O Lago do Cisne

14 Eu Te Amo...


No Festival de Atena maldição alguma vigorava, mas o que poucos sabiam era que as bênçãos também eram anuladas.

Afrodite que assistia tudo entre risadas, parou de rir na hora em que ouviu aquelas palavras. Viu a troca de olhares e os sorrisos, esses simples gestos foram o que bastaram para o ódio tomá-la.

Mesmo que ainda estivesse tentando se recompor da vergonha que sentia por chorar na frente do outro, Ikki pode ver a estaca de madeira que voava na direção de Cygnus pelo canto do olho. Sem dar muita importância para própria segurança, ele se colocou na frente de Hyoga, fazendo com que a estaca atravessasse a lateral de seu abdômen. Seu urro de dor era de gelar o sangue, mas não era só aquilo. O tronco de arvore, dono da estaca, estava voando na direção deles. Phoenix teve que puxar Hyoga, como podia, para o lado, conseguindo salvá-lo por frações de segundo.

¬ Ikki! — Cygnus apresentou preocupação com o ferimento, que sangrava muito. — Deixe-me tirar isso! — apressou-se em executar o que falara.

¬ Não! — ditou atento a todos os lados. — Se tirar vai sangrar mais. — se curvou de dor, falar fazia o ferimento doer e sangrar mais. — Eu vou ficar bem. — tentou consolá-lo num esforço e com um sorriso torto.

Phoenix já estava ficando fraco, mas Cygnus, mesmo que já estivesse sangrando a um tempo, ainda estava forte, por isso conseguiu ver as pedras que voavam em sua direção. Enquanto ajudava Ikki a desviar das enormes rochas, que formavam buracos na terra e quebravam o gelo de Hyoga ao tentar atingi-los, podiam ver o céu se encher de nuvens de tempestade, viam raios e ouviam os explosivos trovões, mas aqueles não eram os raios de Zeus, era o ódio de outro deus. O gelo que se quebrava formava estilhaços, estes voavam para todos os lados, inclusive na direção dos dois, causando cortes feios. O gelo quebrado formava pequenos icebergs, que se chocavam com violência ou quebravam ainda mais fácil. Os rapazes agora estavam de pé naquele campo minado tentando fugir da ira de Afrodite.

¬ Hyoga! — Phoenix tinha pulado sobre ele bem a tempo, pois um iceberg tinha se sobreposto ao deles e teria arrancado a cabeça do aquariano.

O pedaço de gelo em que estavam se partiu e eles caíram no lago. Phoenix não conseguia prender o ar por muito tempo e tentar emergir era suicídio, então Cygnus o guiou até a entrada submersa da gruta onde ambos costumavam ficar. A ideia mostrou-se pouco valida, pois até a gruta estava desmoronando. Ikki acabou tendo que arrastar Hyoga para fora.

Raios tocavam o solo com violência, queimando tudo envolta. Para onde quer que corriam, eram barrados ou atacados de forma a darem meia volta, parecia não existir saída. Estavam presos.

Todo aquele rebuliço “atrás” do Santuário chamou tanto a atenção, que as pessoas esqueceram as festividades e saíram a caminho do lago. Dentre todas as pessoas presentes, a mais desesperada era uma Amazona, Andrômeda sabia e sentia que o irmão estava naquele lago e podia estar em perigo.

Cygnus tinha deslocado o braço e tinha diversos cortes, principalmente nas mãos finas e nos pés, agora, descalços, todos os ferimentos eram grandes e fundos, por onde perdia muito sangue, resultado da proteção que ofereceu a Ikki dos estilhaços de gelo. Phoenix tinha uma estaca atravessando seu abdômen, de onde o sangue tornava suas vestes, já vermelhas, mais escuras e sofria com a hipotermia, resultado de sua queda no lago congelado. Ambos já estavam exaustos e doloridos, não conseguiam sair da margem do lago, estavam presos ali. Afrodite estava brincando com eles.

¬ HYOGA!! — Ikki o empurrou para baixo, outra arvore voava em sua direção.

Ambos foram ao chão, mas dessa vez Ikki não teve forças para se levantar. A dor do ferimento, juntamente com o cansaço e a perda de sangue, fizeram-no desmaiar, Hyoga cobriu o corpo inerte com o seu, enquanto o vento cortante fazia com que todos os projeteis possíveis os acertassem.

¬ PARA!! — Cygnus gritava sobre a tempestade. — PARA!! PARA!! VOCÊ VENCEU!! PARA!!

A tempestade parou, mas as nuvens ainda tomavam o céu com seus raios ameaçando cair.

¬ Ora, vejam quem me chama... Acaso, vem à procura de perdão? — a voz da deusa retumbou por todo o lago.

