O Mundo De Carter
24 Capítulo 24
Na primeira semana de maio, Simon voltou para o colégio. Cicatrizes arroxeadas e profundas preenchiam o lado esquerdo do seu rosto, onde Carter havia batido com a garrafa. Ele imaginava que no momento em que Simon pisasse no corredor, seria imediatamente linchado. Mas estava enganado.
Simon não o encarava mais, nem mesmo parecia saber mais da sua existência, simplesmente o ignorava. Depois veio, a saber, que Becky havia tido uma conversa com Simon após a alta e que ele aceitou a ruptura do relacionamento. Becky pediu para que não causasse mais transtornos e Simon simplesmente disse: Sem problemas.
Apesar da inquietude, Carter foi tomado por um alívio tremendo depois disso. Os últimos dias do semestre se passaram tão rapidamente quanto chegaram e quando Carter percebeu já recebia seu resultado final.
Suas notas haviam subido consideravelmente, indo de F para B-. Carter sentiu-se orgulhoso de si mesmo, pois apesar de tudo que acontecera, conseguiu levar uma vida razoavelmente normal por um ano letivo inteiro.
Com a chegada das férias, Carter imaginou que seria afastado de seus amigos e que voltaria a cair novamente nas sombras, mas, mais uma vez, estava enganado.
Foi em um sábado à noite quando recebeu uma ligação de Collins, chamando-o para um passeio. Carter imediatamente aceitou. Seus pais agora apoiavam seus passeios, pois sabiam que isso o fazia bem, contudo, as precauções eram sempre as mesmas. Por volta das nove horas, Carter ouviu a buzina soar do lado de fora de sua casa.
Billy, Becky, Mark, Maggie e Collins o esperavam, todos espremidos desajeitadamente dentro do velho Corolla. Maggie subiu sobre o colo de Mark, quando Carter entrou, e ele pôde ver seu rosto ganhar um tom acobreado. Acabou se sentando ao lado de Becky, que sorriu quando ele entrou. Carter achava-a extremamente educada e gentil, principalmente com ele, quando todos geralmente eram frígidos e distantes. Próximo a ela, Carter pôde ver a pouca luz do poste de iluminação, que havia um pequeno hematoma em seu queixo. Era quase imperceptível, como aquele que antes estivera embaixo do seu olho. Carter franziu a testa ao vê-lo, fazendo com que Becky olhasse para o outro lado:
– Primeiro uma passada na casa da Cho – disse Billy ao volante. A barriga do garoto parecia encolhida para poder caber no banco do motorista. Carter não sabia aonde eles iriam e não se deu o trabalho de perguntar, para que não achassem que ele estivesse receoso ou algo assim – quando na verdade ele realmente estava. Quando pararam em frente à casa de Cho, a garota asiática já esperava do lado de fora. Carter que estava na janela, ficou meio sem jeito, sem saber o que fazer:
– Alguém vai ter que ir no colo – disse Billy — ou isso ou o porta-malas.
– Porque não podíamos usar o seu carro mesmo, Becky? – interrogou Maggie, visivelmente irritada.
– Ele está pra conserto – afirmou a garota, mas por algum motivo, Carter sentiu em sua voz que ela estava omitindo algo. Cho esperava impaciente por um espaço, deixando o garoto nervoso. O que ela queria que ele fizesse? Foi quando Collins disse:
– Becky, vai no colo do Carter, senão não vai caber!
Carter imediatamente sentiu-se quente e corado. Becky não disse nada, apenas suspirou e deslizou para seu colo. Ambos chegaram para o canto para que Cho finalmente entrasse. Carter tinha consciência de que as nádegas de Becky estavam em contato com sua intimidade e isso o deixava terrivelmente nervoso. E se ele tivesse uma ereção? Como iria disfarçar? Aquela ideia começou a fazer seu coração palpitar. Para piorar, todo o corpo de Becky estava em contato com o seu, ela também poderia sentir seu batimento acelerado.
