Notas iniciais
Deixem comentários se vocês gostarem.

As três primeiras semanas foram inquietantes. Uma mudança, dentre várias que ainda virão. Mas Carter finalmente sentiu que as coisas estavam se encaixando. Collins e Mark o aceitaram sem pestanejar em seu pequeno grupo de amigos. Ele descobriu que para pessoas como eles, realmente não importa quem você foi ou quem você é desde que seja uma pessoa legal e amigável, eles te aceitam no grupo deles.
Carter passou o primeiro domingo em Nova Iorque ao lado do pai, plantando e ajeitando um jardim de vinte metros quadrados. Ao fim da tarde, os braços de Carter pareciam flácidos e inflamados. Ele e o pai se jogaram na grama recém-plantada enquanto bebiam da limonada fresca feita pela mãe. Estava um dia mais ensolarado. Carter fechou os olhos e sentiu os raios luminosos em sua pele. A regata branca grudava-se ao seu corpo com o suor. Estavam sujos e fedidos. Depois de um longo descanso, Carter entrou em casa e tomou um longo banho morno. Vestiu um short preto, uma camiseta amarela de mangas longas e calçou seus velhos tênis de corrida, mas antes que saísse de casa, sua mãe lhe gritou para que tomasse seu remédio. Carter abriu seu pequeno estojo metálico e pegou um comprimido, engolindo com um pouco de água. Ficou um tempo encarando o estojo em sua mão.
“Ele conseguiria viver sem aquilo?” Carter o guardou em sua gaveta novamente e desceu as escadas, em pouco tempo corria ao redor de seu novo quarteirão no Brooklyn. O cheiro de Nova Iorque era algo novo e diferente para ele. Uma mistura de poluição, poeira e sujeira das ruas. Carter perdeu as contas de quantas voltas fez, mas não se atreveu a sair do quarteirão, pois mal conhecia as redondezas. Já era quase noite quando Carter começou a se sentir mal. Por um momento ele pensou que fosse cair, porém se agarrou à um poste de iluminação. Tudo girava, Carter estava tonto. Sua visão escureceu e ele foi tomado por um grande pavor.
“Fique calmo, é só uma queda de pressão...fique calmo, Carter”.

Uma mão veio repousar sobre seu ombro. Uma senhora de meia-idade o encarava preocupada:

– Está tudo bem, rapaz?

Carter fez que sim e piscou fortemente:

– Foi só uma tontura, não é nada – Carter se afastou e continuou correndo, mas sua vista ainda estava embaralhada. O rapaz disparou com medo que desmaiasse no meio da rua, mas suas pernas estavam lentas demais para acompanhar seu ritmo, Carter tropeçou nos próprios pés e foi de encontro ao chão. Uma dor irradiou por sua perna direita, o garoto gemeu ao ver o grande esfolado em seu joelho. Lutou para se levantar e foi se arrastando aos tropeços até em casa.
Ao vê-lo a mãe assustou-se. Já falava de hospital e médicos:

– Foi só um esfolado, mãe, só um esfolado – Carter ainda estava tonto. Sentou-se na cadeira da cozinha com a perna estendida enquanto a mãe pegava o kit de primeiro socorros para fazer o curativo.

– O que houve? – perguntou o pai, ainda vestido em suas roupas imundas, deveria de estar trabalhando no jardim até àquela hora.

– Eu tropecei...fiquei tonto e perdi o equilíbrio, mas não vai acontecer de novo.

Carter gemeu ao sentir o pano úmido sendo pressionado contra o machucado:

– Como pode saber que não vai acontecer de novo? – Seu pai estava ficando nervoso, ele nunca lidou muito bem com nada daquilo – Carter, estamos em Nova Iorque agora, um tropeço...Deus sabe lá oque pode te acontecer nas ruas!

– Eu estou bem! – exaltou-se Carter. Eles se encararam. E lá estava. O medo nos olhos de seu pai. Sempre o mesmo olhar. Carter estava furioso consigo mesmo, tanto que não esperou a mãe terminar o curativo e subiu mancando para o quarto. Carter ligou o chuveiro e se enfiou lá embaixo. A pressão da água quente em seu joelho machucado o fez gemer de dor. Ele deixou-se escorregar até sentar no chão molhado do banheiro com a água caindo sobre sua cabeça. Lembranças passavam por sua cabeça, como sempre acontecia quando ficava nervoso. Mas só Deus sabia que aquilo não eram apenas lembranças. O sangue de seu joelho escorria perna a fora. Por um momento, Carter estava inteiramente afogado em sangue, cada centímetro do seu ser pintado no mais escuro tom de escarlate. Ele estremeceu e fechou os olhos.


“Não é real.”


Uma voz mais profunda veio à sua mente, no mesmo tom fantasmagórico... um tom familiar que vinha lhe perseguindo como um demônio, um sopro da morte que lhe sussurrou ao ouvido:

“É sim...”