O PESO DE UMA PROMESSA
11 CAPÍTULO 11 - A MAIOR DECEPÇÃO
Elena já não conseguia olhar para Jacob sem sentir culpa.
Era pior quando ele sorria.
Pior ainda quando confiava nela.
E absolutamente insuportável quando falava sobre Seth.
Nas últimas semanas, cada momento ao lado dele parecia dividido em duas realidades. Em uma, Elena cozinhava, discutia com Jacob sobre passas, ria das provocações dele e percebia, com um medo cada vez maior, que aquele homem havia deixado de ser apenas seu patrão. Na outra, existia Bella. Existia a fotografia do documento. Existia o dinheiro de Irina. Existia Seth sendo levado daquela casa.
E existia o silêncio de Elena.
Ela tentara contar.
Mais de uma vez.
Mas tentar não era contar.
E sabia disso.
Naquela manhã, Jacob estava sentado à bancada da cozinha, com uma xícara de café diante de si e alguns documentos espalhados ao lado do prato. Elena fingia procurar alguma coisa dentro de um armário havia tempo demais.
— Leah acredita que temos uma chance melhor na próxima audiência — ele comentou.
Elena permaneceu de costas.
— Espero que tenha. Seth precisa voltar para casa.
Jacob levantou os olhos.
— Elena.
— O quê?
— Você está procurando o açúcar há quase um minuto.
Ela parou.
O pote estava diante dela.
Pegou-o.
— Achei.
— Foi uma investigação impressionante.
— Não começa.
— Eu nem comecei.
Elena colocou o açúcar sobre a bancada.
Jacob continuou observando.
Ele já conhecia seus sinais.
Sabia que Elena organizava coisas quando queria evitar uma conversa. Sabia que falava depressa quando estava nervosa. Sabia que fazia piadas quando estava triste.
E sabia, principalmente, que ela não conseguia mentir olhando diretamente para ele.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— Nada.
— Essa resposta nunca significa nada.
Elena respirou fundo.
— Estou cansada.
— Também não é isso.
— Jacob...
Ele se levantou.
— Você não consegue mais olhar para mim.
— Claro que consigo.
— Então olha.
Ela levantou os olhos.
Encontrou os dele.
E imediatamente se lembrou de Bella chorando.
Do comprovante.
De Irina.
De Seth perguntando quando voltaria para casa.
Desviou.
Jacob soltou o ar.
— Exatamente.
— Não significa nada.
— Significa que há alguma coisa acontecendo e você não quer me contar.
Elena apertou os dedos contra a bancada.
Uma parte dela queria falar.
Ali.
Naquele instante.
Mas então lembrava da voz de Jacob.
Quando eu descobrir quem fez isso, essa pessoa vai responder.
E via Bella.
Dezoito anos.
Sua irmã.
A menina que Charlie colocara em seus braços.
Cuida dela.
— Preciso trabalhar.
Passou por ele.
Jacob segurou delicadamente seu braço.
— Elena.
Ela parou.
— Se eu fiz alguma coisa...
Aquilo quase foi pior.
Elena virou-se.
— Você não fez.
— Então por que parece que está me punindo?
Ela não respondeu.
Jacob soltou seu braço.
E Elena saiu da cozinha antes que a coragem chegasse tarde demais.
******
A audiência aconteceu dois dias depois.
Jacob chegou ao fórum acompanhado de Leah carregando uma esperança que tentava não demonstrar.
A defesa havia sido preparada.
Os argumentos haviam sido reorganizados.
Leah acreditava que havia espaço para questionar a manutenção da guarda provisória de Seth com Irina e Edward.
Jacob precisava acreditar nela.
Precisava acreditar que, ao final daquela manhã, Seth poderia voltar para casa.
Mas não voltou.
A decisão foi mantida.
A guarda provisória permaneceu com Irina.
Leah ainda falava quando saíram da sala.
— Jacob, isso não encerra o processo.
Ele continuou andando.
— Jacob.
— Estou ouvindo.
— Não parece.
Ele parou.
— Seth continua com Irina?
Leah respirou.
— Continua.
— Então eu perdi.
— Não definitivamente.
Jacob riu sem qualquer humor.
— Leah, ele tem cinco anos.
— Cinco e meio.
A correção fez Jacob fechar os olhos.
Era exatamente o que Seth faria.
— Cinco e meio — repetiu.
Passou a mão pelo rosto.
— Para ele não existe “provisoriamente”. Existe onde ele vai dormir hoje.
Leah permaneceu em silêncio.
— Ele vai dormir lá.
— Sim.
— Amanhã também.
— Provavelmente.
Jacob engoliu em seco.
— Então não me diga que não perdi.
— Eu não estou dizendo isso.
— Toda vez que entro naquela sala, ouço pessoas falando de estabilidade, patrimônio, rotina, capacidade financeira...
A voz falhou.
— Ele não é um patrimônio.
— Eu sei.
— É meu sobrinho.
Leah tocou seu braço.
— Nós vamos continuar.
Jacob olhou para ela.
— Enquanto isso, ele continua esperando.
Foi embora antes que Leah pudesse responder.
Naquela tarde, não voltou para a empresa.
Foi para casa.
E, pela primeira vez em muito tempo, Jacob Black não tentou trabalhar para esquecer.
Sentou-se na sala.
Olhou para os brinquedos de Seth.
E ficou ali.
*******
Elena soube do resultado algumas horas depois.
Foi Sue quem contou.
— Mantiveram a guarda provisória.
Elena sentiu o estômago afundar.
— Como Jacob está?
Sue demorou a responder.
— Arrasado.
A palavra decidiu por ela.
Elena não poderia adiar mais.
Aquela derrota tornava seu silêncio ainda pior.
Talvez a informação sobre Bella não revertesse sozinha uma decisão judicial. Talvez trouxesse outras consequências. Talvez Jacob a odiasse depois.
Mas ele precisava saber.
Naquela noite, Elena foi à casa dele.
Quando Jacob abriu a porta, ela percebeu imediatamente que Sue não exagerara.
Ele estava sem gravata, a camisa parcialmente aberta no pescoço, o cabelo desarrumado e os olhos cansados.
— Elena?
— Posso entrar?
Ele olhou para ela.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu preciso conversar com você.
Jacob fechou os olhos por um instante.
— É ruim?
A pergunta a surpreendeu.
— Jacob...
— É alguma coisa ruim?
Ela hesitou.
E ele percebeu.
— Não.
— Você nem sabe o que eu vou dizer.
— Hoje não.
— Mas é importante.
Jacob passou a mão pelo rosto.
— Se alguém morreu, me conta.
— Ninguém morreu.
— Seth está machucado?
— Não.
— Bella?
— Está bem.
— Alice?
— Também.
Ele respirou fundo.
— Então amanhã.
— Jacob...
— Por favor, Elena.
Ela parou.
