O Pórtico do Mal
4 Capítulo 4
–Você só pode estar de brincadeira Herman.
O menino já esperava essa reação. Depois de decidir que tinha que falar com Andhrimír, Herman ainda tinha ficado debatendo consigo mesmo durante um bom tempo, andando pela casa. Sabia que não teria o apoio dele, e já esperava uma discussão. Quando a noite chegou, ele entrou num frenesi de empolgação, e decidiu que não podia esperar mais.
Saiu porta afora, decidido, e bateu na casa de seu amigo, arrastando-o para fora. Acabou ignorando os cumprimentos do padeiro bochechudo, pai de Andhrimír, mas não havia tempo para se sentir culpado.
Saindo dali, levou o amigo para um canto da floresta, um pouco afastado da vila, onde sua decisão pudesse ser revelada sem que ninguém mais ouvisse.
–Eu não vou discutir isso com você de novo Herman, nós já conversamos sobre isso cara – Exclamou Andhrimír.
–Olha, eu já decidi – Respondeu Herman – Nada que você diga, nenhum argumento que você apresente vai mudar minha decisão.
–Você é louco mesmo! – Andhrimír riu, incrédulo – Acha que pode sair assim, abandonar sua casa, sua mãe, seus amigos. Tudo para virar um aventureiro, um guerreiro lendário!
Herman não reagiu à zombaria do amigo, e continuou fitando-o silêncio. Andhrimír viu que não estava conseguindo convencê-lo, e tentou de novo.
–Cara, você tem uma vida segura aqui – Disse ele – Tem sua mãe, tem seus amigos, tem as abóboras, tem Amandor. Vai trocar tudo isso por uma vida onde você pode simplesmente morrer a qualquer momento, por um bandido ou um monstro qualquer? É como eu sempre digo: quantos aventureiros você viu sair e voltar para casa? Eles…
–Não voltam – Completou Herman – Eu sei.
Andhrimír suspirou. Não sabia como fazer para convencê-lo.
–Você não pode fazer isso cara.
Herman fitou com tristeza o amigo. Sabia que nunca ia conseguir fazê-lo entender. Não estava dentro dele. A sede de aventuras não corria por suas veias. E ele adoraria não ter que ter aquela conversa com Andhrimír, mas sabia que precisava.
–Andhrimír – Suspirou Herman – Somos diferentes. A nossa concepção de felicidade é diferente, muito diferente. Ficar o dia todo assando pães, coberto de farinha, pode ser felicidade pra você, mas não é pra mim.
Ele tentou falar suavemente. Não queria magoar o amigo.
–Eu não posso mais ficar preso aqui nessa vila. Tem tanta coisa lá fora cara, tanta coisa pra se ver! Não posso simplesmente passar a minha vida toda plantando abóboras e derrubando árvores. Preciso de algo mais. Mas eu sei que não pode me entender agora, talvez um dia entenda. Mas agora eu vejo que essa decisão eu já tinha tomado há muito tempo. Eu só precisava de uma motivação.
–Do que você tá falando? – Perguntou Andhrimír, franzindo a testa.
–O Amandor. Ele não está por perto – Respondeu Herman.
De repente ele entendeu. Com Amandor por perto, Herman nunca conseguiria fugir. Amandor ia encontrá-lo antes que desse dez passos para fora da vila e trazê-lo de volta. Mas agora ele estava em outra cidade, e Herman não poderia querer oportunidade melhor.
–Você sabe que eu vou falar, não sabe? Eles vão me perguntar, e eu não vou ter escolha. Vou ter que falar.
–Eu sei – Respondeu Herman.
–E eu é que vou ter que sentir a fúria da sua mãe, me acusando por não ter tentado te impedir.
–Vou cuidar para que não seja responsabilizado por nada – Respondeu Herman.
Herman suspirou e olhou pra cima. O céu estava estrelado, e o vento gelado da noite soprava forte, balançando as árvores. O menino encheu os pulmões de ar e foi exalando devagar. Um sorriso se abriu por dentro, e ele quase abriu os braços. Pela primeira vez na vida, ele se sentia leve. Se sentia livre, realmente livre. Tinha dado finalmente o passo que precisava dar. Agora só mais um passo faltava.
Andhrimír quebrou o silêncio:
–Qual é o seu plano? – Perguntou, com relutância.
Herman sorriu de leve.
–Não conheço outra estrada que leve pro Norte a não ser a que também leva para Mitrar, e não posso correr o risco de encontrar Amandor pelo caminho. Por isso vou pegar outro caminho, muito mais longo, e também muito mais perigoso.
–E por onde esse caminho passa? – Perguntou Andhrimír.
O silêncio que se seguiu já poderia ter respondido a pergunta dele.
–Pelo Sul – Respondeu Herman, dessa vez com o sorriso se apagando.
Andhrimír hesitou, e trocou o peso das pernas. Parecia não ter escutado direito.
–Pelo Sul? – Perguntou.
–Pelas Terras Longínquas.
Andhrimír quase engasgou.
