O Natal de 4203
3 Ato Final (Parte um)
Notas iniciais
Quando Alberto chegou para a ceia de natal, a família já estava toda reunida na sala de estar, como de costume. A irmã mais velha de Junia conversava com alguns primos em um canto. Em outro estavam a mãe, o pai, o avô ranzinza e os tios da jovem de cabelos azuis, que se encontrava deslocada dos demais, comendo o banquete daquela noite, longe de ser tão farto quanto já fora um dia.
— E então, já decidiram pra onde vão se mudar? – Perguntou Alberto ao grupo dos mais velhos, tentando se enturmar no assunto.
— A Ilha Oeste me parece um bom destino, eles tem sido os mais afetados com toda essa crise econômica, o que significa que essa é uma boa oportunidade para alguém com visão empreender por lá. – Disse o Senhor Kon Held.
— Oh, dá para perceber quão aguçada é a sua visão, tanto que em dezenas de gerações esta é a primeira vez que a família Kon Held se vê forçada a deixar a região mais nobre de Rowen! – Debochou o sogro ranzinza, e os dois ficaram se encarando por um tempo.
Junia ouviu essa conversa e escondeu uma risada enquanto mastigava o panetone. Depois ela foi se juntar aos primos e à irmã, todos mais velhos que ela e com uma carreira profissional encaminhada. Sua irmã, por exemplo, havia acabado de se formar como engenheira espacial, e trabalharia a partir do vindouro ano no espaçoporto de Rowen. Com essa formação muitos jovens conseguiam viajar para fora da Terra, pois era um mercado em constante crescimento e nos outros planetas era uma profissão extremamente requisitada, fosse para trabalhar em espaçoportos ou então em aeronaves de exploração. Todavia, para a satisfação dos pais, a irmã de Junia continuaria na Terra, isso porque muitos que iam embora do planeta acabavam nunca mais regressando, e não era tão raro casos de filhos que partiam e deixavam seus pais para trás sem nunca mais retornar ou vice-versa. Este era o famoso “ideal de vida extraterrestre”. Se Junia cursasse Engenharia Espacial como sua irmã, ela ficaria mais próxima do seu sonho de se aventurar fora da Terra, mas ela não desejava isso para si, havia considerado tal possibilidade anos antes e logo descartado pela incompatibilidade entre as funções que exerceria como engenheira e aquilo que realmente ela gostaria. O estilo de vida Ombreiro era o que mais se aproximava, mas ela não tinha certeza ainda de que era essa a resposta. Ela queria se aventurar no espaço e descobrir tudo que existia além do globo terrestre para só então escolher seu caminho, afinal quem realmente tem a certeza do que quer para o resto da vida sem arrependimentos posteriores aos dezesseis anos de idade?
E então tudo apagou. De repente, a residência dos Kon Held se tornou um breu total.
— Era só o que faltava! Por acaso você não tem dinheiro nem para a conta de luz? – Vociferou o avô rabugento para o pai de Junia.
— Não diga tolices, é óbvio que eu paguei a conta! Dê uma olhada pela janela, o bairro inteiro está sem luz! – Retrucou o homem.
E de fato estava. Alberto foi até a janela, apertou o botão de abrir e meteu a cara para fora, dando uma boa olhada num ângulo de cento e oitenta graus no intuito de confirmar que não havia luz em lugar algum dentro do raio de sua visão.
— Os geradores do condomínio vão ligar em poucos instantes, não é preciso ficar brigando agora. – Tentou apaziguar os ânimos a mãe de Junia.
A garota também foi até a janela dar uma olhada:
— Será que foi só nessa região ou na ilha inteira? – Indagou ao ex-Ombreiro.
— Não dá pra confirmar ainda, mas tenho o palpite de que foi só aqui. Dê uma olhada lá em cima, a neve continua caindo e as estrelas ainda estão brilhando. A redoma artificial está ligada ao transformador principal da ilha, se ele tivesse sido danificado então a redoma não funcionaria mais. – Ele abaixou o tom de voz, verificando antes se os demais presentes estavam distraídos em meio aquela escuridão – Lembra-se do lugar onde passamos ontem? As torres de energia?
Junia balançou a cabeça assertivamente.
