O Lado torpe da Glória
8 Finalmente noiva e Espectadora de Enforcamentos
Só caiu a ficha por completo quando uma das criadas colocou uma coroa de perolas em minha cabeça.
Um delicado véu como pequenas teias de aranha foi colocado num pente e fixado aos meus cabelos, a minha cintura, pequenos diamantes foram ajustados, luvas luxuosas e macias de pele deslizaram sobre minhas mãos até os cotovelos. No espelho uma mulher estonteante e de olhar de coça possuía meu corpo. Era eu, exatamente eu: a costureira de mãos feridas, a garota sonhadora e ambiciosa, a refém estuprada e suja da Clareira. Olhem para mim agora todas as eu antigas.
– senhorita. O carro de passeio a aguarda.
E com esta frase de um segurança me pus a caminhar no longo salão de teto longe e com anjos pintados por toda parte, o chão era de mogno bem lustrado e as janelas possuíam vitrais coloridos que faziam sombras dançantes, enquanto caminhava lembrei das palavras de Dante antes de fugir pela janela me poupando a vida, ainda posso sentir seus braços potentes prestes a agarrar meu pescoço, mas em seguida a expressão endurecendo e os punhos se fechando com garras de aço se recolhendo.
– a maior pena, é que amo você Celeste Efraim. Muito obrigado por nada. Eu devia ter te matado quando tive chance.
E saiu.
Uma lagrima ameaçava escorrer maculando o fino trato do rosto, mas a contive com todos os músculos do meu rosto até que ela secasse na retina.
O caminho até a igreja de Santa Enriqueta foi silencioso, o motor do carro ronronava suavemente enquanto a paisagem urbana dava lugar a lindos arvoredos artificiais, com pedras de plástico e riachos de piscinas, pássaros robóticos e flores de papel tingido, o cheiro era de tinta fresca e fornos industriais. A igreja era uma majestosa catedral de pedras azuis com uma grande cruz na ponta, parecia um castelo de tão grande e majestosa, na porta se amontoavam filas de repórteres, fotógrafos, convidados e muitos curiosos, a chegada do eu carro provocou um frisson elétrico.
Senhorita Oogner, Senhorita Oogner, gritavam as vozes. Definitivamente eu não era mais Celeste Efraim.
Dois seguranças grossos e fortes como troncos de arvore me ajudaram a sair do carro, os braços abertos fizeram uma barreira entre mim e multidão. Acenei e sorri mas logo fui cegada pela explosão luminosa de flashes de modo que precisei de ajuda de um terceiro segurança para chegar as portas da catedral.
Será que Dante teria conseguido sair daqui vivo? Espantei a ideia da cabeça.
Ao por os pés no tapete vermelho um conjunto de violinistas tocou a marcha nupcial. Meus olhos se ajustaram a claridade, por cima dos milhares de cabeças de estranhos, ricos e famosos que me encaravam meu noivo aguardava no topo, próximo ao púlpito, arrumado como um lorde, de expressão austera e dura.
– querida – a voz rouca e gélida me invadiu os ouvidos e meu braço foi puxado e posto na forma de acompanhante. Era Leger Oogner, meu sogro maldito. – serei seu pai, deste dia para sempre.
E começamos a caminhar pela nave da igreja, com os olhos no seguindo.
– um pai não ameaça uma filha com punhal – sussurrei entre dentes caminhando e sorrindo.
– da próxima vez, se pôr em risco meu filho e meu sistema não vou tão somente ameaçar. – sussurrou ele quando já estávamos próximos demais do púlpito.
Entregou-me nas mãos de seu filho que me lançou um elegante sorriso.
– minha posse – suspirou ele me trazendo para perto. A música cessou e o jovem padre de cabelos tingidos de prata abriu a bíblia latina empoeirada, lavou as mãos em uma água posta em tina de prata e gesticulava e dizia as palavras sagradas. Meus olhos estavam fixos nos de Franco, alto, loiríssimo, olhos profundos...
Dante rolou na cama fina e puxou-me contra seu peito, meu corpo nu se arrepiou, ele beijou meus cabelos e começou a suspirar entre uma canção da revolução.
– depois que tudo acabar, depois que demos a terra para os povos que precisam, o que você me diz de voltar para Clareira?
Inclinei o pescoço para trás para mirar seus olhos, ajustei meus braços em seu pescoço.
– seu sonho não é o Jardim? Lá parece ser o lugar perfeito de se viver.
‘menina tolinha’ suspirou ele me cobrindo de beijos úmidos e quentes como o verão, seus dedos puxaram meu cabelo de leve e como magica ele colocou seu corpo em cima do meu.
– O Jardim não importa se você não estiver nele Costureira. Eu quero for onde você for. – nos beijamos até o desejo vir, e com ele os toques e o sexo em si...
Como se tivesse vindo a tona de um mergulho, sai do meu pensamento insano, estava de volta a realidade, a igreja onde todos aguardavam em silencio.
– então Senhoria Oogner? Aceita o senhor Franco na benção do sagrado nó do matrimonio?
Engoli seco.
– sim – consegui murmurar como uma sentença.
Uma aliança de diamante pesado foi posta em meu dedo fino o fazendo tombar para baixo.
– sendo feito isso que a Dama da Lua os dê satisfação na companhia de seus lençóis, e que Lorde do Sol os ilumine perante a comunidade com fidelidade e de forma irrevogável, vocês agora são um só.
Os sinos badalaram. Uma chuva de confetes que lembravam flocos de neve foram lançados do teto caindo sobre meus cabelos, uma chuva de aplausos e vivas encheu um lugar, flashes invadiram a igreja e uma música animada começou a tocar, estava prestes a sair de braços dados com meu jovem marido quando ele fez um gesto para que todos se calassem.
– esperem. Esperem todos. – o silencio foi imediato. Sem entender fiquei do lado do meu marido o olhando com estranheza. – agradeço a todos os presentes nessa cerimonia em que finalmente possui minha brava guerreira sobrevivente!
Mais vivas e aplausos, Franco me abraçou como um pai, de forma teatral.
E novamente silencio.
– antes de darmos início a nossa celebração, quero que todos vocês assistam o preço pago por aqueles que pretendem dar a discorrida a nossa tão amada nação, aqueles que acham que podem reunir forças contra nós e assim nos enfraquecer...
Senti meus dedos ficando gelados e minha boca se ressequindo. Um pedestal se abriu no centro da igreja e uma imagem nítida e perfeita de holograma se formando, nela cinco jovens com roupas esfarrapadas e sacos na cabeça estavam amarrados a cordas no pescoço em cima de uma base retrátil.
Reconheci o físico de Dante de imediato.
As lagrimas romperam sem querer, por mais que quisesse disfarça-las não pude, o sorriso dele me encheu a cabeça.
– Pole. Enforque-os.
Sufoquei um grito de não na garanta e grunhi como um cachorro de feridas magoadas.
O chão retrátil foi removido, vi Dante e outros companheiros debaterem-se a procura de firmamento para se apoiarem, todos os pés param de se debater na inércia da morte e o de Dante já estavam muitíssimos fracos quando o holograma foi desligado.
– morte aos perseguidores – gargalhou Franco com prazer.
Meu desmaio foi inevitável.
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