–Pelas Terras Longínquas?! – Gritou ele.
–Fala baixo – Alertou o amigo, olhando em volta.
–Herman, isso é ir longe demais – Exclamou ele – Aquelas terras são amaldiçoadas. Nenhum pé do bem que pisa lá volta para contar história. Aquele chão é infestado de Orcs, Demônios, Dragões, criaturas do submundo Herman! Não há sequer uma cidade onde possa se abrigar naquelas terras. Você não pode passar por lá!
–Calma Andhrimír! – Herman tentou acalmar o amigo, diante da enxurrada de avisos – Isso não é totalmente verdade. Os mapas do meu pai indicam uma vila de Goblins logo do outro lado das montanhas. Posso me abrigar lá por um tempo.
Andhrimír continuava de olhos arregalados, atônito.
–Não dá, Herman. Esquece isso cara, por favor. Arruma outro caminho. Você não sobrevive nem um dia lá!– Exclamou ele, levantando as mãos.
Herman suspirou. Ele sabia que certas histórias ganhavam notoriedade entre o povo, e, na maioria das vezes, eles inventavam coisas em proporções exageradas, criando uma fama falsa. Mas sabia também que os boatos sobre as Terras Longínquas não eram nem um pouco falsos. Pra falar a verdade, ele não estava tão certo de que esse seria o melhor trajeto a se fazer. Mas também não queria que sua fuga fosse frustrada por Amandor. Ele talvez só tivesse essa chance de fugir.
–Olha – Continuou Herman – Eu escolheria outro caminho se pudesse, com toda certeza. Mas eu não posso. E eu já tenho um plano.
Andhrimír já abria a boca para fazer mais um discurso de desencorajamento, mas Herman interrompeu:
–Não! Deixa eu falar! – Exclamou ele, levantando a mão.
Andhrimír fechou a boca, tristonho.
–Já faz bastante tempo que eu estudo os mapas do meu pai, e há algum tempo comecei a procurar uma rota que me levasse para o Norte, além da própria estrada do Norte. Eu queria conhecer todos os caminhos possíveis, pois como você sabe, eu pretendia fugir um dia. Acontece que eu descobri.
Andhrimír continuou fitando o amigo, se segurando para não falar.
–Existem algumas passagens que cruzam as montanhas para levar até o outro lado. Se os mapas estão certos, existe uma muito próxima da Trilha da Montanha, quase uma continuação da própria trilha pelas montanhas. Essa passagem pode me levar até o outro lado, e não para por aí. Um outro mapa mais detalhado mostra uma continuação dessa trilha do outro lado da montanha. Essa trilha faz uma curva para a esquerda, seguindo bem perto das montanhas (onde é mais seguro), e passa pela Vila Pata Verde, levando até a costa Leste. Depois disso, a trilha segue bem perto do mar, costeando toda a região e passando por trás das montanhas dos Anões Amarelos, finalmente levando ao seu destino final, a cidade do Porto Claro.
Andhrimír finalmente falou, dessa vez com a voz controlada:
–E você acha que vai conseguir cruzar as montanhas, atravessar as Terras Longínquas, costear o país todo, passando perto de um reino de Anões, para finalmente chegar até Porto Claro, tudo isso sem nenhum problema?
Quem não falou nada dessa vez foi Herman. Ele sabia que o amigo estava certo, e começava a duvidar se teria coragem para pôr seu plano em prática. Ele já tinha se pego algumas vezes calculando suas chances de fazer todo esse percurso e chegar vivo na cidade. E as chances não eram muito boas.
–Pois é – Herman admitiu – Você está certo. E eu não espero conseguir fazer esse longo percurso sem encontrar problemas. Mas estou disposto a tentar, e gostaria que pudesse me apoiar.
Andhrimír levantou levemente as sobrancelhas, mas não respondeu. Em vez disso, perguntou, ainda com um pouco de relutância na voz:
–E quanto àquela vila de Goblins que você falou? Acha que pode conseguir alguma proteção lá? Acho que uma vila que consegue se manter num ambiente tão hostil como aquele, deve ter um poder militar poderoso. Talvez consiga se abrigar lá.
–É o que espero – Respondeu Herman – Pelo que fiquei sabendo é um lugar seguro. Uma vila de Goblins como qualquer outra. Minha esperança é chegar lá o mais rápido possível, assim que pisar naquelas terras. Depois tentarei me abastecer o melhor que puder e seguir viagem. Assim que conseguir chegar à costa, meu caminho com certeza será mais tranquilo.
Andhrimír olhou para ele por uns instantes, e depois balançou a cabeça.
–Se não posso te impedir de ir, então vou fazer tudo para que vá com segurança. Sua vida agora também é minha responsabilidade.
Herman olhou com ternura para o amigo. Percebeu que se arrependeria muito se tivesse resolvido fugir sem falar com ele.
–Tem algo que eu possa fazer para te ajudar? – Perguntou Andhrimír.
–Na verdade – Respondeu Herman – Tem sim.
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