O Legado das Cores
4 A ladra e seu dono
Foi num susto que acordei com Lucrea me sacudindo, toda animada e transbordando sorrisos até pelos olhos, dizendo que Olea tinha acabado de ligar avisando que estava a caminho e que minha tutela já estava de volta sob o nome Havilliard.
Era segunda, eu tinha decidido que valeria a pena trocar o café da manhã por mais algum tempo de sono, disposta a recuperar a noite mal dormida, e quase esganei a freira ao ver que o relógio marcava oito e dez.
Ela teve sorte de eu ter virado uma pedra de tão imóvel que fiquei — e lerda também, a pedi para repetir umas três vezes, mas isso eu culpava o sono.
Ainda consegui escapar para dentro da cozinha e convencer uma das cozinheiras a me dar algo, e comi enquanto as duas conversavam comigo sobre Olea, era a notícia do momento naquele pequeno orfanato, mas esquivei bem de suas perguntas quase invasivas.
Agora eu estava agradecendo por elas terem me deixado comer depois do horário, porque eu tinha certeza que perderia o almoço também.
Não pela chegada de Olea — mesmo que ela estivesse perto, já faziam quatro horas desde sua ligação, tempo médio de Wiltshire a York —, eu teria muita sorte se meu nervosismo fosse por isso; mas não, era a chave.
A maldita chave que a bruxa tinha me dado, que eu checava se estava no lugar sempre que me dava vontade de olhá-la um pouco mais, buscando algo que não vi antes — um escrito dizendo o que abria ou por que deveria ser minha.
Ela tinha sumido.
O banho que tomei meia hora antes tinha sido em vão, eu já estava suada de tanto procurar em cada canto do quarto.
Cada canto mesmo, minhas colegas de quarto não me perdoariam se soubessem que eu tinha mexido em suas coisas.
Eu sentia a emergência subir por mim a cada minuto que se passava. Me parecia um absurdo e grande estupidez perder aquela chave, talvez um medo induzido pelo que a bruxa me disse, mandando eu protegê-la como se minha vida dependesse disso, mas não era mais só isso. No início era apenas um fascínio por ela ser de ouro e antiga, e, quando o fascínio passou e me acostumei com essa característica dela, veio mais. Um sentimento de pose, como se ela realmente me pertencesse, algo que não deveria ser tirado de mim.
Foi a primeira coisa que tive que realmente sentia ser minha.
— Inferno — chutei o armário por ele só sair um pouco do lugar com meus empurrões, seu pé era baixo demais para que eu visse algo debaixo dele, meus dedos mal passavam, mas só faltava ali para procurar, até em cima dele eu já tinha dado um jeito de olhar.
Olea chegaria em minutos, e eu não poderia dizer-lhe que não iria por estar procurando algo, Evangeline e Lucrea se envolveriam para achá-la, além de eu ter que explicar a história da chave. Não que eu fosse contar a verdade, mas quanto menos gente soubesse, melhor.
Então eu deixaria ela me levar para sua casa, com remorso, sabendo que a bruxa apareceria para me encher a paciência pela minha irresponsabilidade — porque seria a primeira coisa que eu diria a At quando o visse de novo e, eu tinha certeza, mesmo não sabendo qual a relação entre eles, que ele diria a ela.
Era o que eu estava pensando enquanto observava as camas parcialmente desarrumadas pelo meu rebuliço, esperando que do nada um brilho dourado surgisse como um milagre, quando escutei uma risadinha atrás de mim.
O susto que tive só não foi maior do que o tamanho que meus olhos tomaram ao ver a pequena criatura humanóide na janela.
Com a minha chave.
Minha perplexidade me fez demorar segundos para entender que a massa brilhosa como purpurina em suas costas eram asas batendo.
Tive pouco tempo para ter todas as sensações que aquela imagem me trouxe: choque, admiração, desentendimento, raiva, vontade de segurar aquela coisinha e virá-la de cabeça para baixo. Mas a observei o máximo possível: olhos grandes e coloridos; as asas que batiam rápido demais, dando a impressão de serem pequenas nuvens de glitter. Orelhas pontudas saindo do cabelo longo que batiam os pés descalços, e seu vestido curto, solto e cintilante.
Um ser lindo, que não deveria ter o tamanho da minha mão aberta, sorrindo como eu via as criancinhas do Madre Espirina sorrirem quando faziam uma bobagem e se orgulhavam disso.
