O Pórtico do Mal
5 Capítulo 5
Os homens ficaram encantados à primeira vista. As flores coloridas inundavam a clareira em torno dos Três Túmulos, num círculo perfeitamente redondo. Amandor podia jurar que todas as flores daquele local pareciam estar apontadas para os túmulos, como numa reverência. Até as árvores em volta da clareira pareciam mais curvadas, como se quisessem proteger os túmulos do Sol ardente e das chuvas desgastantes. Mesmo assim, as flores pareciam manter uma distância simétrica das pedras, como se não fossem dignas o suficiente de espalhar seus perfumes sobre elas.
Apesar do nome — Três Túmulos — eram apenas três lápides de pedra, lado a lado, que não continham inscrições. Dizia a lenda, que ali jaziam os corpos dos três primeiros habitantes da Terra, os Tús. Embora a maioria pensasse que os primeiros habitantes da Terra tinham sido Elfos, isso não era verdade. Os Tús tinham sido humanos, o que talvez não agradasse tanto os seres de orelha pontuda, que ocasionalmente contavam uma versão diferente da história.
O fato é que, quando a Terra começou a ser povoada por outros habitantes, e as raças diferentes começaram a aparecer pelo mundo, as batalhas não tardaram a começar. Logo, a paz conhecida pelos Tús tinha acabado. Eles, tristes por essas guerras, cavaram seus próprios túmulos e se enterraram. A localização desses túmulos ainda era discussão pelos povos do mundo. Alguns sábios pareciam não aceitar que o descanso dos Tús poderia ser num país tão pequeno e “irrelevante” quanto Cassos.
Mas Amandor e os cavaleiros não tinham dúvidas de que ali eram os Três Túmulos naquele momento. O local emanava uma energia poderosa e inexplicável, que fazia os homens se sentirem seguros. Logo, a cautela e o medo sumiram rapidamente, e os homens encararam o Oeste com armas em punho, prontos para o combate.
–Incrível – Disse Brok, franzindo a testa. Os demais concordaram.
Amandor desviou a atenção dos túmulos e das flores e fitou o Oeste, cauteloso, ao contrário dos companheiros. Eles tinham se deixado dominar facilmente pelo efeito encorajador do lugar, e isso poderia ser perigoso nessa situação. Pareciam ter esquecido que aquele local era apenas um ponto de referência para um outro.
–Atenção homens — Chamou ele, com a voz meio falha — Preparem-se para a batalha. Mais algumas milhas em direção à costa. Lembrem-se: cidades já foram dizimadas por pequenas quantidades dessas bestas. Não estamos seguros.
O modo como ele pronunciou a última frase fez com que os homens voltassem a si. Os olhos, novamente nervosos, se voltaram para o Oeste, ignorando agora a beleza da clareira. Poucos ali eram os que já tinham visto algumas dessas criaturas. Menos ainda os que tinham lutado. Na verdade, só Gwen já tinha enfrentado um Demônio de verdade em sua vida, e não tinha boas recordações
–Vamos lá.
Com uma última olhada para trás, Amandor saiu na frente. Os cavaleiros se afastaram da clareira e começaram a rumar em direção à costa. Espadas, arcos e lanças seguiram lado a lado pela floresta, rumo ao objetivo final. Os homens engoliam em seco e pareciam extremamente nervosos. Não era para menos. Nem Amandor se sentia tranquilo, e também caminhava com a espada em punho.
Talvez fosse só a sombra das árvores, ou o tempo fechando acima da cabeça deles, mas Amandor achou que o ambiente tinha escurecido rápido demais. Não parecia mais uma manhã, e sim um fim de tarde. A expressão dos homens, que não paravam de olhar para cima, dizia que também tinham percebido a mudança.
Qualquer observador naquele momento teria notado que os cavaleiros caminhavam em formação de combate, mesmo que eles mesmos não tenham percebido. E qualquer observador mais atento ainda, teria notado que apenas um homem do grupo parecia relaxado: Moroveu. Acontece que Amandor era um observador atento, e notou o sorriso de deboche do homem.
–Qual é a graça? — Perguntou ele.
Moroveu riu e respondeu:
–Não acha que vamos achar algo, acha, senhor?
–E por que tem tanta dúvida? — Retrucou Amandor.
Moroveu pensou um pouco, franziu os lábios, e respondeu:
–Uma das coisas das quais me orgulho – Disse ele – É ter tido contato com tantas pessoas ao longo da minha vida. Você pode achar isso irrelevante, assim como muitas pessoas acham, mas pode acreditar em mim: quanto mais pessoas um homem conhece, mais experiente ele fica.
–E o que isso quer dizer? — Perguntou Amandor, interessado.
–Quer dizer que conheci muitas ciganas na minha vida – Respondeu ele – E nenhuma me provou que o dom de saber o futuro existe realmente. Só Deus sabe quantas vezes eu “morri” nas mãos dessas ladras vagabundas.
Moroveu deu uma risada amarga, e cuspiu no chão. Era um homem duro, e acima de tudo incrédulo. Daqueles que só acreditam no que veem.
