O Legado das Cores

3 Olhos de esmeraldas


A primeira vez que vi At, eu o admirei pelos olhos.

Não dava para perceber tão claramente por causa da transparência, mesmo que ele fosse visível suficiente para embaçar quase qualquer luz e bloquear o brilho da lua, mas eles brilhavam.

Lindas esmeraldas incrustadas em órbitas, eu amei que tínhamos essa semelhança — porque nosso cabelo ser preto era o de menos, algo comum demais.

Foi por causa de olhos assim que despertei, mas não era At me observando de novo. Eles estavam dentro de mim.

Olhei pela janela pelo que parecia ser a décima vez em meia hora, mas nada, nem um sinal de vida, nem um bicho saindo da vegetação alta que ficava além da pista, e muito menos nada de um carro preto e lustroso, um daqueles modelos únicos criados para pessoas específicas porque a empresa não aceita que qualquer um desfile por aí com uma de suas preciosas e sofisticadas máquinas de quatro rodas montadas basicamente à mão.

Não, nada do carro de Olea Havilliard, mesmo ela tendo ligado na noite passada dizendo que estava com o resultado do exame em mãos e que chegaria no Madre Espirina logo após o horário do seu chá da manhã.

Eu não sabia qual era a hora do chá da manhã para ela, nem que tinha hora para isso, e havia me esquecido de perguntar a madre Evangeline se Olea a disse, mas o relógio já marcava nove e quarenta e cinco e nada.

— Você não demonstra, e é raro que esteja assim, mas sei que está ansiosa.

Desviei meus olhos da paisagem e os mirei em Mirabelle, esparramada na sua cama, ao lado da minha, folheando uma revista em quadrinhos, um dos únicos que existia no Madre Espirina e que ela já tinha lido umas cinco vezes — só aquele mês.

Entortei os lábios e voltei a atenção para o livro que eu tinha em mãos, diferente dos de quadrinhos, os livros didáticos tinha um bocado, provindos de doações, ao menos um de cada disciplina, Evangeline fazia questão de mantê-los na sala de leitura sempre no melhor estado físico possível.

— E desde quando você fica no quarto por essa hora? — retruquei sem tirar os olhos da leitura.

Escutei o suspiro de Mira, exaltado e sem paciência, e ler sobre genética era mais interessante do que ver o que ela tinha jogado no chão para fazer aquele barulho, mas, pelo som de folhas e o claro descuido que a garota possuía até com o que gostava, não era difícil saber. Perdi o pingo de concentração na leitura quando ela parou à minha frente, braços cruzados e aquela cara.

Eu não gostava dela, da expressão, o olhar tão afiado quanto o pequeno sorriso, com sombras caindo nas irises pelo olhos estreitos. Muito parecida com a minha quando eu pensava que sabia mais do que alguém.

— Você sabe que teria sido melhor ir com ela do que pedir um exame de DNA, não sabe?

Fechei o livro e o deixei repousando na cadeira — que Lucrea reclamaria se soubesse que eu a havia tirado de novo da sala de espera, mas a iluminação perto da janela sempre era a melhor — depois de me levantar.

Mirabelle era mais velha um ano, mas uns dez centímetros menor que eu, então sua pose de quem achava que sabia mais do que o mundo inteiro se desfez quando fiquei em pé.

— E você sabe — me aproximei um passo, que ela quase recuou. Um sorriso se puxou num dos cantos dos meus lábios por esse quase. — Que eu não entendo qual o problema das pessoas que querem se intrometer na minha vida como se elas tivessem algum direito de decidir o que é melhor para mim, não sabe?

Eu tinha uma mínima simpatia por Mirabelle porque ela não tinha ido com a cara de Thomas de primeira.

"Um mimado que berra por não querer passar pouco mais de três anos em um orfanato. Por favor, ele não tem mais os pais, ninguém quis ele, para onde achou que iria? Tem Muita sorte de ainda ter a herança da família. Sabe quantos de nós está aqui desde que nasceu e não tem nada?". Foi no dia que a escutei dizendo isso que Mirabelle me agradou mais do que a maioria das outras garotas — que estavam tentando se aproximar de mim para chegarem a Thomas.