Havia exaustão na voz dele.
— Eu passei o dia inteiro ouvindo coisa ruim. Seth continua longe. Rebecca continua morta. Salomon continua morto. Irina continua com meu sobrinho e Edward continua respirando perto dele.
Ele soltou uma risada amarga.
— Eu não quero saber de mais nada triste hoje.
Elena sentiu a culpa apertar seu peito.
Deveria insistir.
Sabia disso.
Mas ele parecia tão cansado.
— Tudo bem.
Ela deu um passo para trás.
— Boa noite.
Jacob olhou para ela.
— Você veio até aqui só para me contar alguma coisa triste?
Apesar de tudo, Elena quase sorriu.
— Basicamente.
— Péssima visita.
— Desculpa.
Ela virou-se.
— Elena.
Olhou para trás.
— Fica.
— Você acabou de dizer que não quer conversar.
— Não quero conversar sobre coisa triste.
— E sobre o que quer conversar?
Jacob pensou por alguns segundos.
— Qualquer coisa que não importe.
Elena arqueou a sobrancelha.
— Você está me pedindo para falar besteira?
— Finalmente encontrou uma função para a qual é naturalmente qualificada.
Ela abriu a boca.
— Isso foi ofensivo.
— Funcionou.
Elena acabou sorrindo.
— Um pouco.
Jacob abriu mais a porta.
— Entra.
Ela entrou.
Foram para a cozinha.
Durante alguns minutos, o silêncio permaneceu.
Então Elena olhou para uma cesta sobre a bancada.
— Você comprou bananas demais.
Jacob acompanhou seu olhar.
— Foi Sue.
— Quantas pessoas ela acha que moram aqui?
— Talvez espere que eu desenvolva escorbuto.
Elena o encarou.
— Escorbuto é falta de vitamina C.
— Então por que existem bananas?
— Potássio.
Jacob assentiu.
— Sabia que deveria ter contratado você apenas para cozinhar.
— E limpar.
— Você se ofereceu.
— Porque você paga bem.
— Finalmente alguma sinceridade nesta casa.
A palavra atingiu Elena.
Sinceridade.
Jacob percebeu a mudança.
— O que foi?
— Nada.
Ela apontou para a cesta.
— Seth gosta de banana?
A expressão dele mudou.
— Não muito.
Elena percebeu o erro.
— Então realmente não existe explicação para isso.
Jacob soltou um pequeno sorriso.
Ela agarrou aquela oportunidade.
— Outra coisa.
— Tenho medo.
— Você deveria.
— Fala.
— Sua casa continua tendo banheiros demais.
Jacob a encarou.
— Você ainda está presa nisso?
— Seis, Jacob.
— Eu sei quantos banheiros minha casa tem.
— Isso é um desperdício de privada.
Ele riu. Pouco. Mas riu.
Elena sentiu algo dentro dela relaxar.
— E seu pai continua me julgando.
Jacob olhou na direção da sala.
— O quadro?
— Ele mesmo.
— Você ainda conversa com ele?
— Não.
Fez uma pausa.
— Muito.
Jacob riu novamente.
— Elena.
— Billy é um excelente ouvinte.
— É uma pintura.
— Por isso mesmo. Nunca interrompe.
— Sobre o que vocês conversam?
Ela respondeu antes de pensar:
— Você.
Jacob ergueu as sobrancelhas.
— Isso está ficando preocupante.
— Principalmente sobre seus defeitos.
— Então vocês devem passar bastante tempo juntos.
— Horas.
Jacob sorriu.
E, durante algum tempo, falaram sobre absolutamente nada.
Sobre o celular quase morto de Elena.
Sobre Sue comandar a casa e provavelmente a empresa também.
Sobre o fato de Jacob não gostar de sobremesa.
Sobre passas.
— Você continua colocando aquilo na minha comida de propósito.
— Não tenho ideia do que está falando.
— Elena.
— Passas são alimentos perfeitamente respeitáveis.
— São uvas que desistiram de viver.
Ela começou a rir.
— Essa foi a coisa mais dramática que você já disse.
— E mantenho.
Aos poucos, Jacob parecia respirar melhor.
E Elena quase esqueceu por que tinha ido até ali.
Quase.
Então o silêncio voltou.
Mas dessa vez era diferente.
Jacob estava olhando para ela.
Elena percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você tá me encarando.
— Geralmente faço isso quando converso com alguém.
— Não desse jeito.
— Que jeito?
Ela não respondeu.
Jacob se aproximou um pouco.
Elena deveria recuar.
Não recuou.
Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.
Os dedos permaneceram próximos à sua pele.
— Jacob...
— Hum?
— Isso é uma ideia ruim.
— Provavelmente.
— Você teve um dia horrível.
— Tive.
— Está triste.
— Muito.
A sinceridade dele a desarmou.
— Então talvez esteja confundindo as coisas.
Jacob sustentou seus olhos.
— Eu não estou confundindo você com ninguém, Elena.
O coração dela acelerou.
Ele se aproximou devagar.
Deu-lhe tempo para recuar.
Elena não recuou.
O primeiro beijo foi curto.
Quase cuidadoso.
Uma pergunta.
Os lábios se separaram.
Os dois abriram os olhos.
Elena ainda sentia a respiração dele contra seu rosto.
Jacob não disse nada.
Ela também não.
Então Elena o beijou novamente.
Dessa vez não houve pergunta.
Jacob segurou sua cintura e a trouxe para perto.
Elena levou as mãos ao rosto dele.
O beijo se aprofundou.
Mais intenso.
Mais demorado.
Tudo que vinha crescendo entre eles havia semanas pareceu finalmente encontrar espaço.
Quando se separaram, Elena continuou perto.
Jacob encostou a testa na dela.
— Você ainda acha que foi uma ideia ruim?
Ela soltou uma pequena risada sem ar.
— Muito ruim.
— Quer que eu pare?
Elena olhou para ele.
E o beijou outra vez.
Jacob sorriu contra sua boca.
Mas foi naquele instante que a realidade voltou.
Seth.
A audiência.
Bella.
Irina.
O documento.
O dinheiro.
Ela tinha ido até ali para contar a verdade.
E estava beijando Jacob enquanto escondia justamente a informação que viera revelar.
Elena afastou-se bruscamente.
— Não.
Jacob ficou confuso.
— O quê?
— Não podemos fazer isso.
— Você acabou de...
— Eu sei.
Ela pegou a bolsa.
— Preciso ir.
— Elena.
— Não pergunta.
— É difícil não perguntar quando você me beija e depois foge.
— Eu sei.
— Fiz alguma coisa?
Ela virou-se imediatamente.
— Não.
— Então por quê?
Porque estou me apaixonando por você.
Porque sua vida está desmoronando e eu sei uma coisa que você não sabe.
Porque, quando contar, talvez nunca mais me beije.
