O PESO DE UMA PROMESSA
10 CAPÍTULO 10 - O Que Restou do Amor
Irina não dormiu.
Às duas e dezessete da manhã, ainda estava acordada.
Edward dormia ao seu lado.
Seth dormia no quarto no fim do corredor.
E Irina olhava para o teto.
Jacob.
Elena.
Os dois entrando juntos no hospital.
Jacob sem gravata.
Elena com os cabelos soltos.
Quase dez da noite.
Eu tinha esquecido meu celular.
Tomamos café.
Café.
Irina virou-se na cama.
Tentou fechar os olhos.
Não conseguiu.
A imagem continuava ali.
Jacob ao lado da cama de Seth.
Elena do outro lado.
Seth segurando a mão dos dois.
Pareciam...
Irina abriu os olhos.
Não.
Não queria terminar aquele pensamento.
Levantou-se.
Foi até a cozinha.
Bebeu água.
Voltou.
Passou pelo quarto de Seth.
Abriu a porta cuidadosamente.
O menino dormia.
A luz noturna projetava pequenas estrelas no teto.
Irina entrou.
Sentou-se ao lado dele.
Passou os dedos delicadamente por seus cabelos.
— Você parece tanto com ele.
Salomon.
Seth se mexeu.
Irina retirou a mão.
O menino continuou dormindo.
Ela o amava.
Disso não tinha dúvida.
Talvez não o tivesse conhecido como deveria.
Talvez tivesse perdido anos.
Mas amava.
Era filho de Salomon.
Era seu sobrinho.
Sua família.
A única família de sangue que lhe restara daquele lado.
Mas naquela noite, olhando para Seth, Irina percebeu que havia outra coisa incomodando.
Não era apenas o medo de perder a guarda.
Não era apenas Elena.
Era Jacob.
Sempre fora Jacob.
Onze anos antes.
Irina tinha vinte e dois anos.
Jacob, vinte e três.
E naquela época Jacob Black sorria mais.
Não muito.
Nunca fora Paul.
Mas sorria.
Principalmente com ela.
— Fecha os olhos.
Irina riu.
— Não.
— Irina.
— Você vai me empurrar na piscina.
— Não vou.
— Rachel disse que você fez isso com ela.
— Rachel tinha doze anos.
— E você?
— Dezesseis.
— Isso deveria me tranquilizar?
Jacob suspirou.
— Confia em mim?
Irina olhou para ele.
— Infelizmente.
Fechou os olhos.
Jacob segurou sua mão.
— Não abre.
— Estou tropeçando.
— Não está.
— Vou quebrar o pescoço.
— Dramática.
— Grosso.
— Mais dois passos.
Ela caminhou.
— Agora?
— Ainda não.
— Jacob.
— Agora.
Irina abriu os olhos.
O jardim da casa Black estava iluminado.
Pequenas luzes.
Flores.
Uma mesa.
Champanhe.
Irina ficou imóvel.
— O que é isso?
Jacob não respondeu.
Ela virou-se.
Ele estava ajoelhado.
Irina levou as mãos à boca.
— Meu Deus.
Jacob segurava uma caixa.
— Irina Grey...
— Não.
Ele franziu a testa.
— Não?
Ela começou a rir e chorar ao mesmo tempo.
— Quero dizer... continua!
Jacob balançou a cabeça.
— Você estragou.
— Desculpa!
— Posso terminar?
— Pode.
— Tem certeza?
— Jacob!
Ele sorriu.
Abriu a caixa.
— Quer casar comigo?
Irina começou a chorar.
— Quero.
Jacob levantou-se.
Ela se jogou em seus braços.
— Quero!
Ele colocou o anel em seu dedo.
Irina olhou.
Depois beijou Jacob.
Naquele momento, acreditou que sua vida estava decidida.
Jacob Black seria seu marido.
Teriam filhos.
Família.