Mas era isso, meu agrado por ela ia até aí, e às vezes retrocedia um pouco quando a via andando como se fosse a futura rainha da Inglaterra.

Só uma observação: ela estava falando dela mesma naquele tempo.

Passei por ela sem me importar em tombar contra seu braço, mesmo que tenha sido sem querer. Escutei sua língua estalando e sua voz quando já estava com a porta aberta:

— Você sabe que eu tenho razão.

— Sabe o que eu também sei? — eu poderia apenas fechar a porta, metade do meu corpo já estava para fora, um passo e estaria inteiro, mas minha língua coçou para responder. Decidi que não precisava nem olhá-la para falar. — Que não é da sua conta.

Dois segundos até escutar o baque da porta às minhas costas e, então, eu estava livre para respirar em paz.

Me lembrei do livro e da cadeira que eu deveria pôr em seus lugares, mas já estava muito agradecida por Mirabelle não ter aberto a porta de novo me gritando.

E, não, ela não tinha razão.

Antes de Olea ir embora, depois de tentar me convencer a ir para sua casa o mais rápido possível e de muitos abraços apertados e mais um pouco de lágrimas — tudo por parte dela, pois a ficha do que tinha acontecido ainda não havia me caído —, eu pedi um tempo para absorver tudo e ela aceitou esse tempo tão fácil que eu deveria ter pedido antes de todo o seu poder de persuasão quase me conquistar.

Foram dois dias observando o número do seu telefone — antes de dormir e depois de acordar, e às vezes durante o dia. E quando tomei uma decisão, foi Evangeline quem ligou porque eu ainda estava em choque. Tudo o que me fazia crer que o que tinha acontecido havia sido real eram as perguntas de Lucrea sobre o que eu faria e o papelzinho com números rabiscados de uma maneira tão rebuscada que só imaginei que as letras de Olea deviam ser obras de arte.

Se eu não conseguia crer na única presença de Olea e de que ela era minha avó e que eu tinha um pai me esperando em algum lugar, eu nunca conseguiria acreditar que eu tinha uma família inteira.

Não sem provas concretas.

Pedi que fosse sangue — que em uma pesquisa no único computador do orfanato, o da sala de Evangeline, descobri que não faria diferença qual amostra seria. Mas nada é mais secreto e potente do que o sangue. E assim foi feito. Ela nem titubeou em recusar após minha resposta à sua pergunta de se eu iria para casa depois do resultado.

"Se for positivo, tudo bem."

No dia seguinte ao qual fiz a ligação, ela estava lá, acompanhada de uma enfermeira para colher a amostra genética. Olea me fez sorrir com a história de como Elijah teimou de novo para ir e senti um pouco de pena da moça por ter de viajar do orfanato até a casa dos Havilliard para colher as amostras, e ainda ter de voltar para Londres.

O exame ser feito em Londres não foi uma exigência minha, mas uma garantia de Olea para mim.

Eu estava nervosa, passei os dois dias de indecisão tomando bastante chá de camomila, e estava desconfiada. Segundo ela, "jamais um Havilliard crê em algo que não viu". Então ela fez com que fosse em uma das melhores clínicas de Londres o exame, para que eu não colocasse nenhum problema sobre o procedimento. E fiquei impressionada quando ela disse que eu poderia até colocar a culpa na competência dos profissionais.

Sim, se o resultado fosse positivo e eu não tivesse certeza de que era fidedigno, eu colocaria a culpa no mundo inteiro. Só para provar que ela estava errada e era um engano.

Mesmo que, lá no fundo, eu quisesse que não fosse.

Isso faziam duas semanas, o que me deixou inquieta pelo tempo de resposta. Mas a enfermeira, muito simpática e adorável, que não devia ter nem vinte e cinco anos e que talvez tivesse sido subornado por Olea para ter coragem de enfrentar quatro horas de carro de Londres até York — e mais quatro de York até Wiltshire, onde fica a residência dos Havilliard —, me explicou que é um procedimento minucioso a investigação dos genes.