— Porque isso não deveria acontecer.
A expressão dele mudou.
— Certo.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente o que disse.
— Jacob...
— É melhor você ir Elena.
A frieza dele doeu.
Elena abriu a porta.
Antes de sair, olhou para ele.
— Sinto muito.
Jacob não respondeu.
Ela foi embora.
E chorou no carro.
*********
Na manhã seguinte, Rosalie telefonou.
— Preciso falar com você.
Elena estava sentada à mesa do apartamento depois de uma noite quase sem dormir.
— Aconteceu alguma coisa?
— Talvez a melhor coisa que já aconteceu conosco.
— Isso parece ameaçador.
— Encontrei o ponto.
Elena franziu a testa.
— Que ponto?
— O restaurante.
Ficou imóvel.
Rosalie começou a falar.
Localização.
Cozinha.
Aluguel.
Projeto.
Cardápio.
Sociedade.
— Quero você comigo — disse finalmente. — Não como chef contratada. Como sócia.
Elena fechou os olhos.
Era o sonho.
O sonho que adiara por anos.
E também era uma saída.
Talvez pudesse sair da casa de Jacob.
Afastar-se.
Respirar.
Encontrar coragem longe dele.
— Eu aceito.
Rosalie gritou.
Elena riu.
Mas, quando desligou, o sorriso desapareceu.
Precisaria pedir demissão.
Sem pensar muito, se arrumou e foi para casa de Jacob, o encontrou na cozinha tomando café.
— Preciso conversar com você.
-- Bom dia pra você também...
Ela colocou o envelope sobre a mesa.
Ele olhou para o papel.
Depois para ela.
— O que é isso?
— Minha carta de demissão.
Jacob não tocou no envelope.
— Sua o quê?
— Demissão.
— Eu ouvi.
— Então por que perguntou?
— Porque achei que tivesse entendido errado.
Elena tentou sorrir.
Não conseguiu.
— Não entendeu.
Jacob recostou-se na cadeira.
— Não.
— Não o quê?
— Não aceito.
Ela piscou.
— Jacob...
— Demissão recusada.
— Você não pode recusar minha demissão.
— Acabei de fazer isso.
— Isso não funciona assim.
— Deveria.
— Não deveria!
Ele finalmente pegou o envelope.
Abriu.
Leu.
— “Motivos pessoais.”
Levantou os olhos.
— Que motivos pessoais?
— São pessoais justamente porque eu não preciso explicar.
Jacob colocou a carta sobre a mesa.
— Você está fugindo.
O coração dela apertou.
— Não estou.
— Está.
— Você acha que tudo gira ao seu redor?
— Não. Mas isso é por causa do beijo.
Elena ficou vermelha.
— Não tem nada a ver com o beijo.
— Então com o que tem?
— Comigo.
— Excelente explicação.
— É a única que vai ter.
Jacob se levantou.
— Você estava bem trabalhando aqui até algumas semanas atrás.
— Pessoas mudam de ideia.
— Você não mudou de ideia sobre o trabalho.
Ela ficou em silêncio.
— Mudou sobre mim.
— Jacob...
— É isso?
— Não.
— Então me explica.
— Eu não posso.
A resposta escapou.
Jacob percebeu imediatamente.
— Não pode ou não quer?
Elena fechou os olhos.
— Não posso.
Ela pegou a bolsa.
— Preciso ir.
Jacob segurou a carta.
— Elena.
Ela parou na porta.
— Se isso é por causa do que aconteceu entre nós...
— Não é.
— Olha para mim e diz.
Elena virou-se.
Olhou.
Tentou.
— Não é.
Jacob sustentou seu olhar.
Ela desviou primeiro.
— Foi o que pensei.
— Você é insuportável.
— E você é uma péssima mentirosa.
A culpa atingiu Elena com tanta força que quase perdeu o ar.
Se ele soubesse.
— Aceita minha demissão, Jacob.
Ele ficou olhando para ela.
Dessa vez não discutiu.
— Certo.
Elena se surpreendeu.
— Certo?
— Se quer ir, não vou obrigar você a ficar.
A frase doeu mais do que deveria.
— Obrigada.
Ela abriu a porta.
— Elena.
— O quê?
— Não acredito que seja por motivos pessoais.
Ela apertou a maçaneta.
— Mas é a verdade.
Saiu.
Jacob ficou sozinho.
Olhou para a carta.
Amassou-a.
Jogou-a sobre a mesa.
— Droga.
Alguns segundos depois, pegou-a novamente.
Desamassou cuidadosamente.
E guardou.
Três dias depois, Emmett entrou no escritório de Jacob carregando dois cafés.
— Trouxe uma oferta de paz.
Jacob olhou para o copo.
— O que você fez?
— Por que acha que fiz alguma coisa?
— Você nunca traz café sem ter feito alguma coisa.
Emmett sentou-se.
— Justo.
Entregou o copo.
— Preciso de uma opinião.
— Sobre?
— Restaurante.
Jacob ergueu os olhos.
— Não entendo de restaurante.
— Entende de investimento.
— Isso eu entendo.
— Rosalie encontrou um ponto excelente.
— Rosalie vai abrir restaurante?
— Finalmente.
— Bom para ela.
— Ela está surtando.
— Namora você. Imagino que precise de acompanhamento psicológico.
Emmett riu.
— Muito engraçado.
Jacob voltou ao computador.
— Qual é a dúvida?
— Capital.
— Quanto?
Emmett falou o valor.
Jacob imediatamente começou a perguntar sobre aluguel, projeções, capacidade, ponto, custos fixos, fornecedores e prazo de retorno.
— Você precisa de um plano melhor.
— Elas têm.
Jacob parou.
— Elas?
Emmett tomou um gole de café.
— Rosalie e a sócia.
— Que sócia?
— Elena.
Silêncio.
Jacob ergueu lentamente os olhos.
— Elena?
— Swan.
— Eu sei o sobrenome dela.
Emmett franziu a testa.
— Você não sabia?
Jacob fechou o notebook.
— Não.
Então lembrou da carta amassada que havia guardado.
Motivos pessoais.
Tudo se encaixou.
— Ela pediu demissão para abrir o restaurante.
— Pelo jeito.
Jacob soltou um riso sem humor.
— E não me contou.
— Achei que soubesse.
— Não sabia.
Emmett percebeu que havia entrado numa história que não conhecia.
— Isso incomoda você por quê?
Jacob lançou-lhe um olhar.
— Não incomoda.
— Claro.
— Não começa.
— Nem comecei.
Silêncio.
Então Jacob perguntou:
— Elas já têm investidor?
Emmett sorriu lentamente.
— Ainda não.
— Quanto precisam?
— Jacob...
— Quanto?
— Você acabou de dizer que o plano precisa melhorar.
— Então eu melhoro.
Emmett começou a rir.
— Você quer investir.
