O Lado torpe da Glória
7 Vestidos de seda e os perigos de sempre
Notas iniciais
Senti a textura das meias de seda, minha saia acabava pouco antes dos joelhos e era amarela como girassóis, bem como a blusa de amarelo morto e o chapéu de passeio grande a amarelo ovo, calcei as luvas, abri bem a janela do meu quarto e o ar fresco balançou as cortinas grossas com padrões indianos. Lá fora o Jardim Nobre se erguia em milhares de edificações majestosas, a cúpula lembrava a maior e mais bela gaiola de todas, comportava prédios coloniais grandes, prédios modernos e espelhados, mansões, lanchonetes em elevadores, filhos e filhas de barões se divertiam em escolas de música a céu aberto, casais passeavam e bicicletas de rodas gigantes, o cheiro era de limpeza, comida e lavanda, meu quarto não ficava atrás era gigantesco com uma cama de casal colossal sob degraus de mármore, banheira borbulhante com ducha banhada a folhas de prata, quadros de bailarinas, tapetes que lembravam mil filhotes de poodles, paredes revestidas de quatzo rosa e papeis de parede florais intencionalmente desbotados, toalhas felpudas, espelhos magnânimos e um enorme closet com roupas que pareciam não ter mais fim.
Que será que Dante fazia agora? Já se passara uma semana...
– Senhoria Efraim? – uma criada falou através de um dispositivo de voz colado a parede.
– sim? – respondi de onde estava. – Sirio chegou? O vestido de casamento está pronto?
– creio que não senhorita – disse a criada nervosamente – o pai do senhor Franco pede permissão para tomar um chá com a senhorita na privacidade do seu aposento pré nupcial.
– faça com que entre – disse nervosamente, a lembrança do vídeo que recebi na Clareira me atingiu como um raio – ah, Donna... mande subir chá e bolinhos com pouco creme por favor.
– sim senhora – o bipe indicou que o telefone havia sido desligado.
Corri nervosamente pelas laterais do quarto, o que o maldito velho queria as vésperas do meu casamento? Não o havia conhecido pessoalmente ainda, mas não bastava? Eu e Franco fizemos os votos de noivado ao vivo na mesma noite de nossa chegada, marcaram a data! Eu já havia esclarecido a polícia local como havia fugido e deixado bem claro que achei o caminho de volta por pura sorte, parecia bastar! Estavam tão felizes com o retorno de uma das escolhidas que nem fizeram questionamentos demais. O que o maldito do seu sogro, Leger Oognal queria?
Não tive tempo pra pensar muito, o careca suado e bigodudo já estava em meu quarto antes que tivesse uma boa resposta para aquilo, sentamos os dois na mesa de contornos suaves na sacada do meu quarto.
– mais adorável que nas fotos senhoria Celeste, de fato terei netos fotogênicos – brincou ele com uma gargalhada alegre, forcei um sorriso duro e relutante, Donna já havia deixado o chá e partido com um baque na porta quando o rosto dele se solidificou numa mascara autoritária.
– então querido sogro, a que devo a honra? – comecei
Seu sorriso se raposa ficou a mostra.
– que pergunta mais sem logica querida nora! Será que um pobre pai não pode conhecer a futura esposa do seu filho antes de vê-lo casar-se? Mais do que natural não acha?
Servi chá para nós dois.
– realmente – tentei soar alegre por cima das ondas de pânico que afogavam meu interior – bom, saiba que pra mim é um prazer.
– ah com toda certeza o prazer é mais meu que seu minha cara – seus dentes pequenos abocanharam um bolinho, ele foi rápido e elegante em se desfazer da cobertura de creme que ficara em sues lábio – veja só como meu prazer sobrepõe o seu, além de conhecer minha nora tão bela, vim pra ouvir com certeza uma emocionante e heroica história.
–perdão?
– ah, tão ingênua essa garotinha – lamentou-se ele falsamente – sua deliciosa saga meu bem, não estou a par dos fato e logo completara sua primeira quinzena aqui, o que a torna uma cidadã do Jardim. Mas todo forasteiro tem uma história, e eu vou adorar entender como uma garota simplória das linhas e agulhas conseguiu escapar de um exército de sanguinários e pousar justamente nos braços do socorro bem presente, sorte demais não acha?
– mas como pode o homem mais poderoso do Jardim não estar a par da minha história? – insolência, sorri, estava voltando a minha natureza.
Ele não pareceu se abalar, jogávamos xadrez de palavras.
– sabe como são querida... os mexeriqueiros na área são muitos, a quem diga que você matou soldados com as mãos vazias, então resolvi beber água da própria fonte – seu sorriso ameaçador foi sumindo a medida que encostava a xícara nos lábios para saborear um chá.
Recontei toda minha versão calmamente, a festa na fogueira, até me permitir comer biscoitos açucarados e besuntados de molho de canela enquanto explicava, desde a chegada até as portas da minha antiga província, onde Franco coincidentemente visitava para resolver questões financeiras com o lideres locais.
– foi um golpe de sorte admito. Uma mão gloriosa de deus para que eu acabasse achando o caminho de volta. – disse por fim, ao levantar os olhos meu sogro tinha uma expressão soturna e pensativa.