Foi por pouquíssimo tempo, realmente, porque o som de carro me tirou do transe e teve o mesmo efeito sobre a nanica.
Ela olhou para baixo e depois para mim, os olhos maiores do que pensei que poderiam ficar, uma criança não humana sendo pega no flagra.
Sua velocidade era impressionante, parabéns para suas asas que não batiam tanto à toa. Eu teria ficado impressionada por isso se ela não a tivesse usado assim que me encostei na soleira da janela, com a mão estirada para agarrá-la. Um segundo e não dava mais para vê-la.
Ainda tive tempo de ver a porta do carro de Olea se abrindo antes de sair em disparada pela escada.
A intenção era achar a coisa, mas parei no primeiro degrau da escadinha da entrada.
— Desculpe chegar na hora do almoço, querida, eu gostaria de estar em casa antes do jantar. Mas trouxe algo que suas tias prepararam para você, caso não tenha tido tempo de se alimentar — como sempre quando me via, Olea me deu um beijo na testa, o sorriso maior que todos os outros que a vi dar, acho que o maior que seus músculos do rosto suportavam. — E também tem lanche, mas não garanto que esteja tão bom quanto, foram seu pai e seu tio que prepararam, e nem mesmo com a ajuda de Mabel eles fazem algo certo na cozinha.
Seus olhos eram um céu sem nuvens iluminado pelo sol, com uma chuva de meteoros o dando um brilho sutil, inibido pela claridade, porém vívido. Passei um tempo abrindo e fechando a boca, sem saber ou ter o que dizer, indagando internamente se toda aquela felicidade espremida em seus céus era por mim, por estar indo me buscar.
Mas o canto da minha visão captou outro tipo de brilho e sei que Olea também notou, pois virou o rosto para aquela direção; virei o meu quase no mesmo instante que o dela, mas sem sinal da peste.
— Eu tenho alguém que preciso me despedir — falei de uma vez para chamar a atenção de Olea, temendo que ela tivesse visto a coisa, mas seu brilho inalterado nos olhos e a volta do seu sorriso me disseram que estava tudo bem. — Você pode, por favor, esperar só um pouco?
— Tome o tempo que precisar, querida.
Esperei que ela entrasse, após alegar que estaria na sala de Evangeline se eu não a encontrasse na entrada, e dispensei Edgard, o motorista, com toda a gentileza que me restava pela pressa quando ele veio ao meu encontro perguntando se eu tinha bagagem.
Não foi difícil encontrá-la na lateral do orfanato, mas fiquei parada, a encarando, e ela também me encarava, esperando qualquer movimento brusco meu para que saísse voando.
Eu já sabia o que ela era, mas precisei de mais tempo e uma melhor observação sobre seus traços para ter certeza que eu não estava alucinando. Quando constatei que estava certa, continuou me parecendo surreal estar vendo uma fada.
Bruxas era uma coisa diferente, embora eu não soubesse explicar as borboletas e nem o porquê da necessidade de sangue para um pacto ser feito, quando era mais simples apenas ambas as partes fazerem um desejo e apertarem as mãos — apesar de eu ter minhas suposições do motivo. Qualquer um poderia aprender a lidar com magia, não poderia? Eu pensava que sim.
Mas fadas não eram sequer humano e nem desse mundo.
Então lembrei que bruxas tinham seu próprio mundo e, se era mágico, fazia todo sentido.
A fada só ficava quieta até eu tentar pegá-la, então saía voando como a peste de asas que era, se exibindo em voos acrobatas, muito veloz para meu desagrado.
— Se eu te pegar… — murmurei em uma de nossas pausas, ela não parecia cansada de carregar um objeto com um terço do seu tamanho, mas eu já estava cansada em fazer papel de idiota, servindo para a diversão da infeliz. — Eu arranco suas asas…
— Oh, deuses — se ele tinha acabado de chegar ou estava ali antes, eu não fazia ideia, mas o homem parecia estarrecido, e não era por ver a fada, que voou até ele, pousando em seu ombro como um demônio quando quer sussurrar em seu ouvido. — As asas das fadas são preciosas demais para elas. Arrancá-las é a pior coisa que alguém pode fazer para essa espécie, pior até mesmo do que a morte. Então não diga algo assim para uma nem de brincadeira, elas consideram seríssimo.