— Estou avaliando uma oportunidade.
— Claro.
— Não diga meu nome.
O sorriso de Emmett aumentou.
— Ah.
— O quê?
— Você quer surpreender Elena.
— Quero analisar o projeto antes de qualquer conversa.
Emmett se levantou.
— Naturalmente.
Chegou à porta.
— Só uma pergunta.
— Não.
— Você nem sabe qual é.
— Conheço você.
Emmett sorriu.
— Vocês se beijaram?
Jacob pegou uma pasta.
— Sai.
— Se beijaram.
— Emmett.
— Eu sabia.
— EMMETT.
Emmett saiu rindo.
*********
— Temos investidor.
Rosalie entrou na cozinha experimental quase correndo.
Elena levantou os olhos.
— Quem?
— Emmett fez o contato.
— Emmett?
— A proposta é excelente.
Elena analisou os números.
— Isso é mais do que pedimos.
— Eu sei.
— Quero conhecer o investidor antes de assinar qualquer coisa.
— Concordo.
A voz veio da porta.
Elena congelou.
Virou-se lentamente.
Jacob Black entrou.
Emmett vinha atrás tentando não rir.
Rosalie sorriu.
— Elena, nosso investidor.
— Não. Não. Não.
Jacob arqueou a sobrancelha.
— Bom dia para você também.
— Você?!
— Eu.
Elena virou-se para Emmett.
— Você fez isso?
— Tecnicamente ele fez.
— Traidor.
— Eu nem sou seu amigo.
Rosalie cruzou os braços.
— Qual é o problema?
Elena apontou para Jacob.
— Ele é o problema!
Jacob levou a mão ao peito.
— Isso foi ofensivo.
— Você não entende nada de restaurante!
— Entendo de investimento.
— Eu pedi demissão!
— E eu aceitei.
— Para me afastar!
Silêncio.
Rosalie olhou para Emmett.
Emmett olhou para Rosalie.
— Ah — ele murmurou.
Rosalie segurou seu braço.
— Vamos.
— Mas...
— Agora.
Os dois saíram.
Jacob olhou para Elena.
— Então era isso.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente o que disse.
— Retira o investimento.
— Não.
— Existem milhares de negócios em Nova York.
— Escolhi este.
— Por quê?
Jacob ficou olhando para ela.
— Talvez eu goste da chef.
O coração de Elena tropeçou.
— Rosalie é excelente.
Jacob sorriu.
— Não estava falando de Rosalie.
— Você é inacreditável.
— E aparentemente agora sou seu investidor.
— Eu me demiti para não ter mais você como chefe.
— Funcionou.
Ele se aproximou um pouco.
— Agora somos sócios.
Elena fechou os olhos.
— Minha vida me odeia.
Jacob riu.
*******
Nas semanas seguintes, o restaurante tomou forma.
E Jacob continuou presente.
Mais do que Elena desejava.
Menos do que gostaria de admitir.
Discutiram sobre fornecedores.
Custos.
Mobiliário.
Sistema de reservas.
E tomates.
— Existem tomates quarenta por cento mais baratos — Jacob argumentou.
Elena olhou para ele como se tivesse confessado um crime.
— E quarenta por cento mais tristes.
— Tomates não têm sentimentos.
— Esses têm.
— Como sabe?
— Sou chef.
— Isso não lhe dá poderes sobrenaturais sobre vegetais.
— Fora da minha cozinha.
— Nosso restaurante.
— Jacob.
— Certo.
Do lado de fora, Emmett olhou para Rosalie.
— Três dias.
— Para quê?
— Eles se beijarem novamente.
Rosalie sorriu.
— Dois.
Na noite anterior à inauguração, Elena estava sozinha no salão quando Jacob apareceu.
Rosalie já havia ido embora.
Os funcionários também.
Elena reorganizava uma mesa pela quarta vez.
— Se mover essa cadeira mais uma vez, vai precisar pagar aluguel para ela.
Elena virou-se.
— O que está fazendo aqui?
— Vim ver como estava.
— Está pronto.
— Não perguntei sobre o restaurante.
Elena ficou quieta.
Jacob se aproximou.
— Você comeu?
— Estou ocupada.
— Isso significa não.
— Não estou com fome.
— Isso também significa não.
Ela bufou.
— Não começa.
— Você está apavorada.
Elena parou.
— Estou.
A sinceridade surpreendeu os dois.
Jacob aproximou-se.
— Vai dar certo.
— Você não sabe.
— Sei que o projeto é bom.
— Projetos bons fracassam.
— Pessoas boas também.
Elena olhou para ele.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Era para ser profundo.
Ela riu.
Jacob sorriu.
O salão estava silencioso.
Mesas arrumadas.
Taças brilhando.
Luzes baixas.
Elena caminhou lentamente.
— Eu sonhei com isso durante anos.
— Eu sei.
— Não, não sabe.
Passou a mão sobre uma mesa.
— Eu passava na frente de restaurantes e olhava pelas janelas. Alice dizia que eu parecia uma psicopata observando desconhecidos jantar.
— Consigo imaginar.
— Eu não olhava para eles. Olhava para a cozinha.
Jacob sorriu.
— Claro.
— Sempre pensei que um dia teria um lugar meu. Mas parecia uma coisa de outra vida.
— Por quê?
Elena hesitou.
— Porque sempre existia alguém precisando de alguma coisa antes de mim.
Jacob entendeu.
— Bella.
Ela assentiu.
— Bella. Contas. Faculdade. Aluguel. Vida.
— E Elena?
Ela soltou uma pequena risada.
— Elena aprendia a esperar.
Jacob ficou sério.
— Talvez esteja na hora de parar.
Os olhos dela se encheram.
— Estou com medo.
— Eu sei.
— Não apenas do restaurante.
Jacob percebeu.
— Do quê?
Ela quase contou.
Quase.
Mas não naquela noite.
— De tudo.
Jacob se aproximou.
— Então só por hoje fazemos um acordo.
— Outro?
— Só por esta noite, não sou seu ex-chefe.
— Ótimo.
— Nem seu investidor.
— Melhor.
— Você não é minha ex-funcionária.
— Continuo chef.
— Elena.
Ela sorriu.
— Continue.
— Hoje somos apenas duas pessoas.
— Sem empresa?
— Sem empresa.
— Sem restaurante?
— Sem restaurante.
— Sem Irina?
— Principalmente sem Irina.
— Sem Edward?
— Nunca gostei dele mesmo.
— E sem nenhum tipo de pergunta que eu não posso responder...
Jacob estreitou os olhos.
— Feito. Essa noite será só eu você.
Elena riu.
Jacob pegou o celular e colocou uma música.
— O que está fazendo?
— Acrescentando uma cláusula.
— Isso é ilegal.
— Leah não está aqui.
Ele estendeu a mão.
— Dança comigo.
Elena olhou para a mão.