A Black Automotivos continuaria unindo as duas famílias que haviam construído tudo juntas.
Ela seria feliz.
Não havia nenhuma dúvida.
Nenhuma.
Até Jacob começar a ter.
— Você está estranho.
Três meses depois do pedido, Irina estava sentada diante dele.
Jacob não respondeu.
— Jake.
— Precisamos conversar.
Irina sentiu frio.
Ninguém começava uma conversa daquela maneira para dizer alguma coisa boa.
— Sobre?
Jacob sentou-se.
— O casamento.
— O que tem?
Silêncio.
— Jacob.
— Eu não posso.
Ela ficou imóvel.
— Não pode o quê?
Ele olhou para ela.
— Casar.
Irina riu.
Nervosa.
— Muito engraçado.
— Não estou brincando.
O sorriso desapareceu.
— Não entendi.
Jacob passou as mãos pelo rosto.
— Eu achei que era o certo.
— O quê?
— Nós.
Irina ficou pálida.
— Achou?
— Eu gosto de você.
— Gosta?
— Irina...
— Você me pediu em casamento.
— Eu sei.
— Disse que queria passar a vida comigo.
— Eu sei.
— Então o que mudou?
Jacob não soube responder.
Ou soube e não queria machucá-la.
— Nada.
Irina levantou-se.
— Nada?
— Esse é o problema.
— Você está falando em enigmas.
Jacob também se levantou.
— Eu percebi que não sinto o que deveria sentir.
A frase atravessou Irina.
— O quê?
— Eu amo você.
Ela respirou.
Então ele completou:
— Mas não como deveria amar a mulher com quem vou me casar.
Silêncio.
Irina sentiu o mundo desaparecer.
— Existe outra?
— Não.
— Está mentindo.
— Não existe.
— Então é medo.
— Não.
— Jacob...
— Eu pensei muito.
— Sem falar comigo.
— Porque precisava ter certeza.
— E agora tem?
Ele demorou.
— Tenho.
Irina começou a chorar.
— Você me fez escolher vestido.
Jacob fechou os olhos.
— Eu sei.
— Rebecca estava organizando tudo.
— Eu sei.
— Minha mãe contou para todo mundo.
— Irina...
Ela retirou o anel.
— Não.
Jacob ficou quieto.
— Não fala meu nome.
Colocou o anel na mão dele.
— Eu odeio você.
Jacob não respondeu.
Talvez porque soubesse que ela tinha direito de odiá-lo naquele momento.
Irina foi embora.
Esperando que ele corresse atrás.
Jacob não correu.
A família apoiou Jacob.
Aquilo foi pior.
Billy disse que era melhor terminar antes do casamento do que depois.
O pai de Irina concordou.
Salomon disse que Jacob tinha sido um idiota por pedir sem ter certeza, mas que ninguém deveria casar por culpa.
Rebecca tentou conversar.
Rachel também.
Irina não ouviu nenhuma.
Na cabeça dela, todos haviam escolhido Jacob.
Como sempre.
Os Black.
Salomon.
Seus pais.
Todos.
Menos ela.
Então Edward Cullen apareceu.
Edward tinha trabalhado na Black Automotivos.
Bonito.
Inteligente.
Ambicioso.
Sabia dizer exatamente aquilo que Irina precisava ouvir.
— Ele não merecia você.
— Não quero falar sobre Jacob.
— Então não falamos.
— Minha família inteira ficou do lado dele.
— Porque todos dependem dos Black.
Irina olhou para Edward.
— Meu pai não depende de ninguém.
— Tem certeza?
Edward sabia alimentar feridas.
Pouco a pouco.
Sem parecer.
Um jantar.
Depois outro.
Um beijo.
Depois outro.
Até Salomon descobrir.
— Edward?
Irina cruzou os braços.
— Sim.
— Você enlouqueceu?
— Não.
— Ele trabalha na empresa.
— E?
