O PESO DE UMA PROMESSA
14 CAPÍTULO 14- OS OLHOS DE BELLA
Elena voltou devagar.
Não houve luz.
Não houve a sensação cinematográfica de atravessar uma escuridão e encontrar o mundo esperando do outro lado.
Primeiro veio o som.
Um ruído insistente.
Regular.
Distante.
Bip.
Silêncio.
Bip.
Silêncio.
Depois outro som.
Ar.
Alguma coisa soprava perto dela.
Vozes existiam em algum lugar, mas não formavam palavras. Eram apenas murmúrios misturados ao ruído das máquinas.
Elena tentou abrir os olhos.
Não conseguiu.
As pálpebras pareciam pesadas demais.
Tentou novamente.
Uma fresta de luz atravessou a escuridão e imediatamente trouxe dor.
Fechou.
Esperou.
Não sabia pelo quê.
Não sabia onde estava.
Não sabia quanto tempo havia passado.
Então tentou mover a mão.
Dor.
O corpo respondeu antes da memória.
Havia dor no ombro.
Na cabeça.
Nas costelas.
Uma dor funda na perna.
A boca estava seca.
A garganta ardia.
Elena tentou engolir.
Foi quando ouviu uma voz.
— Elena?
Conhecia aquela voz.
Mas parecia estar muito longe.
— Elena?
Houve movimento.
Uma cadeira arrastando.
Passos rápidos.
— Meu Deus.
Alice.
Elena abriu os olhos novamente.
Dessa vez conseguiu mantê-los assim.
O teto era branco.
Havia uma luz apagada acima dela.
Uma parede.
Uma máquina.
Depois um rosto.
Alice.
Os cabelos estavam presos de qualquer maneira.
Os olhos inchados.
O rosto pálido.
Ela parecia estar chorando havia dias.
— Elena?
Alice levou as mãos à boca.
— Meu Deus.
Elena apenas olhou.
Alice aproximou-se.
— Você está me ouvindo?
Elena piscou.
A amiga começou a chorar.
— Meu Deus... meu Deus, você acordou.
Elena tentou falar.
Nenhum som saiu.
Alice percebeu.
— Não fala. Espera.
Apertou o botão ao lado da cama.
— Vou chamar alguém. Está tudo bem. Não tenta falar.
Está tudo bem.
A frase ficou suspensa.
Elena olhou para Alice.
Alguma coisa estava errada.
Não.
Alguma coisa estava faltando.
Seu coração acelerou.
As máquinas perceberam antes de Alice.
O ritmo do monitor mudou.
— Elena?
Ela olhou para o lado.
Outra cadeira.
Vazia.
E então a memória chegou.
Não inteira.
Em pedaços.
Estrada.
Bella dormindo.
Você ainda ama ele.
O volante.
A descida.
O pedal.
Nada.
O freio.
Uma buzina.
— Elena?
Vidro.
Metal.
O mundo girando.
— Elena, olha para mim.
Sangue.
E então...
Olhos.
Elena parou de respirar.
Os olhos de Bella.
Abertos.
Imóveis.
— Não...
Foi a primeira palavra.
Quase nenhum som.
Alice congelou.
Elena olhou para ela.
Não perguntou.
Não precisava.
Alice entendeu errado.
Aproximou-se imediatamente.
— Elena, calma. Você sofreu um acidente. Está no hospital. Você ficou desacordada por alguns dias, mas está segura agora.
Elena continuou olhando.
Alice tocou cuidadosamente sua mão.
— Os médicos vão explicar tudo.
Elena moveu os lábios.
— Bella.
Alice ficou imóvel.
Apenas por um segundo.
Mas foi suficiente.
Elena viu.
Alice respirou.
— Elena...
Ela desviou os olhos.
E Elena soube que Alice estava tentando decidir o que dizer.
Como dizer.
Quando dizer.
Como contar a uma mulher recém-saída de um coma que sua irmã estava morta.
Alice não sabia que não precisava.
Elena fechou os olhos.
E viu novamente.
Os olhos de Bella.
Os médicos entraram.
Perguntas.
Nome.
