O Natal de 4203
2 Segundo Ato
A Gray Web era a camada da internet localizada entre a Superfície e a Deep Web, e diferente desta última, não requisitava tanta perícia para ser acessada, possibilitando que seu conteúdo fosse consumido pela grande massa de usuários. Era o ponto de encontro preferido dos grupos políticos radicais e também para venda e consumo de conteúdo ilegal, sem qualquer risco de ser pego. As mentes por trás dos sistemas de segurança da Gray Web se equiparavam ou até ultrapassavam as que cuidavam desse setor na Superfície.
— Trata-se de um produtor de conteúdo para uma famosa página de audiovisual dentro daquela camada – continuou o policial — Ele faz os vídeos, ganha milhares de visualizações e recebe muito bem por isso. No mês passado ele incendiou uma mercearia por considerar os preços das mercadorias abusivos.
Alberto pareceu confuso:
— Espere aí Seb, essa não é bem a minha área. Ele simplesmente destrói o patrimônio alheio e fica famoso por isso?
— Sim, mas não é simplesmente causar baderna. Existe todo um contexto, como mencionei anteriormente. Ele entrou no estabelecimento, expôs os preços mais elevados se comparados aos de outros mercados, criou um cenário em que o dono do lugar representava a figura vilanesca de um capitalista opressor, enfurecendo assim o público que assiste esse conteúdo, e por fim executou o ato de “justiça”.
O ex-Ombreiro pareceu, enfim, ter compreendido a situação:
— Entendo...um Robin Hood da internet.
— E não para por aí – Prosseguiu o policial – ele já postou anteriormente uma execução a um grupo de dependentes químicos. Por isso precisamos ficar bem atentos, estamos falando de um carinha que não põe limites na efetivação do seu próprio ideal de sociedade – e completou. – Há alguns dias ele fez uma postagem avisando que estava preparando um vídeo surpresa para o natal, e baseando-se no estudo que foi feito sobre o modus operandi dele, há uma possibilidade considerável de o palco dessa vez ser esta ilha.
Junia então refletiu:
— Ele entrega aquilo que o povo gosta de ver: o caos e a desgraça alheia. Esse insurgente simplesmente arranjou um jeito de ganhar dinheiro reproduzindo o desejo oculto de muitas pessoas.
Os outros dois concordaram.
Depois disso, o policial explicou que o nome do insurgente dentro da Grey Web era “O Pacifista Vermelho”, e que ele escondia sua verdadeira identidade com um capacete. Em seguida, mostrou uma foto pelo celular. Junia esticou o pescoço e viu uma imagem 3x4 que exibia um rosto coberto por um capacete de cobre com alguns detalhes em material fosco nas regiões abaixo do nariz e acima dos olhos, que por sua vez eram cobertas por uma viseira num tom muito semelhante ao do céu noturno. Lembrava um pouco o aparato utilizado pelos personagens daquelas séries animadas antigas que a garota assistia na Tv.
O policial finalmente ligou o carro e eles começaram a se dirigir ao local da entrega dos materiais comprados. Após fazer um zigue-zague por algumas ruas, o veículo saiu na estrada principal, que se estendia em uma linha reta a qual não era possível enxergar o fim. Nas extremidades dessa rota ficavam enormes torres de energia conectadas por fios transparentes praticamente imperceptíveis se vistos de longe. Durante cerca de quarenta minutos, a paisagem observada por Junia com a cabeça quase encostada na janela do automóvel, se resumia a essas torres, alguns rochedos remanescentes da paisagem natural que caracterizou essa terra em um passado muito distante, e algumas poucas construções irregulares, bem espaçadas entre uma e outra. Até o policial falar:
— Bem...agora é a parte que eu protejo esse carro pra proteger meu emprego – e apertou um botão no painel do motorista, momento em que um leve coice pôde ser sentido pelos três que lá estavam, quando o gás nitro foi ligado e as rodas do automóvel suspensas, então este passou a viajar rente ao solo.
Junia viu poucos minutos depois a paisagem urbana começar a se formar novamente, dessa vez na forma de locações em formato paralelepipédico, com algumas quadráticas em cima das anteriormente mencionadas. A imensa maioria estava pintada com tinta transformadora, responsável por dar tons de novo e esconder praticamente qualquer imperfeição que houvesse no concreto por trás da pintura, além de dar a falsa impressão de que a cor escolhida e o material do qual a casa fora construída, fossem os mesmos. Por exemplo, uma casa pintada com tinta transformadora de metal fosco dava a sensação de que a moradia realmente foi construída com este material. O mesmo ocorria com a madeira, o ouro ou o cobre, dentre outros.