— E você terminou um noivado há cinco meses!
— Jacob terminou.
Salomon percebeu a diferença.
— Você gosta do Edward?
— Gosto.
— Está apaixonada?
— Isso não é da sua conta.
Salomon fechou os olhos.
— Irina...
— Não começa.
— Você está fazendo isso para atingir Jacob.
— O mundo não gira em torno dele.
Salomon olhou para a irmã.
— O seu ainda gira.
Ela deu um tapa no rosto dele.
Os dois ficaram imóveis.
Irina começou a chorar.
Salomon não revidou.
Apenas disse:
— Um dia você vai se arrepender.
Quando Edward foi demitido, tudo piorou.
Desvios.
Irregularidades.
Dinheiro desaparecido.
Edward jurou inocência.
Irina acreditou.
Ou decidiu acreditar.
Seu pai pediu que terminasse.
Salomon implorou.
Jacob ficou em silêncio.
Foi esse silêncio que mais a enfureceu.
— Não vai dizer nada?
Jacob estava diante dela no corredor da empresa.
— Sobre?
— Edward.
— Não é da minha conta com quem você se relaciona.
Irina riu.
— Claro.
— Irina...
— Você me descartou. Agora não tem direito de opinar.
— Não estou opinando.
— Ele diz que não roubou.
Jacob ficou sério.
— Os relatórios dizem outra coisa.
— Você sempre acredita nos relatórios.
— Nesse caso, sim.
— Você está com ciúme?
Jacob a encarou.
— Não.
Uma palavra.
Só uma.
Mas destruiu o pouco orgulho que restava.
Irina sorriu.
— Ótimo.
Duas semanas depois, aceitou o pedido de casamento de Edward.
Casaram-se meses depois.
Seu pai não compareceu.
Salomon também não.
Ela foi retirada do planejamento sucessório da família.
E a distância tornou-se definitiva.
Irina sempre dissera que não se importava.
Era mentira.
Agora, onze anos depois, Irina estava sentada no quarto do filho de Salomon.
Pensando novamente em Jacob Black.
E em Elena Swan.
— Você ainda está acordada?
Irina se assustou.
Edward estava na porta.
— Não conseguia dormir.
Ele entrou.
— Seth está bem?
— Está.
Edward olhou para o menino.
— Então venha.
Irina levantou-se.
Os dois saíram.
No corredor, Edward perguntou:
— O que aconteceu?
— Nada.
— Conheço você.
Ela quase riu.
Conhecia?
Talvez conhecesse demais.
— Estava pensando no hospital.
Edward ficou quieto.
— Jacob chegou com Elena.
— Eu vi.
— Àquela hora.
— Também vi.
Irina cruzou os braços.
— Ela disse que esqueceu o telefone.
— Talvez tenha esquecido.
Irina olhou para ele.
— Você acredita?
Edward deu de ombros.
— Acredito que ela estava na casa dele.
— Sozinha.
— Provavelmente.
— À noite.
Edward percebeu.
Então sorriu discretamente.
— Isso incomoda você.
— Claro que incomoda.
— Por causa de Seth?
— Evidentemente.
— Irina.
Ela desviou o olhar.
— Não começa.
— Você está com ciúme.
— Não seja ridículo.
— Onze anos.
— Edward.
— Onze anos e ainda é Jacob.
Irina virou-se.
— Você é meu marido.
— Não foi o que eu disse.
— Então o que está dizendo?
Edward se aproximou.
— Estou dizendo que você nunca o esqueceu.
— Isso é absurdo.
— É?
Irina ficou em silêncio.
Edward sorriu sem humor.
— Você pronunciou o nome dele na nossa lua de mel.
Irina empalideceu.
— Não.
— Pronunciou.
— Está mentindo.
— Você estava dormindo.
Ela ficou sem palavras.
Edward passou por ela.
— Durma, Irina.
— Edward.
Ele parou.
— Por que nunca me contou?