Data de nascimento.
Dor.
Movimentos.
Luz nos olhos.
Dedos.
Pés.
Elena respondeu ao mínimo.
— Sabe onde está?
Ela assentiu.
— Sabe o que aconteceu?
Silêncio.
— Elena?
Assentiu outra vez.
Alice segurava sua mão.
Elena não segurava de volta.
— Muito bem. Não precisa forçar agora.
O médico continuou falando.
Traumatismo.
Fraturas.
Cirurgia.
Observação neurológica.
Recuperação.
Elena ouvia palavras.
Nenhuma permanecia.
Havia apenas dois olhos verdes — parecidos com os dela, mas não iguais — olhando para lugar nenhum.
Bella.
Tentou expulsar a imagem.
Não conseguiu.
Fechou os olhos.
Lá estavam.
Abriu.
Continuavam.
Não diante dela.
Dentro.
Horas depois, Alice ainda não havia contado.
Sentou-se ao lado da cama e segurou a mão de Elena.
— Você quer água?
Elena balançou a cabeça.
— O médico disse que pode beber um pouco.
Não.
— Está com dor?
Não respondeu.
Alice respirou.
— Elena...
Nada.
— Quer que eu chame Rosalie?
Nenhuma reação.
— Ela está aqui praticamente todos os dias.
Elena olhou para a janela.
Alice observou o perfil da amiga.
— Todo mundo ficou muito preocupado.
Silêncio.
— Muito.
Nada.
Alice sentiu o medo crescer.
Esperara lágrimas.
Esperara perguntas.
Esperara desespero.
Esperara que Elena gritasse.
Elena sempre sentira tudo profundamente.
Mas a mulher na cama não parecia sentir coisa alguma.
— Lena...
Elena continuou olhando para a janela.
— Bella...
Alice parou.
Precisava contar.
Sabia.
Mas não conseguia.
Como dizer?
Sua irmã morreu.
Como colocar aquelas três palavras no mundo?
— Sobre Bella...
Elena finalmente virou o rosto.
Alice sentiu o coração partir.
Não havia pergunta naqueles olhos.
Havia certeza.
— Eu sei.
Alice congelou.
— O quê?
A voz de Elena era fraca.
— Eu sei.
— Elena...
— Ela morreu.
Alice começou a chorar.
Elena não.
— Quem contou?
Elena olhou para o teto.
— Ninguém.
Alice enxugou o rosto.
— Então como...
Elena demorou.
Quando falou, a voz parecia pertencer a outra pessoa.
— Eu vi.
Alice parou de respirar.
Elena continuou olhando para cima.
— No carro.
Uma pausa.
— Depois que parou.
Alice levou a mão à boca.
— Lena...
— Eu chamei.
A voz permaneceu vazia.
— Ela não respondeu.
Alice começou a chorar mais forte.
— Meu amor...
Tentou abraçá-la.
Elena virou levemente o rosto.
Não em rejeição.
Era pior.
Parecia não perceber.
— Os olhos dela estavam abertos.
Alice soluçou.
Elena piscou.
— Eu pedi para ela olhar para mim.
Silêncio.
— Mas ela já estava olhando.
A primeira lágrima que Alice tentou conter escapou.
Elena não chorou.
— Só não estava me vendo.
— Elena...
— Eu sei que ela morreu.
Alice segurou a mão dela com as duas mãos.
— Eu sinto tanto.
Nenhuma resposta.
— Tanto.
Elena fechou os olhos.
— Não fala.
Alice parou.
— Por favor.
Foi quase um sussurro.
— Não fala mais dela.
Alice chorou em silêncio.
— Está bem.
Elena virou o rosto para a janela.
E não disse mais nada.
Nos dois dias seguintes, Elena quase não falou.
Respondia aos médicos porque precisava.
Sim.
Não.
Dor.
Sete.
Água.
Não.
Quando perguntavam se sabia seu nome:
— Elena Swan.
Quando perguntavam onde estava:
— Hospital.
Quando perguntavam o ano, respondia corretamente.
Neurologicamente, aquilo era bom.
Para Alice, era aterrorizante.