–Se o Conde é bobo a ponto de mobilizar dezesseis cavaleiros para uma viagem, simplesmente porque uma cigana disse que ele deveria, eu não sou – Disse ele.
Amandor pensou nas palavras dele por um instante. Caminhou mais alguns passos, depois respondeu:
–De fato, você tem essa grande vantagem sobre os outros – Disse ele – A vantagem de ter conhecido muitas pessoas. Mas isso não vale de nada quando você não consegue aprender nada com elas.
Um trovão ribombou ao longe. Nuvens pesadas pairavam sobre o grupo.
–Um dos grandes defeitos dos homens é julgar sem conhecer. E digo mais: Kuldran só existe até hoje por causa daquela cigana.
–O que você quer dizer com isso? — Perguntou Moroveu, franzindo a testa.
Um homem pisou num galho de árvore, que estalou.
–Quando eu tinha apenas 7 anos, algo inusitado aconteceu na cidade; uma louca começou a percorrer as ruas de Kuldran, gritando furiosamente a todos que quisessem ou não ouvir, sobre um grupo de Orcs que se aproximava para destruir a cidade.
Amandor molhou os lábios. Moroveu o encarava, esperando curioso.
–O fato é que aquela gritaria chegou aos ouvidos do Conde (Conde Klaus, antecessor do atual Conde Rhold), que mandou os soldados se prepararem, juntamente à população. Ele também mandou um corredor até os limites da cidade, para averiguar as verdades naquele fato. E para a surpresa do próprio corredor, dois pequenos exércitos de Orcs vinham descendo dos dois lados da colina, armados até os dentes. O corredor alertou o Conde, que preparou uma emboscada para os Orcs. Um pequeno grupo de soldados os atraiu para dentro da floresta, onde o restante do exército esperava, já em posição estratégica. Os Orcs foram recebidos com uma chuva de flechas. Foram mortos aos montes rapidamente, enquanto do nosso lado houve pouquíssimas mortes. Isso tudo porque tínhamos sido avisados por uma reclusa cigana.
Amandor trocou a espada de mão.
–Imagine ser pego de surpresa por dois grupos de Orcs que te atacam por duas direções diferentes? Massacre na certa. Mas não foi isso que aconteceu, e graças àquela cigana.
Moroveu desviou o olhar, mas não falou nada.
–Muito foi dito depois – Continuou Amandor – Uns diziam que ela tinha feito um trato com os Orcs e depois os traído, entregando sua localização para o Conde para poder ganhar notoriedade, fingindo ter previsto o ataque. Outros diziam que ela simplesmente tinha visto a aproximação dos monstros enquanto passeava pelas colinas, e aproveitou a ocasião para se autopromover. E alguns poucos diziam que ela tinha realmente previsto aquilo. Ninguém sabe até hoje com certeza. Mas que ela salvou nossa cidade, ninguém tem dúvidas. E o Conde, mesmo que não seja o mesmo, seria muito inocente se não desse atenção a essa nova previsão dela.
–Eu não sabia – Respondeu Moroveu, pela primeira vez.
Amandor concordou com a cabeça.
–E nem tinha como – Respondeu ele – Você chegou na cidade muitos anos depois desse episódio.
Moroveu concordou. Tinha se mudado para Kuldran depois de seus 20 anos, com o objetivo de se tornar cavaleiro do Rei.
–Não estou dizendo que a cigana seja pra valer, veja bem – Disse Amandor – Até porque não se sabe de nenhuma previsão que ela tenha acertado depois desse episódio.
Moroveu ergueu uma sobrancelha.
–Mas é aqui que estamos agora – Prosseguiu Amandor — O Conde nos mandou aqui para cumprir uma missão. Fazemos isso por ele e pela segurança das pessoas. Nós juramos isso. E se a cigana estiver errada, nós fizemos nossa parte.
Depois de um silêncio:
–Tem razão – Moroveu concordou, um pouco arrependido – Você está certo.
Amandor não era escolhido para liderar à toa. Era inteligente e experiente, qualidades raras para um cavaleiro. Não sabia se tinha convencido ele realmente, porque homens daquele tipo eram os piores para se tentar convencer, mas Moroveu parecia menos confiante agora.
Ele deu um tapinha no ombro do companheiro:
–Não deixe que sua incredulidade mate você, Moroveu. — Disse ele, se afastando.
Amandor voltou sua atenção para o caminho. Agora o tempo estava mais escuro do que nunca. Ele não se lembrava de ter visto uma manhã tão sombria quanto esta. As nuvens carregadíssimas pairavam exatamente em cima da cabeça dos homens. Apenas um furinho de agulha nelas bastaria para trazer o dilúvio àquela floresta.
–Olhem só isso.
Agarth estava agachado sobre algo, mais à frente. Era uma pegada. Bem maior do que uma pegada normal.
–Demônios – Disse Amandor.
Os homens olharam em volta, nervosos.
–Quanto tempo? — Perguntou Amandor.
–Alguns dias – Respondeu Agarth – A chuva apagou quase todas as pegadas. Só vejo essa. Mas não passaram por aqui recentemente.