O policial virou à esquerda e entrou numa rua mais estreita, com alguns buracos e imperfeições em seu asfalto já desgastado. O motivo dele ter suspendido as rodas ficou claro neste momento.
Enquanto o veículo seguiu em frente por mais cerca de cinco minutos, Junia continuou observando a vista em volta, pois nunca antes estivera deste lado da ilha. Observando o quão mais carente era esse lugar em que os “excluídos” da nobreza moravam, ela se lembrou das histórias dos povos ancestrais que acreditavam que o futuro teria um cenário bem mais radicalizado do que aquilo que realmente veio a ser. Imaginavam cidades altamente High-Techs flutuando pelos céus e automóveis voadores que viajavam por estradas sem solo. A garota riu com o quão sonhadoras essas pessoas eram, algumas dessas previsões até podem ter se concretizado, mas fora do planeta Terra, pois o velho mundo há muito deixara de ser o foco de investimento das grandes potências. E isso foi ótimo, pois só com A Grande Rachadura e a eventual expansão do sistema solar com novos mundos habitados por humanos, o planeta água conseguiu enfim ter um descanso depois de milênios de agressão.
Eles alcançaram uma praça circular, que dava acesso a três outras ruas. O carro seguiu em frente passando pelo lugar enfeitado com pinheiros de natal reluzentes como os da região nobre da ilha, só que bem menores, e logo na esquina da rua seguinte o policial parou o automóvel rente ao meio fio da calçada onde em frente se encontrava um grande casarão. Ele tornou a descer as rodas e então desligou o carro.
Os três saíram e foram até o porta-malas retirar as compras. Na porta daquele casarão já haviam duas pessoas à espera deles, uma senhora de idade e um homem alto e magricela. O lugar tinha um terreno bem extenso, cheio de árvores em volta e ainda assim com bastante espaço vazio. Cerca de trezentos metros ao fundo havia uma escadaria que dava acesso à residência, cuja aparência era de ser bem antiga. Tratava-se de uma casa de amparo.
— Boa tarde, sinto pelo atraso, mas é que o distrito comercial estava bem cheio. — Falou Alberto, logo que chegaram
— De forma alguma, muito obrigado pela ajuda de vocês. – Agradeceu a senhora de idade.
Eles adentraram a residência carregando as bolsas de compras. Lá na frente, em cima da escadaria, mais três pessoas aguardavam. Eles subiram e então passaram adiante tudo o que compraram, deixando que os funcionários da casa de amparo levassem os mantimentos para dentro. A mulher mais velha, que aparentemente era a chefe do lugar, agradeceu novamente, retirando do bolso algumas notas de dinheiro, mas Alberto e o policial recusaram:
— Ah, isso não é necessário, guarde para a ceia das crianças. Só estou fazendo isso para me distrair um pouco e viver alguns momentos nostálgicos. – Riu o ex-Ombreiro.
A senhora então disse que os acompanharia de volta até a entrada. Junia foi a primeira a recomeçar a descer o lance de escadas, mas quando pisou no penúltimo degrau ouviu um leve gemido. Ela olhou para trás e viu o avô trincando os dentes, como se estivesse sentindo algum tipo de dor. Ele perdeu levemente o equilíbrio, mas apoiou-se no corrimão da escada, antes de se sentar em um degrau.
— O que foi Albie? Tudo bem? – Questionou o policial, preocupado.
Alberto levou alguns segundos recuperando o ar, então respondeu:
— Sim, eu estou...na medida do possível, é claro. Parece que meu corpo realmente está clamando por aposentadoria total, embora eu continue insistindo em não aceitar isso. – disse com certo pesar.
A dona da casa de amparo fez cara de susto, e falou antes de entrar correndo dentro do casarão:
— Oh, eu vou buscar um copo d’água para o senhor. Fique aí sentado!
Junia tornou a subir alguns degraus até o avô, um pouco apreensiva:
— Acho que não dá mais pra você ficar fazendo certas coisas. Pode deixar comigo agora, eu dou conta do recado.