Depois para ele.
— Eu não sei dançar.
— Eu também não.
— Então isso vai ser humilhante.
— Ninguém está vendo.
Ela colocou a mão na dele.
Jacob a puxou delicadamente.
A mão dele pousou em sua cintura.
Elena colocou a sua sobre o ombro dele.
Começaram a se mover lentamente.
— Isso é ridículo — ela murmurou.
— Por quê?
— Estamos dançando num restaurante vazio.
— Você já fez coisa piores.
— Tipo?
— Você conversava com o retrato do meu pai.
Elena riu.
— Aquilo era perfeitamente razoável.
— Você perguntou ao quadro se eu tinha namorada.
— Eu estava apenas fazendo pesquisa.
— Sobre seu patrão.
— Sobre o homem que eu achava que era meu patrão.
Jacob riu.
Elena encostou a cabeça em seu peito.
A música continuou.
— Por que você investiu? — perguntou.
— Porque o projeto era bom.
— Mentira.
— Você não pode chamar seu investidor de mentiroso.
— Posso quando ele está mentindo.
Jacob ficou quieto.
— Emmett contou que você perguntou quanto precisávamos antes de ler o projeto.
— Vou demitir Emmett.
— Ele nem trabalha para você.
— Encontrarei um jeito.
Elena ergueu a cabeça.
— Por quê, Jacob?
Ele a olhou.
— Porque você está aqui.
O coração dela apertou.
— Isso não explica.
— Explica para mim.
— Mesmo comigo tentando me afastar?
— Principalmente por isso.
Elena soltou um pequeno riso.
— Você é completamente irracional.
— Só perto de você.
O sorriso dela desapareceu.
Jacob tocou seu rosto.
— Se eu beijar você, vai fugir outra vez?
A pergunta carregava agora a lembrança da noite na casa dele.
Elena sentiu os olhos arderem.
— Eu não quero ir.
— Então fica.
Foi Elena quem diminuiu a distância.
O beijo começou devagar.
Sem pressa.
Sem dúvida.
Jacob segurou seu rosto.
Elena passou os braços pelo pescoço dele.
Dessa vez, ela não fugiu.
Quando se separaram, Elena manteve a testa contra a dele.
— Por mais que eu esteja ansiosa para amanhã, eu queria que essa noite nunca terminasse.
Jacob abriu os olhos.
— Por que?
— Porque hoje, aqui somos só eu e você...
Ele concordou.
— Então eu vamos aproveitar mais um pouquinho.
E Jacob beijou Elena mais uma vez, e dançaram mais uma vez.
Perto da meia noite, Jacob levou Elena para casa. Antes de sair do carro ela tocou a face dele.
— Jacob...
— Hum?
— Se depois de amanhã tudo estiver diferente...
Ele franziu a testa.
— Por que estaria?
Elena não respondeu.
Jacob segurou sua mão.
— Ei.
Ela sorriu tristemente.
— Boa noite.
Ele beijou sua testa.
— Boa noite, Elena.
*****
A inauguração, na noite seguinte, foi um sucesso.
O restaurante ficou lotado.
A cozinha funcionou.
Os pratos voltaram vazios.
Rosalie chorou.
Depois negou.
— Foi fumaça.
Elena olhou ao redor.
— Não tem fumaça.
— Então foi cebola.
— Também não tem cebola aqui.
— Você está muito inconveniente para alguém que acabou de realizar o maior sonho da vida.
Elena riu e abraçou a amiga.
— Conseguimos.
— Conseguimos.
Do salão, Jacob observava.
Elena encontrou seus olhos.
Ele levantou a taça discretamente.
Ela sorriu.
A culpa veio logo depois.
Precisava contar.
Naquela noite.
Não amanhã.
Não depois.
Naquela noite.
Elena aproximou-se.
— Jacob, eu preciso conversar com você...
Emmett surgiu atrás dele.
— Black, seu telefone está tocando há uns dez minutos.
Jacob olhou a tela.
— Preciso atender.
Elena respirou.
— Tudo bem.
Ele tocou de leve sua cintura.
— Não vai embora.
A frase atravessou Elena.
— Não vou.
Uma emergência na empresa acabou levando Jacob embora antes que pudessem ficar sozinhos.
Elena ficou.
Ajudou Rosalie.
Despediu funcionários.
Conferiu a cozinha.
Esperaria Jacob no dia seguinte.
Contaria tudo.
Não sabia que o dia seguinte chegaria cedo demais.
*******
Jacob chegou em casa pouco depois da meia-noite.
Encontrou um pequeno pacote diante da porta.
Sem remetente.
Levou-o para o escritório.
Dentro havia várias fotos.
pegou a primeira fotografia.
O documento.
Aquele que Irina apresentara.
Depois outra.
E outra.
Até encontrar um comprovante bancário.
Beneficiário: Isabella Swan.
Jacob ficou imóvel.
Origem da transferência:
Irina Cullen.
O sangue pareceu abandonar seu corpo.
Pegou outra fotografia.
Data.
Horário.
Então lembrou.
Bella estivera na casa.
Elena havia tentado falar sobre o documento.
Mais de uma vez.
Eu preciso conversar com você.
Ele a interrompera numa das vezes.
Em outras, ela recuara.
Jacob levantou-se tão rápido que a cadeira caiu.
Ela sabia.
Elena sabia.
Há semanas ou até meses.
E não contara.
Lembrou-se dos beijos em sua casa.
Da fuga.
Da demissão.
Da noite anterior.
Das danças.
Dos beijos.
Eu não quero ir.
Então fica.
Lembrou-se da inauguração poucas horas antes.
Do orgulho.
Do modo como ela sorrira para ele.
Pegou as fotos.
As chaves.
E voltou para o restaurante.
Era quase uma da manhã quando Elena ouviu a porta principal abrir.
Rosalie já havia saído.
Ela estava sozinha.
— Rosalie?
Nenhuma resposta.
Elena saiu da cozinha.
Parou.
Jacob estava no salão.
Bastou olhar para ele.
— Jacob?
Ele não respondeu.
Caminhou até uma mesa.
Colocou as fotos sobre ela.
Elena perdeu a cor.
— Onde conseguiu isso?
Jacob riu.
Não havia humor algum.
— Impressionante.
— O quê?
— De todas as coisas que poderia perguntar, escolheu essa.
Elena sentiu as mãos começarem a tremer.
— Jacob...
— Há quanto tempo?
Ela fechou os olhos.
— Há quanto tempo, Elena?
— Alguns meses.
O silêncio pareceu engolir o restaurante.
Jacob assentiu lentamente.
— Alguns meses.
— Eu ia contar.
— Quando?
— Eu tentei...
— Quando?
A voz dele aumentou.
— Hoje.
— Hoje?
— Eu ia contar depois da inauguração.
— Depois da inauguração.
— Sim.