— Para cada determinada região existe um ponto central de controle em meio aquelas torres, com um receptor responsável. É provável que o daqui tenha sido danificado...ou desligado. – Falou em tom de preocupação.
Foi como se o mesmo pensamento começasse a brotar na cabeça de Alberto e de Junia ao mesmo tempo, porém eles preferiram deixar essa ideia amadurar antes de qualquer conclusão.
O gerador finalmente entrou em funcionamento e as luzes do condomínio onde eles estavam voltou a se acender. Mas percebia-se que as ruas ainda estavam bem escuras, o clima natalino acabou sendo cortado por esse acontecimento.
Cerca de quinze minutos depois, o celular no bolso de Alberto tocou. Ele se dirigiu até o corredor, se afastando um pouco dos outros. Junia disfarçou e se aproximou para prestar atenção à conversa, a fim de saber se era algo relacionado ao recém-ocorrido. Do outro lado da linha ela percebeu que estava o policial Sebastian, que forneceu a carona no dia anterior. Mas a jovem não teve muito tempo de ficar bisbilhotando a conversa alheia, pois seu próprio celular tocou. Ela apressou-se a pegá-lo em cima da mesa de comidas, onde havia deixado. A letra “T” apareceu em destaque na tela.
— Junia! Foi mal te incomodar na noite de natal, mas...o pacifista vermelho acabou de abrir uma transmissão ao vivo na Gray Web. – Disse a voz de T em tom de urgência.
— O que? – ela arregalou os olhos — Então foi mesmo ele quem causou o apagão! Onde ele está agora?
— Apagão? Junia, ele está fazendo uma família de refém, são granfinos com certeza, ele não deve estar muito longe daí então...
— Em que lugar, T? Diga tudo que está acontecendo! – Exclamou.
A família percebeu que algo estava ocorrendo ao telefone e voltou a atenção para a jovem, afinal dava para contar nos dedos as vezes em que ela recebera ligações de algum conhecido, ainda mais em meio à noite de natal.
— Junia, o que foi? Com quem você está falando? – Perguntou a mãe.
Mas nesse momento, Alberto retornou do corredor com algumas notícias:
— Um Hacker atacou o receptor de energia desta região, por isso a luz caiu. A polícia já pegou ele, mas parece que há outro.
Todos fizeram aquela expressão de “minha nossa”, e o avô rabugento começou a resmungar, porém antes que este tomasse os holofotes, Junia interrompeu:
— É o pacifista vermelho, ele está em algum lugar aqui por perto fazendo pessoas de reféns. Um amigo acabou de avisar que ele está fazendo uma transmissão ao vivo na Gray Web.
A comoção entre os familiares começou a aumentar. Junia sabia que estava começando a falar o que não devia, mas essa não era a prioridade agora.
— A polícia já está ciente disso, mas ainda não tem a localização exata dele. – Declarou o ex-Ombreiro.
Junia lembrou-se de que deixou T pendurado na linha durante alguns momentos:
— E aí, T, já descobriu onde ele está? Faz alguma coisa! – Irritou-se ela.
Ele não respondeu de imediato, mas ela ouviu a voz dele um pouco distante falando sozinho. Ouviu frases como “anda, anda, muda o foco dessa câmera um pouco” e “um pouco mais de luz, só mais um pouco...”, e então ele soltou um gritinho e voltou para a ligação:
— Ele não é tão esperto assim, com certeza comprou os aparatos que usa de outros profissionais. Eu capturei algumas imagens do casarão onde ele está e botei pra escanear no programinha que criei. Vamos ter uma localização mais precisa em instantes...
Junia mudou de semblante para algo mais animado:
— Isso é sério? Cadê? Manda logo!
Nesse momento, Alberto disse que um carro da polícia já havia sido enviado para circundar a área, mas que não tinha encontrado nenhuma anormalidade até então. Porém, eles não podiam ingressar dentro dos condomínios e fazer uma busca mais apurada, pois a lei era bem clara quando proibia a invasão policial a qualquer propriedade privada sem autorização judicial, especialmente no período noturno. E afinal, como se conseguiria a autorização de um juiz em plena noite de natal?
— E quanto ao banco de dados da polícia? Eles não conseguem identificar os reféns pela imagem na transmissão e assim descobrir seus nomes e onde moram? – Indagou Junia.