–não use o nome de Deus levianamente mocinha – ele levantou-se e com gesto muito sofisticados removeu as migalhas que caíram no colo com as costas nas mãos – bom... era só isso que eu gostaria de saber, mas não vou tomar mais do seu tempo querida dama, uma noiva precisa de descanso... – aconteceu muito rápido, Leger empurrou-me e seus dedos frios agarram meus pescoço, com essa potente mão fui pressionada contra a gélida parede de mármore, o chapéu de passeio desabou e o coque do meu cabelo escorreu e desfez-se, Leger sacou de seu paletó bem cortado um leve e finíssimo punhal que posicionou no meu pescoço. – ouça sua putinha. Ouça bem o que te direi.
Gritei
– o que pensa que está fazendo.
– cale-se – seu rosto era vermelho e seus olhos cintilavam o mais puro ódio – eu e você sabemos que sua chegada foi uma grande mentira, há algo que esta omitindo e eu posso ver isso nessa sua cara de puta pobre. Não ache que está segura porque está aqui, não sei com que intenções mandaram-na pra cá mas ouça bem: abandone toda sua artimanha porque aqui eu posso mastigar e engolir você assim que me ocorrer. Então ande na linna – ele desencostou a arma do meu corpo e seu rosto voltou a ser amigável – não a matarei porque o tolo do meu filho a quer como nunca quis nada na vida. Você é como um daqueles pôneis que ele me obrigava a comprar na infância. Tenha uma boa tarde senhorita.
Depois que a porta bateu, joguei os sapatos de lado, descalcei as luvas e consegui me sentar, o corpo ainda tremulo de pavor, balancei a cabeça num cacoete tremulo para espantar o terror.
Apertei o botão na parede perto do espelho, uma luz vermelha acendeu-se uma ligação se iniciou.
– Jéssica?
– Sim senhora – a voz obediente atendeu do outro lado.
– querida, suba aqui agora.
Ela não respondeu.
Enquanto ela subia, dei um comando de voz e próximo a cama um delicado aparelho subiu num pequeno elevador de um compartimento que se abria no criado mudo, uma máquina de escrever cor de mármore-pérola mas possuindo uma fina tela de vidro onde as notícias do dia passavam rápido na tela.
– modo carta Ellie. – ordenei
– Ellie ativando modo carta, bom dia Senhora Celeste – a voz metálica do computador respondeu, uma tentativa fajuta de reproduzir uma voz delicada e feminina.
Jéssica entrou cautelosa no quarto, a criada trajava uma roupa padrão de funcionaria a arrastava um esfregão consigo e um carrinho de limpeza.
– Chamou senhora?
– sem formalidades Jéssica, estamos sozinhas.
– ainda bem porque ficar tratando uma porca como você de senhora me enoja.
No dia que adentrei o Jardim, haviam repórteres por todos os lados, pessoas da alta querendo ver de perto a sobrevivente, quando o barco atravessou o grande rio negro até os portais da cúpula já avistava de longe o brilho dos holofotes.
Franco me levou para uma esteticista que cuidou das minhas feridas e dos meus cabelos fedorentos e secos, minhas unhas pretas foram polidas e ganharam um brilho perolado, meu rosto maquilado e a pele curada, quando estava mais linda do que poderia imaginar em toda minha vida. O Son Garden, jornal de fofocas local veio me entrevistar; Uma assustadora experiência impactante onde eu suava com um porco no abatedouro.
– Seu amado Franco marcou a cerimonia para daqui sete dias! Esplêndido, o evento do ano: o jovem barão e sobrevivente das florestas... agora querida, e a comida dos selvagens? Conte-nos como era deglutir aquelas porcarias?
A noite recebi a chave num aposento separado do meu noivo, os conselheiros acreditavam que deveríamos dar o exemplo com um casamento tradicional e casto, eu já estava completamente adaptada desde o terceiro dia quando uma criada chama Jéssica me foi destinada... ela sabe tudo de tecnologia, informática e de limpeza e para meu completo choque era uma rebelde infiltrada no Jardim... soube disso na primeira noite quando ela arrumava meus lençóis de cama, saia do banho quando a jovenzinha miúda e de traços indígenas mostrou-me a tatuagem da revolução no ombro e saudou-me com um sorriso em meio a minha cara de pânico:
– afinal de contas como você acha que Dante sabe de tudo? – saindo do quarto sorria diabolicamente – ande na linha bonitinha, eu estou de olho em você.
Jéssica se jogou no meu sofá emporcalhando os finos lençóis de pó, rolou e apoiou o queixo nas mãos fechadas.
– o que você quer? Eu já disse tudo o que sabia sobre os barris de vinho, a hora que eles chegam...
– não é isso – interrompi – preciso que deixe uma mensagem minha para Dante, sobre o plano.
– que mensagem?
Jéssica me ouviu enquanto eu ditava a mensagem para Ellie: o computador inteligente. As letras voavam do painel digital e eram impressas para uma folha dura e carimbada, quando a mensagem foi concluída dobrei e entreguei nas mãos da rebelde disfarçada.