— Depois de eu investir no seu restaurante.
— Não foi por isso.
— Depois de eu ajudar você a construir isso.
— Jacob...
— Depois de ontem.
Elena empalideceu.
— Não mistura as coisas.
— Você misturou!
A voz ecoou.
— Você dançou comigo sabendo disso.
— Eu sei.
— Você me beijou sabendo disso.
— Eu sei!
— Você me beijou naquela casa depois da audiência sabendo disso!
Elena fechou os olhos.
— Eu sei.
— Você apareceu lá dizendo que precisava conversar comigo!
— Eu fui para contar!
— E não contou!
— Você disse que não queria ouvir mais nada triste!
— E no dia seguinte?
Ela não respondeu.
— E depois?
Silêncio.
— E todas as outras vezes?
As lágrimas começaram.
— Eu estava tentando encontrar coragem.
— Durante meses?
— Sim!
— Seth foi levado daquela casa!
— EU SEI!
— Não, você não sabe!
Jacob avançou um passo.
— Você não acorda pensando se ele está chorando em outra casa. Não fica olhando para o quarto vazio dele. Não precisa dizer para uma criança de cinco anos que não sabe quando ela vai voltar para casa!
— Cinco e meio — Elena sussurrou automaticamente, lembrando de Seth.
Jacob parou.
A correção quase o desmontou.
— Exatamente.
A voz dele falhou.
— Você conhece ele o suficiente para lembrar disso. Você conhece Seth. Você ama Seth. E mesmo assim ficou calada.
— Eu amo Seth!
— Então por quê?
— Porque era Bella!
Jacob ficou olhando.
— Era minha irmã.
— E Seth era o quê?
— Não faz isso.
— O quê? Perguntar onde meu sobrinho estava em tudo isso?
— Eu estava tentando proteger Bella.
— Eu percebi.
— Ela errou.
— Ela vendeu uma informação para Irina.
— Eu sei!
— Recebeu dinheiro.
— Eu sei!
— E você decidiu esconder.
— Porque eu prometi cuidar dela!
Jacob soltou um riso incrédulo.
— A promessa.
Elena endureceu.
— Não fala desse jeito.
— De que jeito?
— Como se fosse uma desculpa qualquer.
— Neste momento, está parecendo exatamente isso.
— Meu pai morreu segurando minha mão!
Jacob ficou em silêncio.
— Eu tinha seis anos! Bella era um bebê. Meu pai me pediu para cuidar dela e eu prometi. Passei a minha vida inteira cumprindo aquilo.
— Não. Você passou a vida inteira tentando controlar tudo o que acontece com ela.
— Você não sabe do que está falando.
— Sei mais do que você imagina.
— Não fale dos meus pais.
— Por quê? Porque existe alguma coisa na sua vida que você não seja culpada?
Elena congelou.
Jacob estava ferido demais para parar.
— Bella faz uma escolha e você se culpa. Seth sofre e você se culpa. Qualquer pessoa que ama comete um erro e você imediatamente decide que deveria ter impedido.
— Para.
— Talvez seja isso que você faz desde os seis anos.
— Jacob...
— Talvez você tenha culpa em tudo.
Os olhos de Elena se arregalaram.
Jacob sabia onde estava atingindo.
E continuou.
— Talvez você tenha culpa no acidente do seus pais morreram porque você pediu para ir àquele parque.
Elena parou de respirar.
O silêncio foi brutal.
Jacob sabia que tinha sido cruel.
Sabia que ela tinha seis anos.
Sabia que uma criança não era responsável pelo acidente.
Mas não pediu desculpas.
Não retirou as palavras.
Naquele momento, estava ferido demais.
— Eu acredito — Elena sussurrou.
A raiva dele vacilou.
Só por um instante.
— Eu pedi para ir.
Jacob ficou imóvel.
— Estava chovendo. Minha mãe não queria. Meu pai disse que podíamos ir outro dia. Eu insisti.
As lágrimas escorriam.
— Fiz birra. Disse que eles tinham prometido.
Jacob apertou o maxilar.
Uma parte dele queria dizer que ela era uma criança.
A outra ainda via Seth sendo levado.
E essa parte venceu.
— E foi exatamente isso que você fez com Bella.
Elena franziu a testa.
— O quê?
— Pegou uma tragédia que não podia controlar e transformou numa obrigação eterna. Desde aquele dia, você decidiu que precisa impedir qualquer coisa ruim de acontecer novamente com ela porque acredita que falhou uma vez e não pode falhar de novo.
— Não fala assim.
— É a verdade.
— Você não sabe!
— Então me explica por que preferiu me olhar todos os dias e esconder isso.
— Eu não menti sobre tudo!
— Só sobre a coisa que poderia decidir se Seth voltaria para casa!
Elena levou a mão à boca.
Jacob respirava pesadamente.
— Você sabia.
— Sim.
— Sentou na minha mesa.
— Sim.
— Ouviu Seth perguntar quando voltaria.
— Sim.
— Me viu perder outra audiência.
Elena fechou os olhos.
— Sim.
— Foi até minha casa naquela noite.
— Sim.
— Disse que precisava conversar comigo.
— Sim.
— E depois me beijou.
Ela começou a chorar ainda mais.
— Sim.
Jacob respirou.
— Depois fugiu.
— Porque eu percebi o que estava fazendo!
— E ainda assim continuou calada.
Elena abaixou a cabeça.
— Sim.
Aquela resposta retirou parte da raiva dele.
O que ficou foi dor.
— Por quê?
Elena abriu os olhos.
— Porque eu tive medo de perder Bella.
Jacob assentiu lentamente.
— E escolheu correr o risco de me perder.
— Eu não queria perder você.
— Mas aceitou essa possibilidade.
— Não.
— Aceitou, Elena. Cada dia em que decidiu não contar foi uma escolha.
Ela chorou.
— Eu estava tentando...
— Para de dizer que estava tentando!
A voz dele falhou.
— Você teve meses.
Jacob apontou para o salão.
— E ontem eu fiquei aqui com você.
— Eu sei.
— Eu dancei com você.
— Eu sei.
— Eu fiquei por você.
— Para.
— Eu beijei você.
Uma lágrima desceu pelo rosto dele.
— E você sabia.
— Eu sabia.
Jacob recuou.
— Meu Deus.
Elena respirou com dificuldade.
— Eu queria uma noite.
Ele ficou imóvel.
— O quê?
— Eu sabia que quando contasse você poderia nunca mais olhar para mim daquele jeito.
Jacob a encarou.
— Então ontem foi uma despedida?
— Não.
— Foi para você.
— Não!
— Você sabia de uma coisa que eu não sabia e decidiu que queria uma última noite antes que eu pudesse escolher se ainda queria estar perto de você.
Elena chorou.
— Eu não pensei assim.
— Mas foi exatamente o que fez.
Ela levou a mão ao peito.
