O Natal de 4203
1 Primeiro Ato
Notas iniciais
Era mais uma noite de natal como qualquer outra no arquipélago de Rowen, ano 4197. As redomas climáticas artificiais estavam erguidas sob as quatro ilhas que compunham aquele território independente. A neve, antes impossível de ser vista e vivenciada naquela região da América da Sul, caía incessantemente graças ao advento da tecnologia, aprimorada pouco a pouco através dos milênios.
Na ilha Sul, lugar onde residia a camada mais rica da população, se é que se pode chamar assim já que há séculos o país vinha enfrentando uma crise política e econômica e com isso já não havia mais a elite de outrora, as luzes coloridas presas a enormes troncos de argila no formato árvore de natal iluminavam a orla da ilha, estrelas prateadas e douradas pairavam sob o céu um pouco acima das construções mais altas e modernas daquele lugar. Não tão modernas assim em comparação a outros planetas do sistema solar, afinal a Terra era o velho mundo, mas eram belos conjuntos de condomínios aglomerados em torno da área mais nobre daquela ilha, alguns equipados com cabines de segurança virtual na entrada. O sistema detectava qualquer um que se aproximasse, imediatamente efetuando a leitura de calor em busca de uma potencial ameaça. Se a análise fosse positiva, imediatamente iniciava-se o protocolo de defesa contra hostilidades, reforçando as defesas do condomínio e alertando a viatura policial mais próxima. Era um aparato caro, e, portanto, só estava presente nas propriedades dos mais endinheirados
Aliás, falando no contraste entre os mais e menos privilegiados, em uma certa sala de estar de uma residência de classe média alta, transcorria-se uma calorosa discussão relacionada ao tema:
— ...mas esses ricos emergentes daqui são mesmo uns estúpidos desinformados! Saem andando pela orla da ilha com o nariz empinado como se fossem a própria realeza de Zeranio! Nada nessa galáxia pagaria a diversão que seria ver um deles suando frio por estar frente a frente com um membro da verdadeira elite Roweniana. Ah, os velhos tempos! – Disse um idoso sentado do lado contrário em uma cadeira.
— Como se você pertencesse a esses tais velhos tempos, não é papai? – Caçoou uma mulher sentada num sofá próximo, junto a um grupo de pessoas.
O homem respondeu trincando os dentes:
— Hunf, meu avô de nove gerações passadas pertenceu, e ele passou adiante as histórias e os costumes dos tempos áureos. Ah, se não fossem as falcatruas daquele governo...
— O mesmo governo que escondeu a existência dos guardiões de Rowen? Aquela Organização que lutou contra a raça alienígena que invadiu a terra há mais de dois mil anos? – questionou uma menina encostada na parede próxima ao corredor, ela devia ter cerca de dez anos e segurava um copo com suco.
— Exatamente, menina. Se essa Organizaçãozinha não tivesse existido, a história hoje seria muito diferente, bem mais favorável para a nossa família, certamente.
— Mas o herói lendário fazia parte dela, não é? Foi ele e os aliados dele que salvaram Rowen e o mundo todo, sem eles nós não estaríamos aqui também. – disse assertivamente a menina, cujo o olhar penetrante era suficiente para constranger qualquer um que não tivesse a confiança necessária para encará-la de volta.
O velho deu de ombros, começando a transparecer inquietude. Então respirou fundo antes de falar com calma e pausadamente:
— Escute aqui, minha cara netinha, essas fantasias que criaram para encher a cabeça de vocês crianças de sonhos foi a mesma justificativa que o governo daquela época usou para explicar o ocorrido à comunidade internacional, e justamente por não passar de um devaneio coletivo, como o que você está sofrendo agora, os países estrangeiros foram abandonando o apoio a Rowen, deixando nossa terra às traças comparada ao que foi um dia, e acusando este país de conspiração secreta contra os nossos antigos investidores.
— Mas então...
E o avô interrompeu a menina antes que ela pudesse contra-argumentar:
— Eu não sei quem andou cultivando essas histórias na sua cabeça, mas aposto que tem uma sementinha daquele sujeito...
