O Mundo De Carter
2 Capítulo 2
“É uma brincadeira de mau gosto, uma piada sem graça apenas.”
Carter fugiu da realidade quando entrou naqueles corredores. Por um momento, mas que um momento, uma eternidade, todos pareceram olhar para ele, cada olhar fincado em suas costas, lhe causavam arrepios mordais pela espinha. Mas tudo era uma ilusão. Uma piada sem graça. Ninguém realmente o olhava. Ninguém realmente o notava naquela imensidão de alunos. Depois de um ano longe de tudo aquilo, Carter se sentiu como um soldado ferido e perdido num campo de batalha minado. Quando chegou à sala de aula, encolheu-se em seu lugar, sem nem mesmo tirar o capuz de seu moletom. Seu coração estava acelerado e o pior de tudo, Carter sentia prestes a ter uma crise.
“Está tudo bem, Carter, vai ficar tudo bem.”
Carter olhou ao seu redor. Tentou focar-se nos detalhes da sala, lançar sua mente para o mais longe possível de todo aquele terror que estava sentindo dentro de sua cabeça. Havia janelas ali. Uma ao seu lado. Alta, envidraçada, por onde entrava um feixe de luz que batia direto em seu rosto. Estava nublado lá fora. As cadeiras estavam enfileiradas perfeitamente. Era uma sala grande, porém estreita. As filas ficavam bem próximas, facilitando a cola durante as provas. Provavelmente proposital; Seu professor era um homem magro e alto, cabelos grisalhos, Carter mal sabia seu nome, ele não fez questão de se apresentar. A cortesia dos moradores nova-iorquinos.
Carter pensou em Rochester, na maneira como as coisas eram confusas e violentas. Isso levou sua mente às lembranças ruins, aos tempos perdidos de sua vida. Como Jared deveria estar? Porque ele se preocupava? Carter sabia a resposta, obviamente. Sua consciência nunca o deixaria esquecer-se daquele dia.
Prestes a levantar-se e ir embora, Carter desistiu, quando um grupo de alunos adentrou naquela sala. Diminuído, Carter voltou ao seu lugar silenciosamente como se nunca tivesse se levantado e observou enquanto aquelas pessoas se sentavam. Um casal sentou-se ao seu lado, a mão do garoto parecia estar grudada a cintura da menina, isso fez Carter se sentir constrangido. Havia todo tipo de aluno ali, mas uma coisa era visível, a grande maioria não ligava se estava ou não em uma escola.
Carter era um dos mais velhos naquela turma. Ele se perguntava se isso era algo vergonhoso. Como explicaria caso alguém lhe perguntasse? Seus pensamentos o afogavam quando de repente sentiu um cutucão em suas costas. Carter estremeceu de susto e se virou. Um garoto magrelo e baixo o olhava meio assustado – provavelmente com sua reação – meio intimidado, por trás das lentes grossas de seus óculos:
– Ahn...você poderia me emprestar um lápis?
Carter levou alguns segundos para processar oque ele dizia, mas quando finalmente entendeu, esboçou um sorriso e disse:
– Ah, claro – e lhe esticou um lápis recém-comprado.
O garoto o pegou meio desconfiado, mas agradeceu. Carter virou-se para frente na esperança de que ele puxasse conversa, mas ele não fez. Então num súbito de coragem, Carter virou-se para trás e disse:
– Ahn...Meu nome é Carter.
O garoto gentilmente disse:
– Collins.
Houve um silêncio constrangedor e Carter voltou-se para frente, mas dessa vez Collins foi quem falou:
– Você não é daqui é?
– Sou de Rochester.
– Imaginei – Collins tinha um sorriso torto e brincalhão. De repente um rapaz saltou na frente de Carter, jogando-se na cadeira. Tinha cabelos cacheados e ria energeticamente:
– Adivinha quem entrou pro time de futebol! – Por um momento ele pensou que o garoto falava com ele, mas na verdade era com Collins, que soltou um sonoro palavrão:
– Seu filho da mãe! Como você conseguiu?!
– O papai aqui é dos bons, meu bem! — disse o outro em tom de desdém.
– Finalmente você vai transar! – brincou Collins, mas o garoto o repreendeu, foi quando finalmente ele pareceu notar a presença de Carter:
– E quem é esse aí?
– Esse é Carter, ele é de Rochester – disse Collins, antes que Carter pudesse se apresentar.
– Rochester, é? Nova Iorque é muito melhor! Pode me chamar de Mark – disse o garoto sorridente.
Carter sorriu sem jeito. Seu medo havia desaparecido completamente àquela altura. Carter sentiu pela primeira vez naquele dia, que tudo realmente poderia ser diferente.
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