Porque Elena estava ali.
E não estava.
Rosalie percebeu no primeiro minuto.
Entrou no quarto com uma pequena bolsa e um sorriso cuidadoso.
— Oi.
Elena olhou.
Rosalie quase chorou de alívio.
— Você está acordada.
Elena assentiu.
Rosalie aproximou-se.
— Posso abraçar você?
Elena deu de ombros.
Aquilo doeu mais do que uma recusa.
Rosalie inclinou-se cuidadosamente e a abraçou.
Elena permaneceu imóvel.
— Senti sua falta.
Nada.
Rosalie se afastou.
— Alice disse que você está sendo uma paciente terrível.
Nenhuma reação.
— O que, sinceramente, combina com você.
Nada.
Rosalie tentou sorrir.
— O médico disse que você precisa comer.
Elena desviou os olhos.
Havia uma bandeja sobre a mesa.
Quase intocada.
— Não estou com fome.
Rosalie olhou para Alice.
— Você não comeu o almoço?
Alice respondeu:
— Duas colheradas.
— Elena.
— Não quero.
— Precisa.
— Não.
Rosalie puxou uma cadeira.
— Tudo bem. Não vou começar uma discussão.
Alice ergueu uma sobrancelha.
— Isso é novidade.
Em qualquer outro momento, Elena teria feito algum comentário.
Não fez.
As duas amigas se entreolharam.
Rosalie tentou novamente.
— Posso contar uma coisa engraçada sobre o restaurante?
Elena fechou os olhos.
Rosalie parou.
— Certo.
Silêncio.
— Podemos falar de outra coisa.
Elena não respondeu.
— Alice quase foi expulsa do hospital ontem.
Alice protestou:
— A enfermeira era incompetente.
— Ela pediu para você não mexer no equipamento.
— Eu estava olhando.
— Com as mãos.
Nenhuma reação.
Rosalie sentiu os olhos arderem.
Aquela discussão teria arrancado um sorriso de Elena.
Talvez uma gargalhada.
Agora nada.
— Elena...
Ela abriu os olhos.
Rosalie percebeu que precisava perguntar.
— O que você quer?
A resposta demorou.
— Nada.
Rosalie sentiu um arrepio.
— Quer ir para casa?
— Não tenho casa.
Alice fechou os olhos.
— Tem, sim.
Elena olhou para ela.
— A casa era nossa.
Ninguém precisou perguntar de quem falava.
Ela e Bella.
— Você tem a minha — Alice disse.
Elena desviou os olhos.
— Tenho quarto sobrando — Rosalie acrescentou.
— Não quero.
— Então o que você quer?
Elena olhou para a janela.
— Nada.
Ela também não chorava.
Isso passou a assustar Alice mais do que qualquer coisa.
Na terceira noite depois de acordar, Alice sentou-se ao lado de Rosalie no corredor.
— Eu queria que ela chorasse.
Rosalie olhou para a porta.
— Eu também.
— Isso parece horrível.
— Não parece.
Alice esfregou o rosto.
— Ela não chora, Rose.
— Eu sei.
— Bella morreu e ela não derramou uma lágrima.
— Ela está em choque.
— Mas olha para ela.
Rosalie olhou pela pequena abertura da porta.
Elena estava acordada.
Olhava para o teto.
Imóvel.
— É como se...
Alice não conseguiu terminar.
Rosalie conseguiu.
— Como se alguma coisa tivesse ficado naquele carro.
Alice começou a chorar.
— Eu perdi Bella.
Rosalie segurou sua mão.
— Eu sei.
— E tenho medo de ter perdido Elena também.
— Não perdeu.
— Como sabe?
Rosalie olhou para dentro.
— Porque ela ainda está aqui.
Alice chorou.
— Isso não parece ela.
— Então nós esperamos até ela conseguir voltar.
Mas Elena não queria voltar.
Não dizia isso.
Não precisava.
Quando fechava os olhos, via Bella.
Quando abria, também.
Os olhos.
Sempre os olhos.
Aquela era a pior parte.
Não o sangue.
Não o vidro.
Não o som do metal.
Os olhos.
