O Mundo De Carter
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Thorazine ou Clorpromazina, substância antipsicótica, utilizada no tratamento de esquizofrênicos. Sintetizada em 1950 por Paul Charpentier, possui uma ação estabilizadora no sistema nervoso central e periférico e uma ação depressora seletiva sobre o SNC (Sistema Nervoso Central) que permite assim, o controle dos mais variados tipos de excitação. Por isso utilizado em tratamento de perturbações mentais e emocionais.
Esquizofrenia, sofrimento psíquico grave, em que o paciente perde o contato com a realidade. Existem diversos tipos de esquizofrenia e sintomas variados. O tratamento consiste em duas partes: medicamentoso, com antipsicóticos, e psicossocial, como uma terapia médica.
Ingira esse remédio por no mínimo três vezes ao dia e vai dar tudo certo, foi o que disse Dr. Rasenberg na última vez em que Carter esteve em sua clínica. Agora ele se sentia traído, dolorido e depressivo. Ali, deitado seminu na cama de seus pais, encarando um teto branco e mofado, as lembranças pingavam sobre sua cabeça como gotas frias de chuva. Ele estava dopado, sonolento e com um gosto terrivelmente amargo na boca.
Jared McCallister. Carter se lembrava bem desse nome. O garoto alto e forte, cheio de cicatrizes que ganhara em casa durante as surras que levava do pai. Tratava a namorada como lixo e batia em garotos menores, como se fossem pedaços de trapos. Carter não se lembra de como aquelas coisas começaram ao certo, mas simplesmente...começaram. Deveria de ter pouco mais de 16 anos. Era um garoto calado, que tirava boas notas, cujos melhores amigos eram professores e os próprios pais. Um dia ele acordou e já não era mais o mesmo. Um gato preto na janela. Um buraco que não existia no teto. Luzes brilhantes em lugares escuros e uma maldita voz que não parava de sussurrar em seu ouvido. Voz rouca e grossa, porém profunda e longe, uma voz que lhe fazia lembrar-se de um filme. O poderoso Chefão. Como se Don Vito Corleone estivesse murmurando às suas costas. No princípio, Carter imaginou que fossem seus pensamentos...mas depois ele percebeu que não era ele quem estava pensando aquilo.
Carter não dava ouvidos à voz de Corleone, ele o ignorava quase o tempo todo e às vezes ela desaparecia por semanas e quando voltava...Carter tinha vontade de dar um tiro na própria cabeça. Foi nesse ritmo que sua mente veio definhando no mais profundo silêncio durante longos meses. Carter não contou nada para ninguém, pois tinha medo de que o colocassem numa camisa de força ou algo assim. Quando por fim não aguentava mais, Jared McCallister veio lhe fazer uma visita no corredor lotado da escola. Carter implorou para que parasse, mas ele se divertiu ao ver o garoto em tal miséria. Foi a última vez que Jared McCallister tocou em Carter ou em qualquer outro aluno. Num súbito violento, Carter vestiu a loucura de sua mente e arrebentou a cara do garoto contra o armário, várias e várias vezes, até que ele fosse parar no hospital por traumatismo craniano. O modo como as pessoas passaram a olha-lo depois disso acabou ainda mais com Carter. Ele era um monstro, para os colegas, para os professores, para os próprios pais. O garoto sobreviveu, mas tudo isso lhe custou uma expulsão e uma grande dívida para seus pais. Pelo que lhe disseram Carter só não foi levado à delegacia por que acharam que ele fosse louco. Depois disso as coisas se tornaram ainda mais sombrias e Carter se viu atolando na mais profunda escuridão. Sua cova ia se fechando sobre ele. Carter estava se sufocando na própria loucura. Então numa segunda de manhã, enquanto ninguém olhava, Carter foi até a cozinha para dar um fim à própria vida e retalhou os pulsos com uma faca, fazendo cortes verticais tão profundos que a lâmina tocou seus ossos. Seus pais o encontraram em meio a uma densa poça de sangue, levaram-no para o hospital às pressas e por muito pouco Carter não atingiu seu objetivo. Depois disso veio a internação, um ano inteiro preso num quarto branco. Injeções, terapia e noites mal dormidas. Só Deus sabe o terror que Carter passou em seus piores dias. Comemorou seu aniversário de dezessete anos ao lado dos pais, do Dr. Rasenberg e das enfermeiras e apesar de tudo, Carter estava feliz. Ao final daquele dia ele sentia que estava no caminho certo.
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