Recebi seu sermão com um vinco entre as sobrancelhas, se ele notou minha cara de quem não entende e não se importa, não deu nenhum sinal.
— E quem é você?
O homem, que não devia passar dos cinquenta, fez uma mesura — provando que, além de veloz e ladra, a fada também era grudenta ao ponto de nem se abalar com o curvamento de quase noventa graus — e retomou a postura com um sorriso, para o qual torci os lábios em desconfiança.
— Enoch, e essa é minha fada, Plin — a coisinha também fez uma mesura, como pôde já que a chave a impedia de se dobrar muito. — E a senhorita é…?
— Não digo meu nome a estranhos, senhor — elevei meu queixo no que ele tombou a cabeça para o lado, a testa franzida e lábios apertados.
— Mas você acabou de perguntar o meu — disse com o mesmo tom de repreensão que usou para falar das asas de fadas. — É o mínimo da boa educação devolver uma apresentação com o próprio nome.
Sua boca escancarada demonstrou todo o espanto que sentiu ao ver meu revirar de olhos. Mas se recuperou bem, ajeitando a lapela do paletó para disfarçar o desconforto de estar lidando com uma adolescente que não estava nem aí para seus sermões.
— A única coisa que você precisa saber é que sua fada está com algo que me pertence — eu disse, apontando com o queixo para a coisinha no seu ombro, que finalmente tinha ficado quieta de vez.
Quando Enoch a olhou, a fadinha se encolheu toda, abraçando ainda mais a chave.
— Plin! Sua fada encrenqueira. Onde está a sua educação também? — não liguei por ele ter me chamado indireta quase diretamente de mal educada, pois ele tomou a chave, mesmo sob os protestos da fada (que não entendi nada, eram murmúrios que mais se assemelhavam a zumbidos) — Perdão, mocinha, fadas gostam muito de ouro.
Gostei do fato dele ter mantido certa distância de mim ao se aproximar para entregar o objeto e, pela primeira vez, sorri com educação para ele — mais forçado do que natural, mas ainda um sorriso.
— A chave estava debaixo do colchão, senhor, sem uma ponta à mostra.
— Oh — seu olhar desceu para a chave, me fazendo apertá-la, a cobrindo por inteiro. Ele notou minha ação, parando de tentar vê-la. — Sendo assim, essa chave deve conter magia, ou pode ser um item mágico, fadas sentem magia de muito longe, não importa onde esteja.
— É só uma chave — e era verdade, embora não uma comum. Eu já tinha percebido há dias. A cada vez que eu a segurava, sempre tinha algo, como um fio, querendo se conectar comigo. Mas eu não queria sua atenção sobre ela, então mudei de assunto. — E como uma coisinha desse tamanho levantaria um colchão?
Um sorriso esperto se desenrolou em seus lábios, muito parecido com o de Olea, de quem sabe mais e sabe muito. Eu gostava disso nela, mas não nele.
— A força de vontade de uma fada pode erguer até o Submundo, minha cara. Agora, se me der licença — em mais uma mesura e sem dizer mais nada, ele sumiu.
Sumiu engolido por pássaros, pequenos, mas em grande quantidade, reluziam como aço sob a luz do sol.
Fiquei um minuto quase inteiro parada, associando e divagando sobre o que tinha acabado de acontecer.
Um bruxo, em trajes normais — mesmo sendo um belo e provável caro paletó, já que se parecia com um de Charles em minha lembrança —, com uma fada, tinha acabado de conversar comigo sobre esses seres mágicos e magia como se não tivesse problema se expor para uma estranha.
Ao voltar para dentro, Evangeline estava pronta para me dar um sermão pela demora, como se fosse pecado deixar a senhora do cabelo de neve esperando. Mas Olea me defendeu, dizendo que não tinha problema algum e que, se eu sentisse necessidade, poderia demorar muito mais, com todo seu porte elegante e sem dar evidências de que não tinha gostado da madre querer reclamar comigo — eu só percebi porque senti que era isso.
Me aproveitei da falta de graça em Evangeline para pedir mais um minuto a Olea. E seria só um minuto mesmo, cem por cento mais do que Thomas merecia do meu tempo.
Ele, ao contrário de todas as outras crianças e adolescentes do Madre Espirina àquele horário, estava fora do refeitório, mas bem ao lado da porta do mesmo, com os olhos sobre mim.