Bella havia olhado para ela a vida inteira.
Quando bebê.
Quando criança.
Quando adolescente.
Com raiva.
Com carinho.
Com irritação.
Com medo.
Promete que não vai me abandonar?
Elena prometera tantas coisas.
Prometera ao pai.
Prometera a Bella.
Prometera cuidar.
E agora Bella estava morta.
A promessa terminara dentro de um carro destruído.
Elena olhava para as próprias mãos.
Falhara.
Falhara com Charlie.
Com Renée.
Com Bella.
Com Seth.
Com Jacob.
Com Rosalie.
Com Alice.
Até o restaurante perdera.
Tudo que tocava parecia terminar em perda.
Talvez o problema nunca tivesse sido uma decisão específica.
Talvez fosse ela.
Aquela ideia não vinha acompanhada de choro.
Era pior.
Vinha como certeza.
Por isso não queria comer.
Não porque quisesse morrer.
Elena sequer tinha energia para querer aquilo.
Comer significava participar.
Levantar significava participar.
Falar significava participar.
Viver exigia uma colaboração para a qual ela não encontrava motivo.
Então permanecia.
Respirava porque o corpo fazia sozinho.
O coração batia porque ninguém lhe perguntava se queria.
Dormia quando os medicamentos venciam sua resistência.
Acordava porque o corpo insistia.
Era isso.
Uma sucessão de funções involuntárias.
Uma casca ainda cumprindo aquilo que biologicamente precisava cumprir.
Rosalie ligou para Jacob na quarta noite.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Aconteceu alguma coisa?
Rosalie fechou os olhos.
Sempre.
A primeira pergunta era sempre aquela.
— Não.
Jacob respirou.
— Ela está bem?
Rosalie olhou através do vidro.
— Não.
Silêncio.
— O que aconteceu?
— Nada.
Jacob franziu a testa do outro lado.
— Não estou entendendo.
— Esse é o problema.
Rosalie afastou-se do quarto.
— Nada acontece.
— Rose.
— Ela não fala, Jacob.
Ele ficou quieto.
— Quer dizer... fala quando os médicos perguntam alguma coisa. Nome. Data. Dor. Essas coisas. Mas conosco...
Rosalie respirou.
— Quase nada.
— E Bella?
— Ela sabe.
Jacob fechou os olhos.
— Alice contou?
— Não.
Pausa.
— Elena viu.
Jacob sentiu o estômago afundar.
— Viu o quê?
Rosalie demorou.
— Bella no carro.
Silêncio.
— Jacob?
Ele não respondeu.
— Ela viu Bella morta.
Jacob sentou-se lentamente na cadeira do escritório.
— Ela disse isso?
— Disse.
— Como?
Rosalie não entendeu.
— Como ela falou?
— Jacob...
— Ela chorou?
Rosalie fechou os olhos.
— Não.
Aquilo foi pior.
— Nada?
— Nada.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Meu Deus.
— Ela não chorou desde que acordou.
— Nem pela Bella?
— Não.
— Nem...
Ele não terminou.
Rosalie sabia.
— Nem por você.
Jacob fechou os olhos.
A resposta doeu.
Mas não porque quisesse que Elena sofresse por ele.
Doía porque conhecia uma mulher que chorava vendo propaganda de cachorro abandonado e negava depois.
Uma mulher que chorara na inauguração do próprio restaurante.
Que chorava de raiva.
De medo.
De culpa.
De amor.
Elena sentia tudo.
Agora não sentia nada que conseguisse mostrar.
— Ela está comendo?
Rosalie ficou em silêncio.
Jacob abriu os olhos.
— Rosalie.
— Quase nada.
— Quanto é quase nada?
— Algumas colheradas. Água quando insistimos. Os médicos estão acompanhando.
Jacob levantou-se.
— Eu vou para aí.
— Não.
Ele parou.
— Por quê?
— Alice.
Jacob fechou os olhos.
— Eu não vou discutir com ela.
— Não é só Alice.
Silêncio.
Rosalie escolheu as palavras.
— Eu não sei se Elena consegue lidar com você agora.