— Eles estão sem sistema na delegacia da região, e também não possuem geradores. Seb me contou que vai levar cerca de trinta minutos pro conserto do receptor. – Respondeu Alberto.
Ela se lembrou do dia anterior quando o policial a advertiu veementemente de que a polícia não era uma boa escolha de profissão e que essa instituição estava sucateada há muito tempo, desde a ascensão da FME. Agora tudo ficava mais claro.
Foi aí que a voz empolgada de T ecoou nos ouvidos de Junia novamente:
— Achei! Achei! Tenho a localização do pacifista! Vou enviar pra você, é a rua Gabriel Higman, número 867.
— Ok, te ligo daqui a pouco, vou pra lá agora. – Respondeu ela, guardando o celular no bolso da calça – Em trinta minutos o pacifista termina o showzinho dele e consegue o que quer. Não dá pra esperar a polícia, vovô, temos que ir até lá agora!
Alberto tentou interpelar:
— Conseguiu o endereço, Junia? Diga-me qual é e fique aqui, esse cara é um criminoso real, você não sabe como lidar com uma situação dessas ainda, você só treinou comigo até hoje. – O avô pareceu ter se esquecido de que estava na frente de toda a família, que não fazia ideia das reuniões secretas entre ele e a neta.
— Se não me levar junto, nada de endereço. – Ela retrucou com um semblante perspicaz.
O avô a encarou por alguns instantes, então aproximou-se e pôs a mão sobre a cabeça da neta, afagando sua cabeça e esquecendo por alguns instantes da urgência da situação:
— Por que será que não estou surpreso com essa resposta? Você se tornou bastante audaciosa...mas agora é pra valer, eu espero que esteja ciente disso.
— Eu estou.
Quando os dois se deram conta, já era tarde. Os familiares estavam todos ali os encarando em silêncio. A mãe e o pai de Junia transpareciam a expressão mais incrédula dentre os presentes.
— Mas o que está acontecendo? – Questionou o genitor.
— Eu não tenho tempo pra isso agora, continuem aí discutindo o legado da família Kon Held – e acenou com a cabeça para o avô ranzinza, enquanto já se dirigia até a porta – e todos esses assuntos chatos que vocês falam todos os anos.
Alberto a seguiu no instante seguinte, apenas dizendo:
— Sinto muito meu filho – deu um tapinha nas costas dele — e querida norinha, mas fica pra próxima vez! – E correu para a porta.
Os dois se apressaram pelo corredor do condomínio, indo até o elevador e descendo até o térreo, enquanto observavam as ruas escuras naquela noite de natal. Em seguida correram apressadamente até o lado de fora daquele complexo habitacional, Junia reparou que estava bem mais rápida que Alberto, então diminuiu a velocidade de propósito para acompanhar o ritmo do avô.
— Você não veio de carro hoje também? – perguntou ela.
— Hoje eu vim, imaginei que alguma emergência assim pudesse acontecer já que o Seb nos alertou ontem. Por aqui!
Não distante dali, em um outro condomínio bem maior e repleto de casarões, o pacifista vermelho encontrava-se de pé, discursando para as várias minicâmeras que circundavam a enorme sala de estar de um casarão nobre, enquanto uma família composta por um marido, a esposa e três filhos crianças permanecia sentada e petrificada nos sofás do lugar. As minicâmeras focavam totalmente no homem, na mulher e no pacifista, enquanto as crianças encontravam-se no sofá de frente para seus pais.
— ...e então pessoal, como eu havia prometido pra vocês, hoje nós temos este especial de natal – falava com uma voz um tanto quanto excêntrica. – Sabe, eu estive refletindo por um bom tempo. O natal é uma data que a mídia sempre nos vendeu como algo feito para promover a união, a fraternidade e o altruísmo, certo? Só que como poderíamos aproveitar juntos essa época tão especial se tantos aí fora mal conseguem comprar um chester enquanto outros, como os nossos convidados de hoje, – e fez um gesto com as mãos sendo seguido pelas câmeras flutuantes até a mesa de jantar, repleta de comidas e sobremesas – tem uma ceia natalina farta como esta?
