Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=t3eza6LvswI

Carter sempre adorou a comida da mãe, principalmente quando ela fazia seu prato favorito: carne assada ao molho pardo, purê de batata doce e macarronada ao molho branco, como foi o caso do jantar de ação de graças. Lauren estava testando novos temperos desde que comprara um livro de culinária. Carter sabia que o sonho de sua mãe desde a época que moravam em Rochester, era de abrir um restaurante só dela, mas depois de todas as coisas que aconteceram, essa ideia simplesmente foi deixada de lado. O dinheiro que juntaram durante anos foi usado para o seu tratamento e Carter não podia deixar de se culpar por isso. Agora, em Nova Iorque, sua mãe trabalha em uma escola primária em Manhattan, enquanto seu pai fazia bicos na vizinhança.
Quando se deu por satisfeito, Carter subiu para o quarto. Tirou a camisa branca que vestia e colocou um avental velho e manchado de tinta que sempre usava. De debaixo da cama, retirou algumas de suas telas recém-pintadas, até achar uma ainda branca. Colocou-a sobre o tripé de madeira que ganhou em seu aniversário e começou a disferir longas pinceladas ao longo do tecido áspero. Escarlate – sua cor favorita -, sombra natural, magenta, verde limão, marrom de garanza se misturavam na ponta de seu pincel formando um desenho colorido e sem sentido.

Deixe suas emoções fluírem, Carter. Deixe que sua mão desenhe na tela o que você sente. Isso é uma ótima forma de encarar o mundo, não acha? Fazer rabiscos numa tela...reflete nossa emoções mais confusas, dos tons mais sombrios aos tons mais quentes.

Assim dizia Dr. Rasenberg durante seu tempo de internação. Carter observou com uma ponta de espanto, que seu desenho se assemelhava a um rosto, que com o tempo foi ganhando forma e cor, até ser tão radiante quanto o sorriso de Becky. Carter ficou um tempo só encarando a beleza daquele retrato colorido e sem sentido. Uma obra-prima.

...

Carter balançava a perna de ansiedade. Aquele corredor tão claro era um lugar familiar que lhe causava arrepios toda vez que ali pisava. O fazia lembrar-se dos tempos ruins. Quando finalmente, a porta marfim se abriu, Carter levantou-se e entrou na clínica do Dr. Rasenberg. O senhor de meia-idade, de barriga saliente, uma careca brilhosa e uma barba branca invejável o recebeu com um sorriso. Carter deitou-se no divã acolchoado vermelho como de costume e abriu um sorriso enquanto o velho homem sentava-se do seu lado e o enchia de perguntas. Dr. Rasenberg não era apenas seu médico, mas também um grande amigo:

– E quanto à escola? – perguntou

– Vai muito bem, eu conheci pessoas legais, fiz algumas amizades, minhas notas melhoraram bastante, estou mais centrado sabe...

– E as namoradas? – o jeito menino do doutor sempre divertiu Carter.

– Como sempre, não tenho. Mas...

Os olhos do homem se iluminaram:

– Mas, oque?

– Tem uma garota agora...ela é muito bonita e legal.

– Amo garotas bonitas – disse sorridente – e ela é solteira?

– Penso que sim.

– Então invista rapaz! Vai que essa é sua! – Carter riu junto ao doutor.

Depois o assunto ficou mais sério. Carter falou de sua última crise, da maneira como lidou com isso, dentre outras coisas:

– Você tem de ter cuidado, Carter, converse mais com seus pais, diga tudo que tiver de ser dito.

Carter concordou, só não sabia quando teria a oportunidade de fazer isso. No final da consulta, Carter já se sentia mais leve:

– Obrigado, doutor

– Ah, que isso Carter, depois de todo esse tempo ainda me chama de doutor? Me chame de Halph, pelo amor de Deus! – disse soltando uma gargalhada.

– Ok, Halph – Carter sorriu e apertou sua mão. Dr. Rasenberg o olhou no fundo dos olhos, como só ele fazia e abriu um longo sorriso, como quem diz: Está tudo ok. Carter já ia saindo, mas antes que passasse pela porta, virou-se e disse:

– Ahn...Halph?

– Sim?

– Se você fosse chamar alguém para sair...aonde a levaria?

Dr. Rasenberg abriu um grande sorriso:

– No King Restaurant Masses, sem dúvida.

Carter sorriu:

– Valeu.