– você tem certeza? Isso vai exigir muito...
– ele se vira. Tenho sim, agora ande.
Com um olhar duro e gélido como as mais altas montanhas, Jéssica saiu do quarto empurrando seu carrinho e assobiando a canção da revolução que eu ouvi na fogueira aquele dia.
...
A sopa era quente e saborosa, mini cebolas e tomates flutuavam como pontinhos de cor no caldo encorpado e bem temperado, o que nos separava na mesa além do silencio era um suculento frango crescido que soltava vapor odorífero.
– minha dama está quieta – disse Franco com a voz monocórdia sem desviar o olhar da comida, estávamos em seu aposento pré-nupcial igualmente luxuoso ao meu, embora muito mais masculinizado e em desordem; a única luz que nos banhava era a de uma luminária indiana presa ao teto, o quarto estava escuro e as janelas abertas onde se podia ouvir a boemia da cidade, já passavam das duas da manhã e jantávamos depois de todos os compromissos com a imprensa e preparativos da cerimônia.
– a comida está boa demais pra falar meu bem. – brinquei eu mas seu olhar meu censurou. Uma dama não fazia brincadeiras tão selvagens e deselegantes a mesa. Baixei o olhar pra sopa de novo.
Não conversamos até comermos todo nosso jantar. Estava eu arrumada num estonteante vestido negro decotado com rendas na fenda dos seios,tão bela e exalando a forma perfeita da juventude porém meu jovem marido não parecia notar. Franco mandou que eu sentasse em seu colo e começou a desembaraçar meus cabelos.
– você é o troféu mais lindo que já tive – e me beijou atrás da orelha – logo todos saberão que é minha.
como um enfeite de parede,pensei.
E essa foi a primeira vez que Franco me beijara, não correspondi aos seus lábios duros, frios e desprovidos de qualquer emoção romântica; em pânico tentei mover minha língua para que não ficasse notório mas ele logo me soltou e com um gesto brusco me fez descer do seu colo.
– todo esse seu desajeito com beijos pode amassar minha roupa, tenho uma reunião agora. Vá para seu aposento. – e começou a procurar sues óculos no recinto, acendendo todas as luzes.
– reunião tão tarde? Mas passam das três e...
Seu olhar gélido me alcançou.
– seja uma criança obediente e vá.
Desci as escadas tentando me manter controlada e não tomada pelo ódio, aqueles toques, aqueles beijos tão frios... Nada do que sonhei nada do que imaginei e planejei, mas não vou voltar atrás o que está decidido está decidido.
Não precisei terminar de virar a esquina para ver uma morena estonteante começar a subir as escadas do prédio de Franco, ela usava chapéu, sobretudo bem cortado e saltos quadrados, mas mesmo sem ver o rosto vi os longos cabelos arrastados pela brisa.
Localizei o nosso motorista fumando a soleira de um bar, fiz um sinal e ele correu prontamente, abriu a porta para que eu entrasse e só então com o carro em movimento, sob o delicioso e quente banco traseiro da cor de brasas que me permitir derramar as lágrimas que estava guardando ao longo da semana.
– Stef, ligue o rádio. – ordenei
O motorista obedeceu e as luzes da cidade começavam a se apagar quando chegamos ao prédio; o prédio nupcial de andar único, versão feminina.
Eram quase quatro da manhã quando desliguei o chuveiro e ordenei que as luzes se apagassem, a fina camisola de seda perolada já me aguardava passada em cima da cama de lençóis limpos, senti o vento da noite tocar minha nudez e por um segundo me imaginei dentro da cabana na Clareira, com os cheiros do fogo e da pele de Dante me invadindo os poros; balancei a cabeça pra espantar o pensamento insano, vesti-me e aconcheguei-me nas colchas.
O sono estava quase começando quando ouvi um pequeno ruído na escuridão, um ruído leve, como se um gato estivesse a espreita.
Eu sabia quem era. Meu coração reconhecia.
– volte a dormir Costureira – disse a voz dele doce no escuro, ele estava ali em algum lugar e isso fez meu coração explodir e se espalhar pelo meu corpo com arrepios. – estava esperando a hora certa de te acordar pra conversarmos, eu não posso demorar aqui.
Minha vontade era de pular da cama e mergulhar no escuro na direção dele, de procura-lo, sorrir e chorar, pergunta-lo como conseguiu entrar aqui e se conseguiria sair vivo, mas me segurei na cama, firme e inabalável.
– como conseguiu chegar tão rápido? Pensei que minha mensagem iria demorar dias pra chegar. – disse friamente. Ele não saia do escuro.
– nosso acampamento está nas fronteiras do Jardim, sete mil homens ao todo a espera, a espera de você...
– voltem todos. Voltem todos para suas Clareiras – interrompi eu, fria como gelo.
– Celeste? O que você quer dizer? – a luz da lua iluminou seu rosto pasmo, as cortinas voaram.
– estou querendo dizer que não vou envenenar Franco e a Embaixada. Eu desisti do plano, não farei isso. Se quiser me matar por isso a hora é agora.
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