Não que aquilo fosse desagradável. Carter estava gostando, mas caso ficasse excitado, seria uma situação totalmente constrangedora. Então para o seu próprio bem, e de Becky, tentou focar-se em outras coisas. Nem dava ouvidos às conversas alheias. Sua mente ia além, para os postes de iluminação nas ruas, o trânsito, os rostos de seus professores, qualquer coisa, menos sexo ou o fato de Becky estar sentada sobre sua virilha.
A “viagem” parecia não acabar nunca e cada solavanco que o carro dava, o fazia voltar sua atenção para o cheiro doce de lavanda dos cabelos de Becky, da maciez de suas nádegas e no calor de seu corpo sobre o dele. Quando finalmente chegaram, Carter deu graças a Deus.
No fim das contas, não era uma festa. Na opinião de Carter, aquilo era bem melhor. Coney Island. As luzes do parque de diversão eram visíveis de longe. Carter mal se lembrava da última vez que andara em uma roda gigante, quando ainda era bem pequeno. Billy estacionou o Corolla em um canto afastado e foram todos a pé até a entrada do parque. Carter sentia a brisa do mar, não muito longe, batendo em seu rosto. Como aquilo era relaxante.
A entrada do parque era cheia de cores vivas e luzes. Havia um grande desenho no portal, um palhaço sorridente, que chegava a ser assustador. Carter evitou olhar para ele:
– Achei que ele estaria fechado até o final do mês! – exclamou Maggie
– Tenho um primo que trabalha aqui – disse Collins – ele deu um jeitinho pra gente – Carter sentiu-se maravilhado em meio a tantas luzes. Havia uma grande roda gigante no meio do parque. Uma montanha russa, muitas barracas e brinquedos menores. Também havia um túnel do terror, cuja entrada era a boca de um palhaço sanguinário. Aquilo causou calafrios em Carter. Um sujeito alto de cabelos negros da altura dos ombros e barba cerrada, o esperavam perto da bilheteria. Tinha um sorriso sacana e que em algum ponto, talvez no branco do olho, lembrasse um pouco Collins. O sujeito chamava-se Bill. Estava fazendo um turno noturno e ficaria ali até o amanhecer, ou seja, eles teriam um bom tempo de diversão. É claro que aquilo era proibido, e que se os donos descobrissem Bill estava na rua, mas ele não parecia se importar muito com isso.
Carter e os outros se dispersaram pelo parque. Havia algodão-doce, churros, maças do amor, música alta e diversão de sobra pra ocupar lhes a noite.
Primeiramente, todos foram à montanha russa. Carter sentou-se na frente, para seu arrependimento. Mark do seu lado e o resto logo atrás. Gritos preencheram a noite, junto de risadas e soluços. Foram minutos gastos naquele brinquedo que fazia voltas intermináveis. Carter se divertia ao mesmo tempo em que entrava em pânico. Quando os carrinhos finalmente pararam, Carter teve de se segurar para não cair de cara no chão. Os cabelos estavam mais desmazelados que o normal e o mundo girava como um prato de micro-ondas. Eles riram descontroladamente e foram para outros brinquedos. Collins ficou a maior parte do tempo no tiro ao alvo, tentando acertar alguns patos de borrachas e copos empilhados.
Billy comia algodão-doce e churros, se sujava com a calda das maçãs do amor, ao mesmo tempo em que arriscava na pescaria. Depois todos foram no tiro-e-queda, ou algo assim, Carter não sabia muito bem o nome. Cho acabou vomitando depois disso, oque levou Collins a vomitar também. Carter achou aquilo engraçado. Correram aos gritos pelo parque durante certo tempo, eram como crianças abandonadas dentro de uma fábrica de doces. Sentiam-se livres e vivos.
Horas devem ter se passado, de pura diversão. Carter tentou ir a todos os brinquedos, até mesmo nos infantis. Quando chegou ao carrossel, subiu nas costas de um alazão preto e deixou que a música tocasse alta e em bom som. Era doce e antiga. Carter fechou os olhos por um instante e imaginou-se sobre um cavalo correndo num campo aberto. O vento batia em seu rosto. Corria tão rápido que tudo ao seu redor era um borrão. Quando retornou a abrir os olhos, viu-se dentro de um caleidoscópio. Havia luzes por todos os lados, que se misturavam constantemente. Carter sorria genuinamente abraçado à crina de seu cavalo. Logo todos os seus amigos também estavam no brinquedo.
