Acordei assustado com uma batida de porta vinda do andar de baixo. Levantei e abri uma brecha da porta. Não vou mentir a cena não me incomodou, apenas deu nojo. Meu pai carregava aos beijos, uma moça para seu quarto.

O som era infinitamente insuportável. Irritei-me e levantei da cama, jogando o travesseiro que estava sobre meu rosto na direção da porta. Vesti uma blusa que deixei pendurada na porta do closet e desci as escadas correndo, abri a porta devagar e a bati com muita força ao sair. Caminhei até a garagem percebi que havia alguns livros numa prateleira no fundo. Alguns até me interessaram, o tipo de livros que se lê quando está na pior. Mas a maioria por sua vez era de estudos, estes não me chamavam a atenção nem nos meus melhores dias. Decidi voltar para varanda na frente de casa, me sentei na cadeira de balanço velha e comecei a folhear uma revista de decoração, ou pelo menos acho que era algo do tipo.

Voltei para dentro, já não existia barulho algum. Entrei no quarto e tranquei a porta. Pluguei meu fone no celular e coloquei a música no máximo. Acho que escutei apenas duas músicas e peguei no sono novamente.

No dia seguinte acordei mais tarde do que pretendia. Tão tarde que já estava sozinho em casa. Cuidei da minha higiene como de costume e desci para tomar café da manhã. Depois voltei ao andar de cima, dessa vez notei que no meio do corredor tinha uma pequena corda fina, que pendia de uma pequena porta no teto. Puxei-a e dela desceu uma escada que levava ao sótão.

Decidi subir e ver o que havia lá em cima, se é que havia algo. Uma nuvem de poeira pairava sobre o lugar. Possuía um espaço único, sem paredes nem divisórias, apenas móveis velhos cobertos por lençóis brancos, hiper sujos. Num canto vários baús antigos com fechaduras simples. Caminhei até os baús, queria saber o que tinha dentro deles.

No primeiro, vestidos que pareciam ser de festas, algo que se pode dizer ser de muito tempo atrás. No segundo sapatos. No terceiro muitos panos, lencinhos, meias, luvas, e no fundo, debaixo de tudo, uma caixa simples de sapatos, dentro dela um livro, em uma cor de marrom muito desbotado, sem desenhos na frente ou escrituras atrás, e uma fechadura como a de um diário, que me parecia ser mais antigo que todas as outras coisas. Na caixa ainda havia uma chave pequena, que deduzi ser do livro. Coloquei o livro e a chave de volta na caixa e a deixei ao meu lado enquanto organizava todo o resto dentro dos baús, e os deixava da forma como os encontrei. Peguei a caixa ao meu lado e desci. Entrei no meu quarto colocando a caixa sobre a escrivaninha.

Deitei-me na cama enquanto mexia no celular, lembrei-me que tinha marcado de encontrar o garoto do jardim. Ter um amigo na nova cidade me parecia algo bom. Saltei da cama, puxando da cadeira a blusa de moletom que usei antes, e pegando a caixa na escrivaninha. Corri escada a baixo e sai pelos fundos como antes.

Ao ultrapassar a parede densa de árvores e arbustos, cheguei ao jardim de antes, que agora estava solitário e quieto. Atravessei a ponte e andei até o gazebo. Acho uma boa ideia ler enquanto espero pelo Mike. Puxei o livro de dentro da caixa, junto com ele a chave, coloquei-o sobre meu colo e inseri a chave. Rodei devagar, pelo fato de estar enterrando. Enfim as trincas da capa se soltaram. Abri o livro devagar, pelo fato de ser antigo e poder soltar as folhas com facilidade. Senti uma brisa leve, porém seca sacudir a copa das árvores, trazendo um aroma de flores.

No sumário havia capítulos divididos em contos diferentes. O primeiro tinha o nome de “País das Maravilhas”.

Escutei barulho de passos no jardim. Olhei para trás, e avistei Mike, dessa vez vestia uma calça jeans preta, camiseta branca de baixo da xadrez azul, touca preta e tênis vermelho. Ele andou até estar ao meu lado e se sentou.

— Oi! – Ele disse abrindo um sorriso, mostrando suas covinhas.

— Oi.

— Você mora perto daqui? – Ele parecia realmente interessado.

— Sim na casa no topo da colina, depois das árvores. Você mora perto?

— Nem tanto. Moro perto do colégio.

Ele olhou para as árvores, acho que tentando entender onde eu disse que morava.

— O que está lendo? – Ele puxou o livro do meu colo.

— Nada, na verdade é só um livro que achei em casa!

Ele agora tinha colocado o livro de lado e me olhava, como se eu fosse algo que o deixasse fascinado.

— Então, você estuda no colégio perto da sua casa? – era a coisa mais idiota a se perguntar, era obvio que sim, mas eu não era bom em puxar assunto.

— Sim, seria bom se você estudasse no mesmo colégio que eu!

Sorri meio tímido.

— Acho que vou estudar lá esse ano.

— Em que ano você está?

— No terceiro do médio.

— Tomara que fiquemos na mesma turma.

— Seria ótimo! – Dessa vez o olhei nos olhos ao falar.

Ele se colocou de pé em um pulo.

— Vamos dar uma volta? – Ele estava animado.

— Para onde vamos?

Ele revirou os olhos.

— Vou te mostrar a cidade! – disse esticando a mão para me ajudar a ficar de pé.

— Mas e meu livro?

— Te acompanho até sua casa para guardá-lo.

— Não desiste fácil não é? – Ele acenou com a cabeça em negação — Feito! – Revirei os olhos em deboche, enquanto ele me colocava de pé.