A entrada do Túnel do Terror era macabra. Carter sentiu-se incomodado no momento em que entrou no carrinho. Desta vez quem sentou ao seu lado foi Mark. Carter imaginou se Becky estaria com raiva dele, isso o preocupava, contudo ele não se arrependia de ter perguntado. Havia algo acontecendo na vida de Becky, as coisas começavam a se encaixar em sua mente. O porquê dele não poder ir a sua casa. Os constantes roxos que apareciam em seu rosto. Os boatos que corriam pela escola. Carter começava a desconfiar que algo realmente ruim estivesse acontecendo com Becky.
Seus pensamentos foram interrompidos quando sentiu as engrenagens do carrinho sacolejar. Seus amigos atrás pareciam ansiosos e excitados, diferentes de Carter, que não se sentia muito bem. A boca do palhaço era assustadoramente pequena, quase podiam encostar suas cabeças nos dentes pontudos da escultura. O lado de dentro era extremamente escuro, poucos pontos iluminados eram vistos no caminho mais adiante.
Uma música fantasmagórica tocava em algum lugar sobre suas cabeças, como aquelas que costumavam tocar em circos de antigamente. Uma risada espalhafatosa ecoou pelo túnel à sua frente. Seus amigos riam e Carter tentava se divertir também. Aquilo era engraçado, pensava ele.
O carrinho virou e mudaram para um corredor longo e largo, cujas paredes eram repletas de ladrilhos de porcelana, onde sua maioria estava tingida de vermelho, como se fosse sangue. Estava escuro suficiente para não perceberem o vão à sua esquerda. Quando o carrinho chegou à metade do caminho, o lugar se iluminou minimamente, revelando um cenário em que um mendigo era esfaqueado por um palhaço assassino. Ele olhou diretamente nos olhos de Carter, logo, o garoto percebia com certo alívio, que aquilo se tratava de um show de bonecos. Apesar disso, seus olhos pareciam estranhamente reais.
O carrinho continuou seu percurso, virando em ziguezague até passarem por um túnel cujo teto era bem baixo. Ao olhar para cima, Carter viu tripas e entranhas penduradas entre o que parecia ser uma grade. Elas balançavam sobre suas cabeças, algumas chegavam até mesmo a tocá-los. Estavam lubrificadas para parecerem reais.
A música começava a ficar mais alta. As paredes mais estreitas. Havia sangue por todos os lados e uma neblina começava a inundar o túnel do brinquedo. Cenas macabras preenchiam os dois lados do caminho. Palhaços sentados num banco, os cumprimentando. Outros dois carregando o corpo de um homem. Um morto partido ao meio, com entranhas extremamente visíveis espalhadas pelo chão. Carter estava começando a se sentir sufocado. Há quanto tempo estavam ali?
As risadas e gritos de seus amigos começavam a ficar abafadas. Cho se encolhia junto à Maggie e Becky, que riam de sua euforia. O barulho dos trilhos começava a ficar distantes, como se Carter estivesse flutuando sobre eles. O carrinho então deu um solavanco e começou a descer numa depressão. Carter sentiu suas entranhas se apertarem dentro de sua barriga. Tudo que ele queria fazer era sair dali o mais rápido possível.
De repente eles estavam num caminho, onde ambos os lados estavam inundados por água. O barulho da água fazia seu estômago embrulhar. Havia corpos pendurados por todos os lados. Alguns caídos dentro d’água. A risada do palhaço tornou-se ensurdecedora naquele ponto, misturando-se à música. Então Carter escutou um barulho alto nas engrenagens, e ao olhar para trás, percebeu que o carrinho onde estavam Becky, Maggie e Cho havia se soltado e continuado na outra direção. Elas acharam aquilo divertido, mas Carter não. Ele, Mark, Billy e Collins seguiram num trilho reto, entrando numa espécie de cano de concreto. Havia um cheiro azedo exalando de suas paredes. Carter sentia-se apavorado, de uma forma que não ficava há dias. Num súbito, uma nuvem de fumaça escarlate inundou o túnel, fazendo-o sufocar. Seus amigos tossiram, mas riram disso. Carter então foi invadido por espasmos musculares. Suas mãos tremiam convulsivamente, os olhos procuravam uma maneira de sair do carrinho, mas não encontravam de forma alguma:

– Preciso sair daqui...eu preciso sair daqui! – ele gritava

Seus amigos o olharam de uma forma divertida:

– Calma Carter – ria Collins – não precisa entrar em pânico – eles achavam aquilo engraçado. Pensavam que era normal. Carter começou a balançar a trava de segurança violentamente e isso assustou Mark, que começava a perceber que o amigo estava verdadeiramente passando mal:

– Carter, tá tudo bem?!

– Preciso sair daqui! Me deixem sair! Me deixem sair! – gritava Carter. Sua visão se tornou turva e a imagem de um palhaço demoníaco aparecia à sua frente, com um sorriso ensanguentado e uma risada estridente e alta. Quando deu por si, Carter estava do lado de fora do brinquedo, ainda sentado ao carrinho. Seus dedos doíam de tanta força que colocava sobre a trava de segurança. Sua respiração estava descompassada e as pupilas dilatadas. Ao olhar ao seu redor, percebeu que seus amigos o olhavam com preocupação e medo. Mark que estava do seu lado tocou em seu ombro, mas subitamente Carter afastou sua mão com um tapa. O garoto levantou-se cambaleante e saiu do brinquedo com pernas trêmulas:

– O que foi, Carter? – perguntou Collins se aproximando.

– Eu estou bem... – sussurrou Carter que piscava com força — Eu sou...claustrofóbico – mentiu. Becky e os outros se aproximaram:

– Devia ter avisado, senão íamos a outro brinquedo – disse ela. Apesar da frieza, parecia preocupada.

– Tá tudo bem...sem problemas – disse Carter engolindo em seco. Depois disso, eles apenas lancharam. Carter não tinha cabeça nem estômago para comer nada, apenas sentou-se no banco e os esperou, enquanto tentava aquietar as distonias que tomavam conta de seu corpo. Maldito remédio, pensou. Ele olhava para os próprios cadarços quando sentiu alguém sentando do seu lado:

– Você está bem? – disse Becky

Carter fez que sim com a cabeça. Ela comia um algodão doce rosa, que imediatamente o ofereceu, mas Carter recusou. Ele estava pensando no modo como as coisas ficaram tensas entre eles mais cedo:

– Escuta Becky...desculpa por não ter acreditado em você... – disse ele.

A garota não o olhava:

– Sem problemas.

Apesar disso, aquele assunto ainda não havia terminado. Carter só o tinha adiado. Pouco tempo depois já estavam de volta ao carro. Dessa vez, deixaram Carter ir ao banco do carona, para caso ele passasse mal novamente. Ele ficou grato, mas não podia negar que por um momento, desejou ir atrás novamente, com Becky em seu colo. Ao pensar nisso, Carter sentiu-se quente e culpado. Quando já era quase meia-noite, Carter chegou em casa. Despediu-se de seus amigos e entrou em seu sobrado. Sua mãe, como previsto, ainda estava acordada, assistindo ao programa noturno de culinária na TV. Ela advertiu por ter chegado tarde, mas não insistiu no assunto, pois deve ter percebido que havia alguma coisa incomodando Carter.
O garoto subiu para o quarto e tirou suas roupas, jogando-as num canto qualquer. Deitou-se seminu sobre a cama e deixou seu corpo afundar em seu colchão velho.
Carter estava feliz. Mas e seus amigos...eles estavam?