Diferente dele, que estava com toda a pose da soberba e superioridade — de queixo erguido e braços cruzados — eu me mantive neutra, de ombros retos e a linha do queixo em sua altura natural.
Não era necessário me exibir, fingir ser melhor que ele, até um verme conseguiria isso com facilidade
— Você não tem medo de perder os olhos me observando demais?
O sorriso que ele deu me causou repugnância e senti meu estômago se revirar, mas não movi um músculo do dedo mindinho.
Você já superou isso, repetia em mente. Já superou.
Seu corpo se aproximou do meu e não me orgulho de dizer que foi com algum esforço que me mantive no mesmo canto, sem dar um passo, apertando minha mão em punho até sentir a dor das unhas contra a pele.
— Eu vou sentir falta da sua antipatia, Red.
Segurei a saliva na boca para não cuspir no seu rosto. Seus olhos brilharam em malícia, mas não como a de Muriel. Era a forma mais nojenta, depravada e desprezível da palavra.
E se não tiver superado, você sabe o que fazer.
— Nós nos veremos de novo — tomei cuidado para não deixar minha roupa tocar em seus braços cruzados ao me aproximar. Minha voz saiu baixa, evitando as mulheres a passos dali, mas audível o suficiente para ele: — Mas, para o seu bem, torça que esse dia esteja longe.
Foi com satisfação que vi seu sorriso tremer e sua luta falha para mantê-lo erguido; seus olhos perderam o brilho, se tornando opacos, enxergando algo além da minha máscara de neutralidade.
Desejei que tivesse visto o monstro que ajudou a criar, cujas palavras não são ditas vazias, elas vêm com ódio e se concretizam em vingança.
Mas não fiquei para saber se meu desejo foi realizado. Eu disse um minuto a Olea, e foi menos que isso que me demorei.
— Podemos ir — atrapalhei os vários agradecimentos de Evangeline sobre a doação financeira que Olea tinha feito ao orfanato. Fazia algum tempo, mas Lucrea me disse que foi uma quantia exorbitante, tudo que a madre queria para expandir o orfanato.
Eu não sabia, mas era sua forma de agradecer pelo cuidado que Evangeline teve comigo. E eu tinha minha própria maneira de a agradecer. A madre ficou sem jeito pelo abraço que a dei, mas afastei antes que ela tivesse tempo de esboçar uma reação.
— Obrigada, madre Evangeline. Por tudo.
Juro que vi um brilho em seus olhos, uma gota de lágrima, que logo sumiu dentro das órbitas quando piscou.
— Que Deus te abençoe, Red.
Sorri, tocada não pelas palavras, mas pela preocupação sincera que veio nelas, quase tive o ímpeto de abraçá-la de novo, mas desisti quando Lucrea apareceu e me apertou, dizendo para eu ter juízo e me cuidar.
Sim, eu me cuidaria.
A melhor coisa até aquela altura do meu dia foi descobrir como minhas tias cozinhavam bem e, no meio do trajeto até a casa dos Havilliard, cheguei a conclusão de pedir para que elas ensinassem um pouco de seus dotes culinários para os responsáveis da torta que eu estava comendo.
Escutei a risada de Olea ao meu lado e a encarei.
— Desculpe, Red. Eu coloquei o Elijah em cursos de culinária, mas ele só explodia e queimava as coisas.
Me obriguei a não sorrir, querendo evitar que o pedaço que eu mastigava saltasse para fora, sendo repelido pelo meu paladar. Não tive muita paciência ou vontade de continuar mastigando, o engoli quase inteiro.
— Posso te perguntar algo? — arrisquei depois de meia garrafinha de água tomada. A chave no bolso da minha saia estava com o peso da cena com Enoch. Continuei depois do seu "à vontade". — Os Havilliard são muito conhecidos?
O sorriso dela era indecifrável, e o olhar de quem procurava algo. Ele estava mirando diretamente no meu. Então segurou minha mão, a apertando de leve, e senti aquilo de novo, o que as borboletas de Muriel me causaram, a leve cócega no âmago, algo se iluminando lá dentro e querendo sair, se espelhar, mas tudo se foi tão rápido quanto veio, antes de Olea diminuir o aperto em minhas mãos.
— Sim, nós somos. Mas depende de qual conhecimento é e onde ele habita.
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