O Mundo De Carter
16 Capítulo 16
Pessoas são complicadas. Elas gostam de dar e receber amor, embora não saibam escolher as pessoas certas para fazerem isso. Becky amava Simon porque imaginava que ele a amava. Dar e receber amor, esse é o vício das pessoas. Uma carência que motiva à sempre estarem à procura de alguém para preencher aquele vazio no peito. Carter sabia disso, e sentia raiva de si mesmo por ser tão covarde a ponto de esconder a verdade de Becky. Mas será que se ele lhe contasse sobre Simon, isso seria uma atitude mais honrosa? Causar-lhe um sofrimento pior ainda, pelo simples fato da pessoa que ela amava ter mentido e acima de tudo, traído sua confiança...
Quem ele estava tentando enganar? Ele era um covarde.
Carter permaneceu em uma batalha de consciência por dias após o baile de Inverno. Ver Becky ao lado daquele sujeito asqueroso e falso, o atordoava ainda mais, incitando a contar tudo que sabia, ali mesmo, na frente de todo mundo. Mas ele, obviamente, não o fez.
E assim passaram os minutos, horas, dias e semanas.
Carter voltou a correr no início de fevereiro, mesmo com o frio intenso de inverno. Todas as tardes ele aumentava gradativamente seu percurso, oque ele não podia era ficar parado. Pois como dizem “Mente vazia, oficina do diabo”. Na hora de dormir, Carter ligava a vitrola e ouvia The Times They Are A-Changin, até o momento que o sono lhe fazia uma visita. Com o passar do tempo aquilo virou sua rotina.
Aos domingos, Carter e seu pai faziam pequenas arrumações na casa. Tudo que podia ser feito, para que pudessem passar um tempo juntos. Com o início da primavera, as primeiras flores plantadas no jardim começaram a abrir e em poucos dias a casa se tingia de cores. Carter estava bem até certo ponto, pois aprendera a viver da maneira como a vida lhe vinha. Era como aceitar uma mosca em sua sopa, você sabe que ela está lá, mas como não pode pedir outra, come de bom gosto. É claro que na vida real isso não era verdade. Mas para Carter, não existia vida real.
Foi numa quinta-feira em que a primeira peça de seu dominó caiu:
– Vocês formarão duplas – dizia Sr. Morcov, professor de literatura. Todos estavam animados, como se é de esperar. Em questão de duplas, Carter geralmente eram quem fazia o trabalho e colocava o nome do parceiro – Que já foram escolhidas por mim – aquilo gerou um furdunço sem precedentes. Mais que depressa, Sr. Morcov começou a apontar para os alunos:
– Missha e Oliver; Pietro e Marcondes; Johny e Michel...
Carter só via a hora de chegar a seu nome. Em sua turma havia Mark e Becky. Qual seria a chance de ser colocado com um deles? Carter não fazia ideia. Quando finalmente, Sr. Morcov apontou seu dedo gordo para Carter, ele engoliu em seco:
– Carter e Becky – O garoto foi tomado por uma onda de felicidade e ao mesmo tempo de repreensão. Becky sorriu para ele e foi recíproco.
As palavras de Simon ainda ecoavam em sua mente, desde o dia daquele baile. Oque Simon faria se soubesse que Carter faria um trabalho com sua namorada? Ele se sentiu covarde, mas ao mesmo tempo feliz.
No fim da aula, Carter e Becky caminhavam pelo corredor:
– Então, que dia você pode? – perguntou Carter
– Estou livre todos os dias após as seis e o dia inteiro aos sábados.
– Ahn...que tal amanhã na sua casa?
Becky estreitou os ombros, incomodada:
– Na minha casa não dá, desculpa.
– Não precisa se desculpar, que seja na minha então – disse Carter forçando um sorriso. Becky consentiu, mas sem o olhar nos olhos. Ele sentiu que estava na obrigação de perguntar se estava acontecendo alguma coisa, mas naquele momento, Simon materializou-se em sua frente, enlaçando Becky em um abraço. O garoto lhe mandou um “Olá, Carter” amargo e se afastou com a namorada, como se Carter fosse um parasita nojento.
No final daquela tarde, ele abusou dos tons vermelhos. Pintou com verdadeira fúria, como não fazia a meses e quando finalmente terminou, sua tela parecia um mar de sangue.
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