Aquilo o atingiu.
— Ela perguntou por mim?
Rosalie demorou demais.
Jacob entendeu.
— Não.
— Jacob...
— Tudo bem.
Mas não estava.
— Ela perguntou pelo restaurante?
— Não.
— Seth?
— Não.
Jacob fechou os olhos.
— Por nada?
Rosalie sentiu a voz quebrar.
— Ela não quer nada.
Silêncio.
— Hoje eu perguntei o que ela queria.
Jacob esperou.
— Ela disse “nada”.
Ele sentou-se novamente.
— Rose...
— Eu estou com medo.
Jacob apertou os olhos.
— Alice também.
Rosalie começou a chorar.
— É como se Elena tivesse acordado e decidido não voltar completamente.
Jacob não conseguiu responder.
— O corpo acordou — Rosalie continuou. — Mas parece que ela ficou naquele carro.
Jacob levou a mão à boca.
Os olhos arderam.
— Ela vai voltar.
Rosalie chorou.
— Você não sabe.
— Não.
A voz dele ficou baixa.
— Mas eu preciso acreditar.
Silêncio.
— Fala com os médicos.
— Já falamos.
— Psicólogo?
— Assim que ela tiver condições.
— Psiquiatra?
— Também estão acompanhando.
Jacob respirou.
Queria organizar.
Resolver.
Criar uma lista.
Especialistas.
Tratamentos.
Transferência.
Hospitais.
Qualquer coisa.
Mas lembrou-se.
Elena não era um problema empresarial.
Não precisava ser administrada.
Precisava ser alcançada.
— Rosalie.
— Oi?
— Não força ela a falar de Bella.
— Não estamos forçando.
— E não diz que ela precisa ser forte.
Rosalie ficou em silêncio.
— Nunca.
— Obrigado.
— Jacob...
— Hum?
— Ela acha que falhou.
Ele congelou.
— Como sabe?
— Porque hoje o médico perguntou se ela queria conversar com alguém.
Rosalie respirou.
— Elena disse que não havia nada para conversar.
— E?
— Alice perguntou por quê.
Jacob esperou.
— Ela respondeu: “Porque eu falhei em tudo.”
Jacob fechou os olhos.
A frase atravessou cada parte dele.
— Em tudo?
— Foi exatamente o que disse.
Ele respirou devagar.
— Eu preciso falar com ela.
— Agora não.
— Não para pedir nada.
— Eu sei.
— Rosalie, ela precisa saber...
Parou.
— Saber o quê?
Jacob olhou para o vazio.
Que não matara Bella.
Que não matara os pais.
Que não falhara com Seth.
Que o restaurante ainda existia por causa dela.
Que Alice a amava.
Que Rosalie a amava.
Que Seth perguntava por ela.
Que ele...
— Que ela não falhou.
Rosalie chorou.
— Eu digo todos os dias.
— Ela acredita?
— Não.
Jacob fechou os olhos.
— Então continua dizendo.
— Vou continuar.
— Mesmo quando ela não responder.
— Sim.
— Mesmo quando parecer que não está ouvindo.
— Sim.
Jacob respirou.
— Principalmente quando parecer que não está ouvindo.
Naquela noite, Elena sonhou.
Ou talvez não fosse sonho.
Estava dentro do carro.
Mas não havia estrada.
Não havia árvores.
Não havia céu.
Apenas o interior do veículo cercado por escuridão.
Bella estava no banco ao lado.
Elena tentou falar.
Nenhuma voz.
Bella olhava para frente.
— Bella.
Dessa vez saiu.
A irmã virou o rosto.
Os olhos estavam abertos.
— Desculpa.
Bella não respondeu.
— Eu prometi.
Silêncio.
— Eu tentei.
Bella continuou olhando.
Elena começou a sentir alguma coisa.
Não lágrimas.
Dor.
Uma dor tão grande que parecia não caber dentro de um corpo.
— Eu tentei cuidar de você.
Bella moveu os lábios.
Elena se inclinou.
— O quê?
Nenhum som.
— Bella?
A irmã começou a desaparecer.
— Não.
Elena tentou segurá-la.