As câmeras retornaram seu foco para os reféns, e então o pacificador prosseguiu:
— Então hoje eu resolvi entrevistar o nosso amigo aqui – e deu alguns tapinhas nas costas do patriarca da residência, enquanto sua voz se tornava ainda mais excêntrica – para saber dele o que ele pensa sobre o fato de ser tão privilegiado. E aí, amigão, o que você tem a dizer aos nossos espectadores sobre sua família ter essa ceia de natal de encher os olhos enquanto nossos outros irmãos não tiveram a mesma sorte na vida?
O homem estava trêmulo, e permaneceu calado encarando o pacifista, mas este havia sacado da parte interna de seu sobretudo uma espécie de cassetete, que ao apertar um pequeno botão no cabo começou a emanar uma corrente elétrica bastante visível a olho nu. O pacifista colocou a arma rente ao pescoço de uma das crianças, mas as câmeras estavam totalmente focadas no outro sofá e não transmitiram essa imagem. O homem então resolveu falar, cuspindo cada palavra como se seu coração fosse saltar pela boca:
— E-eu si-sinto muito, si-sinto muito mesmo, eu n-não gostaria de ter tantos privilégios, e-eu prometo que n-nunca mais f-farei uma ceia farta como esta.
O pacifista gargalhou:
— Puxa! Vocês estão vendo isso? Nós conseguimos, pessoal. Colocamos um pouco de consciência social nessa pobre alma. Eu acho que esse planeta esquecido ainda tem esperanças, afinal! – Riu como uma hiena.
Em seguida o pacifista voltou-se para a mesa de jantar novamente:
— Mas quer saber? Hoje nós vamos celebrar o dia em que ricos e pobres vão comemorar o natal como um só, e faremos isso bem aqui no meu canal, todos juntos. – E se dirigiu até a mesa, derrubando e atirando longe todos os pratos e bebidas mais requintados, deixando apenas o panetone, a maionese e uma garrafa de refrigerante. – Vamos todos curtir essa noite juntos, ao vivo, e no final daremos um presente aos nossos novos amigos aqui, que será escolhido pelos inscritos num quiz que acabei de lançar.
Próximo dali, Junia e Alberto se aproximavam da rua Gabriel Higman, número 867. T havia mandado a localização em tempo real para o celular de Junia, e eles já estavam chegando. Passavam por uma rua toda arborizada, mas bem escura graças à ausência de energia naquele momento, o que tornava difícil de enxergar os belos condomínios pelos quais estavam passando, bem como os seus respectivos números. Alberto olhava a todo momento para o localizador no celular de Junia enquanto dirigia com rapidez.
— Só mais cem metros à frente. – Disse ele, antes de uma nova chamada de T chegar ao telefone da neta.
— O que foi T? Já estamos chegando lá.
— É melhor vocês acelerarem, o pacifista está muito louco, ele começou a jantar com os reféns agora. E também lançou uma enquete perguntando se deve matar o dono da mansão no final da ceia, só faltam cinco minutos pro fim da votação! – falou pelo viva-voz, e Junia não precisou perguntar a resposta que estava ganhando, pois sabia muito bem.
— É ali! – indicou Alberto para um condomínio mais à frente, à direita. O muro era bem alto e o portão todo branco e aparentemente resistente parecia impenetrável. Próximo a ele estava a cabine de segurança aparentemente intacta, tinha cerca de 70 centímetros e detinha uma lâmpada infravermelho encapsulada que se destacava.
Alberto parou o carro em frente ao lugar, mas antes de sair agachou tentando retirar algo de debaixo do seu banco. Ele sacou dois objetos que Junia já havia visto antes durante seus treinamentos de combate com ele. Eram uma espécie de adaga com uma lâmina perfeitamente afiada, fina e pontiaguda em uma extremidade, enquanto na outra havia uma saliência com mira automática, por onde ela disparava uma quantidade considerável de projéteis de uma só vez assim como uma metralhadora. Chamava-se lâmina armada. Junia certamente se interessou e queria uma dessas, chegou até a fazer alguns treinos com o avô, porém não poderia sair na rua e ser vista com esse objeto, primeiro porque era menor de idade, e segundo porque não detinha uma autorização para porte de armas,
Os dois saíram do carro e pararam a alguns metros da calçada daquele condomínio.
— Estamos aqui T, número 867. Mas em qual casa exatamente o pacifista está?
