Meu nome é Sam, estou me mudando para casa do meu pai, Adam. Não sei bem onde ele mora, nem tenho cabeça para tentar lembrar. Acho que não mencionei o fato de ter acabado de perder minha mãe. Não entendi direito o que aconteceu. Parece que ela estava voltando do trabalho novo de vendedora e sofreu um acidente de carro.
Meu voo chegou ao aeroporto por volta das dez horas da manhã. Meu pai estava na saída do desembarque me esperando, me abraçou com um pouco mais de força que o necessário, se é que o abraço dele era realmente necessário.
Meu pai carregou minhas malas até o carro. Entrei no banco do passageiro como de costume. Adam não é do tipo que fala muito, mas muitas vezes irrita quando começa.
— Eu sinto muito, de verdade, sua mãe era uma pessoa ótima!
Olhei para expressão vazia no rosto de Adam, depois voltei a olhar a paisagem pela janela.
— Ta, valeu.
— Eu arrumei um quarto para você em casa.
— Legal!
Algum tempo se passou, a paisagem das casas da cidade ficou para trás, agora tudo o que cercava a estrada eram as árvores de ambos os lados da estrada. Ao mesmo tempo em que os muros de floresta espessa sumiam, via-se uma casa em meio a campina, uma casa moderna, de dois andares, com uma grande varanda na frente. O telhado era inclinado na diagonal dele saia uma chaminé, provavelmente de lareira. Na fachada havia muitas janelas e tons entre o cinza do cimento e marrom de madeiras envernizadas, com colunas brancas na varanda.

Adam estacionou em frente a casa, ele pegou as malas e entrou, entrei logo depois, o segui até o andar superior.
— Bom! Este é seu quarto, espero que goste!
— Legal! Valeu.
Entrei no quarto, não era muito grande, havia uma janela do outro lado do quarto, debaixo dela uma cama com um cobertor, roupas de cama e um travesseiro. Do lado esquerdo, uma estante para livros totalmente vazia. Ao lado uma escrivaninha com um notebook sobre ele. Do lado direito, uma parede com fotos de varias capitais de todo o mundo que ocupava toda a parede, havia também um pufe azul jogado no chão. Na parede da porta havia uma televisão e uma prateleira debaixo dela, ideal para comportar um videogame, isso se eu tivesse um. Entre a cama e o pufe, havia uma porta, dentro dela um pequeno closet.
Adam deixou minhas malas aos pés da cama, tudo que eu menos queria no momento era conversar, então as coloquei sobre a cama e abri a porta do closet. Adam saiu do quarto sem dizer mais nada. Depois de organizar minhas roupas, abri a janela e notei um jardim atrás da casa. Até seria uma boa respirar ar puro sem ninguém falando no meu ouvido.

Peguei em uma das malas minha toalha e meu necessary, com produtos de higiene. Caminhei até o banheiro, tomei um banho rápido, na tentativa de aliviar meus pensamentos. Totalmente em vão. Acabei chorando novamente, lembrei-me do ultimo abraço que minha mãe me deu, do ultimo beijo, dos conselhos que na maioria dos casos resolvia meus conflitos internos. Mas decidi sair desse frenesi e mudar de tática.

Uma batida na porta.

—Sam, vou trabalhar, volto logo!

—Ta! – revirei os olhos em deboche.

Ouvi a porta da frente bater, tive certeza de estar sozinho. Voltei para meu quarto, coloquei uma calça jeans, uma camiseta branca e um moletom cinza, depois de colocar o tênis e peguei meu celular. Uma tentativa inútil de ouvir música, estava descarregado. Então nada melhor que sair de dentro de casa.
Desci as escadas correndo e fui até a cozinha que tinha uma porta de vidro voltada para o campo atrás da casa, caminhei até o jardim que tinha visto. Do quarto me parecia bem mais perto. Passei por algumas árvores que escondiam o pequeno jardim.

O jardim era repleto por flores, de muitas cores e aromas diferentes, no meio uma única árvore, um salgueiro chorão muito grande e muito lindo, ao seu lado um gazebo redondo, num tom de branco desbotado. Entre as árvores onde eu estava e o jardim corria um pequeno riacho, e por cima dele havia uma ponte envelhecida, na mesma tonalidade do gazebo. Conclui que há muito tempo ninguém pisava ali, então seria como um lugar particular, um lugar só meu, uma espécie de refugio do mundo real.
Caminhei com cautela por cima da ponte, fui em direção ao gazebo branco. O lugar era lindo. Sentei-me num canto debaixo da cobertura do gazebo que estava repleto por folhinhas que se desprendiam da árvore, e comecei a lembrar dos momentos bons que passei com minha mãe, das viagens que fizemos e das que queríamos fazer juntos, dos nossos planos para o futuro que agora se mostram meio impossíveis. Acabei caindo no sono. Ao acordar me deparei com uma pessoa me olhando, sentada bem ao meu lado. Tinha olhos azuis intensos, cabelos escuros, pele muito clara, tinha um estilo meio despojado, usava regata, camisa xadrez amarrada na cintura, e calça jeans num tom azul desbotado, tênis all star preto.
—Oi! — Ele riu baixo.
Me arrumei assustado, sentando-me novamente.

— Ah... Oi!

—Está aqui há muito tempo? – ele perguntou.

—Não sei, acabei dormindo. – respondi ainda espantado.

— Alias meu nome é Mike. – ele estendeu a mão, e eu o cumprimentei.

— Samuel, mas todos me chamam de Sam! Prazer.

Ele riu novamente. Abaixei a cabeça constrangida, percebendo que estava focado demais em seu rosto. Notei que estava ficando escuro, logo Adam estaria de volta, tinha que me apressar.

— Eu tenho que ir agora!

— Sim, claro eu também. Nos vemos amanhã então? – seu tom era de desanimo.

— Claro! Aqui? – Acho que respondi rápido demais.

Ele acenou com a cabeça em confirmação.

— Na mesma hora então. Até logo.

Corri de volta por onde passei antes. Percebendo que a campina era mais inclinada, entrei ofegante em casa, corri escada à cima. Tomei outro banho, dessa vez mais rápido, e depois de colocar uma calça de moletom e uma camiseta, me joguei na cama, pegando meu celular no criado mudo, que agora estava com carga total, apanhei meus fones de ouvido e liguei minha playlistno volume máximo. Depois de um tempo caí novamente no sono.