— Eu estava me apaixonando por você!
Jacob ficou imóvel.
— O quê?
— E foi por isso que eu fui embora.
A voz dela tremia.
— Foi por isso que pedi demissão.
Jacob franziu a testa.
— O restaurante...
— Eu ainda nem sabia do restaurante quando decidi que precisava sair!
Ele ficou em silêncio.
— Rosalie ligou no dia seguinte àquela noite na sua casa.
Jacob começou a entender.
— Então por que pediu demissão?
— Porque cada dia perto de você fazia tudo ficar pior.
Ela chorou.
— Porque eu sabia que precisava contar e tinha medo de que você me odiasse depois. Porque estava me apaixonando por você e não sabia como continuar entrando na sua casa, cuidando de Seth, conversando com você, sabendo que aquilo existia entre nós.
Jacob não respondeu.
Elena finalmente disse:
— Eu amo você.
Ele fechou os olhos.
— Não.
— É verdade.
— Não diga isso agora.
— Eu preciso dizer.
— Por quê? Para tornar isso menos horrível? Acha mesmo que eu vou acreditar em você?
— Porque é a verdade!
Jacob abriu os olhos.
— E é justamente por isso que eu não acredito em você!
Elena ficou em silêncio.
— Porque isso não é amor, é egoismo.
A voz dele falhou.
— Mas eu sei que você ama Seth.
Elena chorou.
— E ainda assim você fez isso.
— Eu estava tentando proteger minha irmã.
— E quem estava protegendo Seth?
Ela não respondeu.
— Quem estava me protegendo?
Elena abaixou a cabeça.
— Ninguém.
Jacob assentiu.
— Exatamente.
Ela se aproximou.
— Jacob...
Ele recuou.
— Não toca em mim.
Elena parou.
O gesto doeu mais que qualquer grito.
Jacob olhou ao redor.
— Sabe qual é a pior parte?
Ela não respondeu.
— Eu estava orgulhoso de você hoje.
A voz dele baixou.
— Fiquei olhando você naquela cozinha e pensando que nunca tinha visto alguém tão feliz. Pensei que queria continuar vendo aquilo.
Elena fechou os olhos.
— E agora não consigo olhar para este lugar sem pensar que entrei nele porque você estava fugindo de mim.
— O restaurante não foi uma mentira.
— Eu sei.
— O beijo também não.
Ele a encarou.
— Eu estava com medo do que faria com Bella.
— Então também não confiava em quem eu sou.
Elena não respondeu.
Jacob assentiu.
— Entendi.
Caminhou para a porta.
— Jacob.
Ele parou.
— Eu ia contar hoje.
Não se virou.
— Mas não contou.
— Porque você foi embora antes.
Jacob finalmente olhou para ela.
— Não coloque isso em mim.
Elena recuou.
— Eu não estou.
— Você teve semanas. Meses. Teve minha casa. Teve depois dos beijos. Teve sua demissão. Teve o restaurante. Teve ontem. Teve hoje.
As lágrimas dela não paravam.
— Eu sei.
Jacob segurou a maçaneta.
Quando falou novamente, sua voz estava baixa.
— De todas as pessoas que poderiam ter feito isso comigo...
Elena levantou os olhos.
— Você foi a minha maior decepção.
A porta fechou.
***********
Nenhum dos dois dormiu.
Elena chegou ao apartamento perto das duas da manhã.
Alice abriu a porta e soube imediatamente.
— Ele sabe.
Elena contou tudo.
As fotos.
A briga.
Bella.
Seth.
E a frase sobre seus pais.
Alice ficou furiosa.
— Ele não tinha direito de usar isso contra você.
— Ele tinha.
— Foi cruel.
— Foi.
Elena respirou com dificuldade.
— Mas não ameniza o que eu fiz.
— Você estava tentando proteger Bella.
— Explica. Não absolve.
Passou o resto da madrugada acordada.
Pensando em Jacob.
Pensando em Seth.
Pensando nos pais.
E admitindo para si mesma algo que jamais tivera coragem de dizer em voz alta:
talvez tivesse passado dezoito anos tentando pagar uma dívida que nunca existira.
Jacob também não dormiu.
Às duas e quinze continuava acordado.
Às três e quarenta estava sentado na cama.
Às quatro e vinte desistiu de tentar.
Fez café.
Não bebeu.
Pensou em Elena chorando.
Pensou no que dissera sobre Charlie e Renée.
Sabia que tinha sido cruel.
Sabia que Elena não matara os pais.
Ela tinha seis anos.
Mas não estava pronto para pedir desculpas.
Não naquela noite.
Porque reconhecer a própria crueldade não apagava o que Elena fizera.
Seth continuava longe.
Ela continuara calada.
Ele continuava ferido.
Às cinco e dezessete, ligou para Leah.
— Preciso que prepare um distrato.
— Jacob?
— Quero sair do restaurante.
— O que aconteceu?
— Não quero falar sobre isso.
— Certo. O que quer fazer?
— Quero o reembolso integral do investimento.
— Em que prazo?
— Vinte e quatro horas.
Leah ficou em silêncio.
— Jacob, isso é praticamente impossível.
— Então Elena sai.
— Como?
— Se não houver reembolso, quero que a participação dela seja usada na composição do distrato. Rosalie permanece. O restaurante continua.
— Isso é uma decisão empresarial ou pessoal?
Jacob soltou um riso sem humor.
— Hoje eu não sei a diferença.
— Você está ferido.
Ele ficou quieto.
— Sim.
— E quer que ela sinta.
Outro silêncio.
— Prepare os documentos.
— Jacob...
— Leah.
Ela entendeu.
— Certo.
*******
Às oito da manhã, Elena chegou ao restaurante.
Não havia dormido.
Rosalie percebeu imediatamente.
— Meu Deus.
— Não começa.
— Você está péssima.
— Obrigada.
— O que aconteceu?
Elena contou.
Tudo.
Rosalie ouviu em silêncio.
— Você sabia há semanas?
— Sim.
— Por que não contou?
Elena fechou os olhos.
— Porque era Bella.
— Elena...
— Eu sei.
— Você tentou.
Elena olhou para ela.
— Não transforma tentativa em ação. Eu não contei.
Antes que Rosalie respondesse, a porta abriu.
Leah entrou carregando uma pasta.
Elena soube.
— Ele mandou você.
— Jacob me ligou de madrugada.
A primeira pergunta escapou:
— Ele dormiu?
Leah observou Elena.
— Pelo que percebi, não.
Elena baixou os olhos.
Ela também não.
Rosalie olhou entre as duas.
— O que está acontecendo?
Leah colocou a pasta sobre a mesa.
— Jacob quer formalizar a retirada dele do investimento.
Rosalie empalideceu.
— O quê?
Elena perguntou:
— Quanto?
— Reembolso integral.
— Quando?
Leah respirou.