Becky do seu lado sorria montada sobre um boto. Os cabelos esvoaçavam ao vento, lançando seu perfume por todos os lados. Carter se maravilhava com aquela visão. Ela sorria de uma forma tão pura e tão sincera, que ele resolveu guardar aquela imagem em sua mente, para que sempre que estivesse frustrado, ou sentisse que fosse perder tudo, pudesse pensar naquele rosto sorridente e lembrar-se dos verdadeiros motivos que faziam a vida valer a pena.
Quando já era tarde, Carter foi à roda gigante. Várias casas coloridas que giravam presas a um aro. Eram cabines de dois e ao perceber, Carter sentiu-se um tanto perdido. Billy foi com Collins e Maggie com Cho. Carter pensou em sentar-se ao lado de Mark, mas ele parecia se divertir bem sozinho, balançando em sua cabine verde. Sentou-se então em uma casa escarlate, que estremeceu com seu peso. Por um momento, Carter fraquejou, mas então sentiu um par de mãos em suas costas:
– Cuidado! – era Becky. Carter sorriu sem graça e se ajeitou. A garota sentou-se ao seu lado e fechou a trava de segurança. Logo a roda gigante começava a se mover, às vezes estremecendo por inteiro:
– Fazia muito tempo que eu não vinha a um parque de diversões – disse Carter nervoso.
– Eu também – disse Becky olhando para as estrelas do céu, ao longe.
Carter segurava-se com força à trava de segurança. Tanto que seus nós dos dedos ficaram pálidos:
– Então, oque vai fazer em seu aniversário? – disse Becky com um sorriso de lado. O roxo em seu queixo ficava mais visível à luz do luar. Carter nem mesmo se lembrava de que em menos de duas semanas faria dezoito anos:
– Ahn...eu não sei, não pensei nisso ainda... – ele não conseguia parar de olhar para aquele hematoma em seu rosto.
– Não é todo dia que se faz dezoito anos, Carter.
O garoto sorriu e olhou para longe. As estrelas do céu pareciam tão grandes que Carter imaginou que pudessem tocá-las. Ele percebia finalmente, de que em todos esses meses em que se conheciam nenhum de seus amigos nunca o interrogou pelo fato de ter sido reprovado. E ele sabia que não era porque se importavam menos, mas sim, porque isso não era de fato, importante:
– No que está pensando? – disse Becky cortando seus devaneios. Seus olhos cinzentos o olhavam com um ar curioso:
– Em como eu tive sorte por ter conhecido vocês... – ele disse quase sem pensar. Becky riu, fazendo Carter corar. A garota tirou uma mecha de cabelo da frente do rosto e colocou atrás da orelha, deixando ainda mais visível a marca em seu queixo. Carter não conseguia mais fingir que não a estava vendo e quando se deu por si, tocava o rosto de Becky com delicadeza. Passou levemente o dedo sobre a região arroxeada, a garota o olhava um tanto confusa, mas não fez questão de se afastar:
– O que aconteceu? – perguntou ele.
Só então ela pareceu perceber sobre oque Carter falava. Ela desvencilhou-se de sua mãe e olhou para o outro lado:
– Eu bati na porta do carro – disse Becky.
– Não é oque parece.
– Mas foi o que aconteceu – disse secamente. Becky mordeu o lábio inferior e olhou para baixo, fazendo com que Carter também olhasse. Isso fez com que uma onda de tontura o atingisse com força. Carter fechou os olhos e respirou fundo. Parecia prestes a ter uma queda de pressão. Só agora percebia que a roda já estava parada há algum tempo e ambos estavam no ponto mais alto. Depois disso, eles permaneceram em silêncio. A roda voltou a girar e em pouco tempo, estavam no chão.
No fim daquela noite, todos foram ao túnel do terror. Contudo, alguma coisa dizia à Carter, que aquilo não iria acabar muito bem.
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