Coincidentemente, ele não precisou esclarecer a qual sujeito se referia, pois logo em seguida a campainha tocou, e o pai daquela menina, que era o mais próximo da porta dentre os membros da família presentes naquela ceia de natal, a abriu.
— Ora, feliz natal, meu filho! – Exclamou em alto e bom tom o último membro da família assim que chegou, antes de dar um caloroso abraço no pai da menina
O recém-chegado provavelmente tinha uma idade bem semelhante à do avô resmungão, porém era notória a diferença entre eles. Este detinha um porte físico bem raro para sua faixa etária, tinha poucas rugas e linhas faciais, cabelos grisalhos que escondiam um pouco a testa avantajada. Usava uma jaqueta de couro apertada, com um emblema que se destacava nas costas.
A menina, muito observadora, logo notou o emblema em questão, que era a sombra de um indivíduo com a mão esquerda apoiada no ombro direito. Ela conhecia a origem desse símbolo.
Depois de alguns abraços e cumprimentos a quase todos os presentes no recinto, exceto o avô rabugento que sequer se levantou de onde estava, o recém-chegado se voltou para a menina:
— Ah, você deve ser a pequena Junia. Puxa, já fazem alguns anos que eu não te vejo, acho que nem se lembra de mim. – falou ele risonhamente ao se aproximar.
— Você é meu avô Alberto, o Ombreiro. – respondeu ela, deixando escapar um tímido sorriso pela primeira vez.
— Certamente esse sou eu, mas estou mais para um ex-Ombreiro agora.
— Sei um pouco sobre você, sempre quis saber mais sobre as suas aventuras nos outros planetas – declarou Junia, cujo olhar intimidador agora transparecia mais uma expressão empolgada.
E de fato seu coração acelerou por finalmente estar falando com o avô Ombreiro. Eles já haviam se visto antes, mas ela era muito pequena e não se lembrava. Tudo o que sabia até então era aquilo que xeretava por conta própria, já que seu pai se recusava a falar sobre a profissão do próprio ascendente. Os pais de Junia não queriam alimentar ideias indesejáveis na mente da filha, eles já haviam traçado quais possíveis rotas profissionais a menina deveria tomar, e seguir os passos do avô paterno seria algo inconcebível.
Ombreiro era o nome dado a um membro de uma instituição privada interestelar que trabalhava executando desde serviços comuns de ajuda como efetuar compras de determinados itens para pessoas que assim requeriam, até trabalhos mais perigosos como caça a algum ladrão ou criminoso armado. Em suma, a missão principal de um Ombreiro era ajudar aqueles cidadãos que as entidades que faziam parte da União Solar não amparavam.
A recompensa por esses trabalhos geralmente era bem baixa ou nula, então logicamente não valia a pena para quase ninguém na galáxia, e os pais de Junia sabiam bem disso.
— Junie, não alugue seu avô, ele já está aposentado e não precisa ficar lembrando do passado agora. – Interrompeu o pai de Junia.
— Oh, mas eu não vejo problema algum nisso. Na verdade, meu filho, eu sempre quis contar essas histórias para você, contudo acho que você nunca demonstrou muito interesse...- rebateu Alberto em tom de deboche.
— A Junie aqui vai trazer a família Kon Held de volta ao topo da sociedade Roweniana algum dia, pai. E somos nós os únicos que ela deve pensar em salvar neste momento – rebateu, fazendo alusão ao trabalho de Alberto.
Após uma breve troca de olhares, a mãe de Junia, que estava por perto, também interviu e a mandou ir brincar com os presentes de natal. Alberto encarou a neta e deu uma leve piscadela, falando baixinho antes de se afastar:
— Mais tarde conversamos.
Junia assentiu com a cabeça, concordando.