Amandor olhou em volta, procurando alguns sinais, mas nada parecia diferente ali.
–Vamos seguir.
Eles retomaram o passo. Não muito tempo depois, um cheiro diferente chamou atenção de Amandor. Um deles comentou no mesmo instante:
–Sal. Estamos perto do mar.
Se estavam perto do mar, estavam perto da costa. Se estavam perto da costa, estavam perto do local. Poucos minutos depois dessa inteligentíssima análise de Amandor, um homem que ia mais à frente parou abruptamente.
“Está lá!” Era o que seus gestos diziam.
E lá estava ele, num descampado logo mais à frente. “Algumas milhas à Oeste dos Três Túmulos, estará o portal”. Amandor fez sinal para que os companheiros se espalhassem e avançassem em um círculo. Eles começaram a se aproximar, rodeando o portal.
O portal era um arco de pedra, com aparência antiga. Nas suas duas colunas haviam runas que Amandor não podia ler. A grama ao redor do portal estava completamente queimada, num círculo perfeito, exatamente igual ao círculo de flores dos Três Túmulos. Mas ao invés do perfume de flores, havia um terrível cheiro de carne podre e morte, característicos dos Demônios. Amandor ajoelhou e começou a estudar o pórtico, com todo o cuidado.
A maioria dos cavaleiros olhava em volta, com os arcos, espadas e lanças prontos. Como se pudessem fazer muito com aquelas armas… Amandor entendeu por que estavam se sentindo menos inseguros com o portal do que com suas retaguardas desprotegidas. Faltava alguma coisa naquele portal. A energia demoníaca que ele sabia que deveria encontrar no centro do portal não estava presente. Aquilo era apenas um arco de pedra. Ele ameaçou atravessar o arco, mas um homem o agarrou de volta.
–Ficou louco?! — Sussurrou o homem, olhando em volta nervoso.
Amandor se desvencilhou.
–Está tudo bem – Disse ele.
Tendo como reprovação os olhos arregalados dos companheiros, Amandor atravessou por baixo do arco do portal, duas vezes. Nada aconteceu.
–Podem abaixar as armas – Disse ele.
Nenhum homem obedeceu sua ordem. Amandor suspirou.
–O portal já foi fechado – Disse ele – O grupo de Demônios que saiu daqui, com certeza já está longe. O que me preocupa é que talvez estejam indo para Kuldran ou Listrabon. Não podemos perder mais nenhum tempo aqui.
–E esse portal? — Perguntou um homem, apontando a lança para ele.
–É só um arco de pedra agora. A não ser que alguém aqui possa ler essas runas. Agarth?
–Não posso – Respondeu ele.
Amandor assentiu e arriscou uma olhada para Moroveu. Sua face não demonstrava nada.
–Além dos Demônios soltos por aí, temos outro problema: se esse portal foi fechado, um novo foi aberto em algum lugar. E eu não sei aonde.
Amandor esfregou as mãos na cara e suspirou. Tinha que voltar para Listrabon o mais rápido possível. Herman e Bela não estavam seguros lá. Ele precisava tirá-los daquela vila.
Por um momento o grupo ficou parado ali, sem reação alguma. Depois, finalmente, a chuva começou a cair, o que foi um certo alívio. Por baixo daquela cortina de gotas espessas, Amandor resmungou para si mesmo:
–Preciso avisar O Mago.
–----------------------------------------------------------------------------------
Os pés de Doffus estavam doendo. Tinha caminhado durante todo o dia, poupando seu cavalo cansado. Ele já nem podia mais contar a quantos anos caminhava por aí, mas parecia que isso não fazia diferença para seus pés. Eles não se acostumavam.
A noite já ia alta, e as estrelas iluminavam a areia da praia. A areia do Leste sempre era macia, ele nunca soube o porquê. Tinha muitas coisas que ele não sabia, mas isso era necessário. Isso ele sabia.
Doffus se afastou um pouco da praia e sentou, apoiando as costas num tronco de árvore. Afagou as barbas grisalhas e ficou fitando o mar por um tempo, vendo como ele invadia a areia e depois voltava. Era bonito, e significava muito ao mesmo tempo.
Ele afastou esses pensamentos e sacou o cachimbo. Colocou-o na boca e começou a procurar o isqueiro. Não estava em nenhum dos seus bolsos. Doffus soltou um leve assovio. Seu cavalo apareceu do meio das árvores.
O cavalo branco virou de lado, como se soubesse que seu dono queria pegar a bolsinha da sua sela. Ele começou a procurar. Pergaminhos, bolsinhas de ervas, frascos de temperos. Nada de isqueiro. Ele suspirou. Teria que improvisar.
Ele deu um tapinha na lateral do cavalo, que voltou trotando para as árvores. Depois passou os dedos sobre o cachimbo. Resmungou umas palavras, e o cachimbo se acendeu. Não que precisasse resmungar nada. Ele não precisava. Fechou os olhos, deu uma baforada, e começou a meditar.
Fale com o autor