¬ Não! — declarou o rapaz. — Não fiz nada de errado para ter seu ódio... Só quero que poupe a vida de Phoenix, se quiser, minha vida é sua para fazer dela o que bem entender, mas eu lhe imploro... Poupe-o.

Afrodite gargalhou ao ouvir a oferta e tornou à tecla anterior:

¬ Se é um ardil, pensando em salvara si mesmo e a ele, desista! Ele merece meu ódio tanto quanto você!

O aquariano suportou o desdém da deusa sem levantar o olhar ou soltar Ikki, à espera de que ela se acalmasse. Esperou em vão, porque ela não mudou de tom. Quanto mais humilde a oferta, maior se mostrava o desprezo da resposta.

¬ Você é um jovem tão desprezível... Nunca encontrará alguém que o suporte! A não ser, talvez, em troca de serviços. — comentou com malícia.

¬ Só peço que o poupe...

A deusa observou-o por alguns instantes e cedeu:

¬ Humm... Vou mostrar-lhe compaixão, apesar de tudo que vocês fizeram para me magoar... Só afaste-se dele.

Ordenado e feito. Hyoga saio de perto de Ikki, a cabeça baixa e segurando o braço deslocado.

¬ Agora... — a voz da deusa demonstrava certa alegria. — O que devo fazer com você? Como posso fazer com que sofra mais, sendo que a única maneira de atingi-lo esta fora de jogo? — Cygnus sentiu o sangue ferver com aquelas palavras.

¬ É isso que somos para vocês? — indagou. — Meros valetes em um jogo de tabuleiro? Onde quem lhe desagrada é destruído?

¬ Com quem pensa que est...

¬ Eu sei com quem falo! E não a temo! — o tom de Hyoga estava uma nota abaixo de um grito irritado. — Me amaldiçoou porque? Sou apenas um mortal, cuja beleza um dia sumiria, um mortal que nunca elevou a voz contra os deuses! E mesmo assim, me amaldiçoou por causa de minha beleza passageira! Não bastou o sofrimento que causou a minha mãe? Ainda queria acabar com a herança dela? Eu e meu pai?

¬ CRIANÇA INSOLENTE!! — um raio caio do lado de Hyoga, mas ele não se intimidou, muito pelo contrario, adquiriu mais força e coragem.

¬ ÉS INVEJOSA AFRODITE!! TEM INVEJA DE NÓS MORTAIS POR SERMOS MAIS BELOS QUE VOCÊ!! — ousou gritar. — TEM INVEJA DE NOSSA BELEZA INTERNA, QUE NOS TORNA BELOS NO EXTERIOR!! TEM INVEJA, POIS É PODRE POR DENTRO!! UMA COISA DE QUE TENHO CERTEZA É QUE SEU NOME PODE PERDURAR PELA ETERNIDADE, MAS SEMPRE SERÁ LEMBRADA POR SEUS ATOS HEDIONDOS E SEUS TEMPLOS SERÃO ESQUECIDOS!! ÉS UMA TITÃ E MERECE O DESPREZO DADO À ELES!! SERÁS ASSOCIADA A DOR E DISCÓRDIA!! A DEUSA DO AMOR E DA BELEZA FICARÁ CONHECIDA POR NÃO TER NENHUM DESSES ATRIBUTOS!!

¬ CHEGA!! — uma massa de ar fez Cygnus voar longe, batendo com uma força absurda em uma pedra. — ESPERO QUE QUEIME NO INFERNO!! E COM ESSES FERIMENTOS DUVIDO QUE DURE MUITO TEMPO. — a última coisa que se ouviu da deusa foi sua risada.

Hyoga tinha a visão turva e respirava com dificuldade, a deusa estava certa, ele não duraria muito tempo, tinha perdido muito sangue, as costelas quebradas perfuraram o pulmão, o braço estava deslocado com todos os tendões rompidos e a cabeça também tinha sido gravemente ferida. A vida se esvaia de seu ser pelo sangue morno que regava o chão revolto pelo ódio da deusa.

Phoenix acordou pouco depois. Ao ver Hyoga jogado como um boneco de pano, tentou se levantar a todo custo e caminhar. Cambaleando foi até o aquariano, segurando-o como se este fosse feito de areia.

¬ Hyoga... — sussurrou com a voz embargada. — Hyoga...

¬ I-Ikki... — a voz dele estava muito fraca. — Está tudo bem. — começou a tossir sangue. — Você viverá... mas eu me vou...

¬ Não... — ele negava freneticamente. — Não... Você vai ficar bem. Você vai ficar comigo. Eu não viveria sem você, eu não conseguiria.