Virou-se.
— Porque eu sempre soube por que você se casou comigo.
Aquilo doeu.
— Eu amo você.
Edward a observou.
— Talvez.
Irina respirou fundo.
— E você?
Ele sorriu.
— Boa noite.
Entrou no quarto.
Irina permaneceu no corredor.
Nos dias seguintes, Irina começou a observar.
Perguntava a Seth.
Com cuidado.
— Você sente falta da casa do tio Jake?
— Sim.
— Do seu quarto?
— Sim.
— De quem mais?
— Elena.
Sempre Elena.
— Você gosta muito dela?
— Muito.
— Por quê?
Seth pensava.
— Porque ela fica.
Irina sentia a frase como uma acusação.
Porque ela fica.
— Ela dormia lá?
— Sim.
— No quarto do tio Jake?
Seth fez uma cara horrorizada.
— Não!
— Eu sei. Estou perguntando se ela dormia na casa.
— Dormia.
— E depois que você veio morar comigo?
— Não.
— Tem certeza?
— Não sei.
Irina percebeu o que estava fazendo.
— Desculpa.
Seth voltou a brincar.
Ela ficou olhando.
Estava interrogando uma criança.
Por ciúme.
Sentiu vergonha.
Prometeu parar.
Durou dois dias.
Na semana seguinte, Irina encontrou Elena na saída da escola de Seth.
Elena tinha autorização para visitá-lo.
Seth correu até ela.
— ELENA!
Ela abriu os braços.
— Meu fugitivo favorito!
Seth pulou.
Elena quase caiu.
— Você está pesado!
— Não estou!
— Está sim!
— Cresci.
— Em uma semana?
— Sim.
— Impressionante.
Irina observava.
Elena beijou o rosto dele.
Seth começou a contar alguma coisa sobre escola.
Falava rápido.
Elena escutava como se fosse a informação mais importante do mundo.
Irina aproximou-se.
— Elena.
— Oi.
— Obrigada por vir.
— Eu prometi para ele.
Seth segurava a mão dela.
— Ela nunca quebra promessa.
A frase atingiu Elena.
Bella.
O documento.
Jacob.
A mentira.
Seu sorriso diminuiu.
Irina percebeu.
— Está tudo bem?
— Sim.
— Tem certeza?
— Só cansada.
Irina observou.
Havia alguma coisa ali.
Mas não sabia o quê.
Depois que Seth entrou no carro, Irina ficou com Elena na calçada.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você e Jacob estão juntos?
Elena quase engasgou.
— O quê?!
Irina observou cada reação.
— Não.
— Não?
— Não!
— Entendi.
— De onde tirou isso?
— Hospital.
Elena ficou vermelha.
Irina percebeu.
— Você estava na casa dele.
— Fui buscar meu telefone.
— E ficou tomando café.
— Sim.
— No jardim.
Elena estreitou os olhos.
— Seth contou?
— Não.
— Então como...
— Jacob gosta daquele jardim.
Elena ficou quieta.
Irina continuou:
— Nós passávamos muito tempo lá.
— Vocês?
— Sim.
— Vocês eram amigos?
Irina sorriu.
Finalmente.
— Jacob nunca contou?
— Contou o quê?
— Nós fomos noivos.
Elena ficou imóvel.
Irina sentiu uma satisfação da qual imediatamente se envergonhou.
— Noivos?
— Por alguns meses.
— Eu não sabia.
— Quase casamos.
Elena não conseguiu impedir a reação.
Alguma coisa apertou em seu peito.
— Entendi.
Irina viu.
Então era verdade.
Havia alguma coisa.
— Foi há muito tempo.
— Claro.
— Mas algumas histórias deixam marcas.
Elena olhou para ela.
— Imagino.
Irina sorriu.
— Até mais, Elena.
Entrou no carro.
Elena permaneceu parada.
Tentando entender por que aquela informação a incomodara tanto.
