidente?

— Sim.

— Jacob, aquilo foi há...

— Eu sei.

— Por quê?

Jacob olhou pela janela.

— Quero que nossos mecânicos examinem.

— A polícia já examinou.

— Quero os nossos.

— Está procurando o quê?

— Ainda não sei.

Paul ficou em silêncio.

— E o carro de Elena?

Jacob apertou o telefone.

— Também.

— Está na Flórida.

— Embry consegue cuidar disso.

— Jacob...

— Eu quero os dois avaliados separadamente. Não diga para os mecânicos o que estou pensando.

— E o que você está pensando?

Jacob demorou.

— Que talvez eu não esteja pensando nada.

— Isso não parece você.

— Paul.

— Certo.

— Freios. Direção. Eletrônica. Tudo.

— Vou falar com Embry.

— Quero relatório completo.

— Você vai ter.

Jacob desligou.

Ficou olhando para o telefone.

Talvez fosse apenas coincidência.

Provavelmente era.

Dois acidentes não significavam uma conspiração.

Ele sabia disso.

Mas alguma coisa dentro dele dizia para olhar.

E, pela primeira vez desde o telefonema de Rosalie, havia uma coisa concreta que podia fazer.

Investigar.


Contar para Seth foi pior.

Jacob adiou até o fim da tarde.

Não por covardia.

Era o que repetia para si mesmo.

Queria encontrar as palavras certas.

Mas não existiam palavras certas para dizer a uma criança que já perdera os pais que outra pessoa que amava estava entre a vida e a morte.

Seth estava sentado no tapete da sala quando Jacob chegou.

Irina permitira aquela visita depois de muita insistência de Leah.

O menino brincava com dois carros.

Quando viu o tio, levantou imediatamente.

— Tio Jake!

Correu.

Jacob se abaixou e o abraçou.

Forte demais.

Seth reclamou:

— Está apertando.

Jacob soltou.

— Desculpa.

Seth olhou para ele.

— Você está triste.

Jacob sentiu.

Crianças percebiam tudo que adultos tentavam esconder.

— Estou.

— É por minha mãe?

Jacob engoliu.

— Também.

Seth voltou para o tapete.

— Elena vai vir?

Jacob ficou imóvel.

Era exatamente o nome que não queria ouvir tão cedo.

Sentou-se no chão.

— Seth...

O menino parou de brincar.

— O quê?

— Preciso contar uma coisa.

Seth imediatamente ficou tenso.

Jacob percebeu.

A última vez que adultos haviam dito algo parecido, os pais dele não voltaram.

— Ninguém morreu — Jacob falou depressa.

E se arrependeu no mesmo instante.

Porque alguém morrera.

Seth percebeu.

— Você está mentindo.

Jacob fechou os olhos.

— Não para você.

— Então quem morreu?

Direto.

Sem proteção.

Jacob respirou.

— A irmã da Elena.

Seth ficou quieto.

— Bella?

— Sim.

— Como?

Jacob olhou para os carrinhos.

— Houve um acidente.

Seth parou completamente.

— De carro?

Jacob sentiu o peso da coincidência.

— Sim.

Seth empurrou os carrinhos para longe.

— E Elena?

Jacob demorou.

O menino arregalou os olhos.

— E ELENA?

— Está viva.

Seth respirou.

— Então ela está bem.

Jacob sentiu o coração partir.

— Não.

Seth ficou olhando.

— Ela se machucou muito.

— Mas está viva.

— Está.

— Então está bem.

Como explicar?

Jacob aproximou-se.

— Ela está dormindo.

Seth franziu a testa.

— Dormindo?

— Os médicos chamam de coma.

O menino não entendeu.

— É tipo dormir?

— Um pouco.

— Então acorda ela.

Jacob fechou os olhos.

A mesma coisa que dissera a Rosalie.

— Os médicos estão tentando ajudar.

— Mas ela vai acordar.

Jacob não respondeu rápido o suficiente.

Seth percebeu.

— Ela vai acordar?

— Eu espero que sim.

O menino ficou pálido.

— Não.

— Seth...

— Você tem que dizer sim.

Jacob sentiu os olhos arderem.

— Eu não posso prometer uma coisa que não sei.

— PROMETE!

A palavra atravessou a sala.

Jacob ficou imóvel.

— Seth...

— PROMETE QUE ELA VAI ACORDAR!

— Eu não posso.

Seth levantou-se.

— PODE!

— Não posso.

— VOCÊ É MEU TIO!

Como se aquilo desse a Jacob poder sobre a morte.

Como se ser adulto significasse controlar quem ficava.

Jacob sentiu o peito se romper.

— Eu sei.

— Então faz ela acordar!

— Eu queria poder.

— Faz!

— Seth...

— VOCÊ NÃO FAZ NADA!

Jacob recebeu a frase.

— Minha mãe morreu!

As lágrimas começaram.

— Meu pai morreu!

Jacob levantou-se.

— Eu sei.

— Irina me tirou daqui!

— Eu sei.

— Elena foi embora!

— Eu sei.

— E AGORA ELA NÃO ACORDA!

Seth começou a chorar desesperadamente.

Jacob se aproximou.

O menino recuou.

— Não encosta!

Jacob parou.

A cena se repetia.

Como depois da morte de Rebecca e Salomon.

Seth olhou para ele com o rosto molhado.

— Todo mundo vai embora.

— Não.

— Vai!

— Eu não.

— Minha mãe prometeu que voltava!

Jacob sentiu.

— Eu sei.