¬ Não... — negou. — A vida está me deixando... — mais sangue. — Não tenho muito tempo... Quero ser enterrado aqui no lago... Perto de minha família... Perto do lugar onde fui mais feliz...

¬ Não diga besteiras! — o leonino rosnou de medo e dor. — Você vai ficar bem. Você vai ficar comigo. — Hyoga esboçou um pequeno sorriso e se aninhou nos braços de Ikki.

¬ Eu te amo...

¬ Também te amo, Hyoga...

Não houve resposta. Phoenix sentiu a respiração, já fraca, de Cygnus parar, sentiu seu coração parar, o corpo se tornar frio e os músculos relaxarem. O único que amou mais do que tudo no mundo se foi, os olhos, antes tão cheios de vida, se tornaram opacos e vazios.

Ikki urrava de dor, chorava sem parar, não tinha nada em que se agarrar além da dor da perda. Não sabia como seguir em frente, na verdade, não tinha como seguir em frente, nada mais lhe importava.

¬ Eu não vou te deixar...

Num ato inesperado e louco, Phoenix arrancou a estaca de seu corpo, abrindo ainda mais o ferimento para que a morte chegasse rápido. A ferida jorrava sangue e causava uma dor indescritível, mas a perda de Hyoga doía muito mais.

¬ Você disse que queria ficar no lago... — Ikki o pegou no colo e tomou rumo para dentro d'água. — Então eu ficarei com você...

Phoenix já estava com a água na cintura quando os moradores do Santuário chegaram. Percebendo tamanha destruição e vendo a quantidade de sangue pelo local, passaram a procurar pelo leonino e pelo aquariano que ali vivia. Se não fosse pela lua cheia iluminando o lago, jamais teriam vistos Ikki, envolto em sangue, com Hyoga nos braços rumando para o fundo do lago.

Aquele visão desesperou Andrômeda, que teve de ser segurada por três Cavaleiros de Ouro, ela gritava e esperneava, queria salvar o irmão, não queria admitir a mensagem que seu cosmo deixava: Morte.

Quando começou a ficar difícil andar, Phoenix queimou seu cosmo para afastar a água, a água evaporava com as labaredas que escapavam de seu corpo, criando um caminho livre para o fundo do lago. Ao chegar no fundo, ignorando todos os gritos e pedidos das pessoas do Santuário, ele deitou-se junto ao amado e deixou que a água os soterrasse. Se o amor não podia ser realizado, ele morreria junto com ao amado.

Dizem que, neste momento, o sol despontou no horizonte. Ao amanhecer, em meio a uma suave neblina formada pelo gelo, viram os espíritos dos apaixonados sobrevoando o lago, um cisne coroado e uma ave em chamas ou uma fênix. Cygnus e Phoenix.

Dizem que Andrômeda sofreu muito com a perda do irmão, e após um longo período, ela deixou aquela vida para trás, na esperança de esquecer sua dor. Andrômeda virou lenda anos depois, assim como seu irmão, mas em momento algum o esqueceu e ao morrer, jurou que iria encontrá-lo para que pudessem ser uma família novamente.

Dizem também, que Atena apiedou-se, intercedeu em meio aos deuses e convenceu seu pai, Zeus, a transformar os jovens em constelações, o que fora concedido. Então as constelações de Cygnus e Phoenix nasceram.

¬ Cygnus e Phoenix agora são imortais. — declarou o pai dos deuses. — Sempre se encontraram em suas reencarnações e terão a oportunidade de se amarem mais uma vez, de serem felizes novamente e de esquecerem tanta dor e sofrimento. Sem preconceito ou retaliação de deus ou mortal.

As palavras de Zeus calaram fundo no coração duro de Afrodite, mas ela não podia contra a vontade dos demais deuses, muito menos com a vontade do Senhor do Olimpo. Só lhe restava refrear os ímpetos e aplacar a cólera. Cygnus e Phoenix estavam ligados por toda a eternidade, como duas belas constelações que sempre seriam felizes por estarem juntas e que não precisavam mais temer a ira dos deuses.

Seu amor viverá por eras e não importa como e nem quando, eles sempre se amaram uma vez mais.

Notas finais
Estamos no penúltimo cap. desta fic. tão sem coração, como podem comprovar logo acima =P O duro é que eu tinha formas ainda piores de matá-los, mas resolvi ser boazinha :) Enfim... Este é o penúltimo cap. desta minha aventura, uma aventura, que devo admitir, me agradou bastante e me abriu novas portas, mas sem enrolação, se não fica chato. Eu espero que tenham gostado ^.^ E espero que em breve eu consiga postar o último cap. e prestar meus agradecimentos :) P.S. E o clichê se mostrou soberano novamente kkkkk Bjs. L :3