Concordei porque entendi que deveria ter cautela nessas coisas: mexer com algo tão microscópico — e igualmente colossal — como o DNA parecia ser uma grande dor de cabeça, quem dirá comparar dois.

Então, Olea ligou à noite dizendo que estaria naquela manhã no Madre Espirina para me entregar o resultado que havia ido buscar, me garantindo que não iria ao menos tentar enxergar qualquer palavra contra a luz.

"Ele é seu. E você o merece inteiro, sem violação de qualquer tipo."

Eu havia me encantado pela sua imagem de primeira. Ela tinha aquele ar potente e majestoso, o queixo sempre erguido, mas não muito, as costas retas e um andar poderoso, não de quem se acha melhor que todos ou de quem tem o mundo aos seus pés. Mas de quem conhece tudo e sabe muito, e se orgulha disso. Ela parecia alguém a quem admirar, alguém com quem eu gostaria de me parecer no futuro. Então não foi nem um pouco difícil admirá-la um pouco mais depois de tudo. Desde a paciência pelos meus dois dias de silêncio, até tal frase dita na noite anterior.

Então Mirabelle estava errada. eu não viveria em paz pensando que eu poderia não ser a pessoa que aquelas pessoas procuravam. Mas ela também estava certa, eu estava ansiosa.

Eu tinha me nutrido de esperança. Foi sem querer, me peguei desprevenida em um banho uma semana antes, pensando que seria legal ter Olea como avó e, como se a água transformasse minhas muralhas em lama, me vi pensando que seria triste se ela não fosse a minha.

Não foi nem por um minuto inteiro que pensei isso, mas o que escapou por uma brecha da muralha foi o suficiente para me atormentar até então.

— Red!

A voz de Loui me despertou dos meus pensamentos e parei na entrada para o refeitório, o observando.

Suas pernas longas o trouxe rápido para perto de mim e evitei erguer as sobrancelhas para sua imagem.

— Você acordou bem, Loui? Sabe, está um pouco… — apontei para seu cabelo, os cachos loiros mais desgrenhados do que jamais os vi.

— É, eu sei — ele riu.

Além de At, tinha ele. Não era a mesma coisa, ter um amigo fantasma parecia bem mais legal do que ter um humano, e eu considerava o fantasma mais meu amigo do que qualquer outro ser. Mas quando eu fazia uma pergunta e era respondida como queria, mesmo que não fosse a pergunta que eu mais queria fazer na vida, até que valia a pena.

E tinha outras coisas como poder tomar chá e jogar xadrez, e Loui era o único que não reclamava quando eu ganhava — e eu sempre ganhava.

— Então… — prolonguei a palavra mais para tirar seu foco sobre mim.

— Ah, sim, é que eu não encontrei minha escova.

Eu ri e todo seu rosto ficou vermelho. Seus dedos passaram pelos cachos na esperança de que eles voltassem a serem as largas e lisas molas que eram, mas só fez espalhá-los ainda mais, aumentando o frizz.

— Não isso — entrei no refeitório acompanhada por ele, estava quase vazio, tirando presenças indesejáveis e algumas freiras, mas paramos a poucos passos da porta. — Por que me chamou?

— Ah… Eu soube que é hoje o resultado.

Arqueei uma sobrancelha e pausei minha guerra de olhar com Thomas, que estava sentado na mais afastada mesa do salão, o que não era suficiente para tirar sua presença dali, e olhei para Loui.

— Como você sabe? Não lembro de ter dito a ninguém, mas Mirabelle e as outras meninas do meu quarto também já sabem.

Seu rosto tomou o tom rubro novamente, tomando a vergonha dos fofoqueiros para si, senti um pouco de pena, ele era um dos únicos que causava esse sentimento em mim. Loui era tão angelical que parecia um bebê, até suas feições eram de criança.

— Lucrea disse para Mira que disse para mim, mas ela falou em voz alta na frente dos meus amigos e eles saíram comentando por aí.