— Bem...na verdade, eu não sei...- e houve um silêncio mórbido em que, felizmente, T pensou em algo antes que Junia pudesse xingá-lo – tive uma ideia! Vou te mandar um link e você clica nele, vou hackear o seu celular! – falou com toda a tranquilidade do mundo.
Ela simplesmente ignorou a parte do “hackear” e fez o que ele pediu sem mais perguntas. Não teve tempo de ver o que ocorreria em seu celular a seguir porque o avô interrompeu antes:
— Antes de pensar na casa, há outro problema a se resolver. – E indicou para a cabine de segurança – Não há nenhum sinal de que a cabine foi violada, tampouco o portão, o que quer dizer que provavelmente ele deve ter usado algum tipo de gambiarra pra abrir o portão no interregno em que a cabine ficou sem energia e a ativação dos geradores.
— E o que quer dizer também que nós não vamos conseguir fazer nada parecido agora.
Alberto ficou pensativo por alguns instantes, mas eles estavam sem tempo e logo o ex-Ombreiro tomou sua decisão. Junia percebeu o avô muito concentrado de repente, como se ela não estivesse lá ao lado dele, como se o ambiente não estivesse lá, nem nada mais, apenas o vazio. Ela não era capaz de enxergar completamente, mas poderia jurar que algum tipo de calor começou a emanar do avô de repente. Será que era...aquilo?
— Faz muito tempo que eu não faço isso, espero conseguir, – e ele se pôs em posição para avançar, exibindo suas lâminas armadas – eu acho que a lei tem um parágrafo que permite invasão de propriedade em caso de prestação de socorro.
A cabine os identificaria como ameaça no momento em que se aproximassem, isso porque mesmo que passassem pela leitura de periculosidade em potencial do sistema, a arma de Alberto seria identificada imediatamente como alto potencial de ameaça, pois era alienígena. Para conseguirem passar, primeiro era necessário destruir a cabine antes que a mesma os pulverizasse, e isso teria que ser feito numa fração mínima de segundos.
Junia então viu Alberto se movimentar numa velocidade que jamais presenciara até então, nenhum idoso da idade dele e muito menos um jovem comum seriam capazes de se mover assim. Ele alcançou a cabine antes que ela pudesse identifica-lo, e no momento em que o fez, já havia sido atravessada e completamente triturada por uma chuva de golpes com as lâminas armadas, antes que pudesse iniciar seus protocolos defensivos. Foi tudo muito rápido.
— Nenhuma arma de fogo conseguiria destruir essa coisa, por isso que custa tão caro. – O ex-Ombreiro reconheceu o valor da cabine.
Teria sido a lâmina? Pensou Junia. Certamente não. Tratava-se de uma arma especial, realmente, porém não foi apenas essa a razão de tal feito. A potencialização da força de Alberto foi um fator decisivo também.
Ele então falou, um pouco ofegante:
— Uma parte já foi, agora só falta...
“TRÊS MINUTOS PARA O FIM DA ENQUETE” ecoou a voz de T vinda do celular de Junia. O ex-Ombreiro correu para uma grande árvore próxima, desferindo um golpe contra seu grosso tronco, cortando-o cerca de um terço. Repetiu o processo até arrancá-lo da raiz, momento em que voltou a sentir a fisgada próxima ao peito que sofrera no dia anterior. Mas ainda assim, Alberto se esforçou para ignorar a dor e saltou mais alto que um humano comum poderia, dando um chute na árvore que a derrubou inclinadamente em cima do muro do condomínio, formando uma espécie de ponte.
Agora sim o caminho até o objetivo estava aberto. Ele já havia avisado o endereço da rua ao amigo policial, mas mesmo quando chegassem não poderiam entrar sem um flagrante evidente. A informação da localização havia partido de uma fonte ilegal, afinal de contas.
Mas no momento em que retornou ao solo, a dor de antes consumiu Alberto, que também ficou tonto e não conseguiu resistir desta vez, acabando por desabar no chão enquanto lutava para não perder a consciência neste momento decisivo. Ele viu Junia correr ao seu encontro. Seu olhar então passou para as lâminas que deixara cair. Uma decisão de alto risco deveria ser tomada agora, era provavelmente sua última missão brincando de ainda ser Ombreiro, e ele queria levá-la adiante até o final.
Fale com o autor