— Elena prometeu que ficava quando eu estava triste!

— Seth...

— ELA PROMETEU!

Jacob ajoelhou-se.

Não tentou tocar.

— Olha para mim.

— Não!

— Por favor.

Seth chorava.

Jacob esperou.

Depois de alguns segundos, o menino olhou.

— Elena não escolheu isso.

Seth soluçou.

— Seus pais também não escolheram.

— Mas foram embora.

— Foram.

Jacob não mentiu.

— E isso dói.

— Muito.

— Eu sei.

— Não sabe!

Jacob respirou.

— Talvez eu não saiba exatamente como dói em você.

Seth chorou.

— Mas sei que também estou com medo.

Aquilo surpreendeu o menino.

— Você?

— Muito.

— Adulto não fica com medo.

Jacob quase sorriu.

— Quem contou essa mentira?

Seth fungou.

— Não sei.

— Adultos ficam com medo o tempo inteiro. Só ficam melhores em esconder.

O menino ficou quieto.

— Você está com medo da Elena morrer?

A pergunta quase destruiu Jacob.

Mas mentir seria pior.

— Estou.

Seth começou a chorar novamente.

— Eu não quero.

— Nem eu.

— Faz parar.

Jacob fechou os olhos.

Quantas vezes uma criança precisaria pedir aquilo?

Faz parar.

Elena ouvira aquelas mesmas palavras.

E respondera.

Jacob lembrava.

Eu não consigo fazer parar. Mas posso ficar aqui enquanto dói.

Ele respirou.

— Eu não consigo fazer isso parar.

Seth olhou para ele.

— Mas posso ficar aqui enquanto dói.

O menino reconheceu.

— Elena fala isso.

Jacob sentiu as lágrimas.

— Eu sei.

Seth ficou parado.

Então deu um passo.

Depois outro.

E se jogou nos braços dele.

Jacob o segurou.

O menino chorou contra seu peito.

— Eu quero ela.

Jacob fechou os olhos.

— Eu também.

— Muito.

— Eu também.

— Quando ela acordar, você traz ela?

Jacob apertou Seth.

Não prometeu que Elena acordaria.

Não podia.

Mas podia prometer outra coisa.

— Se Elena acordar e quiser voltar, eu vou buscar ela onde estiver.

Seth afastou o rosto.

— Mesmo longe?

— Mesmo do outro lado do mundo.

— Mesmo se Irina não deixar?

Jacob quase sorriu.

— Essa parte deixa comigo.

Seth voltou a abraçá-lo.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— Você brigou com ela?

Jacob ficou imóvel.

— Por quê?

— Porque antes ela ficava aqui.

Crianças.

Sempre percebendo.

— Briguei.

— Feio?

— Muito.

— Foi você?

Jacob respirou.

— Nós dois erramos.

Seth pensou.

— Você pediu desculpa?

A pergunta encontrou Jacob desprevenido.

— Pedi.

— Ela ouviu?

Jacob olhou para o vazio.

Elena imóvel na cama.

— Não sei.

— Então pede quando ela acordar.

Jacob fechou os olhos.

— Vou pedir.

— E não briga mais.

Apesar de tudo, uma pequena risada escapou.

— Isso eu não posso prometer.

Seth afastou-se.

— Por quê?

— Porque Elena gosta muito de discutir.

— É verdade.

— Principalmente sobre passas.

Seth fez uma careta.

— Passas são horríveis.

Jacob olhou para ele.

— Finalmente alguém sensato nessa família.

Foi pequeno.

Quase nada.

Mas Seth sorriu.

Por menos de um segundo.

E naquele momento, para Jacob, pareceu suficiente.


Naquela noite, depois de deixar Seth, Jacob voltou para casa.

A casa estava silenciosa.

Passou pela cozinha.

Parou.

Por um instante, quase esperou encontrar um bilhete preso a alguma travessa.

Ou ouvir Elena discutindo com o retrato de Billy.

Nada.

Subiu.

Tomou banho.

Deitou.

Não dormiu.

Às duas e vinte e três, pegou o telefone.

Nenhuma mensagem.

Abriu a conversa com Rosalie.

Digitou:

Alguma mudança?

Esperou.

Três minutos depois:

Não.

Jacob fechou os olhos.

Colocou o telefone sobre o peito.

Pensou em Elena.

Depois nos carros.

Rebecca.

Salomon.

Bella.

Elena.

Dois acidentes.

Duas tragédias.

Algo ainda não se encaixava.

Mas aquela investigação teria de esperar até a manhã.

Elena não.

Ela estava presente em cada silêncio.

Em cada cômodo.

Em cada coisa que Jacob tentava fazer normalmente.

Ele estava retomando o controle.

A empresa funcionaria.

Seth teria o tio.

Paul e Embry investigariam os carros.

Jacob faria tudo aquilo que sabia fazer.

Mas havia uma coisa que não tentaria mais fazer.

Convencer a si mesmo de que conseguia arrancar Elena da própria vida.

Pegou novamente o telefone.

Abriu uma fotografia.

Era antiga.

Seth no jardim.

Elena ao fundo, rindo de alguma coisa.

Jacob ampliou sem perceber.

Ficou olhando para ela.

— Você disse que eu podia mandar você para o inferno — murmurou para o quarto vazio.

Uma pequena e dolorosa curva apareceu em seus lábios.

— Então acorda.

Desligou a tela.

A escuridão voltou.

Jacob fechou os olhos.

— Eu ainda preciso fazer isso pessoalmente.