Minhas sobrancelhas erguidas juntamente à minha cara de desgosto foram o suficiente para Loui se encolher um pouco e começar a coçar a nuca no seu habitual gesto de nervosismo, o cenho num vinco que o fazia parecer que ele tinha feito algo errado.

Soltei o ar pelo nariz, relaxando toda minha expressão.

— Não fique assim, não é como se eu fosse te acertar um soco.

— Tem certeza?

Minha risada suavizou meus ombros e os vincos entre as sobrancelhas dele.

— Você não fez nada de errado — nos retiramos do refeitório, a vontade de tentar convencer uma das cozinheiras a fazer um chá de camomila para mim tinha passado pelo tanto que Thomas me olhava. — Mas era só isso? Me lembrar que o resultado é hoje? Porque, se sim, eu já tenho uma sirene vermelha na minha cabeça me lembrando disso a todo segundo — brinquei e ele riu me tirando um sorriso.

Mas seu riso passou, e enfiou as mãos nos bolsos da calça, todo sem jeito.

— Eu vou sentir sua falta.

Ele parou de andar por eu ter parado antes, mas não tive a chance de responder porque Thomas fez questão de passar por Loui trombando no garoto, fazendo‐o se desequilibrar e quase cair em cima de mim se eu não tivesse o segurado.

— Babaca! — não foi um grito, mas foi alto o suficiente para quem estivesse por perto, no silêncio matinal do Madre Espirina, escutasse, ou seja: ninguém. Mas o idiota escutou e virou o rosto para mim, com um sorriso que me deu vontade de quebrar seus dentes, mas fui segurada antes e Thomas também não parou ou retrucou nada para aumentar minha ira.

Porém toda minha raiva passou quando a silhueta de Olea surgiu na porta aberta da entrada.

Senti o aperto da mão de Loui em volta do meu braço, me lembrando que ele estava ali, mas só tirei meus olhos da figura de Olea, que ainda não tinha me visto e conversava com madre Evangeline, quando ele falou comigo, já se distanciando:

— Boa sorte, Red.

Parecia uma despedida. Me virei para chamá-lo, eu precisava dizer algo, mesmo que eu não tivesse certeza de que sentiria sua falta também, ele merecia por ser o único no Madre Espirina que se aproximava de um amigo para mim, mas eu não tinha nada a dizer e Olea tinha acabado de chamar meu nome.

Ela beijou minha testa, me perguntando como eu estava, com um sorriso que irradiava não só felicidade, mas confiança e certeza, e ousou perguntar se eu tinha preparado o que eu queria para levar para casa.

Nossa casa, foi assim que disse e tudo dentro de mim se remexeu quando ela colocou o envelope na minha mão.

Franzi as sobrancelhas para seu entusiasmo, desconfiada de que suas palavras não tinham sido verdadeiras e que ela tinha dado pelo menos uma olhada, mesmo que o envelope estivesse intacto, sem sequer um amasso.

— Não tenho nada que eu queira levar — respondi sem pensar muito. Não era de todo mentira, mas a verdade era um segredo.

— Tudo bem — começou aumentando ainda mais o sorriso, se é que era possível. Evangeline estava sorridente atrás dela, em silêncio, demonstrando toda a ansiedade que eu fazia de tudo para conter em mim. — Suas tias estão tão animadas que compraram um guarda-roupa inteiro para você. Mas se não gostar pode me dizer que compramos o que for do seu gosto.

— Você não disse que não olhou o resultado? — arqueei uma sobrancelha.

— E não olhei. Não é preciso disso para saber.

— Você mesma disse que um Havilliard só crê no que vê — ergui o queixo na tentativa de me fazer passar por algo que Olea parecia bem mais do que eu: esperta. — Sendo assim, como tem tanta certeza que sou sua neta?

Lá estava ele, o sorriso de quem sabe muito, mas pouco fala, o sorriso que a fazia parecer que poderia comandar o mundo apenas com um olhar, sequer precisava elevar sua pose, já tão austera. O queixo erguido naturalmente e ombros retos, como se ela tivesse nascido assim.

— Estou te vendo. Não estou?

