O roxo ao redor do olho de sua mãe causava um grande pesar em seu coração. Toda vez que olhava para aquele ferimento, lembrava-se da maldita voz de Don Corleone. Às vezes ele ainda sussurrava em seus ouvidos, mas a música ajudava.
Tinha vezes que o mundo de Carter parecia se fechar. Era como uma grande armadilha pronta para trancá-lo a qualquer momento. Carter sentia que podia ficar preso dentro de sua própria cabeça. Num universo tingido de vermelho e cores vivas. Um mundo solitário. Sua mente parecia uma peneira, sempre sentia que deixava passar alguma coisa. Viver em sua pele era terrivelmente confuso e estava em constate mudança. Nunca se sabia ao certo quem ele era, como se sua personalidade pudesse mudar a qualquer momento. Carter temia se tornar violento e começar a machucar as pessoas ao seu redor. Tinha medo de perder o controle e se tornar um animal feroz e indomável, um homem sem humanidade, sem ética e sem escrúpulos. Quando pensava nisso, sua cabeça era envolta por pensamentos tão sombrios, que Carter sentia-se sufocado como por um travesseiro invisível. Nos poucos dias que se passaram depois do ocorrido, muita coisa veio a acontecer, como se todas as peças de seu dominó caíssem no mesmo momento, num efeito interminável e catastrófico.
Começou numa noite de sábado, quando foram a uma festa na casa de Caleb Schilmer. Os pais haviam viajado e o garoto aproveitou para chamar metade do ensino médio. Havia muita bebida e drogas, mas Carter preferiu passar bem longe daquilo, não queria dar motivo para ser trancado em casa novamente. Arriscou alguns passos de dança, mas foi uma catástrofe. Num momento, enquanto Carter caminhava pelos corredores do segundo andar em busca do banheiro, acabou flagrando Maggie nos braços de Mark, escondidos no escuro, como se aquilo fosse proibido. Carter não sabia o que aquilo significava, mas de toda forma, ficou feliz pelos amigos. Quando finalmente encontrou um banheiro, para seu demasiado desconforto havia um casal transando dentro da banheira. O sujeito xingou-lhe de milhares de palavrões até que Carter fechasse a porta. Envergonhado, Carter começou a procurar outro banheiro. Foi quando entrou em uma suíte e as coisas complicaram.
Na cama de casal, Simon estava deitado entre as pernas de Susan Miller – uma garota do terceiro ano -. Eles gemiam descompassadamente ao ritmo em que se mexiam. Carter saiu antes que percebessem sua presença. Do lado de fora, se encostou à porta, respiração ofegante. Estava se sentindo terrivelmente confuso. Pior ainda quando desceu as escadas e viu Becky sorridente na cozinha, falando com Maggie e alguns colegas. Carter não sabia o que fazer naquela situação, estava tão nervoso que por fim bebeu um copo cheio de cerveja.
Sentado ali no sofá da sala, o mundo parecia opaco e silencioso, apesar da música alta. Carter via todos em câmera lenta; a imagem de Simon transando com a ginasta não saia da frente de seus olhos. Carter sentia seu estômago pesado, seu corpo parecia afundar sobre o estofamento do sofá. Ficou ali por tanto tempo que perdeu a noção das horas. Já era bastante tarde quando Collins tocou em seu ombro, trazendo-o para a realidade. Ao olhar ao seu redor, não havia quase ninguém, a maioria já havia ido embora. Carter se levantou confuso e com dificuldades. Do lado de fora, ainda havia alguns estudantes bebendo.
Ao lado da Toyota Camry preta– de Simon -, Becky e o namorado conversavam animadamente. Carter sentiu seus olhos arderem, seu corpo estava endurecido e a armadilha começava a se fechar. Quando deu por si, Carter estava com os punhos cerrados batendo no rosto de Simon. Becky gritava para que parassem, mas Carter estava surdo. Simon virou-o, jogando Carter no chão e usou seu peso consideravelmente maior, para prensa-lo ao asfalto. Carter tentou atingi-lo, mas foi pego por vários socos no rosto, pescoço e peito. Simon se levantou e chutou suas costelas com uma força descomunal, fazendo o garoto arquear de dor, foi quando Mark chegou para apartar a briga, ele e outros garotos os separaram, segurando os braços de Simon que tinha o rosto vermelho de raiva:

– Qual é o seu problema, seu filho da mãe?! – berrava o loiro.

Carter segurava as costelas, caído no chão. Um gosto metálico invadia sua boca, mas ele não sentia mais a dor, pois estava alucinado. O mundo tingia-se de escarlate:

– Seu cafajeste, maldito, desgraçado! – arquejou Carter tentando se levantar – Você não à merece, seu verme!

Simon se fazia de desentendido. Becky segurava seus braços, tentando puxá-lo para longe:

– Conte para ela! – gritou Carter – Conte para ela, seu canalha filho da puta!

Becky que até então o olhava horrorizada, começou a encarar Simon:

– Do que ele está falando?

Simon inflamou-se de puro ódio e partiu para cima de Carter, mas foi contido pelos outros:

– Conte para ela sobre aquela garota loira e sobre Susan Miller! Conte para ela! – Carter berrava

– Simon?! – Becky parecia começar a entender. Simon a encarou, o rosto confuso. Seus olhos passavam de rosto em rosto, nervoso. Simon se desvencilhou dos braços que o seguravam e encarou Becky:

– Becky...eu...

Os olhos da garota estavam vermelhos, mas seu rosto era pura raiva e nojo:

– Você não fez isso...

– Eu sinto muito! Deixe-me explicar... – Simon parecia fraco e pequeno agora:

– Vai embora! – Becky gritou – Vai embora daqui, agora! – ela chorava.

Simon cerrou os dentes. Todos o olhavam. Seus olhos azuis irritadiços olharam para Carter com uma fúria sanguinária, mas ele não disse nada, apenas entrou violentamente dentro de sua Toyota e arrancou; Todos estavam mergulhados no silêncio. Carter segurava-se em um carro, aparando o sangue que descia de seu nariz. Becky então desatou a chorar, Maggie a abraçou e levou para longe de todos aqueles olhares curiosos.
Carter não se lembra de como chegou em casa naquela noite. Borrões, vozes, sensações e ruídos vinham à sua mente, mas era como se um bloqueio o impedisse de vê-las, ouvi-las e senti-las com clareza. Pela manhã, Carter estava deitado, ainda de roupa sobre sua cama. As cores do teto bailavam pelo quarto, como espectros cintilantes. Estava dolorido, vazio e dormente, e por algum motivo, sentia que algo realmente ruim estava para acontecer.