— Ela ficou com ciúme.
Edward levantou os olhos do notebook.
— Quem?
— Elena.
— De você?
— Quando contei sobre Jacob.
Edward fechou o computador.
— Você contou?
— Disse que fomos noivos.
— Interessante.
Irina sentou-se.
— Ela não sabia.
— Melhor ainda.
— Melhor?
Edward percebeu o erro.
— Quero dizer... confirma que Jacob não contou tudo sobre o passado.
Irina ficou pensativa.
— Eu preciso descobrir o que existe entre eles.
Edward a observou.
— Por quê?
— Por Seth.
Ele quase sorriu.
— Naturalmente.
— Para de fazer isso.
— Isso o quê?
— Como se tudo fosse sobre Jacob.
— Não é?
Irina levantou-se.
— Elena está interferindo.
— Na guarda?
— Em tudo.
— Então afaste-a.
Irina parou.
— Como?
Edward deu de ombros.
— Você conhece Jacob.
— Conhecia.
— Melhor que ela.
Irina ficou em silêncio.
— Sabe do que ele gosta. Do que odeia. Sabe como pensa.
— Onde quer chegar?
Edward fechou o notebook.
— Se acredita que Elena representa um problema para Seth...
Ele deixou a frase incompleta.
Irina entendeu.
— Eu não quero machucá-la.
— Não falei em machucar ninguém.
— Então?
Edward sorriu.
— Pessoas se afastam o tempo todo.
Naquela noite, Irina abriu uma caixa que não tocava havia anos.
Estava no fundo do closet.
Fotografias.
Cartas.
Lembranças.
E uma pequena caixa de veludo.
Abriu.
O anel.
O mesmo.
Jacob acreditava que ela o havia devolvido.
E devolvera.
Mas anos depois, após a morte do pai de ambos os lados e a reorganização de alguns pertences antigos, o anel retornara indiretamente a ela entre objetos guardados.
Irina nunca se desfizera dele.
Pegou.
Onze anos.
— Ridícula — sussurrou.
Deveria jogar fora.
Não jogou.
Havia uma fotografia embaixo.
Ela e Jacob.
Jovens.
Ele abraçado à cintura dela.
Irina sorrindo.
Felizes.
Ou pelo menos ela fora.
O telefone tocou.
Edward.
Irina virou a fotografia para baixo antes de atender.
— Oi.
— Onde está?
— Em casa.
— Tenho uma reunião. Vou chegar tarde.
— Certo.
— Seth?
— Dormindo.
— Ótimo.
Pausa.
— Irina.
— Sim?
— Não faça nada impulsivo.
Ela franziu a testa.
— Por que está dizendo isso?
— Porque conheço você.
A ligação terminou.
Irina olhou novamente para a fotografia.
— Não conhece tanto quanto pensa.
Na manhã seguinte, Jacob encontrou uma mensagem no celular.
IRINA: Precisamos conversar sobre Seth. Pessoalmente.
Ele respondeu:
Sobre o quê?
IRINA: Algumas coisas não devem ser discutidas por mensagem.
Jacob suspirou.
Na empresa. 14h.
A resposta veio:
Prefiro outro lugar.
Jacob franziu a testa.
Por quê?
Demorou.
Porque nem tudo que preciso conversar é sobre a guarda.
Jacob ficou olhando para a tela.
Alguma coisa naquela mensagem o incomodou.
Muito.
Elena entrou no escritório alguns minutos depois.
Trazia uma sacola.
— Você esqueceu de comer.
Jacob colocou o telefone sobre a mesa.
— Não esqueci.
— Então decidiu conscientemente não comer?
— Estava ocupado.
— Isso é pior.
Colocou a sacola diante dele.
— Sanduíche.
— Não estou com fome.
— Não perguntei.
Jacob olhou para ela.
— Você ficou mandona.
— Convivência.
— Comigo?
