O Mundo De Carter
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Depois de uma semana, Simon ainda não havia dado as caras e isso por algum motivo, incomodava muito Carter. Foi em uma quinta-feira à noite em que seus medos se tornaram realidade. Carter fazia um percurso longo ao redor de alguns quarteirões no Brooklyn. Estava um clima ameno, fresco de primavera, as árvores estavam salpicadas de cores e flores. Carter corria com o capuz preto de seu casaco sobre a cabeça, o fone em seu ouvido, tocava no último volume, Tennage Riot de Sonic Youth. Ao fazer uma curva, Carter entrou numa rua mais escura, já devia se passar das seis da tarde e alguns postes de iluminação já estavam acesos, embora aquela rua ainda continuasse sombria. Carter sentiu-se inebriado pela música, como se seus movimentos seguissem o ritmo da melodia. Estava livre, como um tigre.
“Eu posso correr, até o fim do mundo, posso correr como um tigre fora de sua jaula...”
Estava centrado em sua corrida que mal percebeu quando um carro virou na rua deserta às suas costas. Uma sensação ruim, como se um demônio lambe-se sua coluna, passou por sua espinha, arrepiando seu coro cabeludo. Carter diminuiu o ritmo ao sentir que alguém o observava pelas costas, deixou que os fones caíssem de seus ouvidos, para poder ouvir o som do motor do carro, que andava vagarosamente na rua, logo atrás. Carter viu por esguelha, que o carro era a Toyota preta de Simon, imediatamente sentiu um gosto amargo na boca e sua garganta secou. Pensou em continuar correndo, fingindo que não o havia visto, mas temia que ele avançasse com o carro para cima dele. Então Carter diminuiu a velocidade até apenas caminhar pelo passeio, sem momento algum olhar para trás. Carter o estava desafiando, mostrando que não sentia medo – embora sentisse. Como esperava o carro também diminuiu a velocidade, até que parou totalmente. Carter ficou imóvel, sua respiração estava descompassada, embora não corresse mais, aquela não era uma situação favorável a ele.
Ouviu o som da porta se abrindo às suas costas, Carter começava a tremer:
– Seu filho da mãe...- disse Simon às suas costas. Sua voz estava pastosa, ao se virar, Carter deparou-se com um garoto bêbado com uma garrafa quase vazia de cerveja na mão. Sua aparência estava horrível, fedia a álcool, os cabelos desmazelados e roupas encardidas – Quem...você pensa que é? Eu te avisei...avisei para que ficasse longe, mas você não me ouviu! – sua voz começava a se alterar.
– Você está bêbado...melhor conversarmos outra hora...
– E quem falou em conversar? – riu ele, Simon se aproximou com a garrafa na mão, o rosto parecia de pedra:
– Você acha que pode chegar assim...e ir roubando...tirar Becky de mim? Quem é você...eu vou matar você, seu monte de merda...vou matar... – Simon estava furioso, ele avançou para cima de Carter com violência, seus braços fecharam-se ao redor do seu corpo, jogando-o ao chão. Simon, porém, estava bêbado demais para brigar. Carter atingiu-o com um soco no rosto e ele caiu para um lado, o garoto tentou levantar, mas o brutamonte chutou-lhe as costas, jogando Carter contra o chão, suas mãos rasparam no asfalto e sentiu o sangue inundar suas mangas. Ainda no chão, Carter foi atingido por um, dois, três, quatro chutes na barriga, fazendo-o cuspir sangue:
– Seu merda...desgraçado...filho da mãe...– Carter viu sua visão se tornar turva, o chão parecia tremer debaixo de suas mãos. Num último chute, tudo se tingiu de preto e Carter girou no chão. Era incrível como ninguém passava na rua naquele momento. Carter viu um céu escuro lá em cima, as estrelas pareciam dançar no meio da escuridão. Carter esticou os dedos das mãos e sentiu algo frio tocar sua pele. A garrafa. Simon se aproximava cambaleante para ataca-lo; antes que ele o fizesse, tomou fôlego suficiente para se levantar, e num momento depois, a garrafa de vidro explodia contra o rosto de Simon, espatifando em inúmeros pedaços. O garoto caiu no chão, ensanguentado, arquejando de dor e desfaleceu. Carter tinha espasmos convulsivos, olhava para o rosto retalhado de Simon e para as mãos ensanguentadas, os pedaços de vidro no chão e o sangue que saía de sua cabeça. Uma tontura lhe bateu como um porrete, Carter caiu de joelhos no chão. Ao longe viu pessoas correndo, elas gritavam por ajuda, então tudo ficou confuso e Carter saiu de sua realidade.
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