Alberto a encarou, e seu olhar parecia distante:
— Pois é, talvez você tenha razão. Talvez seja a hora de passar o bastão mesmo – e fez uma pausa – eu já vivi muitas aventuras nessa vida, certamente. Se tem algo que não posso reclamar é de não ter feito o que gostaria – e tornou a fazer outra pausa, um pouco mais longa, a dona da casa de amparo retornou com o copo de água nesse meio tempo – Mas as vezes é... difícil largar algo que fez parte de você por tanto tempo.
— Você tem cento e três anos Albie – retrucou o policial – pense que fez muito mais coisas que qualquer ser humano dos povos ancestrais. Por que não pega um assento no camarote e assiste a União Solar se apoderando de todos os planetas da galáxia enquanto toma uma cerveja? – brincou ele, dando um leve sorriso.
Alberto retribui:
— É...ao que parece é minha única opção de divertimento agora, não é mesmo?
Horas depois, Junia estava esparramada em sua cama, com as mãos atrás da nuca e encarando o teto extremamente branco de seu quarto de tamanho modesto. As paredes laterais e o piso na mesma cor minimalista, mas com listras verdes em diagonal. A decoração incluía alguns espaços em formatos geométricos na parede, que abrigavam fotografias da infância, da formatura no colégio bem como do certificado de graduação emoldurado em vidro cristalino. Se a garota tivesse vivido dois mil anos antes, tinha a certeza de que seus pais também encheriam as prateleiras com livros físicos acadêmicos dos mais renomados cursos. Provavelmente ela faria o mesmo que faz com os digitais: nunca leria. Em cima da escrivaninha, alguns panfletos de faculdades de Rowen, um celular, um monitor e dois sacos de doces ainda fechados, que comprou na volta do “passeio” com o avô.
Ela saltou da cama e correu até a porta, passando pela poltrona e pelo guarda-roupas. Deu uma olhada para garantir que realmente estava sozinha em casa e seus pais e a irmã mais velha tinham saído para jantar. Junia alegara que tinha comido na rua e ficaria em casa estudando, o que fez o pai e a mãe demonstrarem um semblante resplandecente.
Tornou a trancar a porta do quarto e falou sozinha, antes de se jogar na cama novamente:
— Desbloquear celular e ligar para o T.
O celular em cima da escrivaninha reagiu sozinho, e cerca de um minuto depois uma voz masculina e jovial ecoou em alto e bom som:
— Junia! E aí...você não costuma me ligar. – falou o indivíduo num tom um tanto tímido.
— T, eu preciso da sua ajuda. O que sabe sobre um tal de Pacifista Vermelho da Gray Web?
— Vish, ele é um produtor de conteúdo bem famoso por lá, só que o cara é louco! Ele fez alguns vídeos bem tensos...
— É, disso eu já tô sabendo. Só que parece que o próximo vídeo vai ser nesse natal e há uma boa chance de o palco ser a minha ilha.
— Bem...se ele se intitula um justiceiro do povo, quem mais o cara poderia incomodar no natal a não ser os ricos que vão ter um banquete farto, né?
— Então você não sabe nada de útil? – Questionou Junia.
— Eu não fico assistindo os vídeos dele não, eu te disse que acho o conteúdo desse cara bem tenso. Só comprei uma chave da Gray Web pra expandir os horizontes, mas eu não dou moral pra essas ilegalidades não! – Falou, parecendo um pouco assustado
— Comprar uma chave da Gray Web também é uma ilegalidade, T.
— Sério? Ah, que droga, eu nem sabia. Pelo jeito tudo nesse mundo é ilegal, né? – disse em tom frustrado – De qualquer modo, eu vou ficar de olho nos passos dele aqui pra você, se descobrir alguma coisa eu te aviso.
— Valeu, pode me ligar a qualquer hora se descobrir algo. Ah, e feliz natal! – concluiu ela.
— Feliz natal, Junia! – respondeu, antes de desligar.
T foi uma amizade que Junia fez em um grupo virtual de aplicativo de celular para pessoas que buscavam troca de informações sobre como era ser um imigrante interplanetário, isto é, viajar da Terra para outros planetas sem um destino certo a princípio. T era da Ilha Leste e um grande entendedor do mundo virtual, sendo capaz de criar softwares que seriam muito úteis para corporações como a Polícia ou entidades ainda maiores como a FME, embora a maioria desses programas fossem ilegais. Contudo, certa vez ele havia dito a Junia que não gostaria de permanecer nesse meio, tendo o sonho de criar coisas diferentes, embora eles nunca tenham se aprofundado sobre esse assunto. Junia nunca o viu pessoalmente, mas já mencionara uma vez a ideia de que fossem para o espaço juntos.