E foi assim que começou. A partir da noite de natal daquele ano, Junia passou a se aproximar cada vez mais do avô que antes mal conhecera, tudo às escondidas dos pais. Ouviu várias histórias dos tempos de Alberto como Ombreiro, descobriu coisas sobre os outros planetas da União Solar que sequer tinha conhecimento antes, e isso foi só elevando cada vez mais a chama antes adormecida no interior da menina. Nos natais seguintes, os dois sempre combinavam antes de manter a discrição junto dos familiares, e assim se sucedeu durante seis anos, período no qual Junia saía com Alberto para realizar pequenas tarefas de Ombreiro. O avô iniciou o treinamento de Junia na arte do combate, ensinou técnicas de furtividade e confronto direto corpo a corpo, claramente ele desejava que a neta o sucedesse, mas não expressava isso com palavras. A própria Junia não sabia o que desejava fazer da vida ainda, sua única certeza era que queria ir para o espaço de qualquer jeito.
Na antevéspera de natal do ano 4203, Junia e Alberto caminhavam pelo distrito comercial da ilha, localizado logo após a travessia de uma ponte que dividia bem a área comercial da voltada para moradia. No entanto, este distrito também era sede de algumas vilas onde residiam pessoas que faliram ou falharam na tentativa de ganhar a vida nesta ilha.
Junia havia crescido bastante ao longo desses seis anos, seu estilo se tornou mais parecido com o do avô. Assim como ele, passou a andar mais com sua própria jaqueta, obviamente sem qualquer emblema ou símbolo, mas ela imaginava que de alguma forma usar trajes parecidos a aproximaria mais da sensação de ser uma aventureira. Trocou os vestidos que costumava usar antigamente por calças skinny escuras e botas. E mudou o cabelo da cor original castanha, para o azul, algo que era comum entre as jovens dessa época normalmente quando chegavam à fase da adolescência. Muitas coloriam os cabelos e nunca mais retornavam ao tom original. Junia lera uma vez num livro que os povos antigos eram bem mais conservadores com a aparência física, e a maioria dos cabelos se resumiam à cor loira ou preta.
Os dois estavam andando por uma área bem barulhenta, repleta de outdoors animados, letreiros de neon e projetores de holograma que competiam entre si pelo melhor marketing, o que acabava se tornando inaudível já que eram muitas vozes misturadas ao mesmo tempo. A neve continuava caindo do céu e sumindo sempre que entrava em contato com uma superfície sólida, mas durante o dia, as estrelas eram substituídas por grandes bolas de natal flutuantes.
— Não teria sido mais fácil pedir uma entrega expressa pelo celular? As compras seriam entregues ainda hoje. – Questionou Junia, com as mãos cheias de bolsas. Os dois estavam ajudando com a compra de materiais para a ceia de natal de crianças carentes.
— Teria, mas também seria extremamente caro, e nós não estamos em tempo de esbanjar, não é mesmo?
— Você já sabe? Que meus pais estão querendo mudar de ilha? Acho que finalmente chegaram à conclusão de que não dá mais pra manter o padrão de vida dos Kon Held de antigamente.
— Sim, eu soube. Imagino que o meu filho esteja bem frustrado por não ter conseguido fazer jus ao sobrenome da esposa.
— O meu pai sempre foi desse jeito? Tipo, um seguidor da realeza? – Indagou Junia, mostrando curiosidade
— Quando ele era mais novo costumava ser bem mais...original, mas então eu o coloquei num colégio interno de granfinos e foi aí que ele começou a ser tentado pelo meio e pouco a pouco foi mudando. Talvez esse tenha sido meu maior arrependimento na vida – ele se apressou a mudar de assunto logo depois disso — E o seu outro amado avô, como reagiu?
— Você sabe muito bem – ela fez uma breve pausa antes de prosseguir – Ele não gosta muito de você – e fez uma nova pausa – É verdade que os Ombreiros se originaram dos guardiões de Rowen? É por isso que o meu avô não vai com a sua cara, não é?
— Pode-se dizer que sim. Essa é uma história complicada.
— Então meu Avô tinha razão quando falou que a causa dos problemas de hoje é reflexo do que os guardiões fizeram naquela época?
Alberto parou de andar e voltou-se para a neta:
— Como eu falei, essa é uma história bem complexa, vai além dos extremos de herói ou vilão. Aquela Organização com certeza fez muitas coisas positivas para o nosso futuro, mas como em qualquer campo da vida, nada é perfeito. O seu avô não está de todo errado quando diz que o governo do passado agiu mal em muitas oportunidades.
