O quarto era pequeno, uma janela, paredes marfim e de pouca iluminação. Havia uma cama de solteiro que rangia muito, um carpete cor de amêndoa que cobria todo o assoalho e antigas colagens de revistas sobre a tintura clara das paredes. Carter imaginou que quem tivesse morado ali deveria de ter um péssimo gosto decorativo. Mais que rapidamente ele arrancou todos aqueles pôsteres de bandas, mulheres e carros. A parede acabou por descascar numa porção de lugares. Carter lixou todo o quarto sozinho. O suor chegou a grudar seus cabelos no rosto. Depois de horas de trabalho duro, Carter contemplou de sua cama, as paredes recém decoras de seu quarto. Agora suas telas e fotografias enfeitavam o ambiente de um jeito totalmente novo. De um jeito Carter. Um festival de cores.

Mais tarde naquele dia, depois de muita arrumação de sua casa nova, Carter e seus pais tiveram um ótimo piquenique no quintal de casa. A grama falhava na maioria dos lugares, consequência do descuido do antigo dono, mas ainda assim era um ótimo lugar para se descansar. Carter devorou os sanduíches de pasta de amendoim e canela, enquanto observava a felicidade estampado nos rostos de seus pais.
“Dessa vez vai ser diferente”, pensou.
Depois de um tempo de luta, Carter finalmente soubera que a felicidade de seus pais era sua única prioridade. Agora ele teria de lutar por eles, em honra de tudo aquilo que sacrificaram para estarem ali. Carter sentia que poderia começar de novo.
Já no fim da tarde, Carter estava em seu quarto, observando a maneira como as cores das tintas se misturavam como num grande caleidoscópio. Carter sentiu-se inebriado com aquela sensação, como se o calor do escarlate irradiasse por seu corpo. De repente, aquelas simples cores não pareciam mais lhe fazer sentido, pois dançavam no teto, como se perseguissem uma as outras. Carter olhou no relógio e percebeu que já passava da hora.
Tirou uma cápsula do pequeno estojo sobre seu criado-mudo e engoliu a seco, sentindo o remédio agarrar-se às paredes de sua garganta. Carter então fechou os olhos e esperou a noite chegar.
Pela manhã, Carter se sentia como no primeiro dia em que pisara em uma escola. Perdido, amedrontado e confuso. Enquanto dirigiam em meio à chuva, Carter avistou ao longe, a visão panorâmica da ponte do Brooklyn. Era belíssima e por um momento ele se esqueceu de todos os seus problemas. Quando o carro parou, uma forte dor de estômago apertou suas entranhas e Carter soube que não estava preparado:

— Não sei se consigo.

Sua mãe, sentada ao banco do carona, virou-se para trás com olhos encorajadores:

— Eu sei que você consegue.

— Não...Eu não vou. Eu não posso.

— Se alguma coisa acontecer basta ligar, não se preocupe – disse seu pai, olhando-o pelo retrovisor.

Carter olhou para fora, através do vidro embaçado pela chuva. O movimento das pessoas o deixava tonto. Ele respirou fundo e abriu a porta, colocando o capuz de seu moletom sobre a cabeça. A mochila parecia um chumbo sobre suas costas. Ao encarar o prédio de três pavimentos da School Johnson K. Green, ele se sentiu pequeno e vulnerável. Carter então subiu os poucos degraus da entrada sem olhar para trás, pois sabia que se o fizesse ficaria tentado a voltar.
“Não se preocupe, Carter, vai ficar tudo bem”.