O Mundo De Carter
17 Capítulo 17
Na sexta à tarde, Carter ajeitou uma última vez o seu quarto. Por mais que tentasse organizá-lo as coisas sempre pareciam fora do lugar. Aproveitou para esconder seu estojo de remédios, não queria que ela lhe infectasse com perguntas. Guardou muitas telas, mas a maioria que já estavam presas às paredes, ele deixou. Afinal, Becky sempre quis ver sua arte abstrata. Quando ouviu o barulho familiar do Voyage Vermelho, Carter desceu as escadas e esperou atrás da porta até que ela tocasse a campainha. Estava nervoso, era claramente visível, e os olhares corriqueiros de seus pais não ajudavam em nada. Quando a campainha finalmente tocou, Carter ainda esperou cinco segundos – contados – para abrir a porta. Becky estava linda, como sempre. Usava um casaco preto apesar de não estar tão frio e trazia uma mochila às costas. Carter a convidou gentilmente para entrar. Envergonhou-se quando sua mãe veio lhe cumprimentar, porque aquilo parecia com outras intenções. Portanto apressou-se o mais rápido possível para o quarto, antes que se metesse numa situação verdadeiramente constrangedora.
Quando Becky entrou em seu quarto, seus olhos iluminaram-se com uma luz especial:
– Você tem muito talento, Carter – disse observando os vários borrões coloridos em suas telas, espalhadas por todo o quarto. Suas paredes eram cheias delas e de fotos, que tirara antes mesmo de toda aquela fase ruim começar. Carter sempre foi apaixonado por paisagens e costumava fotografa-las com a velha câmera de seu pai: — Eu adorei o seu quarto.
– Obrigado – agradeceu sem graça. Carter sentou-se na cama e observou-a enquanto Becky explorava seu quarto:
– Quem tirou essas fotos? – disse admirada.
– Eu...mas faz muito tempo, são antigas.
– São muito bonitas, você poderia investir nisso...
Carter nunca havia pensado daquela forma. Becky sentou-se do seu lado na cama e abriu sua mochila. Passaram um bom tempo conversando sobre o livro do qual fariam o trabalho: O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Um romance de 1946 que trata sobre temas como alienação, rebelião, confusão na adolescência, sociedade, dentre outras coisas. Era um livro muito importante na vida de Carter, pois o lera pela primeira vez durante seu tempo na reabilitação, um presente do Dr. Rasenbeg. Holden Caulfield, com toda sua invisibilidade e confusão, provou para Carter que ele não estava sozinho. Assim como ele, o protagonista passou por um “hospital mental” no qual ficou por um período internado. A vida de Holden parece confusa e sem muito sentido, como se o personagem usasse uma venda nos olhos para caminhar no escuro. Becky parecia conhecer bem o livro e talvez pela primeira vez, Carter não fazia o trabalho sozinho.
Em certo momento, Lauren bateu à sua porta perguntando se queriam alguma coisa, mas Carter sabia que ela estava ali para checar as “coisas”. Depois de muita insistência, Becky acabou aceitando um copo de suco de laranja.
Naquela noite Carter estava sem casaco, afinal Becky já sabia da existência de suas cicatrizes, não havia motivos para tentar esconder agora. Conversaram um bom tempo sobre os professores, filmes, músicas e seus colegas. Depois de um tempo, estavam tão descontraídos que tudo parecia se encaixar. Carter estava feliz em poder ter alguém com quem conversar. O garoto estava deitado na cama e Becky sentada em uma das pontas; Depois de um tempo em silêncio, a garota deitou-se ao seu lado, para sua surpresa. Carter ouviu o barulho de sua respiração e percebeu o modo como aquilo o acalmava, quase podia ouvir seus batimentos cardíacos. Então Becky cortou o silêncio:
– É engraçado.
Carter virou a cabeça. Becky olhava para as tintas no teto, mas não era sobre isso que ela falava:
– O que é engraçado?
– As pessoas que conhecemos de uma hora pra outra...a forma como podem ser importantes, é engraçado.
Carter não entendia muito bem oque ela dizia:
– Me fale sobre você, Carter – ela agora o olhava. Estavam cara a cara, deitados na cama. Carter via de perto a sua beleza:
– O que quer que eu fale?
– Não sei... só fale oque vier à mente, me conte um pouco sobre você.
– Ahn...eu gosto de pintura e também gosto de música...- ele riu com sua própria falta de jeito – principalmente Bob Dylan...gosto de cores vivas e...de patinar no gelo – Carter olhava no interior de seus olhos, estava tão azulados, como dois belíssimos oceanos o chamando para um mergulho. Carter mal percebera que havia parado de falar. Becky sussurrou:
– Do que você tem medo, Carter?
– De muitas coisas... – sussurrou de volta- ...o tempo todo.
Becky respirou fundo:
– Posso te contar um segredo?
– Pode...
– Eu também tenho medo... – Carter só agora notava uma região arroxeada abaixo do seu olho esquerdo. Estava bem claro, como se Becky tivesse tentado apagar com pó de arroz:
– Do que você tem medo, Becky? – sussurrou ele.
A garota fechou os olhos e por um momento parecia estar dormindo:
– Acho que tenho que ir, Carter – disse se levantando.
– Mas...
– Nos vemos amanhã – interrompeu-o. Logo Becky descia as escadas e desaparecia em seu Voyage Vermelho.
“Do que ela tinha medo?”.
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