— Com Seth.
— Ele também é mandão.
— Genética Black.
Jacob sorriu.
Elena ficou olhando.
Irina.
Noivado.
Quase casamento.
Jacob percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você está estranha.
— Não estou.
— Está.
Elena começou a sair.
— Elena.
Parou.
— Você e Irina foram noivos?
Jacob congelou.
— Quem contou?
Ela riu sem humor.
— Então foram.
— Irina.
— Sim.
Jacob recostou-se.
— Há muito tempo.
— Ela disse.
— Por que isso importa?
— Não importa.
— Então por que perguntou?
Elena abriu a boca.
Nenhuma resposta seria segura.
— Curiosidade.
Jacob observou.
— Fomos.
— Quase casaram?
— Sim.
— Você terminou?
Jacob franziu a testa.
— Ela contou isso também?
— Não.
Elena cruzou os braços.
— Então foi você.
— Foi.
— Por quê?
— Elena.
— Curiosidade.
— Isso não é curiosidade.
— O que é?
Jacob se levantou.
Ela percebeu tarde demais que ele estava sorrindo.
— Você está com ciúme?
— O quê?!
— Está.
— Claro que não!
— Está vermelha.
— Estou com calor.
— O ar está em vinte graus.
— Então estou com raiva.
— De quê?
— De você.
— Por quê?
Elena percebeu que havia se encurralado.
— Porque você não come!
Pegou a sacola e empurrou contra o peito dele.
— Come o sanduíche.
Virou-se.
Jacob começou a rir.
— Não tem graça!
— Tem um pouco.
Ela chegou à porta.
— Elena.
— O quê?
— Eu terminei porque não amava Irina como deveria.
Elena parou.
Não virou.
— Não perguntei.
— Mas queria saber.
Silêncio.
Jacob continuou:
— Não havia outra mulher.
Elena finalmente virou-se.
— Por que está me contando isso?
A pergunta ficou entre eles.
Jacob perdeu o sorriso.
Porque não sabia.
Ou talvez soubesse.
Elena também.
Nenhum disse.
O telefone de Jacob vibrou.
A mensagem de Irina apareceu novamente na tela.
Elena viu o nome.
Algo mudou em sua expressão.
— Come seu sanduíche.
Saiu.
Jacob ficou olhando para a porta.
Depois para a mensagem.
E, pela primeira vez em onze anos, a ideia de encontrar Irina para falar sobre qualquer coisa que não fosse Seth pareceu uma péssima ideia.
Irina, porém, já havia tomado sua decisão.
Não tentaria afastar Elena com ameaças.
Nem com dinheiro.
Elena não funcionava assim.
Precisava ser mais inteligente.
Precisava fazer Elena acreditar que Jacob jamais poderia amá-la.
Ou fazer Jacob acreditar que Elena não era alguém em quem pudesse confiar.
Irina conhecia Jacob.
Confiança era tudo para ele.
Uma vez quebrada, dificilmente voltava.
E Elena escondia algo que poderia acabar com a confiança de Jacob.
O documento de doação.
Percebera naquele dia, na escola.
A mudança de expressão.
O medo.
A culpa.
Precisava apenas de uma maneira para mostrar a Jacob.
Ou talvez nem precisasse separar Jacob e Elena.
Talvez Elena fizesse isso sozinha.
No quarto ao lado, Seth chamou:
— Tia Irina!
Irina fechou a caixa com o antigo anel.
— Já vou, meu amor!
Guardou-a novamente.
Antes de sair, olhou uma última vez para o lugar onde estivera.
Durante onze anos, Irina dissera a si mesma que Jacob Black era passado.
Naquela manhã, finalmente admitiu a verdade.
Nunca fora.
E agora havia outra mulher começando a ocupar o lugar que Irina ainda considerava, em algum ponto irracional e secreto do coração, como seu.
Ela não pretendia assistir isso acontecer.
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