— Vinte e quatro horas.
Rosalie quase gritou:
— Isso é impossível! O dinheiro foi usado em reforma, equipamento, estoque, fornecedores. Ele sabe disso!
— Sabe.
Elena olhou para Leah.
— Qual é a outra opção?
Rosalie virou-se.
— Que outra opção?
Leah demorou um segundo.
— Se o valor não for restituído no prazo, Jacob aceita a saída de Elena da sociedade e a transferência da participação dela nos termos do distrato.
— Não — Rosalie respondeu imediatamente.
Elena ficou quieta.
— Se eu sair, Rosalie continua?
— Sim.
— O restaurante continua funcionando?
— Sim.
— Ela não precisa devolver o investimento em vinte e quatro horas?
— Não da forma prevista nessa alternativa.
Elena assentiu.
— Então eu aceito.
— NÃO.
Rosalie segurou seu braço.
— Esse restaurante é nosso!
— Eu sei.
— Você construiu isso comigo!
— Eu sei.
— Então para de dizer que sabe!
Rosalie começou a chorar.
— Você não vai sair.
Elena segurou suas mãos.
— Nós não temos esse dinheiro.
— Encontramos outro investidor.
— Em vinte e quatro horas?
— Tentamos!
— E se não conseguirmos?
— Continuamos tentando!
— E colocamos tudo em risco?
— É o seu sonho também!
Elena sentiu as lágrimas chegarem.
— Justamente.
— O que isso quer dizer?
— Que Jacob entrou aqui por minha causa. E agora está saindo por minha causa.
— Isso não torna justo tirar você.
— Não estou dizendo que é justo.
Elena respirou.
— Estou dizendo que não vou deixar você perder tudo tentando salvar a minha parte.
— Isso é punição.
Elena ficou quieta.
— Talvez seja consequência.
— Não são a mesma coisa!
— Eu sei.
— Não parece.
Elena olhou para Leah.
— Onde eu assino?
Leah não abriu a pasta.
— Não precisa assinar agora.
— Jacob deu vinte e quatro horas.
— E eu estou dizendo, como advogada, que você deve ler tudo, entender as cláusulas e pode buscar orientação independente antes de assinar.
Elena assentiu.
— Eu vou ler.
Sentou-se.
Leu página por página.
Rosalie permaneceu ao lado dela.
Quando chegou ao espaço da assinatura, a mão de Elena tremia.
Rosalie segurou seu pulso.
— Última chance.
Elena olhou para ela.
— Eu amo este lugar.
— Então fica.
— Eu amo você.
— Então fica.
Elena respirou.
— E amo Jacob.
Rosalie fechou os olhos.
— Eu sei.
— Mas amar alguém não pode continuar sendo a desculpa que eu uso para evitar consequências.
— Você está confundindo consequência com se destruir.
Elena sentiu a frase.
— Talvez eu ainda não saiba a diferença.
Rosalie apertou sua mão.
Elena pegou a caneta.
E assinou.
Elena Swan.
Ficou olhando para o próprio nome.
Leah recolheu os documentos.
— Ele vai receber hoje?
— Vai.
— Diga que aceitei.
Leah assentiu.
Elena pensou.
— Não.
— O quê?
— Não diga mais nada.
— Tem certeza?
— Se ele quiser saber alguma coisa sobre mim, vai ter que perguntar.
Leah fechou a pasta.
Quando chegou à porta, Elena chamou:
— Leah.
Ela se virou.
— Ele estava muito mal?
Leah poderia evitar.
Não evitou.
— Conheço Jacob há muitos anos. Nunca ouvi a voz dele daquele jeito.
Elena sentiu o peito apertar.
— Com raiva?
— Ferido.
Uma lágrima caiu.
— Acho que, para Jacob, isso é pior.
Elena assentiu.
Leah saiu.
Rosalie ficou ao lado dela.
— O que você vai fazer agora?
Elena olhou para a cozinha.
Para as mesas.
Para o lugar que, poucos minutos antes, ainda era também seu.
— Terminar meu turno.
— Elena...
— Temos reservas para o almoço.
Pegou o avental.
Amarrou-o.
As mãos tremiam.
E entrou na cozinha.
Porque era isso que Elena fazia quando o mundo desmoronava.
Continuava.
Mesmo sem saber para onde.
*******
Pouco depois das onze, Leah colocou o distrato sobre a mesa de Jacob.
Ele viu a assinatura.
Elena Swan.
Ficou imóvel.
— Ela aceitou?
— Sim.
— Sem discutir?
— Rosalie discutiu pelas duas.
Jacob passou os olhos pelo documento.
— E Elena?
— Assinou.
— Só isso?
Leah o observou.
— O que esperava?
Jacob não respondeu.
Talvez resistência.
Talvez que Elena recusasse.
Talvez que aparecesse ali.
Mas ela assinara.
— Ela dormiu?
Leah percebeu a pergunta.
— Não.
Jacob desviou os olhos.
Ele também não.
— Ela disse alguma coisa?
— Pediu que eu entregasse.
— Só?
— Só.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Leah aproximou-se.
— Você conseguiu o que pediu.
— Eu sei.
— Então por que parece que perdeu alguma coisa?
Jacob permaneceu calado.
Leah caminhou até a porta.
— Ela disse uma coisa antes de assinar.
Ele levantou os olhos.
— Que talvez ainda não saiba diferenciar assumir responsabilidade de se punir.
Jacob ficou imóvel.
— E que amar alguém não podia continuar sendo a desculpa que usava para evitar consequências.
Leah saiu.
Jacob permaneceu sozinho.
Olhou para a assinatura.
Na noite anterior, quisera distância.
Às cinco da manhã transformara aquela vontade em papel.
Agora tinha exatamente o que pedira.
Elena estava fora da sociedade.
O vínculo que ele próprio criara para permanecer perto dela estava rompido.
Jacob deveria sentir alívio.
Não sentia.
Ainda estava furioso.
Ainda se sentia traído.
Ainda não estava pronto para perdoar.
E ainda não estava pronto para pedir desculpas pelo que dissera sobre os pais dela.
Não porque acreditasse que Elena tivesse culpa.
Não acreditava.
Mas porque estava ferido demais para ser o homem que a consolaria pelas palavras cruéis que ele próprio escolhera enquanto ainda sangrava pela escolha dela.
Duas verdades podiam existir ao mesmo tempo.
Ele fora cruel.
Ela o traíra.
Elena o amava.
Ele ainda a amava.
E nenhuma dessas verdades anulava as outras.
Jacob passou o polegar sobre a assinatura dela.
Vinte e quatro horas antes, ainda fazia parte do sonho de Elena.
Agora havia um distrato sobre sua mesa.
Ele começara a arrancá-la de sua vida.
Só depois de vê-la realmente sair percebeu que arrancá-la doeria tanto nele quanto nela.
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