— Não vai.
Bella desapareceu.
Elena acordou.
O quarto estava escuro.
O monitor continuava marcando sua existência.
Bip.
Bip.
Bip.
Alice dormia na poltrona.
Elena virou o rosto.
A janela mostrava apenas a noite.
Nenhuma lágrima.
A dor estava lá.
Mas parecia estar enterrada tão profundamente que não conseguia alcançar os olhos.
Olhou para Alice.
Depois para a própria mão.
Lembrou-se de uma mão maior segurando aquela mesma mão.
Não sabia se fora sonho.
Jacob.
Por um segundo, alguma coisa dentro dela se moveu.
Muito pouco.
Quase nada.
Então ouviu a voz dele na memória.
Você foi a minha maior decepção.
E aquilo desapareceu.
Elena voltou a olhar para o teto.
Não sentia raiva de Jacob.
Isso talvez fosse o pior.
Não sentia vontade de culpá-lo.
Não queria que ele sofresse.
Não queria explicações.
Não queria perdão.
Não queria o restaurante.
Não queria voltar para Nova York.
Não queria reconstruir.
Não queria promessas.
Só queria que os olhos de Bella fechassem.
Uma única vez.
Só isso.
Fechassem.
Para que a última imagem de sua irmã não fosse a de alguém que Elena havia prometido proteger olhando para ela sem conseguir vê-la.
Elena fechou os próprios olhos.
Mas Bella continuou ali.
Em Nova York, Jacob acordou às três e quarenta e sete da manhã.
Não sabia por quê.
Pegou o telefone.
Nenhuma mensagem.
Ficou olhando para a tela.
Depois abriu a conversa com Rosalie.
Começou a escrever.
Ela comeu?
Apagou.
Alguma mudança?
Apagou também.
Colocou o telefone sobre a mesa.
Levantou-se.
Foi até a janela.
A cidade continuava viva lá embaixo.
Pensou no que Rosalie dissera.
Ela acha que falhou em tudo.
Jacob encostou a testa no vidro.
— Não.
Falou sozinho.
— Você não falhou em tudo.
Pensou em Seth comendo morangos no chão da cozinha porque Elena soubera que não deveria obrigá-lo.
Pensou no restaurante lotado na inauguração.
Em Alice.
Rosalie.
Na maneira como Elena transformara uma casa silenciosa em algum lugar onde Seth voltava a rir.
Pensou em si mesmo.
No homem que era antes dela.
No homem que ainda tentava descobrir quem seria depois.
— Você não falhou comigo.
A voz saiu baixa.
Talvez ele tivesse falhado com ela.
Talvez os dois tivessem falhado um com o outro em momentos diferentes.
Mas amar Elena nunca parecera um erro.
Jacob fechou os olhos.
Em algum lugar, centenas de quilômetros distante, Elena estava acordada olhando para um teto e acreditando que não havia sobrado nada dela.
Ele não podia entrar naquele quarto.
Não podia obrigá-la a ouvi-lo.
Não podia consertá-la.
Talvez ninguém pudesse.
Mas podia esperar.
Pela primeira vez na vida, Jacob Black aceitou que amar alguém talvez significasse permanecer do lado de fora de uma porta sem tentar arrombá-la.
Esperar.
Sem exigir.
Sem cobrar.
Sem pedir que Elena voltasse para ele.
Apenas desejar que, algum dia, ela conseguisse voltar para si mesma.
No hospital, Elena abriu os olhos outra vez.
Escuro.
Silêncio.
O mesmo teto.
O mesmo monitor.
Os mesmos olhos de Bella dentro de sua cabeça.
Ela respirou.
Uma vez.
Depois outra.
Não porque quisesse.
Ainda não.
Mas porque seu corpo continuava fazendo aquilo por ela.
E, naquele momento, talvez fosse suficiente.
Às vezes, sobreviver começava assim.
Não com esperança.
Não com coragem.
Nem mesmo com vontade.
Às vezes, sobreviver era apenas o corpo insistindo em permanecer enquanto a alma ainda tentava encontrar o caminho de volta.
Fale com o autor