Junia ficou pensativa por alguns instantes:
— E quanto ao herói da lenda? Ele foi uma boa pessoa mesmo ou também não era bem assim?
Alberto riu:
— Ah, esse com certeza foi uma grande pessoa. Alias, eu já disse que vocês dois são parecidos? Ele tinha mais ou menos a mesma idade que você tem agora quando começou, e também foi tutelado por um carinha não tão mais novo do que eu. Foi o que eu li na biblioteca do QG. – disse, fazendo um cafuné na cabeça da neta e retomando a caminhada. Faltava pouco para a esquina daquela grande rua comercial.
Enquanto Alberto adentrou a última loja para comprar o que restava, Junia se distraiu com uma dupla de musicistas, uma moça tocava teclado enquanto a outra o violoncelo, seus sons estavam em perfeita sincronia e emitiam uma melodia muito agradável que casava com aquele clima de festas de fim de ano e de falso inverno criado pela redoma. A garota se juntou a uma aglomeração de pessoas que também aparentavam ter sido levadas para terrenos desconhecidos graças àquele som. O coração e a mente de Junia, que viviam um turbilhão de emoções e conflitos entre a pressão dos pais pela escolha de uma carreira acadêmica e o desejo de continuar se aventurando com o avô e depois rumo às estrelas, pareceu ter desaparecido por alguns instantes enquanto simplesmente perambulava pela canção como se uma das notas musicais fosse.
— Sem dúvidas um belíssimo show, não é mesmo? – Falou Alberto, pondo a mão sobre o ombro da neta e trazendo-a de volta à realidade.
Junia sacou uma nota de dinheiro do bolso e depositou numa caixinha próxima de onde as musicistas tocavam. Então os dois seguiram seu rumo, até a esquina da rua. Alberto pegou seu celular, deu uma olhada e falou:
— Nossa carona já está chegando, só mais um pouco.
Cerca de cinco minutos depois, um carro da polícia encostou do outro lado da rua, e Alberto pediu para Junia acompanha-lo até lá. Um jovem de vinte e poucos anos saiu do carro, ele não estava usando uniforme, mas sim traje esporte fino.
— Desculpe a demora Albie, o trânsito nessa época do ano é bem complicado... – falou o policial, dirigindo-se até a mala do carro.
— Que nada Seb, chegou bem na hora. – Respondeu Alberto, começando a depositar as compras no porta-malas, Junia fez o mesmo.
— Então...essa é sua discípula? Vai se juntar aos Ombreiros ano que vem? – Questionou o policial.
— Ah, a Junia aqui ainda é menor de idade, mas eu já estou dando algumas...orientações para seja lá qual for o caminho que ela escolher.
— Bem... – o policial apoiou os braços no porta-malas – independente do que você escolher, eu sinceramente não recomendo a polícia de Rowen – Riu.
De fato, desde que a FME, as Forças Militares Espaciais, tornou-se a maior corporação de segurança da galáxia, a polícia da Terra foi pouco a pouco sendo jogada de lado e recebendo cada vez menos recursos do governo. Nos outros planetas, ela já não existia, e muitos alienígenas sequer sabiam o significado da palavra “Polícia”.
Os três entraram no carro, Junia sentou no banco de trás. No entanto, ao fechar a porta, o policial não ligou o carro imediatamente, em vez disso mudou sua expressão no rosto, até então amistosa, para um semblante mais sério. Então colocou a mão esquerda sobre o volante, antes de respirar fundo e começar a falar.
— Pra dizer a verdade, eu sei que isso não é da sua conta, mas...já que vocês ofereceram ajuda com a ceia das crianças, talvez devessem saber de algo mais.
— Algo mais? – Junia tomou a dianteira, arrastando-se do canto para o meio do veículo, a fim de ouvir melhor o policial que falava baixo.
— Ultimamente nós estamos tendo alguns problemas com um insurgente da Gray Web que apareceu nesta ilha.
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