No dia seguinte, pouco depois de almoçarem, Junia avisou aos pais que iria na sorveteria próxima do condomínio aonde morava pois estava com vontade de comer uma sobremesa diferente da que eles teriam para a noite daquela véspera de natal.
Ela saiu de sua residência e caminhou pelo corredor do terceiro andar enquanto observava o exterior pelas paredes de vidro reforçado. Do lado de fora via-se um complexo de residências inteiramente azul, já do lado de dentro era completamente transparente como o espelho. Ela entrou no elevador também feito inteiramente de vidro cristalino, e logo estava no térreo. Caminhou passando por alguns poucos veículos estacionados na garagem, já que aquele era um condomínio bem pequeno se comparado a outros da região, depois saiu na rua e se dirigiu à sorveteria, poucas dezenas de metros mais à frente.
O lugar era pequeno, mas bem chamativo. Tinha a escultura de uma casquinha gigante no telhado, cujas telhas também pareciam ter sido pintadas com sorvete napolitano até as pontas, que davam a impressão de estarem escorrendo e somente ao chegar perto percebia-se que o tal “sorvete derretendo” era duro como concreto. Na porta, um holograma de um boneco vestido de sundae falava com os transeuntes no intuito de atrair clientes.
Junia entrou no ambiente e logo viu Alberto apoiado em uma bancada bem no canto da sorveteria, ela se dirigiu até ele.
— Por que me chamou agora? Não vamos nos ver mais tarde? – ela perguntou.
— Vamos, mas queria te entregar uma coisa que não cairia muito bem se eu o fizesse hoje a noite. – Disse ele, enfiando a mão no bolso e retirando uma carta, entregando-a a Junia.
Foi a primeira vez que ela viu uma carta escrita em papel.
— Uma carta? Isso seria...meu presente de natal? – Tentou adivinhar.
O avô sorriu:
— Exatamente, mas não deste natal, do próximo.
Junia fez cara de confusa:
— Ué...mas se é do ano que vem por que está me entregando nesse? E não seria mais fácil enviar pro meu e-mail?
— Ora, eu acredito que exista uma certa magia e singularidade em escrever cartas com sua própria letra. Nem todos os hábitos dos ancestrais são de se jogar fora, afinal. Além disso, se você for mesmo se mudar, talvez eu não tenha outra oportunidade, sabe bem que os Kon Held não são meus maiores fãs.
A jovem ficou analisando o objeto envelopado por alguns instantes, período no qual um funcionário da sorveteria veio entregar duas casquinhas pedidas anteriormente por Alberto.
— Então ontem foi o nosso trabalho de despedida?
— Eu não sei. Talvez tenhamos uma outra oportunidade para uma saideira. – Respondeu tentando transparecer otimismo.
— Bem que essa saideira poderia envolver um pouco de ação, finalmente. Por que você não liga pro seu amigo policial e pede pra ele nos levar num dia em que a porrada for estancar com algum criminoso? Estou esperando por isso há muito tempo! – Seu semblante ficou empolgado.
Alberto sorriu:
— Ha ha ha, quem sabe?! – fez um minuto de silêncio e continuou – E você, já decidiu o que quer da sua vida? Vai se tornar Ombreira?
— Quem sabe?! – Ela respondeu, em tom de deboche.
Os dois aproveitaram o sorvete e conversaram sobre outras tarefas que haviam realizado juntos ao longo dos últimos seis anos. Junia definitivamente lavava a alma e tranquilizava seu espírito todas as vezes que saía com Alberto, a única coisa que a mantinha fria o suficiente para aguentar o incômodo quase que diário dos pais falando sobre seu futuro acadêmico e qual profissão lhe renderia mais dinheiro.
Naquela noite, não muito longe dali, um sujeito caminhava lentamente por uma rua onde talvez se localizassem os condomínios com as residências mais valorizadas da ilha. Ele falava ao celular, enquanto mantinha a outra mão dentro do bolso do sobretudo marrom escuro que usava.
— Já está posicionado no lugar certo? – Questionou com uma voz leve e tranquila.
— Já, deu um pouco de trabalho, mas já achei o certo. A mão de obra vai custar um pouco mais cara dessa vez, e se me pegarem? – Disse a voz masculina do outro lado da linha.
— Eu te livro depois, relaxa. Vamos começar, então.
O sujeito retirou a mão do bolso, repleta de mini câmeras automáticas.
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