The Times They Are A-Changin foi lançado em 13 de Janeiro de 1964, mas é claro, a canção, por si só, The Times They Are A-Changin, ficou bem atrás de Like a Rolling Stone.
Carter acordou ouvindo os versos de Bob Dylan. O rosto, inchado e dolorido, pulsava como se quisesse desgrudar de sua cabeça. As costelas doíam, os nós dos dedos estavam arroxeados e um corte profundo latejava em sua língua. Carter não se lembrava de muita coisa, apenas suspeitava de que fizera uma coisa realmente estúpida e ruim. Sua suspeita foi confirmada, quando ao ligar para Becky, caiu direto na caixa-postal.
No colégio, ele também não a viu. Nem ela, nem Simon. Perguntou a Maggie onde ela estava:

– Ela precisa de um tempo, Carter, deixe-a em paz por enquanto, ok? – disse. Os outros estavam distantes, apesar de estarem bem ao lado dele. Carter via os olhares que lançavam para os machucados do seu rosto. Via o medo que havia naqueles olhares. Eles deviam de estar pensando: Quem é esse cara? Carter não podia culpa-los, o que fizera foi totalmente imprudente e ridículo, mas em certa parte de seu ser, ele não se arrependia de nada. Dar umas bofetadas no rosto de Simon — mesmo que quase lhe tenha custado um olho – não tinha preço. Contudo o seu maior arrependimento foi ter magoado Becky. Ele não sabia ao certo o que a garota estaria pensando dele, se o culpava por alguma coisa, Carter esperava, sinceramente, que não. Perder sua amizade seria muito doloroso.
Na quarta-feira, Becky voltou ao colégio, mas Simon ainda não tinha dado as caras, isso incomodava um pouco Carter. A garota parecia aparentemente bem, embora seus olhos estivessem um pouco inchados. Infelizmente, Becky não disse nada à Carter a aula toda, nem mesmo durante o intervalo, ou durante as trocas de horário. Por fim, ao final da aula, quando todos iam embora, Becky tocou no ombro de Carter antes que passasse pela saída:

– Posso falar com você?

– Claro... – Carter disse imediatamente. Becky entrou em uma sala vazia e fechou a porta quando Carter passou. A garota ficou de frente para ele, parecia escolher as palavras a dizer, pois nem mesmo olhava em seus olhos. Carter não aguentou aquela pressão e acabou falando:

– Escuta, Becky...me desculpa, eu não devia ter feito aquilo, foi imprudente e estúpido...eu não sei onde eu estava com a cabeça, não quero perder sua amizade...quando vi já tinha feito e...

– Obrigada, Carter – suas palavras o calaram. Os olhos de Becky eram sinceros e penetrantes: — Você está certo, o que fez foi imprudente e estúpido, mas mesmo assim...sabe, eu desconfiava...ele viajava tanto, mas eu achava que ele me fizesse bem, que ajudasse a encarar as coisas com mais... – Becky olhava para além das janelas -...acho que coloquei expectativas demais nele.

Carter olhou para baixo e sussurrou:

– O que vai fazer agora?

– Nós terminamos...-disse — ...foi a coisa certa à fazer. Eu já devia ter feito há muito tempo...mas acho que não tinha coragem, ou sei lá, talvez não estivesse pronta...

– Então...não está com raiva de mim? – disse Carter cauteloso.

Becky o olhou, séria, e por um momento ele se sentiu pesado como uma pedra, mas então um pequeno sorriso brotou em seus lábios:

– Não seria certo com você...

Carter sorriu aliviado, então Becky o abraçou, atolando seu rosto em seu peito. Carter sentiu-se quente com aquele contato. O abraço foi o mais longo que já tiveram. O perfume de seu cabelo entrava em suas narinas, era doce e calmante e naquele momento Carter soube que tudo ficaria bem.
Já no ponto de ônibus, Carter pensava na forma como o coração de Becky batia contra seu peito, no cheiro de seus cabelos, no perfume de sua roupa. Seus pensamentos estavam distantes quando sua atenção foi fisgada para longe, onde uma Toyota preta estava estacionada. Carter não podia ver, mas sentia que Simon estava ali e olhava para ele. Uma sensação estranha irradiou-se por sua espinha e pela primeira vez em meses, Carter sentiu medo de alguém que não fosse ele mesmo.