Sem mais o peso do choque em minhas veias, sem mais estar petrificada e abismada pelo que Olea tinha me dito, e vendo-a mais claramente, sem as lágrimas embaçando minha visão e nublando meus pensamentos, parecia até insensato não acreditar no que dizia.

Abri o envelope antes que seu olhar cheio de sagacidade me convencesse de que sua confiança não era apenas seu ego inflado ou loucura.

O papel pesou como chumbo entre os meus dedos, que quase o deixaram escapar quando terminei de ler. Então reli, e reli, e reli. Quase nada fazia sentido naquela página, a não ser uma única palavra no canto dela, a última de todas.

Positivo.

— Isso não é uma brincadeira? — eu continuava lendo, tentando entender tudo, mas meus olhos iam automaticamente para o positivo como se ele estivesse escrito em tinta fluorescente.

— Red — não tirei meu olhar do papel e escutei seu suspiro quando percebeu que não teria a minha atenção. — Eu não brinco quando se trata da minha família.

Não, não dei importância mesmo quando senti o calor ameaçar meus olhos por ela ter se referido a mim como sua família e pela a confirmação escrita no papel, continuei lendo.

Segurei o tremor do meu corpo e as lágrimas, ficando sem esboçar qualquer emoção enquanto Olea estava ali.

Ela ainda conversou com Evangeline sobre uma papelada, mas eu não me sentia presente na conversa delas, e quase tirei o papel das suas mãos só para lê-lo mais algumas vezes e ter certeza que não era uma ilusão de ótica.

Então o levou, alegre e realizada, dizendo que seria muito mais fácil, com o exame, o juiz passar minha guarda para sua família — "como nunca deveria ter sido tirada", acentuou — já que os Stewart — na verdade Charles, pois só ele se importou com aquele bebê deixado em sua porta, porém não a corrigi — haviam me adotado e eu ainda carregava seu sobrenome. Ele foi com a promessa de que voltaria para me buscar em, no mínimo, uma semana.

Não fiquei para receber as felicitações de Evangeline. Eu não me aguentaria inteira por muito tempo. Cheguei ao meu quarto agradecendo por Mirabelle e nenhuma outra garota estar em lugar algum e estranhando como já soava estranho o mencionar como meu.

Tudo o que fiz quando me deitei foi chorar. Nunca me foi tão claro o porquê das pessoas chorarem por felicidade, até aquele momento.

Eu estava feliz, eu deveria estar mais contente do que Olea, mais sorridente do que Evangeline, mas doía. O sentimento era tão imenso que não me cabia e me rasgava, escorrendo em abundância pelos olhos.

Foi com a sensação de olhos inchados que eu fui dormir, exausta pela força que fiz para não gritar e tentar extravasar tudo o que eu sentia apenas em lágrimas.

Então eu sonhei com eles. Olhos verdes como os de At. Como os meus. Apenas eles eram visíveis na escuridão sob o capuz vermelho, e pareciam anormais por isso, esmeraldas que brilhavam na escuridão total.

Seus olhos me encaravam como os de At há dez anos e os de Olea há duas semanas: como se não acreditasse que tinham me encontrado. Mas eles não pareciam gostar disso.

Ainda escutei o sibilar longínquo, da pessoa por baixo do capuz, quando o sonho já se desfazia, me avisando para não ir com Olea, para continuar onde eu estava e nunca assumir a identidade do meu sangue.

Porque ele é amaldiçoado. E você pagará por isso.

Acordei com meu sangue parecendo veneno queimando em minhas veias, correndo rápido por causa do coração acelerado.

Meus pés me levaram devagar até o banheiro mais próximo e parei de frente ao espelho. A falta de seu brilho nos meus olhos ainda inchados não se devia à luz fraca do ambiente. O brilho era me tirado pelas lembranças dos meus cinco até três anos atrás, que sabiam fazer bem seu trabalho de juntar minhas partes quebradas com amargura.

Seja quem fosse, eu dispensava seu aviso atrasado, pois eu já sabia que era amaldiçoada, mas por mim mesma.