– Foi legítima defesa, não podem fazer nada a respeito – discutia Robert com o policial – Ele o atacou, estava o seguindo, meu filho é inocente...

– Isso é o que veremos... com licença – disse o policial, desaparecendo no corredor do hospital. Carter estava sentado em uma daquelas cadeiras de plástico hospitalar. As mãos enfaixadas tremiam de dor e nervosismo, seu rosto estava sujo e molhado de suor. Ele não se lembrava de como chegou ali, estava confuso, perdido, tudo parecia ser uma fita inacabada em sua mente. Lauren estava do seu lado, afagando suas costas. Carter não conseguia tirar os olhos do chão. Tudo estava escarlate. Seu mundo parecia feito de sangue, ele sentia o cheiro, o gosto, a textura. Podia ver o líquido vermelho em suas mãos. Simon estava lá dentro, em algum lugar. Carter era um monstro, ele sabia que era monstro.

“Oque você fez, pequeno Carter? Você vai pagar por isso...vou comer seu coração!”

“O pequeno Carter não sabe brincar...ele tem de sofrer! O menino Simon vai morrer, ah sim, ele vai morrer...”

Um ruído alto se instalava na base de sua cabeça, como se um inseto tivesse entrado em seu cérebro e botado ovos entre seus neurônios. Carter apertou as têmporas com as mãos enfaixadas:

– Oque foi que eu fiz?

– Fique calmo... – sussurrava sua mãe – Vai ficar tudo bem...

– Ele vai morrer...meu Deus...ele vai morrer...

– Não...Carter, querido, olhe pra mim...Carter... – ela tentava virar seu rosto, mas o garoto estava alucinado.

– Eu não queria...não queria... – foi quando ele ouviu o barulho familiar de passos entrando no corredor. Ao levantar os olhos, deparou-se com Becky, logo atrás vinha Maggie. Ela estava assustada, olhava para Carter com tristeza e medo. O garoto se levantou:

– Becky...foi um acidente...eu não queria...juro que não queria... – A garota o abraçou por um curto período de tempo e o soltou, depois o olhou da cabeça aos pés:

– Você está bem?

– Eu não devia ter feito...eu não sabia, não pude evitar...meu Deus...ele vai morrer, Simon vai morrer...

Becky estava assustada com seu comportamento, os olhos borrados o encaravam com confusão. Nesse momento, um médico apareceu:

– Ele vai sobreviver... – Carter virou-se automaticamente – Ele teve alguns cortes profundos no rosto e um ferimento na cabeça...mas vai sobreviver, só que terá de ficar um bom tempo sobre observação, talvez fique algumas cicatrizes...bem, é cedo pra dizer – disse o doutor de cabelos loiros.

Carter respirou fundo, parecia prestes a pirar. Lauren segurou seus braços e guiou-o até a cadeira de plástico. Depois disso as coisas se desaceleraram. Carter foi levado até a delegacia. Charles, pai de Simon, queria que o prendessem, mas como fora realmente legitima defesa, apenas fizeram um B.O e o mandaram para casa. Carter quis visitar Simon, insistiu de todas as formas, mas não lhe permitiram. Estava se sentindo um monstro, como se seus piores pesadelos tivessem se torando realidade e Carter finalmente se tornava um demônio sem humanidade. Pela madrugada, ele se sentou debaixo do chuveiro e deixou que a água caísse sobre seus cabelos e corpo, tirando todo o sangue seco e poeira. Seus machucados ardiam e doíam terrivelmente, mas a dor em seu coração anestesiava a consciência de todas as outras.
No dia seguinte, Carter estava destroçado. De alguma forma, todas as pessoas já sabiam do ocorrido. Quando passava pelos corredores, Carter via os olhares. Aqueles malditos olhares. Ele desejava arrancar seus olhos e só de pensar nisso, Carter se sentia culpado:

– Simon é completamente pirado! – dizia Cho durante o intervalo – Becky, sinceramente, não sei como você aguentou esse cara todo esse tempo... – ela nunca desconfiava do quanto era desagradável – Ele devia ser preso!

– Ele está no hospital – disse Carter friamente olhando para Cho – Não tem como prender uma pessoa que está no hospital.

Cho parecia um tanto exaltada. Carter se levantou sem nem mesmo tocar em seu lanche e foi para o banheiro masculino, sentindo os olhares de seus amigos às suas costas. Olhando-se no espelho, Carter se sentia um lixo da humanidade.

“Quem é você?” pensou. Umedeceu o rosto e a nuca. Estava tonto, Carter segurou-se na pia. O granito parecia ondular como se fosse líquido. As ondas começaram a envolver seus dedos e eram ásperas e úmidas. De repente não eram mais ondas e sim cobras. Várias e várias delas sobre a pia, subindo por seus braços. Carter pulou para trás, batendo suas costas contra a parede:

– Está tudo bem? – era Collins que o olhava da porta. Carter engoliu em seco e olhou novamente para a pia, mas as cobras haviam desaparecido:

– Sim...está tudo bem, foi só...uma tontura.

– Tem certeza? Não quer ir para a enfermaria?

– Tenho... – Carter se recompôs e saiu do banheiro, deixando Collins sozinho.